O Gueto

José Horta Manzano (amigo-do-peito, caetanista, jornalista e escritor)

Você sabia?

O que vou dizer em seguida periga não agradar a muita gente. Mas estou aqui pra dizer o que penso. Se quisesse apenas repetir palavras de ordem ditadas por hierarcas, entraria pra um partido político. Ainda prefiro usar a própria cabeça pra tirar minhas conclusões. Aconselho a almas sensíveis parar por aqui. Se continuarem a leitura deste post, será por vontade própria. Que não venham, depois, reclamar.

Não se escandalize o distinto leitor, mas enxergo as religiões cristã e hebraica como ramos de um mesmo e único tronco. O tempo e a história se encarregaram de afastar as duas vertentes, mas pouco importa: as raízes são exatamente as mesmas. Esse é um fato que não se poderá modificar. Antes de se tornar religião de características próprias, o cristianismo foi uma dissidência do judaísmo. Uma prova? Pois os escritos que os cristãos chamam Velho Testamento são os mesmos que os judeus adotam. Outra prova? Jesus nasceu, cresceu e se formou em comunidade judaica ‒ portanto, carregava necessariamente ideias e valores inerentes ao meio em que circulava.

Vicissitudes seculares se encarregaram de apartar os dois ramos a ponto de os fazer parecer antagônicos, inimigos até. Em número de adeptos, a vertente cristã logo superou a dos judeus tradicionais. O sentimento mútuo de hostilidade só fez crescer durante a Idade Média. Os cristãos, amplamente majoritários na Europa, tomaram-se de antipatia pelos hebreus a ponto de os perseguir, agredir e combater. Em múltiplas ocasiões, estes últimos foram obrigados a abandonar a terra natal para refugiar-se em plagas menos adversas.

Grosso modo, entre 1450 e 1650, a República de Veneza viveu seu período de maior esplendor. Trocas comerciais com outros portos do Mediterrâneo trouxeram fortuna à cidade e fizeram que seus habitantes lançassem olhar menos tacanho a forasteiros. Ainda que não se possa dizer que Veneza abrisse os braços a estrangeiros, acolhia-os com menos desconfiança do que outras cidades importantes da época.

Nos anos 1500, judeus perseguidos acorreram de diversos pontos da Europa. Vinham do norte do continente, da orla mediterrânea, da própria Itália. Quando a quantidade de novos habitantes começou a incomodar os antigos, as autoridades decidiram confinar os hebreus num ponto preciso da cidade. Era um quadrilátero bem delimitado, de onde não podiam sair sem autorização. Especialmente à noite, eram obrigados a permanecer dentro do perímetro.

O lugar que lhes foi atribuído tinha acolhido, muitos anos antes, uma dúzia de oficinas de fundição de bronze. Era ali que se fabricavam os canhões para equipar a marinha de guerra da República. Em italiano moderno, o ato de entornar o metal em fusão no molde se diz «il getto». Em dialeto veneziano, a pronúncia e a grafia variam entre «el geto» e «el gheto», pronunciadas respectivamente «el djeto» e «el gueto». Era justamente o nome daquele lugar mal-amado, meio pantanoso, onde ninguém queria morar.

Campo de Gheto Novo, Veneza

Com o passar dos séculos, a importância da República de Veneza declinou. A invasão napoleônica deu o golpe de misericórdia. Os hebreus chegados em 1500 e 1600 acabaram se dispersando pelo resto da cidade. Foi abolida a obrigação de viverem confinados no gueto. Hoje em dia, o turista que decidir visitar o lugar vai encontrar comércios e restaurantes de propriedade de judeus, embora praticamente nenhum deles seja remanescente dos antigos habitantes. São gente que se instalou recentemente.

Aos venezianos, cujo dialeto difundiu pelo mundo poucas palavras ‒ entre as quais arsenal e gôndola ‒ cabe o ingrato privilégio de ter dado nome a um dos grandes símbolos de segregação e de discriminação.

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1891 – b) Caetano de Campos sai da direção da ENC com licença médica.

ABRIL

02/04/1891 (OESP)

Concedida licença ao preparador de física e de química da Escola Normal, o sr.Theodoro Antunes Maciel.

04/04/1891 (OESP)

Diante da Congregação da Escola Normal,  Carlos Alberto Rocca Jr deve passar os exames de português e de aritmética afim de apresentar-se como candidato a um ofício de justiça.

28/05/1891

Foram concedidos dois meses de licença ao diretor da Escola Normal, dr. Antonio Caetano de Campos.

31/05/1891 (OESP)

Assumiu interinamente a direção da Escola Normal o professor sr. Carlos Reis.

07/06/1891 (OESP)

Equiparado o salário da professora de caligrafia da Escola Normal aos dos professores das demais disciplinas.

 

13/06/1891 (OESP)

Equiparado o salário da professora de desenho da Escola Normal aos das demais disciplinas.

07/07/1891 (OESP)

Nomeado o sr.  José Estácio de Sá e Benevides (imagem) para reger a 2ª cadeira de Geografia na Escola Normal, durante o impedimento do titular, Luiz Augusto Corrêia Galvão.

