O JARDIM DA INFÂNCIA CAETANO DE CAMPOS

 

Trabalho de:

Moysés Kuhmann Jr

 

Mestre em Educação pela PUC/USP e pesquisador da Fundação Carlos Chagas

Este texto aparece na brocura dos 100 anos do Instituto de Educação Caetano de Campos, dirigida por Maria Cândida Delgado Reis(a partir da p.61) e é uma pérola de documento.

Saboreiem este e aguardem o que vai se seguir porque a copista é lenta!

      1994. Apenas nas fotos é que podemos ver o prédio do Jardim da Infância, pois ele não está mais lá. Foi demolido no início da década de 40, na gestão do Prefeito Prestes Maia, para dar lugar à Avenida São Luís. Triste lógica de alguns administradores municipais que, no afã de realizar grandes obras, não hesitam em passar por cima dos símbolos históricos e culturais.

No Estudo de um Plano de Avenidas para a Cidade de São Paulo, elaborado por Prestes Maia em 1930, então engenheiro da Secretaria de Viação e Obras, nem se falava na existência e demolição do prédio do Jardim da Infância: lá se previa “a derrubada de toda a Escola Normal”, para em seu lugar construir outro edifício, onde funcionaria a Câmara dos Deputados, obra monumental, encimada por um capitólio, no estilo americano.

      A Escola permaneceu, mas o Jardim não teve a mesma sorte. Aliás, Prestes Maia não parecia muito simpatizante com a educação infantil: em sua gestão, diminuiu-se o ritmo de construção de parques infantis(criados pelo Prefeito anterior, Fábio Prado) para apenas três, dos quarente e seis previstos.

      1894. Inaugurava-se o edifício da Escola Normal Caetano de Campos. O prédio do Jardim ainda não estava lá, mas fazia parte da proposta do Partido Republicano Paulista – PRP, do projeto da Escola Normal(Decreto n° 27, de 12/3/1890) e dos planos de Gabriel Prestes, filiado ao PRP desde 1890, tendo sido eleito deputado em 1891.

      Dois anos depois, o projeto foi concretzado no Decreto n° 342(2/3/1896) assinado por Bernardino de Campos, Presidente do Estado(governador), e por Alfredo Pujol, Secretário do Interior, e que dizia em seu parágrafo único:

“Fica criado um jardim da infância junto à Escola Normal da capital, como preparo à Escola Modelo; revogadas as disposições em contrário”.

Foto de 1894. 

      A inauguração do Jardim aconteceu no dia 18 de maio de 1896, ainda em caráter provisório, em antigo prédio da Avenida Ipiranga, até a conclusão do novo edifício, mandado construir por Bernardino de Campos e concluído logo no ano seguinte.

      O novo prédio, aos fundos e completamente isolado do resto da Escola Normal, era cercado por um vasto jardim. Davam acesso a ele duas escadas em fraca rampa com pequenos degraus, assim construídas para evitar que as crianças caíssem ao subí-las. Compunha-se de quatro salas de aula e um grande salão central em forma octogonal para reuniões gerais e solenidades infantis, de 15m x 15m, onde foram pintados a óleo, entre outros, os retratos de Froebel, Pestalozzi, Rousseau e Mme. Carpentier. O salão era coberto por uma cúpula metálica, abaixo da qual havia uma galeria sustentada por colunas de ferro, destinadas ao público por ocasião de festas. Havia mais duas salas anexas ao corpo do edifício, uma para depósito do material e outra para reunião das professoras, perfazendo uma área de 940m2. Dos lados e no meio do jardim erguiam-se dois pavilhões para recreio das crianças.

      Em 1946, para as comemorações do Cinquentenário do Jardim, Antonio Paim Vieira, que havia sido seu aluno no início do século, escreveu o texto “Evocações”, buscando apresentar uma visão do Jardim da Infância como conheceu:

            “[Um lugar] todo palpitante de cânticos, de cores e de frêmitos. (…) [O prédio,] de altas paredes de cristal, parecia uma descomunal lanterna em que o sol acendia rutilações multiespelhando-se em seus vitrais esmerilhados multicolores e junto e dentro dela agitava-se o bando inquieto de seus pequeninos alunos, como borboletas e mariposas tontas de luz”.

A CLIENTELA DO JARDIM

      Se a Escola Normal e o Jardim da Infância representavam a República, representavam também os limites em que este regime constituiu em nosso país, relutante em trazer de fato a democracia ara o povo brasileiro. O elitismo do Jardim já foi identificado por Kishimoto em seu estudo sobre a pré-escola paulista, no qual ressalta que dentre as finalidades de caráter social apresentadas por Gabriel prestes para a instalação daquela escola infantil destacava-se a necessidade de atender ao grande número de crianças confiadas a governantas.

