1891 – c) Sessão solene do dia 12/10/ em memória do dr. Antonio Caetano de Campos.

1°/10/1891(OESP)

Pedido do Delegado Sanitário da Sé para a remoção da EN devido ao aparecimento de um caso de varíola no local.

 

11/10 1891 (OESP)

O Congresso Paulista

4ª discussão do projeto sunstitutivo ao de n. 44 que autorisa a entrega de 20 contos de réis à viúva do dr. A. Caetano de Campos.

 

22/10/1891 (OESP)

Nomeado o engenheiro José Pereira Rebouças (imagem) para delegado de governo no concurso  de preparador de física e química da Escola Normal

blog luso-carioca

27/10/1891 (OESP)

O dr. Miranda de Azevedo mandou publicar as 22 páginas do Relatório das Escolas anexas à Escola Normal pelo dr. Antonio Caetano de Campos, que presume aplicar os mais modernos métodos de ensino.

28/10/1891 (OESP)

Declarou-se ao  diretor interino da Escola Normal que foi autorizada a continuação do exercício ao sr. Benedito da Siilva Machado no cargo de preparador de física e química.

08/11/1891 (OESP)

Aprovado o projeto do deputado Aureliano Coutinho reconhecendo os direitos às suas cadeiras os lentes da EN aos lentes depois de nomeados por concurso que foram preteridos em virtude das reformas que tem passado aquele Estabelecimento.

11/11/1891 (OESP)

A redação do jornal foi convidade pela Congregação da Escola Normal a comparecer à uma sessão solene do dia 12 em memória do dr. Antonio Caetano de Campos.

O professor Cyridião Buarque falará em nome da Congregação, seguido por seu colega Benedito Tolosa que se pronunciará em nome dos alunos.

As escolas-modelo serão representadas por Justiniano Vianna.

Uma ode fúnebre composta pelo maestro João Gomes e o letrista René Barreto será interpretada pelos alunos.

12/11/1891 (OESP)

Sessão solene em memória do dr. Antonio Caetano de Campos realizada no Salão do Real Club Gymnastico Portuguez às 7 horas da noite; Praça Marechal Deodoro.

E

Emenda aprovada na Assembleia concedendo aos professores públicos não normalistas o direito de seguirem cursos da Ecola Normal continuando a receber seus vencimentos, com a obrigação de reembolsarem o Estado em dez prestações depois de formados.

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José Renato Nalini; positivo!

 

O Brasil quer mudar

Além disso, tem que mudar, e a mudança se faz mediante boa educação. O melhor investimento que se pode fazer numa Nação é na educação de suas crianças e jovens. Esse o verdadeiro patrimô­nio. A matéria, o tempo leva. A obsolescência con­some. O capital é intelectual. O verdadeiro progres­so é moral. Sem ele, não há desenvolvimento.

O imediatismo da matéria não comove a to­dos. Há uma saudável resistência daqueles que en­xergam mais longe. Que querem plantar jequitibás, em lugar de couve, embora a couve seja tão boa para nos nutrir de substâncias sem as quais a saúde física também não alcança a higidez.

Para a minoria que não perdeu de vista os valo­res reais, vale a pena investir na criança e no jovem. Inúmeras propostas seguem seu curso, no pluralismo que caracteriza a nossa sociedade. Mas é interessante verificar que faz sucesso entre os mais novos, o con­curso, a concorrência, a competição que os impulsio­na à consecução do melhor resultado.

Uma experiência que a Secretaria de Estado da Educação leva a efeito e já se encontra na sua 5ª edição é a Feira de Ciências. Nela, descobrem se ta­lentos de jovens cientistas, exatamente na área mais necessitada de exemplares de excelência. Em Ma­temática e Ciência, andamos mal. Tanto na escola particular, como na pública. É aí que reside o nosso desafio: fazer com que as crianças e jovens gostem de Matemática e Ciências.