                              (ieccmemorias)

E

Concedida exoneração ao ao preparador de física e de química da Escola Normal, o sr.Theodoro Antunes Maciel.

18/07/1891 (OESP)

Aulas particulares de “escritura mercantil” anunciadas pelo sr. Pompeu B. Tomassin, guarda-livros formado pela EN.

04/08/1891

Escola Normal (Rua da Boa Morte, 17)

Anunciou-se ontem, ao meio dia, a anunciada sessão literária em comemoração ao aniversário da reabertura daquela escola.

A sessão, que te esteve muito concorrida foi presidida pelo dr. Caetano de Campos, achando-se também presentes o respectivo corpo docente, alguns membros do Congresso paulista, muitas famílias e grande número de cavalheiros.

O salão principal da escola estava elegantemente adornado com flores e bandeiras de diversas nacionalidades.

Ocuparam a tribuna muitos oradores, entre os quais pudemos notar o dr. Arthur Breves, deputado do Congresso, e os estudantes normalistas Corte Brilho, Pedro Voss, Alfredo de Freitas, Justiciano Vianna e outros.

Foi distribuída pelas pessoas presentes uma Poliantéa com o retrato do dr. Caetano de Campos, e onde se vem bem lançados artigos em prosa e verso, … por alunas e alunos.

A simpática festividade terminou por um hino cantado por todos os alunos da Escola Modelo.

O dr. Américo Braziliense, impossibilitado de comparecer, desculpou-se por meio de uma carta.

 

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Myrthes Suplicy Vieira

A língua falada por cada um

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Gosto muito das lições vernáculas que recebo lendo os primorosos e divertidos textos da Dad Squarisi. O de outro dia não constitui exceção de modo algum, mas não posso deixar de confessar que ele me deixou um tantinho angustiada.

A bem da verdade, admito que, quando estou na dúvida sobre a forma gramatical correta, muitas vezes recorro ao estratagema usado pela secretária que, por desconhecer a grafia correta de sexta-feira, reagendou a reunião para a quinta. Além disso, tenho certeza de que se eu estivesse na pele da segunda, sem saber ao certo se o correto seria dizer “conosco mesmos” ou “com nós mesmos”, optaria por uma solução de compromisso mais tranquilizadora do ponto de vista psicológico: aconselharia meu chefe a trocar ‘nós’ por ‘a gente’.

Na sequência, refletindo um pouco mais, acabei descartando minha própria sugestão. Novas dúvidas se enraizaram de imediato em minha cabeça: se a troca fosse aceita, como ficaria o reforço ‘mesmos’? Seria correto dizer “com a gente mesma” ou, neste caso, ‘mesmo’ agiria como reforçador neutro de ‘queremos’? Se a frase começa com o plural ‘nós’, pode terminar no singular? Pensando bem, talvez fosse melhor sugerir algo como “Queremos estar de bem com aquilo que somos”. Pode ser mais longo e não tão preciso, mas pode eliminar a angústia mais rapidamente.

É curioso como, ao longo da vida, aprendi a demonstrar tolerância zero com erros de grafia e de concordância verbal, mas descuidei do aprendizado da norma culta. Escolho intuitivamente as construções de frase que me geram total confiança e fujo como o diabo da cruz de outras que experimentei um dia e que, por sua impropriedade, me encheram de vergonha.

O que não perdoo em mim mesma, perdoo menos ainda nos outros. A reprovação mais rápida da história universal da Seleção de Pessoal aconteceu com um colega que iniciou uma entrevista com um estudante universitário perguntando: “Quando você se forma? ”. A resposta veio de pronto: “Eu se formo agora no meio do ano”.

Por seu lado, sempre achei melhor que cada pessoa se exprima verbalmente da forma como aprendeu com os pais ou com a comunidade à sua volta, mesmo que contrarie o rigor da norma culta. Soa mais natural e preserva todo o sabor do jeito particular com que cada agrupamento humano diz o mundo. Um dia, se lhe interessar, a pessoa poderá aprender com mais facilidade como articular sua fala da maneira correta para provocar o impacto que deseja.

Sei por experiência própria que, quando a pessoa finge dominar as regras da semântica com o intuito de passar boa impressão a seu interlocutor, o resultado é inevitavelmente cômico e constrangedor. Foi o que aconteceu quando eu entrevistava um candidato para uma posição de gerência.

Ele havia enviado um curriculum grandiloquente, autoelogioso e volumoso e eu estava curiosa para descobrir o quanto suas experiências profissionais anteriores retratavam a verdade dos fatos. Comecei pedindo que ele resumisse suas atribuições no último posto de trabalho. O rapaz respirou fundo enquanto tentava organizar o pensamento e, de repente, seu olhar se iluminou, como se houvesse descoberto a fórmula certa de me impressionar logo de saída com seu douto saber. Cheio de confiança, ele nem pestanejou ao lançar as seguintes pérolas:

“Permita-me fazer um prêmbulo…”

Mesmo fortemente impactada, não me foi difícil compreender que o ele pretendia de fato era dizer “preâmbulo”. Segurei o riso e respondi com serenidade: “Faça quantos achar necessário”.

