UMA PRAÇA PARA A REPÚBLICA(Fragmentos da História da Instrução Pública)

Continuação da cópia xeróx da brochra editada em 1994 sob a direção de Maria Cândida Delgado Reis

Página 21

“Caetano de Campos” Fragmentos da História da Instrução Pública no Estado de São Paulo

UMA PRAÇA PARA A REPÚBLICA

Laura Antunes Maciel

Mestra e doutoranda em História pela PUC/SP

No verso, p. 22 encontra-se uma foto da fachada da Escola Normal Caetano de Campos no final do século XIX(acervo do DPH/SP, como se lê na legenda.

 

Nós que hoje passamos apressados pela Praça da República, talvez nunca tenhamos parado para observar ou pensar sobre os vestígios de sua história que ainda permanecem de pé. Acostumamo-nos a vê-la diariamente tomada pelas barracas de artesanato, por manifestantes nos comícios e passeatas e, particularmente, pelas assembléias dos professores estaduais em frente ao edifício da Escola Normal a reivindicar melhores condições de trabalho. Habituados ao corre-corre da metrópole e à sua rápida transformação, nem sequer imaginamos que a praça não foi sempre assim.

Porém, se pudéssemos fazer como os arqueólogos e com paciência ir retirando as camadas de terra e silêncio que se foram acumulando ao lingo do tempo sobre a Praça da República, que histórias ela nos revelaria? Que outras reivindicações e palavras de ordem ela já terá ouvido ao longo de sua existência? Quantos trabalhadores de ontem já não terão ganhado a vida sob suas árvores? Que sentidos, usos, sons e cores poderíamos encontrar soterrados embaixo dos atuais, calados, perdidos na distância?

Em seu livro Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos, Ecléa Bosi mostra como os velhos lugares da cidade são inseparáveis dos eventos que neles ocorreram e a importância desses espaços enquanto suportes físicos da(s) memória(s). Muitas vezes, porém, as lembranças são mais duradouras que os lugares e os edifícios, e elas nos falam de um tempo perdido, de um cenário que já não existe. Para muitos de seus depoentes, a Praça da República, um dos poucos lugares que ainda “estão lá”, é uma referência obrigatória, mas, para cada um, ela vem associada a lembranças de momentos específicos de suas vidas. Dona Lavínia lembra-se, quando menina, dos primeiros livros lidos durante o Primário na Escola modelo da praça, das aulas de tabuada, dos cantos entoados  diariamente e do caminho feito à pé de casa até a praça, cercada com “uma grade bonita de ferro”. Para o Sr. Abel, constitucionalista de 32, vem mais forte a lembrança do tiro que quase o atingiu e matou Miragaia. Dona Brites lembra-se das crianças brincando sob as magnólias floridas do Jardim de Infância, da visita do rei da Bélgica à Escola Normal durante as festas do Centenário da Independência e, já adulta, da praça tomada pelos “burgueses” em 32.

Será através de depoimentos de viajantes, memorialistas e de velhas fotografias que buscaremos alguns relances do passado e faremos, em diversas companhias, um passeio imaginário pela velha praça. Se recuarmos no tempo cerca de dois séculos, ali por volta de 1799, iremos encontrar o local que hoje conecemos como Praça da República ainda como o”Curro das festas reais”. Era um terreno descampado, sem forma definida, distante dos limites da pequena vila, usado nos dias normais como pasto para os animais de carga que viviam soltos pela cidade e para o confinamento do gado  a ser abatido no matadouro estabelecido ali no Beco do Mata Fome, hoje rua Araújo, até aproxitadamente 1830. Talvez vznha daí a origem de seu primeiro nome, Largo dos Curros, ou seja, lugar onde se guardavam ou se encurralavam os touros, antes e depois das corridas, e também onde se mantinha preso o gado a ser encaminhado à matança.

Desde então, ali passou a ser o local das cavalhadas e touradas, acompanhadas de grupos de mascarados e pelo som do ganzá e das zabumbas dos negros, por ocasião das concorridas festas do Espírito Santo ou das comemorações de nascimentos, casamentos, aclamações e outras datas alusivas à Corte Portuguesa. Em 1817, por ocasião dos festejos organizados em comemoração à elevação do Brasil a Reino Unido ao de Portugal e Algarves, ocorrida dois anos antes, o largo (pag. 23)

foi beneficiado pelos primeiros melhoramentos, como o seu alinhamento, a construção de novos currais e de uma arena para as corridas de touro e cavalhadas, que deveriam abrilhantar  os três dias e noites de festas, juntamente com o Te Deum, os sermões, as danças, a iluminação e a queima de fogos de artifício.