Este ano vimos com satisfação que uma estu­dante, orientada por sua professora, elaborou uma prótese para a perna dianteira de um cavalo. Sem isso, o animal seria sacrificado. Foi um problema concreto, que mexeu com a emoção da aluna, que a fez buscar e encontrar a solução. Inseticida natural, sem veneno químico, à base de gengibre, é eficiente para afastar saúvas. Inven­ção de outra estudante. Aplicativo para impedir que o sonambulismo cause até ferimentos físicos para o sonâmbulo, a ideia bem aproveitada de outra aluna.

Impressionante como a nova geração é mais sensível aos apelos da natureza maltratada. Este ambiente que minha geração não respeitou e que está destruindo de forma célere, merece o carinho e a consideração dos mais novos. Há projetos de escolas sustentáveis, casas sustentáveis, costumes sustentáveis. Tudo a mostrar que a mocidade sabe que, se não assumir com vontade e garra o controle da situação, os que erraram em tantas coisas conti­nuarão a errar.

Mas o que vale é fazer com que o alunado da enorme rede pública de Educação de São Paulo, su­perior à população de vários países, como o Uru­guai, por exemplo, se interesse por Ciências.

O convite está lançado: a 5ª Feira de Ciên­cias das Escolas Estaduais de São Paulo tem suas inscrições abertas. Podem inscrever seus projetos os estudantes do 6º, 7º, 8º e 9º ano do Ensino Fun­damental e das duas primeiras séries do Ensino Médio. Os projetos submetidos à seleção precisam ter professores orientadores, conforme o regula­mento disponível no site da secretaria: http://www.edu­cacao.sp.gov.br.

Os partícipes devem ter no máximo 18 anos completos em 2018, ou seja, até 18 anos em 2018. Não podem completar 19 anos ao longo do ano de 2018, isso para atender os padrões de Feiras de Ci­ências Nacionais ou Internacionais.

Nesta edição há duas categorias de concorren­tes: a “Júnior” e a ‘Master”. A primeira categoria para os estudantes do Ensino Fundamental e a ca­tegoria “Master” para os alunos do Ensino Médio.

Quando houver equipes mistas, com alunos de ambos os níveis de ensino, a inscrição se fará na­quele de maior escolaridade, ou seja, na categoria “Master”. Há muitos prêmios e em várias escalas. Garantida a participação dos vencedores nas etapas nacional e internacional.

Foi também muito bom verificar que as me­ninas estão competindo em igualdade de condições com os rapazes. A mulher cientista é outra neces­sidade brasileira e mundial. Ela tem condições de explorar pesquisas que precisam de paciência, fir­meza, serenidade e controle, o que nem sempre é característica masculina.

É com essa geração que o Brasil vai mudar. Já está mudando. Para nosso conforto e para reacender a esperança no coração de cada brasileiro.

Fonte: Correio Popular| Data: 02/06/2016

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1891 – c) Falecimento de Caetano de Campos

 

28/07/1891 (OESP)

Informação ao deputado Arthur Breves sobre a suspensão das obras de edificação do prédio da Escola Normal.

13/09/1891 (OESP)

                                   (Memoriall)

Dr Caetano de Campos

Faleceu ontem nesta capital, às 6 horas da manhã; vítima de uma síncope cardíaca, o distinto e estimado clínico dr. Antonio  Caetano de Campos.

O dr. Campos nasceu na cidade de S. João da Barra, estado do Rio de Janeiro, a 17 de maio de 1844. Morreu, portanto, com 47 anos de idade.

Era filho de uma família paupérrima e, por isso, os primeiros anos de sua vida foram cheios de lutas e privações.

Dotado de grande vocaçéao para o estudo partiu, ainda criança, da cidade do seu nascimento para o Rio de Janeiro e, à custa de mil sacrifícios, conseguiu fazer os preparatórios e doutorar-se pela Faculdade de Medicina. Defendeu teses e recebeu grau no ano de 1867. Para adquirir os meios de subsistência, dava lições particulares aos seus colegas. Trabalador e inteligentíssimo como era, nunca lhe faltou discípulos e, quando se formou, tinha grangeado entre os seus contemporâneos uma sólida e brilhante reputação de homem de ciência e de caráter.

