QUANTO LATIM!

Dois leitores escrevem suas opiniões sobre a outrora Nova Lei de Diretrizes e Bases e a  retirada do Latim no ensino ginasial.

Leiam o que eles pensam:

JOCA:

__”Sobre a eliminação do Latim gostaria de resgatar e complementar com as informações a seguir.

A partir de 1962 foi implantada a “Lei de Diretrizes e Bases” que muito foi comentada na época. Imagino que tenha sido de âmbito estadual. Na visão limitada dos meus 12 anos, só senti as consequências desta lei.

Ela provocou uma “revolução”  impactando muito forte na vida da gente visto que além de reestruturar as matérias do currículo, mudou todo o regime de notas.

Se não me falha a memória, e outros poderão me ajudar e corrigir, eu consigo lembrar o seguinte: o Latim foi eliminado do currículo, o Frances postergado para a 3ª série e 4ª séries, matérias como Canto Orfeônico, Trabalhos Manuais ficaram sem nota (s/avaliação).

O regime de avaliação que perdurou até 1961, eu bem me lembro como era torturante: provas e notas mensais envolvendo  10 a 12 matérias de março a junho e agosto a novembro num total de 8 rodadas; exames escrito e oral em junho/julho e dezembro. Imagina a situação em junho de termos de fazer as provas mensais encavalando com os exames de meio de ano avançando até julho…

Com a mudança implantada por essa Lei, passamos para o regime de avaliação bimestral, sem exames na metade do ano e somente exame escrito em dezembro (exame oral fora extinto), e ainda foi instituída a dispensa de exame final para médias acima de 8,5.

E isso tudo para um número reduzido de matérias sujeitas a nota (no máximo de 8, já que as outras só contava presença).

A carga de provas de avaliação foi reduzida a praticamente 1/3 do tinha antes (alguns professores mantiveram provas intermediárias dentro do bimestre, mas a pressão era muito menor). E com boas notas, já entrávamos em férias no fim de novembro!!!!

Ficou bem marcado em minha memória as consequências desta Lei pois impactou profundamente na vida escolar de todos nós. Sair daquele “sufoco” estafante para entrarmos num regime escolar “leve e tranquilo”.

Uma curiosidade a ser lembrada é que no primeiro dia de aula em 1962, na minha 2ª série, a Dna. Minervina viu que tinham 2 repetentes em nossa classe que haviam sido reprovados em Latim e Frances, e essas matérias não estavam mais no currículo. Ela encaminhou-os para a diretoria, porque não tinha mais cabimento eles repetirem de ano por conta de duas matérias que não “existiam mais”.

E para eles a “o grande presente de início de aulas” foi de “ganharem a aprovação para a 3ª série por decreto”.Em nenhum momento mencionei minha aprovação ou desaprovação com relação à Lei de Diretrizes e Bases implantada em 62. Apenas relatei os fatos da forma como foram sentidos por mim.”