Essa foi a praça vista, dois anos depois, pelo naturalista francês Saint-Hilaire em sua primeira visita a São Paulo, a qual chamou sua atenção por ser muito espaçosa, regular- ao contrário das outras que conhecera aqui – , fechada  por muros e aléias de cedros que lhe davam muita sombra. A partir de 1821, quando foi demolido o anfiteatro para touradas, o largo foi aplainado e uma ampla área passou a ser utilizada para manobras dos milicianos, para os exercícios de adestramento de cavalos destinados à condução de charretes e tílburis, e também para a realização dos exames de habilitação dos cocheiros.

Largo da Palha foi outra de suas denominações durante longo tempo, assim como a rua de mesmo nome que fazia a sua ligação com o outro lado do Anhangabaú. Tortuosa e quase desabitada, ela era uma dessa ruas em que “além de meretrizes ou de gente mais ou menos pobre, quase que não se encontravam senão estudantes” da Academia de Direito, conforme as recordações de Francisco de Paula F. de Rezende, ele próprio aluno da Academia entre 1848-1855. A desvalorização da região e a sua segura distância em relação às ruas centrais da cidade explicam a escolha das imediações do Largo dos Curro, mais precisamente um casarão na esquina da rus travessas Aurora e São João, para a instalação do Hospital de Alienados(1848) e, posteriormente, do Hospital dos Varilosos(1862). Esses eram os únicos que se dispunham a morar nessa região da cidade, considerada um mau lugar para viver, sujeito a miasmas pestíferos e a frequentes casos de tifo, varíola e febre amarela. Olargo era evitado pelas pessoas “de bem”, que nele só punham os pés por ocasião das grandes festas e touradas.

Se a aparência da praça custou a ser transformada, não faltaram propostas para a mudança de seu nome que, além de se tornar mais fácil, servia como uma operação para apagar velhos costumes ainda ligados ao passado colonial. Foi o que ocorreu ao Vereador Malaquias de Sales Guerra que, na sessão da Câmara de 28/11/1865, apresentou um projeto de alteração dos nomes de várias ruas e largos, dentre eles o Largo dos Curros e a rua da Palha, transformados oficialmente em Largo e rua Sete de Abril. Ainda que todos concordassem com a justeza do nome, os nobres vereadores não chegavam a um acordo sobre qual fato homenageavam, se a abdicação de Pedro I ou o juramento da Constituição brasileira pelo presidente da Província de São Paulo em 1824.

Todo o esforço de mudança não conseguiu alterar hábitos secularese, para a população, o Largo continuou sendo dos Curros. Até mesmo em alguns documentos oficiais, como as plantas da cidade de São paulo, este espaço continuou a ser assinalado com o nome antigo até o final da década seguinte. Observando esses mapas, dos primeiros anos do século passado até o iníciodeste, vemos que não existiam em São Paulo grandes espaços abertos, e os pequenos largos já delimitados, não passavam, muitas vezes, de um alargamento de rua ou de áreas reservadas em frente às igrejas para ereção de cruzeiros ou realização de festas religiosas. A permanência de certa indefinição nos termos para designar os espaços abertos da cidade- largo, campo ou praça- indica talvez a falta de maior distinção em seus usos. O Largo dos Curros, ao contrário, constituiu uma exceção, por situar-se muito além dos limites da cidade, pela extensão de sua área e pelo uso pagão que determinou o seu nascimento.

(pag. 24)

Até as primeiras décadas deste século, as Posturas Municipais eram também um conjunto de normas simples e imprecisas, meras reproduções de determinações imperiais calcadas, por sua vez, nas Ordenações Filipinas. Assim, o Código de 1886 tentava disciplinar a aparência da cidade estabelecendo a largura das ruas em 16 metros e a figura de um quadrado para os largos e praças, que deviam ter entre 70 e 100 metros, “tanto quanto o terreno permitir”. No entanto, nele já estão expressas as preocupações com os usos que a população paulistana faria dos espaços públicos, tentandocontrolar, através de multas e até prisões, hábitos ainda muito arraigados, como fazer buracos, jogar lixo e excrementos, e deixar os animais pastando livremente pelas ruas e praças. Um certo cuidado com as árvores, plantadas pela Câmara nos espaços públicos, levava os legisladores a prescreverem multas de 30$ ou a penalidade máxima equivalente a oito dias de prisão. Tentava-se garantir que estes espaços cumprissem sua função de “arejar” e facilitar a circulação de pessoas e mercadorias no interior da cidade que crescia.