      Desde a primeira turma de crianças e por um longo período, o caráter de instituição pública modelo irá atrair as “melhores famílias” paulistas.

      A cúpula do PRP foi um dos setores presentes na primeira turma. Bernardino de Campos – que foi presidente do Estado por duas vezes(1892-1896 e 1902-1904) e membro da Comisssão Executiva do partido, por várias vezes, entre 1892 e 1914- matriculou dois filhos. Havia também dois filhos de Júlio de Mesquita, advogado, que foi deputado estadual, proprietário do jornal O Estado de São Paulo e membro da Comissão Executiva do PRP, em 1892-94 e 1896(Júlio de Mesquita Filho, após curasr o Jardim da Infância e o Primário no Caetano de Campos, continuou os seus estudos em Portugal e na Suiça). Francisco de Assis Peixoto Gomide, que veio a ser membro da Comissão Executiva do PRP em 1903, matriculou um filho. Vários representantes da elite paulistana também estavam presentes, como por exemplo Ignácio Pereira da Rocha, Barão de Bocaina, Emilio Ribas, José Cardoso de Almeida.

      Durante muito tempo, o Jardim contou com esse tipo de clientela, tendo entre seus alunos: Guiomar Novaes(1897-1900); Theodoro Sampaio Filho, Maria R. Matarazzo, Francisco Mataeazzo, Cincinato C. Braga, Mário de Andrade, Cecília Meireles, Maria da Glória Capote Valente, Euzébio de Queiroz Mattoso Filho(1901-1910); Francisco Peixoto Gomide, Oscar Americano, Clibas de Almeida Prado, Maria Eugênia de Abreu Sodré,, Carmem Montoro, Genoveva Toledo Piza, Helena do Valle Amaral gourgel(1911-1920); André Franco Montoro, Ruth Monteiro Lobato, Palmyra Carvalho Pinto, Fausto Eiras Garcia, Marina Mesquita, Ricardo Capote Valente(1921-1930); Nelson Amaral gourgel, Paulo EiróGonçalves, Julio Cerqueira César Netto, Luciano Gomes Cardim, Paulo Sérgio Milliet da Costa e Silva, Renato Consorte, Lucia Ulhoa Cintra, Maria de Lourdes Abreu Sodré, Maria Helena Gomes Cardim(1931-1940)

      Como Escola Modelo, a Caetano de Campos acabava por reservar o privilégio de seu espaço e materiais à elite. Mesmo sem um estudo da demanda de vagas e da distribuição sócio-econômica dos alunos, é de supor que aquela elite deve ter sido favorecida nas matrículas. Por outro lado, observa-se a escola pública sendo capaz de atrair esses setores sociais, o que dificilmente aconteceria nos dias atuais.

A ORGANIZAÇÃO DO JARDIM

      Já no ano da inauguração, 1896, Gabriel Prestes editava a Revista do Jardim da Infância, visando “tornar conhecidos os processos empregados em taois instituições de ensino e reunir os elementos artísticos necessários à organização do ensino infantil pelo sistema froebeliano”, constituindo-se em um instrumento para aperfeiçoar a instituição aberta na Capital e facilitar a criação de outras, tanto públicas quanto particulares. Cada um dos dois números publicados, o segundo deles em 1897, tem em torno de trezentas páginas, com artigos voltados para a prática docente.

      Havia uma equipe trabalhando na elaboraçõ e implantação das propostas. A coordenação dos trabalhos de instalação do Jardim coube à inspetora(nome dado à função de diretora) Maria Ernestina Varella(de 18/5/1896 a 1°/6/1909). Como auxiliares, a poetisa Zalina Rolim, vice-inspetora, e Regina Soares, inspetora da Escola Normal. Estas traduziram – a primeira do alemão, e a segunda do inglês – obras para exercícios de linguagem, de ginástica, brinquedos, cantos e hinos. Zalina Rolim cumpriu um importante papel na adaptação de histórias, poesias e cânticos.

      A influência norte-americana era marcante. Foi daquele país que Gabriel Prestes trouxe todo o material froebeliano, inclusive um harmônio para as aulas de marchas e cantos. O diretor da Escola Normal desejava que o sistema viesse se adaptar aos nossos costumes, devendo as professoras conhecer os processos gerais para poder selecionar o que fosse aplicável e criar elementos artísticos de que carecêssemos.

      O Jardim dividia-se em três turmas de alunos(chamados períodos), dos quatro aos seis anos. Como professoras, foram selecionadas três normalistas da Caetano de Campos: Joann Grassi, Anna de Barros e Izabel Prado. Para cada classe havia também uma auxiliar, aluna da Escola Normal. Maria Ernestina e Zalina Rolim também desenvolviam atividades diretamente com as crianças.