LU: __”Não sei dizer se o sistema de ensino pelo qual passei, que você diz que era “um sufoco estafante”, assim era, pois foi o único que conheci como aluna, realmente tínhamos provas mensais de cada matéria, que chegavam a 10,12, contando com Canto Orfeônico, Trabalhos Manuais, Desenho, Educação Física, que também deixavam para 2* época e reprovavam; além das famosas “sabatinas”, estudávamos muito. Os cálculos para sabermos quantos precisaríamos tirar na prova escrita para ir para a oral, precisando de nada, eram quase um teorema, tanto se somava, multiplicava, dividia para se chegar a um resultado. Devo muito da minha formação a esse estudo taõ rígido e aos ótimos professores que tive no IECC. O português escrito e falado que
 tenho, devo ao Prof.Raul e à minha família.
 Durante 20 anos lecionei na Pré Escola,  e foi o desenho, educação física e trabalhos manuais que muito me ajudaram a montar minhas aulas e por 20 anos lecionei, orientei e dirigi no ensino fundamental, infelizmente, pude constatar que todas as mudanças que aconteceram com a “Lei de Diretrizes e Bases”, só pioraram o ensino, desmotivaram os professores e está nos dando como resultado os professores que temos hoje.
 Muitos com os quais trabalhei, em escolas particulares, moças jovens, como eu era recém formada, tive que lhes ensinar inclusive a gramática, de tão errado que falavam, sem fazer as colocações verbais e nominais corretamente.
 Os alunos se tornaram  irresponsáveis e desrespeitosos quando deixaram de chamar os prof. de Srs., tratando-os de igual para igual, enfim, o resultado está aí, no que estamos vendo quase que todos os dias, nos noticiários, alunos que agridem os professores, fisica e oralmente, que passam de ano , sem o mínimo conhecimento necessário para frequentar  próxima série.
 Esse “regime leve e tranquilo” como você o denominou e que tanto gostou, pois não precisava nem fazer as provas finais se tivesse média, está aí, dando-nos os resultados,
 principalmente nas escolas públicas, formando cada vez mais, homens e mulheres quase semi analfabetos.
 Nem por um só segundo de minha vida, recrimino a instrução e  educação pedagógica-educacional que tive e sinto muito, ver tudo isso ser guardado dentro de um baú, como coisa velha, mas ainda tenho esperança, que apareça alguém para reformular tudo que está errado dentro do ensino ” primário e ginasial”.
 Preocuparam-se tanto com a nomenclatura, que se esqueceram de se preocupar com o ensino, a transmissão de conhecimentos. Infelizmente, a Ganância está vencendo o Respeito.
 Desculpem o desabafo de uma professora , que recebeu muito, teve muito para dar, mas infelizmente, agora está presenciando a decadência daquilo que é fundamental para o futuro de um país.

Abraços  de  Lu Camargo

JOCA__”Apenas exprimi o que eu senti como um adolescente de 12 anos, ao contrastar a vida escolar sob um regime de “sufoco estafante” com um regime “leve e tranquilo”. E ao me exprimir com estas qualificações, fi-lo de maneira bem subjetiva fiel ao que senti. Cada um pode sentir de maneira diferente: o que para uns é tranquilo, para outros pode ser pesado conforme suas capacidades.

Eu tirei ótimas notas tanto num sistema como no outro, com a diferença de que no regime “leve e tranquilo”  efetivamente foi muito mais fácil para mim. Será que isto por si me levou a aprender menos?

Os professores mantiveram o mesmo padrão de cobrança nas provas. E isto foi o mais importante. Não abriram mão do nível de exigência.

E vou além ao dizer que não me faltou base para prosseguir meus estudos nos anos subsequentes no ensino médio no Colégio de Aplicação, na Escola Politécnica e cursos de pós-graduação que fiz.

Achei que ao propositadamente mencionar “essa mudança de regime” que tão profundamente impactou na vida escolar provocaria este tipo de discussão, especialmente ao olharmos para a situação do ensino(?) nos dias de hoje.”

Nunc est ora…Amém!

24/02/11.

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9 respostas para QUANTO LATIM!

  1. Octavianoi Galvão Neto disse:

    Há pouco a acrescentar ao que o Joca e a Lu Camargo comentaram, pois concordo integralmente com eles. Entretanto, tendo por esposa uma psicóloga clínica que recebe em seu consultório muitos pré-adolescentes e adolescentes, acabo sabendo de histórias de arrepiar relativamente a “educação” atual.
    E não são histórias de escolas públicas, não. São dessas escolas que cobram de R$ 1.500,00 a R$ 2.500,00 por mês (!!!) para “educarem” a rapaziada de hoje e que só tem foco no ENEM e no Vestibular.
    Uma vergonha, um estelionato; verdadeiro descalabro pois eles estão entregando – em grande parte – analfabetos funcionais para a sociedade.
    De fato, que saudades de escolas como o IECC, apesar das difuldades que sempre existiram no ensino público, reconheça-se.