O rigor da legislação não impediu que, como outros lugares movimentados da cidade, o Largo dos Curros fosse também ocupado pelo comércio ambulante, instalado em quiosques que ofereciam bebidas alcoólicas, café e quitandas. Os Anais da Câmara registram que em 3 de julho de 1883,Beniamino Bispoli conseguiu autorização para nele instalar um quiosque, na face à Rua Barão de Itapetininga, o qual não deve ter fugido à regra de seus concorrentes e, como eles, provavelmente sobreviveu até os primeiros anos de nosso século. Através das páginas de São Paulo Histórico, de Nuno de Sant’Ana, podemos ter uma visão do que eram os quiosques, uma mistura de restaurante e botequim, em barracas móveis de forma oitavada, que provocavam muitas reclamações dos moradores das vizinhanças.Neles se aglomeravam tropeiros, jornaleiros, soldados e mulheres “exalando um cheiro pronunciado de cachaça, bodum e iodofórmio”, além de escravos, bêbados e toda a sorte de desocupados atraídos pela bebida barata.

A aparência do largo parece não se ter alterado muito ao longo do tempo, e os cuidados com ele não passavam de capinação, extinção de formigueiros e entupimentos de buracos que a Prefeitura mandava executar de quando em quando. Á noite, sua escuridão era tanta que os garotos que lá brincavam na virada do século, como o memorialista Miguel Milano, chavam-no de “campo escuro”. Em seu estudo hisórico e literário intitulado Os Fantasmas de São Paulo Antiga, ele nos remete a um tempo em que ninguém imaginava  que um dia a cidade atigisse os bairros recém-demarcados e loteados como Vila Buarque, Santa Cecília e Campos Elíseos, e no qual os terrenos situados pouco além do Largo dos Curros “eram recusados ao preço de 25 centavos o metro quadrado”. Apesar de as ruas já abertas em direção a estes bairros e do próprio Largo contarem com algumas poucas casas, essa região nada mais era que “um vasto campo coberto de arbustos” e de grande variedade de árvores frutíferas, onde a molecada fazia “a festa” aos domingos.

Quando chegava o mes de maio, essa paisagem mudava e uma verdadeira multidão acorria de todos os cantos da cidade para a tradicional Festa da Santa Cruz do Pocinho, cuja igreja localizava-se na rua do mesmo nome, hoje Vieira de Carvalho. Todod o espaço entre a Praça da República, ainda Sete de Abril, e o Largo do Arouche ficava iluminado e “formigava de povo”, que percorria as barracas e tendas improvisadas. Havia leilão de prendas, fogos de artufício, “grupos com pandeiros e violas(…) jogos de dados e búzios(…) aguardente e gelados”, que frequentemente acabavam em desordem e violências que nem a polícia conseguia, controlar,

(pag. 25)

razão pela qual, segundo Nuno de Sant’Ana, as autoridades eclesiásticas proibiram as festas em 1909.não eram apenas as festas religiosas que levavam o paulistano a vencer a distância do largo. Os principais divertimentos do século XIX realizados em locais abertos como o circo de cavalinhos, as exposições de animais, as montanhas-russas, as corridas de cavalos, as touradas, as quermesses, os jogos de azar, as apresentações de lanternas mágicas e os cinematógrafos ambulantes, lá encontravam um espaço adequado –amplo e sem vegetação- e um público sequioso de novidades. Os circos de cavalinhos e as corridas de touro, diversões prediletas dos paulistanos, dependiam de autorização expressa da Prefeitura de Polícia para armar suas lonas e tábuas, e o local determinado para o estabelecimento das companhias foi sempre a Praça da República, até o seu fechamento em 1902 para as grandes obras que a reformariam completamente. Nos dias de espetáculo, as quitandeiras que apregoavam seus doces misturavam-se a outros vendedores ambulantes e à “ralé” que, não podendo pagar os ingressos, disputava os melhores lugares junto às tábuas para acompanhar a função.

