Raul Machado; alta literatura…

Primeiro, olha à esquerda. Se vires uma igreja, de Santo Ambrósio-o-Bruxo,  de preferência, podes então girar o corpo à direita, até ao ponto onde se lê, numa pedra encastada na parede da esquina: Pátio dos Judeus. A seguir, abre cuidadosamente o mapa. Não esqueças de orientá-lo, fazendo coincidir a parte superior dele na direção da pedra. Olha para o chão e recolhe a breve cigarreira a teus pés. Caiu-te da algibeira e fora presente de tua mãe. De imediato, olha para o alto e, por entre a dureza austera dos velhos prédios, verás, no recanto que sobrou, um pedaço saudoso do Cruzeiro do Sul, caso já sejam mais de 24 horas. É, então que, girando 180 graus sobre a perna direita, toparás, bem à frente, com uma ruela estreita a esgueirar-se por um declive acentuado de terreno. Desce por ela cambaleando, contando os degraus e arranhando muros e paredes grafitados. Não te preocupes se sangrarem as pontas dos dedos, olha para baixo até que teus pés, exaustos, fiquem num mesmo plano. Estás no Largo da Fonte dos Sedentos, uma pequena praceta circundada por casas brancas tumulares, enobrecida por um chafariz seco. Destaca-se um palacete, com janelas avarandadas e nenhuma porta no térreo. Outrora, farto de moedas, o Chafariz as comia avidamente. Hoje, dorme insípido como uma instalação de Bienal do Mercosul. Seguindo, passarás por um Café, cujo nome “La Punhalada” se anuncia em tremeluzentes letras de neon. Aí, ao redor de mesinhas, cobertas por toalhas axadrezadas e puídas, mulheres pálidas e homens de caras fechadas discutem filosofias suicidas. Cuidado. Não pares para ouvi-los. São Cassandras. Mui malevas, como diziam os extintos gaúchos. Mais alguns passos e…pronto, caíste na Avenida. Ampla como um bulevar de árvores disciplinadas de uma cidade-luz qualquer. Segue por ela, lendo a poesia do Fernando Pessoa.

Teus olhos se acenderão com as cores tentadoras a prometer a felicidade espumante dos champagnes jorrando de taças erguidas por belas atrizes proclamando que 9 em cada 10 estrelas cinematográficas gozam da mais-valia da beleza que vende a Felicidade em promoções de cheque pré-datado. Aproveita, aproveita.

bashny.net

Segue em frente. Não importa que vejas, aqui e ali, pequenos e andrajosos seres mijando nas rodas dos automóveis. São meninos-lobos das ruas demarcando território. Por todos os lados, multidões atarefadas se acotovelam na direção de seus escritórios, oficinas e lojas de shoppings. Estão seriamente ocupadas em ganhar dinheiro para construírem seus futuros ataúdes com a melhor madeira-de-lei. Dentro de seus carros de muitos cavalos-força, respeitáveis senhores encharutados e vagas senhoras dirigem-se a soturnos palácios subterrâneos. De lá, emergirão para as luzes de restaurantes, onde as cartas de vinho sonham com franças e outras terras d`appelation controlée. Não te detenhas.. Vai em frente. Mas cuidado com os traidores gatos da Praça das Flores, melancólica, verdinha e leviana. Aí já aconteceram estranhos atentados terroristas suicidas islâmicos, a tal ponto que, um ruído, pouco mais incisivo que o silêncio circundante, provoca o desprendimento dos pombos  do cume das árvores.