      O Decreto n° 397, de 9/10/1896, que regulamentava a Escola Normal da Capital e as demais escolas-modelo, previa que o jardim da infância seria voltado para o preparo dos alunos de ambos os sexos, que se destinavam às escolas-modelo, “pela educação dos sentidos, segundo os processos de Froebel”.

      Gabriel Prestes traduziu com modificações, para publivar na Revista do Jardim da Infância, o Guia para Jardineiras(Paradise of Childhood) de Edward Wiebé, que apresentava os princípios do método Froebel, proposta que considera que toda educação deve começar pelo desenvolvimento do desejo de atividade. Os materiais empregados nos jogos ou ocupações do jardim de infância eram chamados de dons ou dádivas:

            “São ao todo vnte dons segundo a definição geral de Froebel. Entretanto, só os seis primeiros são geralmente designados pela denominação de dons. Preferimos, porém, seguir a classificação e a nomenclatura do grande criador do sistema:

1-     seis bolas de borracha, cobertas com tecidos de retrós ou de lã de várias cores;

 

2-     esfera, cubo e cilindro de madeira;

 

3-     cubo dividido em oito cubozinhos;

 

4-     cubo divisível em oito partes oblongas;

 

5-     cubo divisível em metade e quartas partes;

 

6-     cubo, consistindo de partes oblongas, duplamente divididas; [todos esses servem para construções]

 

7-     tabuinhas quadradas e triangulares para compor figuras;

 

8-     varinhas para traçar figuras;

 

9-     anéis e meios anéis para compor figuras;

 

10- material para desenho;

 

11- material para pcagem;

 

12- material para alinhavo;

 

13- material para recorte em papel e combinações;

 

14- material para tecelagemem papel;

 

15- veretas para entrelaçamento;

 

16- réguas com dobradiças, gonígrafo;

 

17- fitas para entrelaçamento;

 

18- material para dobradura;

 

19- material para construção com ervilhas;

 

20- material para modelagem.”

      Maria Ernestina Varella preparou uma programação para ser desenvolvida com as crianças dos três períodos, que permaneceu de 1896 até 1926, quando a professora Alice Meirelles Reis, após assistir às aulas de Lourenço Filho, na Escola Normal, cogitou de introduzir em sua classe a reforma trazida pela Escola Nova. Alice contou com o apoio da inspetora do Jardim, Irene Branco da Silva, que, procurando “ transfundir um pouco de seiva nova” na tradição antiquada dos jogos froebelianos, propôs a possibilidade de organizar-se algo baseado no método Decroly(seção para crianças normais), encontrando bastante entusiuasmo pela inovação.

As propostas Pedagógicas

      Fala-se muito de uma dimensão pedagógica do sistema froebeliano, em oposição às correntes assistencialistas da educação infantil, às quais se atribui a educação moral e religiosa. Na verdade, a preocupação com a formação de bons hábitos, com o cultivo da obediência, perpassava toda a sociedade: as crianças, ricas ou pobres, eram alvo, cada qual a seu modo, da intervenção e vigilância dos adultos; a educação moral, voltada para a disciplina e obediência, era o núcleo da formação, mesmo que as crianças do Jardim tivessem um ambiente bastante rico e diversificado. Isso pode ser observado não só na divisão de seus horários, mas também no conteúdo mesmo de suas atividades.

      Estavam previstos exercícios de linguagem, dons froebelianos, trabalhos manuais, modelagem, desenho, números, cores, música, ginástica e “brinquedos”.

      Os brinquedos eram brincadeiras de roda, de movimento, de imitações, geralmente em marcha e acompanhados de melodias fáceis. Em uma das fotos das crianças, exposta no álbum da Escola Normal elaborado em 1908, com o título “Um brinquedo das crianças do Jardim da Infância”, elas estão com duas professoras ao redor de um canteiro circular; há duas crianças com tambores e uma com pandeiro, o que sugere o tipo de atividade desenvolvido.

      Quanto aos exercícios de linguagem, consistiam, para os menores, em conversações que giravam em torno da criança na família e no Jardim da Infância, das partes principais de seu corpo, de seres ou objetos que lhes seriam úteis e que mais frequentemente atraiam sua atenção, de seus pais e parentes próximos, de animais domésticos. Depois, os temas iam-se ampliando: o mlar, o amor para com os pais e benfeitores, sentidos físicos, dias da semana, meses do ano, as estações, plantas úteis, cenas campestres(como argumento para considerações morais ou de utilidade prática e para exercícios de nomenclatura, diálogos em prosa ou em verso), animais, alimentos, vestimentas, habitações, móveis e utensílios domésticos, meios de transporte, a Pátria, formação de sentenças sobre objetos comuns, formação de palavras com letras impressas, etc..