Logo depois de formado, nomeou-o o governo cirurgião  da armada e partiu, então, o dr. Caetano de Campos para a República do Paraguai a prestar socorros aos nossos patriotas na guerra.

Doente, viu-se forçado a abandonar o seu posto de honra e regressar à Pátria, vindo fixar residência nesta Capital, onde, dentro em pouco tempo, soube conquistar uma vasta clientela. O dr. Campos foi durante muitos anos o médico de maior clínica nesta cidade. Muito diligente e caritativo, quase  que não lhe chegavam as horas do dia para os chamados que tinha. Ultimamente clinicava pouco. Estava doente, estava cansado e outra ordem de trabalhos, não menos úteis, lhe solicitavam atividade.

Até a hora da morte, porém, exerceu a profissão de médico e a sua opinião era respeitadíssima entre a corporação dos seus colegas.

Foi, por muito tempo, médico da Sociedade Portuguesa de Beneficiência e dedicava a este estabelecimento de caridade um amor verdadeiramente paternal, tratando com inexcedível carinho dos enfermos que ali eram diariamente recolhidos.

O dr. Campos deixa em cada português (ilegível) extremamente grato à sua memória.

Eis, a rápidos traços, o que foi a sua vida de médico.

Mas, o dr. Campos não foi somente um médico distintíssimo. Foi também um cidadão exemplar, um patriota modelo, um republicano convicto, um fanático da educação popular, um educador de primeira ordem, um excelente funcionário público, um insubstituível diretor da Escola Normal, que ele reformou de alto a baixo, em dois anos de trabalho, de acordo com os métodos  da pedagogia mais moderna, mais adiantada, mais racional e mais científica.

Sob este ponto de vista, a morte do dr. Caetano de Campos é para o Estado de São Paulo uma perda verdadeiramente irreparável, porque, na realidade, não vemos aí ninguém que possa continuar com tanto acerto, com tanto brilho, e com tanto proveito a sua belíssima direção daquele estabelecimento de ensino, onde discípulos e mestres lhe consagraram grande admiração, muitíssimo respeito e estimas afetuosísimas, porque ele, sempre enérgico e rigoroso cumpridor dos seus deveres, nunca deixou de ser afável e bondoso para todos.

A sua deliberação de aceitar o cargo honroso, era relativamente modesto, de diretor da Escola Normal, é um exemplo de civismo que merece ser narrado.

Quando se proclamou a República e se organizou  neste Estado o governo provisório, um dos primeiros cuidados dos três governadores foi desenvolver em S. Paulo a instrução popular, que estava enstão, e ainda hoje está, muito atrasada.

Muitas dificuldades havia a vencer; mas a maior era encontrar um homem de mérito real e de provadas aptidões que se quisesse sacrificar na faina utilíssima, mas miseravelmente retribuída, de reerguer a Escola Normal do abatimento em que jazia.

O dr. Rangel Pestana conhecia todo o valor intelectual do dr. Caetano de Campos e, como seu amigo íntimo que era, sabia que ele, por seus estudos especiais, era o homem que se procurava.

Mas o doutor Campos era pobre, tinha uma família numerosa, já manifestava os primeiros sintomas da terrível moléstia que o levou ao túmulo e precisava trabalhar com redobrado esforço para deixar os seus a salvo de necessidades…

Em todo o caso, do dr. Rangel Pestana foi conferenciar com ele e apelou, a medo, para os seus sentimentos de patriota e para as suas crenças de republicano.

O dr. Campos não hesitou. Abandonou os fartos vencimentos dos seus serviços médicos e, para servir à República e à causa da instrução, foi ganhar do Estado magros quatrocentos mil réis mensais que eram ultimamente a fonte principal de sustento da casa!

A mesquinhez da retribuição, porém, não lhe causava mínimo desalento.

Ao contrário, parecia que o estimulava, porque  é crença dos seus amigos que os árduos labores  nunca interrompidos da Escola Normal lhe roubaram alguns anos de vida.

Que os paulistas lhe paguem o que lhe devem em veneração à sua memória.