  2. Eloísa Maria Rocha Salvato disse:

    Como a Lu Camargo, só conheci o primeiro sistema como aluna e achei maravilhoso. Tínhamos latim,francês etc, desde a primeira série do ginásio. O inglês entrava no segunda série. Na classe a Sylvia Galvão não admitia o português e tínhamos uma base sólida. Fiz o clássico num curso noturno e discutíamos o Discurso do Método nas aulas do Giannotti e Madame Staël entre outras coisas, com o Prof. Pinho, assistente do Silveira Bueno, como o Felipe Jorge.Não se aprendia só o que deveria cair no vestibular, porque era exame escrito e oral, com ponto sorteado. Ninguém sabia o que poderia cair. A lista era imensa. O exame oral era com 3 professores da faculdade,que eram professores doutores. Conheci o segundo sistema como professora e nos ano 70 ainda se conseguia manter o nível razoavelmente. Tínhamos alunos na escola pública que ingressavam na FAU e outras faculdades da USP. Nos anos 80, tudo começou a cair, porque os professores formados antes de 64, começaram a se aposentar. Em 93, quando me aposentei, éramos os ultimos dos moicanos. A qualidade dos professores formados pós os anos 70 era de chorar e os alunos eram semi analfabetos e daí foi ladeira abaixo. Aliás, hoje sofremos uma crise geral de incompetência. Eloísa.

  3. João Carlos venegas Falsetti - Joca disse:

    Muito boa colocação feita por Eloisa Salvato, que nos deu uma visão histórica do que aconteceu no ensino. A decadência do ensino se acelerou a partir do momento que o poder público ao supostamente pretender “democratizar o ensino”, deu total prioridade à quantidade em detrimento da qualidade, esvaziando o ensino público, num processo que resultou na desvalorização de seus professores e na permanente insuficiencia de recursos tanto para fazer funcionar as escola com um mínimo de decência.
    O buraco é bem mais embaixo.
    O principal ponto de apoio sobre qual se constroi um bom ensino, o professor, entrou em colapso. Comprometimento é algo difícil de encontrar no ensino público atual. Os bons professores, os mais antigos, ainda “aguentaram” idealisticamente o seu sacerdócio e “seguraram a onda” contra tudo e contra todos por muitos anos até aposentarem. Depois o caos tomou conta de vez.

    O colocação feita pelo meu bom colega de classe Otaviano também foi muito importante.
    O suposto “ensino de ponta” que presenciamos nas escolas que se destacam no ENEM se carateriza por um processo de compactação de conteúdo na cabeça dos alunos por saturação, onde a escola exerce o papel de uma “máquina de ensinar” e seus alunos o papel de robôs que devem salvar todo este conteúdo em seus HD´s mentais.
    O foco é “ensino por resutados quantitativos”: notas no ENEM e aprovação nas faculdades.
    O lado humano é desconsiderado totalmente no que diz respeito ao estímulo ao aluno em se “descobrir” por dentro, contactar sua individualidade e sentimentos para aprender a exercitar seu senso crítico e sua criatividade e poder exteriorizar suas capacidades e potenciais de maneira natural e espontânea. Ou seja, ter seu próprio “norte” e saber o que quer.
    Isto tudo bem num momento delicado e crítico da formação do jovem em plena sua adolescência em meio a decisões que será obrigado a tomar, decisões estas que afetarão seu futuro.
    Ele não tem segurança para escolher um rumo na vida, porque ele se desconhece por dentro.