A imprensa noticiou a reclamação e até os quebra-quebras promovidos nos circos de touros pelo “populacho”, contrariado, muitas vezes, pela ausência das novidades propagandeadas pelos empresários – como a apresentação de mulheres e palhaços toreadores- ,ou decepcionados com os touros “bravíssimos” que, na estréia, nem “por atenção ao público” mostravam valentia. Tentando evitar estas cenas e num último esforço para conquistar o higt-life paulistano, muitos empresários só permitiam a entrada de pessoas “decentemente trajadas”.

Em 1887, o retorno das corridas de touros, após alguns anos de proibição pela Câmara, foi apresentado pela imprensa  como uma demonstração do “retrocesso” da Capital, no “rol da civilização”, ao tempo dos “divertimentos bárbaros. Uma carta publicada em O Estado de São Paulo de 13/11/1877, em sua Seção Livre, fazia insinuações sobre a condescendência dos vereadores e também do governo, para quem cuidar da “educação do povo” consistia “apenas no levantamento de custosos edifícios”. Terminava ironizando que só faltava formar-se na Capital, “uma associação para nos divertir com congadas(…) e nos fazer passar verdadeiras horas “africanas”.

Este debate reacenderia após a Proclamação da República, com a decisão do governo do Estado de São Paulo de usar, na construção de um edifício monumental para a Escola Normal, o dinheiro e o espaço antes destinados pelo Império a uma catedral. Com este gesto, buscava-se marcar nova postura do Estado diante da Educação – laica e popular- , escolhendo simbolicamente o largo, rebatizado como Praça da República, no afã de perpetuar as glórias do movimento vitorioso. Em 2 de agosto de 1894, na inauguração do edifício que ficaria conhecido como Escola Normal da Praça, “o barro e o mato rasteiro do imenso largo ainda inculto” já criariam embaraços para os milhares de pessoas  que afluiam ao ato. A partir de então, sua aparência descuidada e os divertimentos condenáveis que oferecia causaram constrangimento tanto às normalistas que se dirigiam à Escola quanto às prósperas famílias que, pouco a pouco, constríam belas casas em suas imediações. A inauguração do Viaduto do Chá, em 1892, veio facilitar o ecesso à “cidade nova”, encurtando as distâncias até o velho largo e ajudando a selar o seu destino.(Pag. 26)

(Na página 27 vemos a imagem do acrevo do DPH/SP com a seguinte legenda:

Praça da República por volta de 1900, vendo-se ao fundo o edifício da escola normal

(Escola Normal em minúsculas, seguido dos créditos)

E assim, num belo dia de 1902, aconteceu o que muitos paulistanos já pressentiam: a praça foi cercada com arame farpado e, durante dois anos, a Prefeitura aterrou, construiu pontes, lagos e cascatas artificiais, desenhou alamedas e jardins, iluminou, semeou bancos e estátuas, e plantou plátanos, chorões, cedros, jacarandás, palmeiras e outros ornamentos vegetais mais exóticos. Quando as obras foram enfim concluídas, a Praça da República era um modelo de jardim moderno projetado para o repouso, a contemplação e o lazer de alguns poucos que podiam circular entre as alamedas, posar para as lentes dos fotógrafos e desfrutar da paz que reinava em seu interior por elegantes gradis de ferro e pelos olhares atentos de guardas e porteiros.

A municipalidade, através de regulamentos para os jardins públicos, como o Ato n° 340 de 3/1/1910, cuidava de impedir o acesso aos “ébrios, alienados, descalços, indigentes, vendedores ambulantes” e de todos que não estivessem “decentemente trajados”, punindo também os danos ao gramado , plantas e estátuas, algazarras, propagandas e “atos indecorosos”. Todo cuidado era pouco para manter afastados os indesejáveis tradicionais, aos quis vieram juntar-se as “mariposas do amor” que, expulsas da região da Sé pela reforma urbana de 1911, acomodaram-se nas conhecidas “casas de tolerância” e “pensões alegres” que se espalharam pelas ruas Ipiranga, Timbiras, Amador Bueno, Vitória e pela Praça da República. O pesquisador Guido Fonseca, em seu livro História da Prostitição em São Paulo, acompanha, através da imprensa, as intervenções policiais na região para apartar brigas ou investigar os crimes violentos envolvendo fregueses, aliciadores e as próprias mulheres que disputavam clientes.