 

1890- Caetano de Campos, Antonio Mercado, Paula Souza, Prudente de Moraes, Bernardino Campos, Peixoto Gomide e cel.Lisboa de Modesto Carvalhosa, do qual descende nosso colega Modesto Carvalhosa.(ieccmemorias)

Logo que se espalhou a notícia de sua morte, reuniu-se a congregação da Escola Normal e resolveu declarar em ata que a triste notícia fora recebida com profundo pesar (e resolveu) suspender as aulas por três dias, mandando-se cerrar por esse espaço  de tempo as portas do edifíio; ir, incorporada acompanhar o enterro; mandar deitar uma coroa sobre o féretro e nomear uma comissão de três de seus membros para dar pêsames à sua família. Esta comissão ficou composta dos professores dr. Henrique de Lacerda, M. Buarque e Macedo Soares.

Na câmara dos deputados, o senhor Paulino de Lima propôs um voto de pesar e o sr. Arthur Breves propôs que suspendesse a sessão. Ambas as propostas foram unanimente aprovadas. Pelo  dr. Presidente da câmara foi também nomeada uma comissão, composta dos senhores P. Lima, Breves e Hippolyto, para acompanhar o féretro.

(última linha ilegível)

 

15/09/1891 (OESP)

Dr. Caetano de Campos

Deu-se anteontem pela manhã o enterramento do ilustre e estimado clíico dr. Antonio Caetano de Campos. O féretro foi conduzido à mão desde a rua Brigadeiro Tobias até o cemitério da Consolação, com numerosíssimo acompanhamento.

Ao ser dado o corpo à sepultura tomou a palavra o distinto professor sr. João Vieira de Almeida, que orou em nome da Escola Normal, exaltando as belas qualidades de civismo e de caráter que tanto distinguiram a pessoa do finado.

Seguiu-se-lhe o dr. Miranda de Azevedo (imagem) que falou em nome da classe dos médicos, manifestando o profundo pesar dos confrades que lamentavam sinceramente aquela grande perda.

(wikipédia)

Em último lugar, orou um aluno da Escola Normal em nome dos seus colegas e fazendo sentir a grande lacuna com a perda de tão dedicado mestre.

Em seguida desceu ao túmulo o caixão, em meio à profunda consternação que se notava em todas as fisionomias.

Sirvam ao menos estas sinceras manifestações de pesar de lenitivo à dor pungentíssima que ora aflige a exma. família do pranteado e respeitado cidadão que sábado último desapareceu para sempre do número dos vivos.

 

15/09/1891 (OESP)

Congresso Paulista

O sr. Hippolyto da Silva participa à casa que a comissão nomeada desempenhou o seu dever acompanhando ontem o enterro do dr. Antonio Caetano de Campos.

 

18/09/1891 (OESP)

  1. Maria Julia Rio de Campos (imagem), filha do dr. Martim Francisco Ribeiro de Andrada Sobrinho (…) convida seus parentes e amigos para assistirem à missa que mandam celebrar por alma de seu prezado marido, pai, sogro e enteado o dr. Antonio Caetano de Campos, na matriz de Santa Efigênia, sábado, 19 do corrente, às 8H30’.
ieccmemorias

22/09/1891 (OESP)

Agradecimento de dona Maria Julia Rio de Campos  agradeceu ao empenho dos doutores  Carlos  Pelina e Guilherme Ellis na ocasião da morte  de seu marido, o dr. Antonio Caetano de Campos.

E

A viúva do dr. Antonio Caetano de Campos, tendo recebido por ocasião do passamento de seu marido, no meio de sua cruciante dor, as maiores provas de consideração e estima por parte do exmo. presidente do Estado, câmara dos deputados, do corpo docente e alunos da Escola Normal, da Sociedade Portuguesa Beneficiente, da Escola da Nautralidade e de inúmeras pessoas que procuraram minor-lhe o sofrimento, se possível fosse, vem publicamente manifestar a sua gratidão e reconhecimento, sendo certo que conservará eterna lembrança deste procedmento tão cavalheiro, no transe mais doloroso de sua existência.
S. Paulo, 21 de setembro de 1891.