      A programação das atividades diárias para os três períodos evidencia um estrito controle do tempo. Para um horário de quatro horas(240 minutos) estavam previstos vinte momentos diferentes, nenhum deles acima de quinze minutos. Ou seja, além da vigilância dos adultos, a própria divisão do tempo acabava por controlar as crianças.

            Horário do terceiro período(crianças de seis anos)

 

11:00-11:10 – canto, revisão, chamada;

11/10-11:25 – ensaio de canto geral(b) com a professora(a);

11:25-11:40 – conversação

11:40-11:50 – recreio

11:50-12:00 – marcha

12:00-12:15 – desenho nas lousas com varetas;

12:15-12:25 – música(a); ginástica(b);

12:25-12:30 – preparação para o lunch;

12:30-12:45 – lunch em classe;

12:45-13:00 – recreio no jardim;

13:00-13:15 – revisão, canto, chamada;

13:15-13:30 – primeira seção, bola; segunda seção, formação de palavras com letras

                       impressas(a); anéis(b);

13:50-14:05 – trabalho manual, modelagem, segunda; ervilhas, terça; dobradura quarta e

                       Sexta,; entrelaçamento, quinta; alinhavo sábado;

14:05-14:15 – recreio

14:15-14:25 – brinquedo;

14:25-14:40 – exercício de cálculo com cubinhos;

14:40-14:55 – pensamentos, mérito, despedida;

14:55-15:00 – saída.

 

(a) segundas, quartas e sextas-feiras; (b) terças, quintas e sábados.

      Aos sábados o horário era mais livre, com a programação de exercícios de linguagem, jogos, cantos e passeios.

      Embora se possa supor que havia certa flexibilidade e autonomia das professoras para adaptar os horários, o grau de detalhamento da programação evidencia seus limites. Maria Ernestina se refere a essa divisão em pequenos intervalos dos exercícios para argumentar que o trabalho das professoras não era menor que o das suas colegas das escolas primárias, embora ficassem quatro horas com as crianças, e não cinco.

      Froebel, contudo, não deixou de lado a dimensão religiosa em sua concepção educacional. A inspiração não é católica, mas protestante, religião predominante nas terras alemãs e também nas norte-americanas. Há todo um sentido de espiritualidade nos dons froebelianos, como é o caso da bola, da esfera, símbolo universal da unidade vital existente em todos os seres da natureza.

      Embora Gabriel Prestes considerasse a Educação republicana como laica e o ensino moderno como nascido da decadência da autoridade régia e da autoridad clerical, a religião não ficou de fora do Jardim da Infância. Não mais, é claro, o ensino religioso dos tempos do Império, que nas escolas primárias dominava o conjunto das atividades.

      O próprio Prestes traduziu, com adaptação dos versos por Zalna Rolim, o programa de Anna W. Devereaux, inspetora dos jardins de infância de Massachusetts(EUA), apresentado como um modelo de distribuição do ensino. Na programação para o mes de setembro, que tinha como pensamnto dirigente a colheita, estava previsto o hino Graças ao Criador e, nas conversações da manhã, a comparação da vida da família e da criança com a vida em geral, “remontando-se à origem de toda a vida”, em que se recomendava mostrar à criança uma imagem da Virgem.

      Se a dimensão religiosa ficava difusa na programação, o mesmo não acontecia com a formação moral, que era muito mais explícita. Todos os cânticos, histórias e roteiros utilizados nas aulas de linguagem, traduzidos e adaptados do inglês, francês e alemão, apresentavam um fundo moral;

      Era a história do “Dedinho Vaidoso”, por exemplo, visando promover o sentimento de união e afeto na família, que terminava assim:

            “O médio e o mínimo foram encarregados de ir buscá-lo para o meio dos              companheiros e irmãos, e o dedinho anular fez um protesto muito vivo de nunca mais ser vaidoso – pois tinha compreendido por experiência que nada vale tanto como a amizade e o auxílio mútuo em uma família.”

      Ou então o conto “Esperas e Verás”, “para ser narrado singelamente”, sobre a arvorezinha de faia que descobre que serve para produzir avelãs, e que termina “convencida do quanto as mães conhecem a vida melhor que as filhas”.

At2 nos cantos da hora da entrada cultivava-se a discplina das crianças, como ode ser visto nestes versos elaborados por Zalina Rolim:

            O nosso jardim da infância

            É bonito e grato e ledo!