Sem contar, é claro, os inúmeros bordéis chiques da rua Vieira de Carvalho e do Largo do Arouche e, mais além, na Avenida Angélica, as cortesãs de luxo que se instalaram em finas residências particulares, atraindo um público de boêmios que circulava também pelas confeitarias, teatros, cafés-concerto e albergues abertos nas imediações do Teatro Municipal. Para estes, a Praça da República oferecia recantos agradáveis para encontros fortuitos, duas lojas onde podiam adquirir flores naturais e plantas ornamentais, além do moderno Cine Teatro República, o” preferido da alta sociedade paulistana (…)[com] boas salas de espera e salão para chá, (…) magnífica orquestra”, frisas, camarotes e galerias, de acordo com o Guia Ilustrado do Viajante, que o empresário Jacintho Silva organizou para servir de “cicerone” aos forasteiros.

Os novos habitantes das imediações tiveram, no entanto, de dividir a nova Praça da República com populares e trabalhadores de todos os ofícios que se espremiam nas inúmeras habitações operárias e cortiços do distrito de Santa Efigênia. As costureirinhas que riem e falam alto”, balançando os quadris”, descritas por Alcântara Machado no livro Brás, Bexiga e Barra Funda, costumavam passar por ali ao deixar o trabalho nas casas de moda elegantes da Barão de Itapetininga. Os moradores dos bairros operários também não deixavam escapar a oportunidade de um passeio, aos domingos, pelo jardim mais elegante de São Paulo ou, em datas especiais como o corso, pelo Largo do Arouche, e depois as brincadeiras com confete e bisnagas nos velhos carnavais da .

No entanto, a Praça da República não ficou marcada na memória apenas por ser o lugar das festas e diversões populares, o cenário dos desvaneios de jovens normalistas ou, ainda, o recanto elegante para o lazer das tradicionais famílias paulistanas. Ela foi também o espaço conquistado para a livre expressão e discussão de ideias desde 1888, quando alguns rapazes, provavelmente acadêmicos de Direito, promoveram uma reunião para debater “as questões do interesse público e os ainda “mirabolantes sonhos de República.” Eles acabaram sendo dispersos por soldados do Corpo da Guarda Urbano, após troca de apupos e “golpes de refle na corja”, a qual escapou como pôde. Não deve ser esquecida a presença dos trabalhadores(pag. 28)

durante os movimentos grevistas e as passeatas por ocasião dos Primeiros de Maio, que incluiam a praça em seus programas, até as primeiras décadas deste século(XX-nota da copista), em função da grande concentração de cortiços e habitações operárias no distrito de Santa Efigênia.

Em 1932, a praça ganhou as manchetes dos jornais como cenário dos episódios da noite do 23 de maio. Se para uma parcela da população, como Dona Brites, ela não passou de uma “revolução burguesa” quae marcou “o começo do fascismo”, para os que moldaram a versão oficial dos fatos ela significou a luta dos paulistas pela Constituinte e pela legalidade. Tudo começou quando, após o empastelamento dos jornais Correio da Tarde e A Razão, duzentas pessoas dirigiram-se à Praça da República, esquina com a Barão de Itapetininga, com a intenção de fechar também a sede da antiga Legião revolucionária, criada por Miguel Costa. Durante a noite e a madrugada seguinte continuaram os tiros, a invasão e o incêndio do prédio, acompanhado pelos moradores doa lto do edifício. Pela manhã, o saldo desses acontecimentos incluía onze feridos e dois mortos – Miragaia e Camargo-, que se tornaram célebres ao dar origem ao MMDC nascido dias depois.

Trinta e dois anos depois, a praça assistiria à saída da marcha da família paulistana “com Deus e pela Liberdade” em direção à Praça da Sé, onde pregaria a união da “pátria” contra a “foice e o martelo”. Nela desfilaram alunos do Mackenzie, comemorando o Trina e Um de Março e a queda de Jango. A partir de 68 ela abrigou as reuniões de estudantes e viu acontecer muitos dos confrontos entre eles e a cavalaria nas “manifestações-relâmpago” da UNE, já na ilegalidade. Lá estacionaram os “tatus” e “brucutus” com que a Polícia Militar lançava jatos d’água para dissolver as manifestações cada vez mais frequentes contra o regime militar.