Câmara dos Deputados

13/09/1891, PÁGINA 1 Edição Nacional

 

 

 

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José Horta Manzano, do Correio Braziliense e do BrasilDeLonge

A língua agradecerá

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 24 junho 2017.

Muitos traços distinguem a espécie humana dos demais seres animados. Talvez o mais marcante, o que condiciona o modo como encaramos a existência, seja a noção da morte. Animal vive o instante presente. Para ele, passado e futuro não funcionam como para nós. Se animais superiores retêm experiências do que passou, será para procurar repetir as prazerosas e para tentar evitar as dolorosas. O fato de o esquilo fazer provisões para o inverno não é resultado de raciocínio. O animalzinho obedece, sem se dar conta, ao comando do instinto.

Desde que o mundo é mundo, o homem sonhou com a imortalidade. Consciente de que o objetivo era inalcançável, agiu em duas frentes. Por um lado, fez o que pôde para prolongar a existência física. Por outro, aferrou-se a crenças religiosas. De fato, todas as religiões da terra – todas, sem exceção – fincam sua razão de ser numa vida pós-morte. A ideia de, exalado o último suspiro, desaparecer, virar pó e ser esquecido é simplesmente insuportável. Cada um de nós guarda, bem lá no fundo, a tola esperança de que a grande ceifadora, distraída, esqueça de nos convocar.No entanto, ninguém fica pra semente. Pra deixar rastro de sua passagem, o homem das cavernas desenhava nas paredes. E não é que conseguiram o intento? Pinturas rupestres nos falam hoje de fatos e gestos de dez mil anos atrás. Um «João ama Maria» cercado por um coração e gravado a canivete num tronco de árvore manifesta a mesma preocupação. Enquanto estiver de pé, a árvore guardará a marca dos entalhadores.

Até dois séculos atrás, os meios de deixar lembrança eram poucos e estavam reservados para quem podia. Os mais abastados encomendavam escultura ou retrato pintado à mão. Se temos hoje ideia precisa de como era o rosto de um Napoleão ou de um Dom Pedro I, devemos o lembrete a pintores. Mas era solução apenas para um punhado de abonados. A invenção e a popularização da fotografia e do filme vieram paliar a ilusão de imortalidade de multidões. Vieram dar-lhes a ilusória sensação de que serão lembrados para sempre.

Circunstâncias às vezes fortuitas fizeram que alguns sortudos fossem mais longe que o populacho. Há personagens cujo nome se eternizou ao transformar-se em adjetivo comum. Platônico, pitagórico e cesáreo nos vêm da Antiguidade. O Renascimento, embora nos tenha deixado dantesco, manuelino e maquiavélico, negou a homenagem a Leonardo da Vinci, grande entre os maiores. A par da pobreza franciscana e da paciência beneditina, os tempos modernos foram mais pródigos em conceder notoriedade adjetiva. As artes e, em especial, a política deram contribuição importante. Temos cartesianos, bonapartistas, stalinistas, getulistas.

Conquista maior do que se ver transformado em adjetivo é chegar a substantivo. Não é pra qualquer um. A esmagadora maioria dos agraciados são cientistas que deram nome a uma unidade de medida. Pascal, Celsius, Kelvin, Newton, Hertz, Ampère, Watt, Ohm, Volta, Farad, Becquerel são alguns deles. Fora do mundo científico, poucos chegaram lá. Stalinismo, macartismo e coquetel-molotov perenizam tenebrosas celebridades. Mas chique mesmo – la crème de la crème – é virar verbo. O clube é pra lá de restrito. Além-fronteiras, merecem destaque linchar (de Lynch), pasteurizar (de Louis Pasteur), galvanizar (de Luigi Galvani), boicotar (de Charles C. Boycott) e sanforizar (de Sanford Cruett). Na trilha de seus vaivéns em matéria de abertura do país a migrantes, Angela Merkel está enriquecendo a língua alemã com novo verbo: merkeln, que significa hesitar, ficar em cima do muro. Malvadeza.