            Doce é toda vigilância

            Todo trabalho é folguedo.

            Vivamos todos contentes,

            Sejamos obedientes.

 

            Duas mamães eu tenho

            Sei que ambas me têm amor sem fim

            Uma lá em casa hoje deixei,

            Outra me espera no Jardim.

 

            E a tanto amor corresponder

            Sabe com força o coração:

Amar é ouvir e obedecer

            Amar também é gatidão.

      Na perspectiva de se obter a obediência a partir do carinho, atribuía-se à professora o papel de substituta materna. Joana Grassi escreveu para a Revista do Jardim da Infância o atigo “O Brinquedo no Jardim da Infância”, onde considera:

            É preciso que o jardim da infância traia as criancinhas com o olhar benigno de uma mãe, o sorriso melífluo duma amiga. Quanto amor, quanta ternura deve haver então! (…)

      Que alegria não se lê na fisionomia angélica das criancinhas ao dar o sinal para o brinquedo? E disso quanta vantagem? Quanta atividade se desenvolve?

 

Nesses brinquedos além do hábito da ordem que sempre infindem, conduzem também a fins morais úteis(…) .”

      Havia também uma concepçéao da criança como ser passivo, embora a proposta froebeliana entendesse que a criança se educa não apenas pelas impressões, mas pelas ocupações . As lições de linguagem previam diáligos em que as perguntas e respostas já estavam predeterminadas.

      Assim, mesmo que as professoras agissem carinhosamente, percebe-se que as crianças estavam sujeitas a um esquema definido de antemão, em que a linguagem aprisionava o diálogo, gerando insegurança.

      Mas não havia apenas controle mora. Dentre as atividades propostas pela inspetora de Massachussetts, ainda no século passado(XIX- nota da copista), pode-se observar um tipo de preocupação que se poderia imaginar ter surgido apenas após a teoria piagentina, voltada para a classificação.

      Segundo Paim Vieira, a fantasia encontrava no Jardim da Infância- naquele ambiente de sonho, no palácio mágico tantas vezes entrevisto – meio próprio para expandir-se, embora o rigor pedagógico não permitisse o uso de histórias da carochinha.:

      “Pássaros, frutas, flores, árvores, vento, sol, fontes, regatos e ervinhas – os seres mais íntimos da criança- vinham dialogar em sua presença, ensinando-a a amar o trabalho e o estudo, a ser amiga do lar,     amorosa com os pais, dócil com os amigos, obediente aos mestres, útil a todos, caridosa, patriota, sincera, e tão galante no aspecto externo quanto no moral. (…).

      Tudo isto era dito e repetido insistentemente em recitativos, cânticos, hinos e “brinquedos”, modalidades várias das Artes, estimada como elemento didático de primeira grandeza, de tal forma conquista os corações.”

      A música desempenhava um papel de grande importância no cotidiano do Jardim. Havia o piano na sala de aula, os cânticos nos mais variados momentos e também a “orquestra do jardim”. Sobre esta há uma foto de 1908 que mostra vários instrumentos musicais: duas harpas, muitas flautas, guitarras(ou alaúdes) e violinos. Quase todas as atividades eram acompanhadas de cantigas “apropriadas”; para difundi-las, cada número da Revista do Jardim da Infância era publicado com um volume anexo, somando mais de cem partituras para as músicas propostas. Guiomar Novaes, que tinha seu professor particular de piano, chegou a compor, aos cinco anos de idade, uma valsinha para o Jardim.

      Paim dá ênfase a um projeto que pretendia educar para o estético, para a sensibilidade artística, criticando a “obsessão esportiva” que, segundo ele, passou a tomar conta da educação infantil na década de 1940. Sem chegar ao exagero de desprezar a importância da cultura física de a criança poder correr com liberdade, a dimensão artística e estética – que, por exemplo, apresenta à criança instrumentos musicais e não de brinquedo- merece a nossa admiração. Assim, comparado ao conservadorismo das escolas tradicionais, mesmo limitado por uma perspectiva disciplinadora e moralista, o Jardim provia às crianças um ambiente muito mais rico e estimulante . 

Foto de Guiomar Novaes que compôs e interpretou uma valsinha para o Jardim, quando aluna.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CASALECCHI, J. E. O Partido Republicano Paulista: política e poder(1889-1926). São Paulo: Brasiliense, 1987.

D’AVILA, Antonio. Augusto Guilherme Frederico Froebel em São Paulo: subsídios para a história do jardim da infância paulistano. São Paulo: IHGSP, maio 1932. mimeo.

KISHIMOTO? Tisuko Morchida. A pré-escola em São Paulo(1877-1940); São Paulo: Loyola, 1988.