Na campanha das Diretas-já!, ainda que tenha perdido o lugar para a Praça da Sé e para o Anhamgabaú, a Praça da República teve papel coadjuvante, funcionando como ponto de encontro dos grupos que se dirigiam aos grandes comícios nesses locais. Estas cenas se repetiram em 1991, quando a população saiu novamente às ruas – e também à Praça da República- vetida de preto, “enlutada”, para expressar seu repúdio contra o envolvimento de um presidente da República com as práticas mais ostensivas de corrupção que o país já teve notícia. Como vimos, a Praça da República constituiu-se e afirmou-se como um dos espaços públicos mais democráticos da cidade, servindo de palco para acontecimentos marcantes e de inspiração política as mais diversas da nossa história recente.

BIBLIOGRAFIA

ARAUJO, Vicente de Paula. Salões, circos e cinemas de São Paulo. São Paulo: Perspectiva, 1981.

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: T.A. Queiroz, 1983.

FONSECA, Guido. História da Prostituição em São Paulo. São Paulo: Resenha Tributária, 1982.

JORGE, Clóvis de Athayde. Consolação: uma reportagem histórica. São Paulo: Departamento do Patrimônio Histórico/SMC(Série História dos Bairros de São Paulo, 22)

MACHADO, Antônio de Alcântara. Brás, Bexiga e Barra Funda. In: Novelas Paulistanas, Rio de Janeiro: José Olímpio. 1959.

(pag. 29)

MARQUES, Gabriel. Ruas e tradições de São Paulo: uma história em cada rua. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1966.

MILANO, Miguel. Os fantasmas de São Paulo antiga: estudo histórico-literário da cidade de São Paulo. São Paulo: Saraiva, 1949.

REZENDE, Francisco de Paula Ferreira. Minhas Recordações. In: BRUNO, Ernani da Silva(Org.) Memória da cidade de São Paulo- depoimento de moradores e visitantes: 1553-1958. São Paulo: Departamento do Patrimônio Histórico/SMC(Série Registros, 4)

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem à Província de São Paulo. São Paulo: EDUSP/Itatiaia.

SANT’ANNA, Nuno. São Paulo Histórico: aspectos, lendas e costumes. São Paulo: Departamento de Cultura, 1939.

SÃO PAULO Antigo. Planta da cidade. São Paulo: Comissão do IV Centenário, 1954.

SILVA, Jacintho. Cidade de São Paulo: guia ilustrado do viajante. São Paulo: Monteiro Lobato, 1924.

USTERI, Alfred. Guia Botânico da Praça da República e do Jardim da Luz. São Paulo: PMSP, 1919.

FONTES OFICIAIS

Atlas da Câmara municipal de São Paulo

Relatório de Prefeitos

Código de Posturas do Município de São paulo

Coleção de Leis e Atos Municipais.

PERIÓDICOS

Correio Paulistano

A Província de São Paulo

O Estado de São Paulo

Diário de São Paulo

Folha da Manhã

Meus comentáriois:

Vejam como o espaço público é importante para a humanidade: as ágoras da Grécia, o Senado Romano, os átrios das catedrais e igrejas, as praças, as grandes avenidas hausmmanianas, lugares onde o povo discutia(participando diretamente ou como ouvinte) das leis a serem votadas na Antiguidade; onde as diversões medievais de cultura popular e religião se misturavam sob o olho vigilante da igreja e do poder; das praças onde regimes caíram, reis foram guilhotinados, ditadores banidos; das grandes avenidas de Paris, criadas para canalizar as massas que protestavam nas ruelas estreitas onde podiam erguer barricadas.

Hoje o espaço é controlado pelas câmeras de circuito fechado de TV, pelos flashs dos radares sobre os automobilistas e com agentes da polícia em trajes civis durante as manifestações.

Daqui de longe, penso em São Paulo e todas as cidades que repetem a experiência americana onde a PRAÇA de hoje é o Shopping Center.

Você caminha na Europa por RUAS, PRAÇAS e AVENIDAS onde o comércio é linear e TODO MUNDO sai às ruas principalmente à noite; aqui a violência é praticamente nenhuma nas ruas de movimento; na Espanha,não se come em casa: as pessoas saem para jantar nas ruas e praças e depois das 21h.

Ninguém pega o carro para ir comprar pão; vamos a pé; para trabalhar tomamos ônibus e metrôs sem complexo.

Como fazer um protesto ou uma reivindicação dentro de um Shopping Centes, com elevadores pequenos e escadas dispersas e estreitas feitas para que as pessoas obrigadas a perambular somente vejam vitrinas e onde os restaurantes com falta de boa acústica, propositalmente banhados na luz artificial, com cores agressivas nos seus letreiros procuram favorecer uma rotatividade máxima?