Esvoaçam esbaforidos por todos os céus, indo morrer muitos deles contra os altos edifícios. Não, não chores por eles. Eram mais felizes que tu. Podiam voar. E se da alta arte de voar gozaram, em tão breve vida, foi porque assim o quis o Grande Carrasco. Observa que, vez por outra, há portas abertas conduzindo a longos corredores com ruídos de ratos e tábuas gementes, desaguando pessoas em salas de luzes fúnebres. Aí são velados os seres insubstituíveis. E se alguma lágrima aflorar, gerada por teu elan teatreiro, retira da outra algibeira a brancura debruada de um lenço que te fora dado pela criada velha, há tempos, quando eras menino e inocente. Segue sem deter-te apiedado por alguma visão de cadafalso, guilhotina ou auto-da-fé, onde se eliminam os inimigos de alguma ideologia poderosa, em meio à arraia-miúda ululante, saída de seus cus-de-judas para a luz das chamas, aclamando os poderosos do dia. Desconfia, sobretudo, das cúpulas e minaretes e de outros monumentos de semelhantes desenhos esféricos ou pontiagudos. Cuidado, aí se escondem os deuses enganadores. Sob tais formas arquitetônicas, armam-se estratégias teocráticas, nas quais só tens a perder. Deixa o menino que tu foste descer distraído por teus fatigados olhos e atirar pedras de intifada, aquelas mesmas pedras que o poeta encontrara no meio do caminho para ferir os magnificentes senhores e, extenuado, retornar à sombra de teus olhos. Entra nesta imprecisa sala e observa-te: pequenino, esquelético, no meio de coleguinhas atléticos. Todos ao redor da mesa grande e suja de tinta, soletrando o be-a-bá e cantando a taboada. A mestra, brandindo a ameaçadora régua, tem os cabelos azulados e um olhar cinzento de madrasta. Não te demores por aí, porque, na sala adiante, há um cadáver de mulher com uma barriga enorme. “—Sai logo daqui, menino. É cheiro de podridão.” Pedaços de pessoas cantam as ladainhas dos infelizes. Elas são peixes que emergem das águas e da morte se esforçam para consolar os que restaram. Isso tudo te provoca uma dor de buraco fundo de onde jorram ruínas de palavras sussurrantes, descendo pela garganta afogueada, sufocando-se nos olhos aflitos, para subir pela espinha como uma neblina fria que, no calor do cachecol, vai aí abrigar-se. Procura não imaginar muito. Deixa-te viver sem pensar. Cuida de tua saúde. Ela é o que mais importa. Fecha o quarto contaminado pela fedentina dos cadáveres insepultos. Fantasmas que assombram tuas noites mal dormidas. Uma avó longínqua, das ilhas, que fazia doces de figo e marmeladas, rosas e brancas, em grandes tachos ciganos. E que renasce em teus sonhos nas festas de fim de ano, em meio a massas ululantes de comedores de panetone. Agora  estás caminhando, apoiado nessa bengala, por meio de velhos aposentados que jogam damas em tabuleiros de pedra, numa praça qualquer, a sonhar com a juventude, quando a próstata nem existia e todos eram bem machos, sim senhor. Agora sabes que sexo é commodity, cujo valor sobe ou desce na bolsa escrotal. Gozar o máximo e pagar o mínimo. Um filósofo marxista dissera que tudo é – ou acabará por ser – mercadoria. Acreditaste nisso por algum tempo. Depois, já maduro, percebeste que os afetos não se compram nem se vendem. São como a poesia: não têm preço. Daí para a frente, no viver e sofrer cotidiano, a poesia passou a ser uma âncora, um porto, uma companheira exigente, uma escravidão. Vampiresca e consoladora.

Bd-cine.com

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Os “Exercício de desenho” com um retrato de Ana Cristina César, pelo colega Dalton Sala.

Exercício de desenho com um retrato de Ana Cristina César; explicação.

Alinhar imagem

Não se trata de cores, mas de construção do espaço: é verdade que temos muito pouca coisa da pintura grega, mas alguma coisa temos: os relatos (Plínio e Pausânias, por exemplo), algumas cópias romanas, algumas pinturas etruscas inspiradas em obras gregas e obras paralelas, quero dizer, vasos, frisos e mesmo esculturas e arquiteturas de onde podemos deduzir uma técnica de desenho e projeto.

Por outro lado, trata-se de inferir, com o pouco que temos, os processos de construção da obra, o modus operandi dos pintores: processos técnicos, materiais, recursos, entre os quais deve-se destacar os métodos geométricos de construir o espaço. E aí temos que a ótica dos gregos e a ótica dos romanos era a mesma, e a projeção dos corpos no espaço plástico representado diferia bastante da perspectiva renascentista.

(Acho que o Panofisky se engana ao chamar a projeção greco-romana de perspectiva). 

E é isto que estou tentando fazer, inferir estes processos de construção do espaço e lidar com ele de forma aberta e um tanto brincalhona (chega de tanta seriedade, meus deuses, arte não é religião), sem procurar imitar, mas recolocando problemas relativos ao desenho e ao espaço plástico.

E não só em relação aos gregos: acho que os historiadores da arte não deviam se limitar ao texto; mesmo porque o primeiro historiador da arte foi um artista, Giorgio Vasari.