MAIA, Francisco Prestes. Estudo de um plano de avenidas para a cidade de São Paulo. São Paulo: Melhoramentos, 1930.

MAIURI, Irene Vilhegas. Instituto de Educação Caetano de Campos: 75° aniversário do Jardim da Infância. São Paulo: IECC, 1971. mimeo.

NOSSO ESFORÇO: órgão do curso primário da escola Caetano de Campos. São Paulo, v. 11, n.3, maio 1946.(Dedicado ao Cinquentenário do Jardim da Infância)

PINTO, Alfredo Moreira. A cidade de São Paulo em 1900. Ed. Fac-similada. São Paulo: Governo do Estado, 1979.

POLIANTÉIA COMEMORATIVA: 1846-1946. São Paulo(Primeiro Centenário da Escola Normal de São Paulo).

PRESTES, Gabriel. Discurso. São Paulo: Typ. Paulista, 1895. (Pronunciado na Sessão inaugural do edifício da Escola Normal de São Paulo)

REVISTA DO JARDIM DA INFÂNCIA. São Paulo: IECC, v. ½, 1896/1897.

¹ Além dos citados, foram consultados os documentos do Arquivo da Escola Caetano de Campos, bem como os álbuns de fotografias da Escola Normal e anexas de São Paulo(1908) e do Jardim da Infância.

FOTOS:

p. 62 – Palácio de Cristal que serviu ao Jardim da Infância até os anos 30.

Legenda: Jardins e prédio do Jardim da Infância anexo à Escola Normal, em 1905(acervo do EEPSG Caetano de Campos.

p.65 – Duas filas mistas de alunos a partir de 4 anos de idade, dois a dois, descendo a rampa do pavilhão de cristal, todos muito bem vestidos e com grandes chapéus.

Legenda: Saída dos alunos do jardim da infância por volta de 1900(acervo da EEPSG Caetano de Campos)

P. 70 – foto de um coreto anexo à escola com crianças e mestra-regente.

Legenda: Aula de música(orquestra infantil) nos jardins por volta de 1900(acervo da EEPSG Caetano de Campos).

 

p. 72 – Foto em pequeno formato; crianças ativas.

Legenda: Grupo de crianças do Jardim da Infância em atividades na década de 1930(Acervo da EEPSG Caetano de Campos)

Jardim, 1947. 

MEUS COMENTÁRIOS:

 

A coincidência faz bem as coisas: com 21 anos, em 1971/2 entrei como professora efetiva da PMESP na escola que então se inauguraria com o nome de E.M. Professora Joaninha Grassi Fagundes, num canto da Freguesia do Ó, onde os alunos eram senão miseráveis, seriam pelo menos muito pobres.

Ao tomar posse, entrei naquela escola vermelha da terra das ruas nem todas asfaltadas ou calçadas e lembrei-me de uma observação de uma das três professoras de Prática de Ensino que tive no IECC, quando os meios áudio-visuais eram ainda um luxo:

“Se vocês necessitam explicar como é um animal que não temos no Brasil, passem um filme!”

Naquela época a minha formação ainda era endereçada às elites já abastecidas de muita informação e sem sofrer de fome endêmica; a escola oferecia a sopa para aqueles que não podiam comer três refeições por dia e entre todos havia também professores que esperavam que o primeiro salário chegasse, versado com seis meses de atraso.

No dia da inauguração reencontrei algumas figuras que participaram do velho IECC, entre elas Dona Lavinia Rezende que fora diretora do Jardim quando segui aquele curso em 1957, o Dr Fontoura, que ajudava muito o Curso Primário na categoria de pai de aluno e morou num dos prédios onde residi, e uma velhinha muito maquiada de nome Valentina, que residia no Pensionato Póvoa do Mar, o mesmo que eu escolhi para morar quando parti de casa.

Das outras autoridades não me lembro um nadinha.

Depois da festa a realidade da escola não batia com a materialidade dos cursos que tive no IECC;

Como desenho razoavelmente bem, reproduzi todas as ilustrações da Cartilha Onde está o patinho, que apliquei porque peguei a melhor classe de primeiro ano(únicos alunos em condições de serem alfabetizados, depois de testados e selecionados)

Os cartazes embora em cartolina forom coloridos a pastel à óleo, comprado na rua Major Sertório, com os poucos tostões que tinha.

À medida que a alfabetização corria, eu os pregava no alto das paredes, enfeitando aquela sala feias e feita às pressas pela Prefeitura da cidade.

Pois não é que foram danificados e rasgados?

É que o público dos casebres visitados por ratazanas não era o mesmo das crianças desenvoltas que em 1900 recebiam a instrução de Johanna Grassi, para não demasiadamente ocuparem a governanta do palacete onde residiam.