Pessoalmente odeio os Shoppings Centers!

Agora pensem naquela nossa pracinha, cujas atividades sociais permitem a recepção das crianças que ficariam à toa em casa por causa do trabalho dos pais; pensem nas feiras de artesanato que possuíram uma época onde a qualidade dos produtos era correta ou mesmo na triste Praça da República que também foi a do Repúdio e que se bobearmos vira estacionamento, prédio alto, shopping center.

Depois de terem lido o trabalho de Laura Antunes Maciel e terem tido à boca a sensação de um certo sabor do passado, cuidem bem da nossa praça.

Esta jóia de artigo da Laura Antunes não é a única presente na brocura; daqui para a frente vocês terão o prazer de ler outros trabalhos.

Prometo-lhes copiar outro neste fim de semana para pô-lo no blog em breve.

Abraços e boas leituras

Wilma(28/01/2011)

Anúncios
Esse post foi publicado em outros documentos, Uncategorized. Bookmark o link permanente.

6 respostas para UMA PRAÇA PARA A REPÚBLICA(Fragmentos da História da Instrução Pública)

  1. Maria Lúcia de França Camargo disse:

    Olá Wilma, como está?
    Fiquei emocionada ao ler sobre a Praça da República, tantas lembranças me voltaram à mente e saudade daqueles belos dias. Antes de entra no IECC, como aluna, frequentei o parquinho da prefeitura, usando aquele calção vermelho com elástico nas cochas. Depois mais tarde, quantas vezes andei por aqueles caminhos arborizados, de mãos dadas com meu namorado.Cresci morando na Av.S.Luiz e estudando no IECC, a Praça da República faz parte da minha vida e da minha história. Beijos

    • reimsdo disse:

      M. Lucia;
      segunda-feira colocarei outro capitulo da brochura, ainda mais interessante que os primeiros e muito menos que os proximos.
      Continue a visitar o Blog e boa leitura.
      perdoe-me pela falta de certos acentos agudos do teclado que estou usando agora.
      Saudade, wilma
      29/01/2011

  2. Maristela Debenest disse:

    Wilma, só posso lhe dizer um enorme muito obrigada pela disposição e afinco em nos dar a conhecer um artigo tão emocionante pra quem viveu boa parte da infância e da adolescência nos arredores da Praça. Meus avós moravam na Barão de Itapetininga e, como meus pais trabalhavam ambos, quando pequena eu era levada para a casa dos avós pela manhã, almoçava e era levada para a Caetano, sempre pelo meio da praça, pra dar comida aos patos e ver os bichos-preguiça que viviam nas gigantesca árvores. No final da aula, meu avô me pegava na porta da escola e voltávamos pela Ipiranga, com frequentes paradinhas num bar pra comprar balas ou um sorvete.
    Voltei a rever tudo isso por sua causa, duplamente: pelo livro (que amei e vou reler) e por este artigo.
    Mais uma vez, obrigada de coração.
    Maristela

    • reimsdo disse:

      Obrigada, Maristela.
      Como você vai reler o livro, aproveite para fazer uma “divulgaçãozina” entre amigos, visto que vendi 363/1.000 exemplares(nada mal para menos de 2 meses de existência) e gostaria de zerar minhas contas para poder pôr no mercado outro livro, desta vez de contos!
      Abraços e boa releitura, wilma

      PS: no Blog estarei pondo trabalhos muito interessantes que “pesquei” numa brochura da Secretaria da Educação de São Paulo coordenada pel aprofessora Maria Cândido Reis.
      30/01/2011

    • reimsdo disse:

      Obrigada, Maristela.
      Como você vai reler o livro, aproveite para fazer uma “divulgaçãozina” entre amigos, visto que vendi 363/1.000 exemplares(nada mal para menos de 2 meses de existência) e gostaria de zerar minhas contas para poder pôr no mercado outro livro, desta vez de contos!
      Abraços e boa releitura, wilma

      PS: no Blog estarei pondo trabalhos muito interessantes que “pesquei” numa brochura da Secretaria da Educação de São Paulo coordenada pela professora Maria Cândido Reis.
      30/01/2011

  3. Pingback: Wordpress faz um resumo do nosso blog em 2011! | Caetano de Campos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s