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QUE TAL ? VAMOS VER ? … (enviado pelo Paulo Hesse)


Queridos Amigos,

Queremos convidá-los para as apresentações do CABARÉ LITERÓTICO MUSICADO no VIGA ESPAÇO CÊNICO (Rua Capote Valente, 1323 – Metrô Sumaré – SP).

Quartas e Quintas  às 21 h até 27 de julho

Ingressos: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia)

Apresente este email e pague meia entrada!

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Myrthes Suplicy Vieira. «É preciso negociar também com as feridas».

A tolerância é uma prática

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Já faz tempo que venho filosofando a respeito de como a moralidade do século 21 deslocou-se integralmente para o discurso, deixando praticamente intocada a aceitação social de práticas perversas, típicas de nossos ancestrais das cavernas.

Pense comigo. A gente é capaz de aprender rapidinho a substituir negro por afrodescendente, viado (de transviado) e sapatão por gay, mongoloide por Down, piranha ou galinha por mulher liberada e empoderada, mas demora uma eternidade para incorporar o conceito de que todos, sem exceção, são portadores da mesma essência de dignidade humana. É como se acreditássemos que, retirando o peso discriminatório que algumas palavras adquiriram historicamente, toda a mágoa desaparecesse e se abrissem, por milagre, as portas para a plena incorporação das diferenças.

Ledo engano. Quando a emoção cresce, a razão evanesce e a hipocrisia desaparece. Um instante de desatenção e o filtro de censura volta a se fragilizar. E lá vamos nós gritando de novo da arquibancada: «Macaco, volta para a senzala de onde você nunca deveria ter saído!»; «Bicha louca, desce do salto e aprende a ser homem!»; «Sai daqui, seu debiloide babão!»; «Aí, gostosa, vem aqui que o papai vai te mostrar como é que se faz!».

O velho Shakespeare já havia nos alertado séculos atrás que as palavras podem ser cheias de som e fúria, mas, em última análise, não querem dizer nada. Caetano nos ensinou, através da canção, que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Nelson Rodrigues usou toda a sua mordacidade para nos mostrar que, olhando de perto, ninguém é normal. Em vão.

Não nos parece contraditório sair às ruas gritando palavras de protesto contra a corrupção na política e continuar fazendo pequenos agrados a quem pode nos tirar de uma situação aflitiva. Assinar petições contra o desmatamento na Amazônia ou aquecimento global e continuar a jogar lixo nas ruas e nos córregos. Postar nas redes sociais mensagens religiosas de amor ao próximo, respeito às diferenças e compaixão diante do sofrimento humano e, no minuto seguinte, propor com o máximo de virulência possível a perseguição, tortura e morte da pessoa que espancou um cão. Condenar com veemência o terrorismo, elegendo como bode expiatório de ocasião o fundamentalismo islâmico, e matar a pauladas e pontapés o torcedor do time adversário. Repetir de peito estufado o velho discurso ufanista de que somos o país da conciliação e, na sequência, reclamar que o Brasil não vai para a frente por causa de seu povinho que abaixa a cabeça para tudo.

Por que, se estamos fartos de saber de tudo isso, as mil cabeças da Hidra da intolerância continuam assumindo o controle? Como fazer para que nosso discurso e nossa prática passem a coincidir? É isso que venho tentando investigar.

Dia desses, tropecei num interessantíssimo artigo científico a respeito do modo como nossos cérebros processam palavras e significados. Segundo estudos realizados com pacientes que sofreram lesões em um dos hemisférios cerebrais, o sentido literal (de dicionário) de cada palavra é apreendido primordialmente pelo lobo esquerdo, o cérebro da razão e da lógica linear. No entanto, quando a palavra vem acoplada a outra que envolve julgamento de valor, o cérebro esquerdo fica confuso e passa a depender integralmente do direito para absorver as alterações de significado da mensagem. Só para relembrar, o cérebro direito é aquele da síntese, da apreensão global da realidade e do manejo das emoções.

Parece então que, talvez por influência da hiperutilização do modelo binário da tecnologia da computação, desaprendemos a manter razão e emoção unidas ao interagirmos com a realidade e com as pessoas à nossa volta. Em vez disso, alternamos o discurso politicamente correto e a indignação com o comportamento de terceiros que verbalizam outras percepções.