Estimulado, ele prosseguiu: “É que eu sou uma pessoa muito detalhista. Adoro bolinar ideias”.

Mais uma vez, bastou uma rápida reflexão para entender que, na verdade, ele queria dizer “burilar”. Só que, dessa vez, algo se agitou em mim. A impropriedade linguística do candidato começou a fazer uma outra lógica, que eu só poderia descrever como um enquadramento psicológico criativo, ainda que alucinado.

É que, mesmo me parecendo surreal a comparação, eu havia chegado à conclusão de que as duas palavras guardam semelhança, ao menos no que diz respeito à intenção. Se você parar para pensar, vai descobrir que aquele que burila alguma coisa, seja pensamento ou algo concreto, está na verdade mudando seguidamente de posição, avançando e recuando, experimentando novos ângulos e aparando arestas. Talvez até mesmo se deixando excitar com as possibilidades que se abrem diante de seus olhos ao manipular com competência profissional ou atabalhoadamente a ideia ou o objeto.

(*) Myrthes Suplicy Vieira, caetanista, é psicóloga, escritora e tradutora.

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Falecimento do caetanista Silvio Pilon.

Mensagem enviada pela nossa colega Ceres Almeida.

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4 de julho de 2017 – Se você for a Santos…

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José Horta Manzano

Cela especial

José Horta Manzano

(caetanista, jornalista do Correio Braziliense e animador do BrasilDeLonge)

Sabe aquela aberração gritante, mas tão gritante, que ninguém mais vê? Pois é, nossas leis e nossos costumes estão recheados de incongruências. São incoerências que, de tão antigas e habituais, passam batido.

Outro dia eu lhes falei do poder conferido ao presidente da República ‒ chefe do poder Executivo ‒ de anular sentença proferida pelo poder Judiciário. De fato, seguindo o que lhe dita a vontade pessoal, o presidente pode comutar penas, indo até o perdão de condenados. É a desarmonia entre Poderes, sacramentada pela Constituição. Todos acham perfeitamente normal. Eu, não.

prison-6Tem muita coisa a mais. Hoje me ocorre mais uma esquisitice nacional. É a instituição de condições de «prisão especial» para diplomados em curso dito «superior». Num país onde se instituem quotas para desafortunados ‒ pretos, pardos, deficientes, pobres, índios ‒ a tradição da «prisão especial» soa fora de esquadro. Não é possível, por um lado, apregoar que todos são iguais e têm direito às mesmas oportunidades e, por outro, tratar alguns como mais iguais que outros. Não combina.

Levando o raciocínio mais ao fundo, chego a conclusão contrastada. Suponho que quem tiver tido melhor formação escolar tenha visão mais abrangente do certo e do errado. Portanto, sua responsabilidade é mais grave que a do bugre que nada aprendeu. Nessa visão, alguém que se tiver valido dos próprios estudos para delinquir merece castigo mais pesado. Cela especial deveria ser reservada aos ignaros, enquanto doutores delinquentes ficariam mais bem instalados junto com a bandidagem.

Sabe por que nenhum sinal de mudança na legislação aparece no horizonte? Porque as leis são feitas justamente por indivíduos protegidos pela imunidade e pelo insituto do ‘foro privilegiado’. Mais uma vez, está dada a prova de que legislam, em primeiríssimo lugar, em causa própria.

Mas deixe estar. A Lava a Jato vem mostrando que as coisas podem mudar. Aliás, estão mudando.

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Clarinda ligou do Brasil !

Queridos leitores;

a felicidade nunca chega sozinha; hoje (dona) Clarinda  telefonou para mim, mas acho que era “por e para” todos os alunos e alunas que ela teve no IE Caetano de Campos, da época em que lecionava Ciências.

Conversamos alguns bons minutos, meio-dia no Brasil, 17 horas aqui na França; conversa boa, não para ser jogada fora; conversa para recordar e cimentar a nossa amizade.

Em seguida chegaram estas duas fotos onde tive a impressão de ter reconhecido  Roseli Carmona, Vera L. Emidio, Ana Maria Lera;  estou em tratamento por causa de uma baixa acuidade visual… por isso a “impressão”.

Quem sabe vocês poderiam me ajudar? Não dando nome aos bois, mas aos  boys  and girls; reconheci a Clarinda e a Maria L. Mistrorigo, mas desconheço o nome da orientadora da classe.

Ajudem-me, por favor, que a curiosidade é bem grande.

Assim que o problema visual for corrigido, poderei usufruir melhor destas imagens.

Aguardo retorno.

Abraços desfocados,

wilma.

20/06/2017.

 

 

Clarinda Mercadante de Lima Pifaia
mercadante.cla@gmail.com
177.215.65.172
Querida Wilma
A felicidade foi minha de falar com você. É voltar um pouco no tempo. Lembro sempre.com muito carinho, de todos os meus alunos. Recordo bem dos alunos, das fotos que lhe enviei, mas esqueci seus nomes, a série e o ano que estudavam. Vai ser muito bom saber algo sobre eles. Na Caetano eu lecionava Ciências e Biologia. Abraços a você e a todos os meus ex-alunos.
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