No Brasil, só dois exemplos me ocorrem. Etimólogos atribuem a origem do verbo badernar a uma bailarina de sobrenome Baderna, que levou a moçada ao desvario no Rio de Janeiro em 1850. No fim do século 20, as travessuras de antigo governador biônico paulista – hoje procurado pela Interpol – fizeram que o povo utilizasse seu sobrenome como sinônimo de roubar.

Estes últimos tempos, a brutal mudança de escala na rapinagem apequenou os feitos do antigo homem político de fala fanhosa. Badernou geral! Muito foi roubado e pouco tem sido devolvido. Esperemos que, depois de ter empobrecido o povo, alguns dos ladrões pelo menos enriqueçam a língua nos legando verbos novos para designar seus gestos. Não será ressarcimento total, mas já é melhor que nada.

 
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O Gueto

José Horta Manzano (amigo-do-peito, caetanista, jornalista e escritor)

Você sabia?

O que vou dizer em seguida periga não agradar a muita gente. Mas estou aqui pra dizer o que penso. Se quisesse apenas repetir palavras de ordem ditadas por hierarcas, entraria pra um partido político. Ainda prefiro usar a própria cabeça pra tirar minhas conclusões. Aconselho a almas sensíveis parar por aqui. Se continuarem a leitura deste post, será por vontade própria. Que não venham, depois, reclamar.

Não se escandalize o distinto leitor, mas enxergo as religiões cristã e hebraica como ramos de um mesmo e único tronco. O tempo e a história se encarregaram de afastar as duas vertentes, mas pouco importa: as raízes são exatamente as mesmas. Esse é um fato que não se poderá modificar. Antes de se tornar religião de características próprias, o cristianismo foi uma dissidência do judaísmo. Uma prova? Pois os escritos que os cristãos chamam Velho Testamento são os mesmos que os judeus adotam. Outra prova? Jesus nasceu, cresceu e se formou em comunidade judaica ‒ portanto, carregava necessariamente ideias e valores inerentes ao meio em que circulava.

Vicissitudes seculares se encarregaram de apartar os dois ramos a ponto de os fazer parecer antagônicos, inimigos até. Em número de adeptos, a vertente cristã logo superou a dos judeus tradicionais. O sentimento mútuo de hostilidade só fez crescer durante a Idade Média. Os cristãos, amplamente majoritários na Europa, tomaram-se de antipatia pelos hebreus a ponto de os perseguir, agredir e combater. Em múltiplas ocasiões, estes últimos foram obrigados a abandonar a terra natal para refugiar-se em plagas menos adversas.

Grosso modo, entre 1450 e 1650, a República de Veneza viveu seu período de maior esplendor. Trocas comerciais com outros portos do Mediterrâneo trouxeram fortuna à cidade e fizeram que seus habitantes lançassem olhar menos tacanho a forasteiros. Ainda que não se possa dizer que Veneza abrisse os braços a estrangeiros, acolhia-os com menos desconfiança do que outras cidades importantes da época.

Nos anos 1500, judeus perseguidos acorreram de diversos pontos da Europa. Vinham do norte do continente, da orla mediterrânea, da própria Itália. Quando a quantidade de novos habitantes começou a incomodar os antigos, as autoridades decidiram confinar os hebreus num ponto preciso da cidade. Era um quadrilátero bem delimitado, de onde não podiam sair sem autorização. Especialmente à noite, eram obrigados a permanecer dentro do perímetro.

O lugar que lhes foi atribuído tinha acolhido, muitos anos antes, uma dúzia de oficinas de fundição de bronze. Era ali que se fabricavam os canhões para equipar a marinha de guerra da República. Em italiano moderno, o ato de entornar o metal em fusão no molde se diz «il getto». Em dialeto veneziano, a pronúncia e a grafia variam entre «el geto» e «el gheto», pronunciadas respectivamente «el djeto» e «el gueto». Era justamente o nome daquele lugar mal-amado, meio pantanoso, onde ninguém queria morar.