Não tínhamos a plêiade de materias que circularam no grande Palácio de Cristal que outrora se tinha plantado atrás da nossa escola.

Instrumentos de música? Nenhuns!

Uniforme? A sarja azul-marinho era oferecida pela Caixa escolar para a maioria das crianças que chegavam com sandália de dedo no pé e não tinha agasalho para os frios invernos de garoa paulistana.

Havia um mimeógrafo para todas as professoras e papel sulfite comprado a granel cedido por…nós.

E o quê dizer do aproveitamento geral, com crianças que trabalhavam na feira e faltavam duas vezes por semana às aulas?

Abimal era um deles e foi suspenso por “giletar” o rosto de um camaradinha que , como ele tinha nove anos…

Daquela escola somente vi progredir uma menina varapau que foi fisgada pelos olheiros da Hebraica e virou jogadora de basquete; o irmão dela morreu assassinado; a coleguinha dela de nome Carmosina foi violada e muitos alunos- soube mais tarde- daqueles que conseguiram chegar até os 25, 30 anos morreram em tiroteios entre bandos rivais de traficantes ou entre as mãos da polícia ávida em mostrar “serviço”.

Vim para França em 1978, fazer um curso na Escola Normal de Saint Cloud –Meios audiovisuais modernos, onde aprendi a fazer fotos, filmes, vídeos, emissões de rádio, edição de imagem e de som. Casei e fiquei. Calei.

Um dia me escreveram que a escola estava cheia de material audiovisual pois a nova prefeita, uma nordestina que conheceu a miséria, havia entendido as necessidades da periferia da cidade.

O problema é que a especulação imobiliária “melhorou” a categoria das habitações e uma nova pequena classe-média expulsou involuntariamente os carentes, que hoje vivem na favela ao lado e nada roubam da escola porque foi possível um acordo entre os chefões do tráfico com certos professores e diretores.

Wilma

26/02/11.

Foto de 1957, primeiro encarte de fotos do livro Caetano de Campos: Memórias de uma aluna bem(e mal) comportada.

-classe da Professora Doris M. de Oliveira;  sou a primeira à esquerda da imagem, sentadinha ao chão. (C.R.E. M. Covas)

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12 respostas para O JARDIM DA INFÂNCIA CAETANO DE CAMPOS

  1. Maria Lúcia de França Camargo disse:

    Olá Wilma,
    O que posso dizer, depois de tudo isto que li.
    Muito do que fez com que o jardim de infância nascesse na República, se perpetuou e foi sendo aperfeiçoado com o passar dos anos. Lembro-me das salas com o piano encostado numa parede, os instrumentos musicais variados, para compor a bandinha, diariamente ensaiada, para todas as datas festivas, as musiquinhas cantadas, na hora da entrada , no começo das atividades, para formar a fila, para ir ao banheiro, para tomar o lanche, para a hora da despedida. Músicas estas, que sempre ensinavam alguma coisa, com suas palavras simples e infantis, com as quais, rapidamente, as crianças aprendiam bons hábitos de higiene, comportamento, atitudes para com os outros e muitos outros.
    Lendo a história do seu início de carreira, devo agradecer ao caminho que me foi traçado. Cursando Expecialização em Educação Pré Primária (1963), no final do ano a
    nossa orientadora tinha uma lista das escolas particulares que estavam precisando de professoras e nos apresentava, para escolhermos a que melhor nos convinha. Minha primeira classe foi no jardim do Clube Paulistano, pela proximidade com minha casa, onde trabalhei por um ano, você imagina, material não faltava e podia aplicar tudo que havia aprendido. Como já era substituta efetiva no IECC, no período da tarde, houve uma confusão de horário no início do ano e me transferiram para o período da manhã, assim tive que deixar o Paulistano. Mas em 67, consegui um lugar num jardim chamado “Balãozinho Vermelho”, no Paraíso, que na época era considerado um dos melhores Jardim da Infância de S.Paulo, e assim acumulei as duas escolas, por cinco anos. Durante minha carreira, só trabalhei em escolas de certo padrão e não passei pelas dificuldades que você e muitas outras professoras passaram e ainda passam.
    Com certeza meu caminho profissional foi abençoado, podendo aplicar tudo que havia aprendido e me aperfeiçoar com os vários cursinhos que foram aparencendo, sempre com o incentivo dos diretores e donos das escolas.
    Vou lhe mandar as fotos do período que fui professora no jardim do IECC, uma é da classe, as outras, das grandes festas que aconteciam no pátio da escola, em comemoração às datas festivas.
    Não sei como colocar aqui direto, portanto está indo por email.
    Beijos
    Lu Camargo