  4. wilma schiesari-legris disse:

    Amigos:
    Quando a forma e o conteúdo não se coadunam mais, quando os valores morais são substituídos por pseudo-valores de consumismo material, quando as mentalidades se esvaziam de qualquer ideologia e o homem perde a sua humanidade, então chega o caos.
    Benvindos ao meu blog e benvindo seja o blog entre todos, um espaço que deixa lugar para uma certa nostalgia mas que há de privilegiar a reflexão.
    Obrigada,
    Wilma

  5. Vera Lucia Rosito Pivotto (Vera Lucia Roslindo Rosito) disse:

    Prezados Colegas
    Ingressei no curso ginasial em 1962, portanto fiz parte da turma do ensino “leve e tranquilo”.Minha irmã, quatro anos mais velha, também foi Caetanista e sempre foi uma aluna brilhante.Eu me lembro como era estressante enfrentar uma prova do prof.Biral ! Mas ela nunca ficou para segunda época em nenhuma matéria.Eu me lembro que fiquei aliviada quando soube que não precisaria enfrentar o “carrasco”.
    Quando foi adotado o sistema que isentava os alunos do exame final, desde que atingissem uma determinada média, enquanto nas outras escolas a nota exigida era 7, para nós caetanista era 8,5.Continuamos tendo um ensino de ótima qualidade e isso fez toda a diferança em minha vida de universitária e profissional.
    Infelizmente, com o tempo o sentido de “educação” em nosso pais mudou muito.
    Quando eu estava terminando o curso Normal, em 1968 fiz um estágio de final de curso em uma escola estadual no bairro do Sumaré.Conduzi uma classe por duas semanas e ao fuinal desse per´piodo pedi a eles que escrecessem uma redação.Eram alunos do quarto ano primário e vocês se recordam q

  6. Vera Lucia Rosito Pivotto (Vera Lucia Roslindo Rosito) disse:

    Houve um probleminha com o meu texto.Tentarei retomar.
    Eu dizia que conduzi uma classe de quarto ano primário pelo período de 15 dias.Pedi aos alunos que escrevessem uma redação.Vocês devem se lembrar que havia um “diploma” do curso primário pois bem, aqueles alunos receberiam o tal diploma na semana seguinte e, para minha surpresa, não conseguiram escrever NADA.
    Questionei a diretora da escola como eles poderiam receber um diploma se não sabiam sequer escrever.Bem, a resposta que recebi foi “bastante” animadora.A gentil senhora, batendo em meu ombro disse-me: – Minha filha, você está saindo da escola normal agora, com a cabeça cheia de sonhos.Para o nosso país, saber escrever o nome é mais que suficiente.Fiquei traumatizada!!!Infelizmente o que vi dali para frente mostrou-me que ela não estava errada.QUE PENA!!!!!!!

    • João Carlos venegas Falsetti - Joca disse:

      Vera, é um prazer vê-la atuante neste blog, enriquecendo-o com dados importantes. Acredito que você não lembre de mim, mas nos conhecemos em fins de 65 na própria escola (eu já não estava mais na Caetano, mas insistia em rever o “lar”) e o fato curioso, que foi ponto de interesse comum entre nós, foi de estarmos usando lente de contato, que era “algo relativamente novo” para aquela época e termos conversado sobre nossas experiências a respeito. Depois voltamos a nos encontrar no baile de formatura da sua turma, da qual minha prima Edna Venegas Franção fazia parte. Deixo-lhe aqui um abraço e minhas saudações caetanistas.

      • Vera Lucia Rosito Pivotto (Vera Lucia Roslindo Rosito) disse:

        Caro Joca
        Gostaria de parabenizá-lo pela memória fantástica que você demonstrou ter!Acho que conversamos muito sobre as tais lentes de contato pois as experiências eram muitas e digamos, até um tanto hilárias.Não sei se você conseguiu livrar-se delas pois eu ainda dependo das mesmas até hoje.Tenho certeza que a nossa querida Caetano era realmente um LAR para nós e podemos observar isso, nitidamente, neste blog.
        Um grande abraço e também as minhas “Saudações Caetanistas”

  7. wilma schiesari-legris disse:

    Leitores e Verinha,
    o texto continua acima ou abaixo do outro começado; vai depender do programa wordpress pois é a primeira vez que aparece um problema de corte na comunicação.
    wilma

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