Campo de Gheto Novo, Veneza

Com o passar dos séculos, a importância da República de Veneza declinou. A invasão napoleônica deu o golpe de misericórdia. Os hebreus chegados em 1500 e 1600 acabaram se dispersando pelo resto da cidade. Foi abolida a obrigação de viverem confinados no gueto. Hoje em dia, o turista que decidir visitar o lugar vai encontrar comércios e restaurantes de propriedade de judeus, embora praticamente nenhum deles seja remanescente dos antigos habitantes. São gente que se instalou recentemente.

Aos venezianos, cujo dialeto difundiu pelo mundo poucas palavras ‒ entre as quais arsenal e gôndola ‒ cabe o ingrato privilégio de ter dado nome a um dos grandes símbolos de segregação e de discriminação.

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1891 – b) Caetano de Campos sai da direção da ENC com licença médica.

ABRIL

02/04/1891 (OESP)

Concedida licença ao preparador de física e de química da Escola Normal, o sr.Theodoro Antunes Maciel.

04/04/1891 (OESP)

Diante da Congregação da Escola Normal,  Carlos Alberto Rocca Jr deve passar os exames de português e de aritmética afim de apresentar-se como candidato a um ofício de justiça.

28/05/1891

Foram concedidos dois meses de licença ao diretor da Escola Normal, dr. Antonio Caetano de Campos.

31/05/1891 (OESP)

Assumiu interinamente a direção da Escola Normal o professor sr. Carlos Reis.

07/06/1891 (OESP)

Equiparado o salário da professora de caligrafia da Escola Normal aos dos professores das demais disciplinas.

 

13/06/1891 (OESP)

Equiparado o salário da professora de desenho da Escola Normal aos das demais disciplinas.

07/07/1891 (OESP)

Nomeado o sr.  José Estácio de Sá e Benevides (imagem) para reger a 2ª cadeira de Geografia na Escola Normal, durante o impedimento do titular, Luiz Augusto Corrêia Galvão.

                              (ieccmemorias)

E

Concedida exoneração ao ao preparador de física e de química da Escola Normal, o sr.Theodoro Antunes Maciel.

18/07/1891 (OESP)

Aulas particulares de “escritura mercantil” anunciadas pelo sr. Pompeu B. Tomassin, guarda-livros formado pela EN.

04/08/1891

Escola Normal (Rua da Boa Morte, 17)

Anunciou-se ontem, ao meio dia, a anunciada sessão literária em comemoração ao aniversário da reabertura daquela escola.

A sessão, que te esteve muito concorrida foi presidida pelo dr. Caetano de Campos, achando-se também presentes o respectivo corpo docente, alguns membros do Congresso paulista, muitas famílias e grande número de cavalheiros.

O salão principal da escola estava elegantemente adornado com flores e bandeiras de diversas nacionalidades.

Ocuparam a tribuna muitos oradores, entre os quais pudemos notar o dr. Arthur Breves, deputado do Congresso, e os estudantes normalistas Corte Brilho, Pedro Voss, Alfredo de Freitas, Justiciano Vianna e outros.

Foi distribuída pelas pessoas presentes uma Poliantéa com o retrato do dr. Caetano de Campos, e onde se vem bem lançados artigos em prosa e verso, … por alunas e alunos.

A simpática festividade terminou por um hino cantado por todos os alunos da Escola Modelo.

O dr. Américo Braziliense, impossibilitado de comparecer, desculpou-se por meio de uma carta.

 

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Myrthes Suplicy Vieira

A língua falada por cada um

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Gosto muito das lições vernáculas que recebo lendo os primorosos e divertidos textos da Dad Squarisi. O de outro dia não constitui exceção de modo algum, mas não posso deixar de confessar que ele me deixou um tantinho angustiada.

A bem da verdade, admito que, quando estou na dúvida sobre a forma gramatical correta, muitas vezes recorro ao estratagema usado pela secretária que, por desconhecer a grafia correta de sexta-feira, reagendou a reunião para a quinta. Além disso, tenho certeza de que se eu estivesse na pele da segunda, sem saber ao certo se o correto seria dizer “conosco mesmos” ou “com nós mesmos”, optaria por uma solução de compromisso mais tranquilizadora do ponto de vista psicológico: aconselharia meu chefe a trocar ‘nós’ por ‘a gente’.