  2. wilma schiesari-legris disse:

    Lu,
    Obrigada pela solidariedade encontrada em sua resposta.
    Aguardo os documentos com ansiedade; beijos, wilma

  3. Vera Lucia Rosito Pivotto (Vera Lucia Roslindo Rosito) disse:

    Oi Wilma
    Também passei pelo mesmo sufoco que você.Eu era efetiva na PMSP numa escola chamada “Pedra Branca”, no Horto Florestal, na zona Norte.Os alunos eram muito carentes e muitas vezes eu reproduzia livros no mimeógrafo pois eles não tinham como comprá-los. Se quisesse algum material didático era preciso usar a criatividade e produzí-los.Na época eu já cursava a faculdade de Psicologia na PUCSP e o curso era período integral, assim, transferi as aulas da manhã para o período da noite para lecionar no primeiro período.Mas, as coisas começaram a ficar muito difíceis.Para ser uma boa professora eu necessitava de muito tempo extra escola para poder desempenhar bem meu trabalho.Decidi prestar concurso para o Banco do Brasil pois sabia que lá eu não teria serviço para fazer em casa e tentava usar o período das 2 às 6 da manhã para dormir.Foi assim que acabei deixando o magistério de lado.Além do trabalho que levava para casa, carregava comigo os problemas daquelas crianças sofridas(não tinham o que vestir, o que comer, o pai presidiário, a mãe prostituta etc..).Não foi uma decisão muito fácil pois eram trabalhos muito diferentes, entretando acabou dando certo pois logo que me casei saimos de São Paulo e estando no Banco não perdi o emprego.
    Bjs
    Verinha

  4. Vera, você no Banco do Brasil e eu no banco da praça…
    Foram tempos duros mas vividos.
    bjs, wilma

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  6. Marily Antonelli Graeber disse:

    Parabéns a vocês pela iniciativa,
    Sou uma caetanista de coração, do período 1951-61(primário-escola normal); infelizmente não frequentei o Jardim, mas sempre considerei aquele espaço, um lugar diferenciado e encantado.
    Aliás, a escola toda , do 3. andar ao porão, com suas escadarias, pátios, bibliotecas e auditórios; o próprio formato do prédio, que visto do alto representa a letra E de Educação. Só os políticos não enxergaram e fragmentaram um Instituto de Educação com mais de 100 anos.
    Caetanista Marily Godoy Antonelli, hoje Marily Antonelli Graeber

    • Marily;
      Seja benvinda ao blog.
      Se você quiser escrever, enviar fotos escolares ou atuais, outros documentos, este canal se abre a você.
      Também existe a possibilidade de colocar questões e de reencontrar pessoas.
      Apesar de viver na França, escrevo quase todos os dias par o blog.
      Abraços,
      wilma
      17/03/12.

  7. Pingback: 94.892 visitas ao ieccmemorias.wordpress.com Muito obrigada! | Caetano de Campos

  8. ulysses francisci buono disse:

    Lembranças que parecem de ontem!!! Sim, as lembranças são eternas pois foram de um período maravilhoso. Sou o 3ºgarotinho sentado- Trata-se provavelmente da classe do 3º ano do jardim, professora Dna Elza
    Ulysses Buono

  9. Maria Cecilia Moreira Pires disse:

    Lembro de uma única vez em que entrei no Jardim de Infância da Caetano de Campos. Deve ter sido na década de 40 ou 50. Minha mãe foi entregar alguma coisa para uma prima, Loudes de Almeida Luzzi, que era professora do Jardim de Infância… Lembro de uma sala comum, com carteiras estilo comum, não muito iluminada e com muitas crianças sentadas comportadamente… É uma cena firmada em minha memória…Não consigo lembrar de nada excepcional nessa sala de aula…. E, depois, voltei ao Caetano para fazer um curso de Relações Públicas do professor Teobaldo de Nigris… Isso ja por volta de 1960. Mas enfrentar uma classe com crianças carantes, isso eu fiz também… Numa só salinha, alunos com idades que iam dos cinco aos doze anos… Não havia cadernos, lápis, nem ao menos um quadro-negro… Alimento??? Nem pensar… Acredito que ainda existe muito lugar no Brasil onde as escolas são de chão batido, onde os alunos se sentam, já que não há carteiras e, se o professor quer mesmo ser útil, tem que comprar material escolar do próprio bolso…

    • Bem vinda ao blog!
      A pobreza é o pior estado de uma nação; maquiar a pobreza também não adiante; apenas um governo que queira sanar os males e invista nos pobres e na BOA educação que eles merecem ter para serem pessoas “normais” dentro de uma sociedade normal.
      Abraços, wilma.

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