A armadilha é perigosa e eu mesma não me canso de cair nela. O sentimento de superioridade moral que embala nossa reação de crítica a práticas sociais que não endossamos é tão poderoso que nos impele a desconsiderar quaisquer condicionantes e passar por cima do outro com trator e tudo, esmagando-o sem clemência e destruindo cada um de seus argumentos.

A saída? Ainda não sei. Só posso oferecer como sugestão para reflexão um pensamento de Aristóteles com que me deparei outro dia: «Educar a mente sem educar o coração não pode ser chamado de educação».

Outra pista que persigo há um bom tempo me foi ofertada em caráter pessoal por aquele que chamo de “meu anjo”. Certa vez, durante uma discussão ácida com meu pai, perdi a paciência e saí batendo a porta, esbravejando que meu ouvido não era penico para ele depositar sua insensatez. Ainda no corredor, já me sentindo um tanto acabrunhada e envergonhada, tive a nítida sensação de ouvir o conselho: «É preciso negociar também com as feridas».

(*) Myrthes Suplicy Vieira, caetanista, é psicóloga, escritora e tradutora.

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1892 – d- Normalistas diplomados; entre eles, Pedro Voss.

Julho Agosto Setembro

NADA  ENCONTRADO

Outubro

09/10/1892 (OESP)

Escola Normal

Declarou-se ao vice-diretor da Escola Normal, em resposta ao seu ofício n°37, de 6 do corrente, ficar autorizado a transferir a abertura da inscrição aos exames de admissão da mesma escola, para 20 de fevereiro vindouro… (…)

14/10/1892 (OESP)

Carta de Carlos de Escobar ao diretor da Instrução Pública, dr. Arthur Guimarães, sobre a opinião do mesmo na extinção entre professores preliminares (normalistas) e os provisórios (não normalistas) pela ignorância de amboas categorias em algumas matérias do programa e até em certas disciplinas.

28/10/1892 (OESP)

Carta de Carlos de Escobar  a Mario de Arantes, em resposta ao artigo por ele publicado no jornal Popular do dia 21/10, refutando seus argumentos sobre a existência de escolas complementares e a falta de habilitação de atuais normalistas.

 

13/11/1892 (OESP)úíá

Repassados 315$250 ao porteiro da EN para despesas relativas ao cargo.

22/11/1892 (OESP)

Falecimento da primeiranista da Escola Normal, dona Maria Ignacia Moreira.

E

Escola Normal

Resultado dos exames finais de ontem.

Exercícios militares: todos os alunos aprovados.

Exercícios escolares: todas as alunas aprovadas.

Desenho: alunos: todos aprovados.

 

Desenho (alunas)

Plenamente: Ignez A. da Conceição; Perpetua C. De Salles; Maria de A. Brocarbo; Leonina G. dos Santos; Maria Soares de Araujo; Maria C. de Oliveira;

Anna C. Ferreira; Candida da C. Leite; Maria F. De A. Campos.

Simplesmente: Francisca Nacarato; Elvira de C. Da Matta; Anna Leonidia Senna; Anna C. Ribeiro; Amelia G. de Barros; Maria da G. Azevedo; Belmira Aurora Dias; Placidina G. Carneiro; Herminia B. Carneiro; Antonia H. dos Santos Rodrigues; Maria J. de Oliveira.

Reprovadas: 6

 

2° ano

Ginástica: todos os alunos aprovados.

Prendas domésticas: todas as alunas aprovadas.

Desenho: alunos; todos aprovados.

Desenho (alunas)

Distinção: Sophia de Moraes.

Plenamente: Escolastica de Toledo; Maria da Conceição; Henriqueta Rivera; Dirce de Andrade; Isolina S. De Paula Ramos; Vitalina C. Pacheco; Antonia de Almeida; Rita de Macedo.

Simplesmente: Afra da Costa e Silva; Carmen C. De Azevedo; Flotilde M.D. Coelho Braga; Isabel de Mendonça; Luiza D. de Lima Franco; Maria PH. Marcondes de Jesus; Alice Avila de Macedo; Euzebia Pereira de Mello; Leonina de Almeida; Honoria H. Ramos; Anna E. Rolim de Arruda; Maria de Macedo.

Reprovadas: 3

Levantaram-se: 2.

Dezembro

3/12/1892 (OESP)
Pagamento de 300$, repartidamente aos professores da Escola Normal: José Eduardo de Macedo Soares, Joaquim José de Azevedo Soares e João Vieira de Almeida dos ordenados do mes passado.