Na sequência, refletindo um pouco mais, acabei descartando minha própria sugestão. Novas dúvidas se enraizaram de imediato em minha cabeça: se a troca fosse aceita, como ficaria o reforço ‘mesmos’? Seria correto dizer “com a gente mesma” ou, neste caso, ‘mesmo’ agiria como reforçador neutro de ‘queremos’? Se a frase começa com o plural ‘nós’, pode terminar no singular? Pensando bem, talvez fosse melhor sugerir algo como “Queremos estar de bem com aquilo que somos”. Pode ser mais longo e não tão preciso, mas pode eliminar a angústia mais rapidamente.

É curioso como, ao longo da vida, aprendi a demonstrar tolerância zero com erros de grafia e de concordância verbal, mas descuidei do aprendizado da norma culta. Escolho intuitivamente as construções de frase que me geram total confiança e fujo como o diabo da cruz de outras que experimentei um dia e que, por sua impropriedade, me encheram de vergonha.

O que não perdoo em mim mesma, perdoo menos ainda nos outros. A reprovação mais rápida da história universal da Seleção de Pessoal aconteceu com um colega que iniciou uma entrevista com um estudante universitário perguntando: “Quando você se forma? ”. A resposta veio de pronto: “Eu se formo agora no meio do ano”.

Por seu lado, sempre achei melhor que cada pessoa se exprima verbalmente da forma como aprendeu com os pais ou com a comunidade à sua volta, mesmo que contrarie o rigor da norma culta. Soa mais natural e preserva todo o sabor do jeito particular com que cada agrupamento humano diz o mundo. Um dia, se lhe interessar, a pessoa poderá aprender com mais facilidade como articular sua fala da maneira correta para provocar o impacto que deseja.

Sei por experiência própria que, quando a pessoa finge dominar as regras da semântica com o intuito de passar boa impressão a seu interlocutor, o resultado é inevitavelmente cômico e constrangedor. Foi o que aconteceu quando eu entrevistava um candidato para uma posição de gerência.

Ele havia enviado um curriculum grandiloquente, autoelogioso e volumoso e eu estava curiosa para descobrir o quanto suas experiências profissionais anteriores retratavam a verdade dos fatos. Comecei pedindo que ele resumisse suas atribuições no último posto de trabalho. O rapaz respirou fundo enquanto tentava organizar o pensamento e, de repente, seu olhar se iluminou, como se houvesse descoberto a fórmula certa de me impressionar logo de saída com seu douto saber. Cheio de confiança, ele nem pestanejou ao lançar as seguintes pérolas:

“Permita-me fazer um prêmbulo…”

Mesmo fortemente impactada, não me foi difícil compreender que o ele pretendia de fato era dizer “preâmbulo”. Segurei o riso e respondi com serenidade: “Faça quantos achar necessário”.

Estimulado, ele prosseguiu: “É que eu sou uma pessoa muito detalhista. Adoro bolinar ideias”.

Mais uma vez, bastou uma rápida reflexão para entender que, na verdade, ele queria dizer “burilar”. Só que, dessa vez, algo se agitou em mim. A impropriedade linguística do candidato começou a fazer uma outra lógica, que eu só poderia descrever como um enquadramento psicológico criativo, ainda que alucinado.

É que, mesmo me parecendo surreal a comparação, eu havia chegado à conclusão de que as duas palavras guardam semelhança, ao menos no que diz respeito à intenção. Se você parar para pensar, vai descobrir que aquele que burila alguma coisa, seja pensamento ou algo concreto, está na verdade mudando seguidamente de posição, avançando e recuando, experimentando novos ângulos e aparando arestas. Talvez até mesmo se deixando excitar com as possibilidades que se abrem diante de seus olhos ao manipular com competência profissional ou atabalhoadamente a ideia ou o objeto.

(*) Myrthes Suplicy Vieira, caetanista, é psicóloga, escritora e tradutora.

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