08/12/1892 (OESP)

Curso de ciência popular – O professor dr. José Julio Rodrigues reencetou as suas kições (segundas, quartas e sextas) das 8 às 9 horas da noite no pavimento térreo da Escola Normal.

15/12/1892 (OESP)

Autorização dada ao vice-diretor da Escola Normal para realizar obras de melhoria no estabelecimento.

E

Receberam seus diplomas da Escola Normal:

Faustina Tietê, Maria Emilia, Risoletta Lopez; Nephtalina Veiga, Rita de Senne, Adelaide Nunes, Antonia Pereira, Flavia Meirelles, J.P. de Oliveira, Cecilia Abranches, Angelina Aguiar,Bbelmira da Costa, Maria Payão, Amelia Leuroth, Gertrudes de Barros, Maria Xavier, Risoletta Ceslau de Moura, Esmeralda Ceslau de Moura, Maria de Barros, Ildefonsa de Barros e Anna de Barros.

                                              (ieccmemorias)

João Galvão de França Rangel, João Roberto, Joaquim de Sant’Anna Salle Bastos, Mario de Magalhães Corte Brito, Aristoteles de Andrade Monteiro Jr., Pedro Voss (foto), Francisco Justino, Francisco Maciel e Carlos de Camargo

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O poeta do 5696, presente do José Horta Manzano.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2017 | 02h00

Por detrás do balcão, o jovem atendente botou na cara um ar de perplexidade quando perguntei se naquele arquivo havia catálogos telefônicos para consultas. Foi como se, numa farmácia, alguém tivesse pedido creme rinse em vez de condicionador, ou dentifrício em vez de pasta de dente. Você sabe: essas palavras em desuso, teias de aranha verbais que por inércia uns desavisados seguem utilizando, e que permitem datá-los, tanto quanto o isótopo radioativo carbono 14 data ossadas de animais pré-históricos. 

Pois bem, foi um efeito assim que produzi ao perguntar ao moço por catálogos telefônicos. Já estava informado de que há muito as companhias telefônicas, denominação arcaica das atuais operadoras, não mais editam e distribuem aqueles livrões com listas de assinantes e de endereços, além de anúncios, como fizeram por quase um século, publicações cada vez mais obesas que você devolvia ou jogava fora ao receber a edição atualizada. Eu só não sabia que se tornariam úteis, quando não indispensáveis, para o pesquisador em que, por vocação e ofício, acabei me transformando.

 Tomei ciência disso no começo dos anos 90, quando me propus o desafio de contar em livro a história de um artista, há muito falecido, sobre o qual bem pouco se sabia, o compositor, poeta e, sobretudo, extraordinária figura que foi Jayme Ovalle. Não quero valorizar meu esforço, mas bem sei a batalha que foi garimpar seiva para as 400 páginas de O Santo Sujo.

 

Em dado momento, desesperado com a falta de pistas, sem saber ao menos dos lugares no Rio onde o paraense Ovalle passou a maior parte de seus 61 anos, ocorreu-me a ideia de consultar velhos catálogos, exemplarmente conservados num Museu do Telefone que a Telerj mantinha no bairro do Catete.

Um catálogo telefônico daquele ano permitiu localizar o edifício, e, a partir dessa informação, estabelecer contato com a moradora do apartamento 901, uma senhora estrangeira que ficou encantada ao saber que entre suas paredes vivera um artista. Abriu-se caminho para que mais tarde eu voltasse ali, dessa vez com a viúva de Ovalle, a escritora americana Virginia Peckham, em visita ao Rio depois de muitos anos. 

Temerosa de emoções além da conta, essa mulher decidida e aparentemente dura relutou em aceitar meu convite para voltar ao lugar onde, mal entrada nos seus 30 anos, e mãe da pequena Mariana, de apenas 3, de repente se achou sozinha na vida. Consegui convencê-la, e só assim pude saber que naquele corredor, batido pelo vento do mar, Ovalle ficava a fumar e a ler jornal, e que em tal quarto e em tal posição ficava a cama onde morreu dormindo. Não esqueço, na saída, a tremura dos dedos de Virginia no meu braço, enquanto me falava da viagem, naquele mesmo elevador, do corpo inerte de seu companheiro.

Década e meia depois, às voltas com outro personagem, outra vez me valem os catálogos telefônicos, consultados nas instalações modernas onde a operadora Oi, herdeira da finada Telerj, conserva e digitaliza as joias do Museu do Telefone. A ela pretendo recorrer para mais rodadas de pesquisa, assim como voltarei aos catálogos de Belo Horizonte, guardados pela mesma empresa na capital de Minas. Chega a me escandalizar que instituições incumbidas de zelar pela memória de um povo não se tenham dado ao trabalho de preservar esse tipo de documento, o único onde é possível encontrar determinado tipo de informação.

De saída, pude conhecer os dois primeiros endereços, dos quatro que teve Carlos Drummond de Andrade no Rio de Janeiro, para onde se mudou em 1934 e onde morreria há quase 30 anos, em 17 de agosto de 1987, 12 dias depois de perder a filha única, Maria Julieta. 

Dos dois últimos pousos (em Copacabana, como os anteriores) eu já sabia: na rua Joaquim Nabuco (“Ó esplêndida lua debruçada sobre Joaquim Nabuco, 81…”), onde viveu, até 1962, numa casa de dois pavimentos em seguida posta abaixo, e, não longe dali, um apartamento no 60 da Conselheiro Lafaiete. Mas não sabia que antes da Joaquim Nabuco houve uma casa, já varrida da paisagem, no 8 da República do Peru, que então se chamava 9 de Fevereiro; e, antes dela, mais de uma casa de vila no 412 da avenida Princesa Isabel, àquela altura simples rua, a Salvador Correia, pois não fora ainda duplicado o túnel que liga a cidade a Copacabana. 

Ali está, modificada mas ainda em pé, a casa 9, onde o poeta, sua mulher, Dolores, e Maria Julieta se instalaram em 1934, assim como a de n.º 15, que em catálogo subsequente figura como tendo sido o segundo pouso, na mesma vila, do assinante Andrade, dr. C. Drummond. 

Novas consultas revelariam uma curiosidade: do primeiro ao último endereço que teve no Rio, acompanharam o poeta os mesmos quatro algarismos finais de seus telefones: 5696. Alguém aí, afeito aos meandros da numerologia, vislumbraria chave na insistência desse número na vida de um homem de letras? 

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Agora… “José”, de Raul Machado.

    Nasceu no dia 19 de março de 1968. Daí seu nome, batizado pela mãe muito religiosa e  que o esperava para mais tarde, em abril, quem sabe. Mas adiantou-se algumas semanas. Seu pai teria preferido outro nome, Pedro, quem sabe. Signo de Áries, pelo dia e pela hora.

    Era mirrado de corpo. De infância doentia, o nariz sempre escorrendo. No inverno,

tinha frieiras nos dedos das mãos e dos pés. Seu pai logo desiludiu-se com um filho sempre adoentado, pois sonhava em vê-lo jogador de futebol na Capital do Estado.

Mas logo deu-se conta de que isso jamais se tornaria uma realidade.

    A mãe queixava-se afirmando que José  parecia não  ter talento para nada. O pai trabalhava num cassino de jogatina, com roleta e carteado, onde os ricos fazendeiros vinham  tentar a sorte. Nos fundos, havia uma série de quartos frequentados  pelas prostitutas da cidade, prontas para arrancar algum dinheiro dos  fregueses, a fim de pagar  o aluguel do quartinho e os devidos  50%  para o dono do cassino.

    Na escola pública, onde fora matriculado, José sofria com as maldades de colegas

que nele se vingavam, desafiando a recomendação de algumas professoras para que o protegessem, pois era frágil. A maioria de seus colegas o chamavam de mariquinhas. Seu pai, sempre desejoso de vê-lo como jogador de futebol,  solicitou ao professor de educação física que o pusesse a jogar, talvez como goleiro. E assim foi feito. José, muito a contragosto, ia para a goleira e suava frio quando os atacantes dos adversários se aproximavam. Era golo na certa. Somente uma vez conseguiu segurar a bola. E os adversários gritavam e assobiavam:  O Mariquinhas é boa goleira!

    José gostava mesmo era das férias, passadas numa cidade próxima, na casa de sua avó materna, uma senhora morena, filha de uma índia charrua com um aventureiro português, já falecido. A avó era uma doceira excelente e José, além de se deliciar com os doces, tinha grande prazer em ajudá-la na preparação das figadas, marmeladas  brancas, vermelhas e róseas, além dos quindins, queijadas, bem-casados

e inúmeras conservas  para os tempos frios. Também trabalhavam duas tias. Era uma família pobre e ele já sabia que o destino dos pobres é não ter férias como os ricos, que viajavam para as praias de Tramandaí. Sonhava em viajar. Quem sabe, quando fosse adulto poderia conhecer o mar, com suas ondas de água salgada.

    Alguns anos depois passou a estudar no noturno, porque, durante o dia conseguiu emprego numa padaria e  confeitaria, onde especializou-se em construir belos bolos de casamento e aniversário. Os fregueses sempre elogiavam seus bolos, tortas de variadas frutas e, até mesmo tartes e croissants, que copiara de uma revista francesa, comprada no quiosque da Praça Central.

    Por vezes, sentia-se muito cansado, pois, além do trabalho , dedicava-se com afinco aos estudos, além de abrir no banco local uma caderneta de poupança. Pensava em estudar na Capital. Terminando o curso médio,  com os rendimentos da poupança, embarcou para  Porto Alegre. Inscreveu-se no Vestibular da UFRGS, para frequentar a Faculdade de Direito. Foi aprovado, podendo, então, ser admitido como morador na Casa do Estudante, situada na Avenida João Pessoa. Ali conheceu outra colega de faculdade, Nilza, que veio a ser sua companheira” até que a morte os separasse”.  Por influência de Nilza e por gostar de música, ingressaram ambos no Coro da Universidade, onde muitas vezes cantaram em obras de grandes  compositores como Bach, Verdi, Puccini, Beethoven,  executadas com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a OSPA. José procurou ainda entrar no Grêmio Estudantil  para fazer política, mas logo percebeu que a instituição representativa dos estudantes era constituída de alunos que ali estavam “treinando” porque só desejavam fazer carreira na política partidária como vereadores ou deputados.

    Quando ele e Nilza estavam  cursando o quinto ano ocorreu um fato totalmente inesperado: a sorte bateu-lhes à porta. Ganhou na loto.  E não foi pouco. Foram alguns milhões de reais. Recebidos os diplomas de bacharéis em Direito foram ambos, José e sua Nilza, realizar um sonho: viajar.

    Desembarcaram em Lisboa, onde provaram os famosos pastéis de Belém e visitaram os museus do Azulejo e da fundação Calouste Gulbenkian. Alugaram um carro e rumaram para Santiago de Compostela, com sua catedral e fumeiro. Devolvido o carro, em trem de grande velocidade dirigiram-se a Madri, onde visitaram o Museu do Prado e a Plaza Mayor. Sempre de trem, AVE, Alta Velocidad Española, dirigiram-se a Barcelona, terra do grande arquiteto Gaudi e suas espetaculares obras.

    Em todos esses lugares,  José adquiria livros de doces e pães. Tinha forte pressentimento de que, ao retornar, essas obras lhe seriam úteis.

    Da cidade da Catedral da Sagrada Família, rumaram para a França, pátria da “ Liberté, Égalité, Fraternité”, após a sangrenta Révolution, uma República que, nas aulas da faculdade, aprenderam a respeitar pela separação dos poderes: executivo, legislativo e judiciário.

   Na belíssima capital de urbanismo invejável, como bons turistas, visitaram a Torre Eiffel  e o Louvre, com suas magníficas coleções de arte antiga egípcia, mesopotâmica e suas incontornáveis  Vitória de Samotrácia e a preferida dos milhões de turistas, a Mona Lisa. Mas os museus que mais os impressionaram foram o Quai d`Orsay e o museu Rodin. No d`Orsay, as obras dos impressionistas Renoir, Manet, Monet fizeram Nilza se emocionar. No Rodin, José se encantou com “O Pensador” e “Os Burgueses de Calais”.

    José, grande admirador da arte da padaria e doçaria francesa, aproveitou para provar os macarons, tartes de frutas, croissants, em estabelecimentos nessas delícias especializados. Sempre adquiria livros que orientassem os doceiros e padeiros

 novatos.

    Retornando à pátria, José e Nilza se estabeleceram em São Paulo, onde adquiriu uma padaria e confeitaria na Avenida Vieira Souto, no centro novo da grande metrópole.

    Passados cinco anos, já bons mestre-cucas, eram proprietários de 12 padarias e confeitarias, espalhadas por toda a cidade.

    José pensava: Se minha avó me visse ficaria orgulhosa de mim.

 

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