ETHEL KOIRANSKY nos deixou há dez anos.

Quem esteve no Instituto de Educação Caetano de Campos a partir de 1966 provavelmente se lembra dela.
A Ethel era uma menina comunicativa e simpática que, por sofrer sequelas de uma poliomielite, entrava na escola pela porta principal e subia para a sala de aula de elevador, ao lado do seu Severino.
Além desses dois privilégios que causavam uma invejazinha nas colegas, a Ethel era amada em demasia tanto pela sua mãe, como pelo seu pai.

A história pessoal da Ethel é dramática e trágica por natureza: seus pais eram jovens e imigraram para o Brasil quando a situação dos judeus ficou intolerável no Gueto de Varsóvia e depois em toda a Europa na ocasião da subida de Hitler ao poder.

Tenho a impressão que ambos não se conheciam antes de entrarem no Brasil, onde o pai exerceu o ofício de barbeiro tal qual Carlitos no atualíssimo filme O Grande Ditador(1939/1940).

Charlie Chaplin teve a ousadia de realizar o filme para mostrá-lo ao mundo livre antes mesmo da deflagração da Segunda Grande Guerra; em 1938 ele havia terminado o roteiro; o fato é que nossa amiga somente teve como família o seu pai e a sua mãe; mais ninguém nem no Brasil, nem na Polônia.

Depois de formar-se no Curso Normal do IECC, Ethel integrou os quadros do Curso Primário da nossa escola, tendo sido professora dos novos e derradeiros cartanistas.

Na comemoração destes tristes 10 anos, deixo-lhe(s) de presente o discurso emitido pelo personagem do barbeiro, amnésico e tomado pelo ditador pela sua semelhança física, que reflete uma problemática ainda atual destes horríveis tempos modernos

“Esperança…Sinto muito, mas não desejo ser imperador; isso não me interessa; não quero conquistar nem dirigir ninguém. Eu gostaria de ajudar a todos na medida do possível, judeus, cristãos, ateus, brancos e negros. Queremos, se possível, ajudar a todos. pois os seres humanos assim são feitos. Queremos dar a felicidade e não a desgraça ao próximo. Não desejamos odiar nem humilhar ninguém. Cada qual tem seu lugar e a nossa Terra é o bastante rica para alimentar a todos os seres humanos. Esquecemos, porém,  que poderíamos ter uma vida bela e rica.

O desejo de envenenar o espírito do homem cercou o mundo com o ódio fazendo-nos cair na miséria e na efusão de sangue; desenvolvemos a velocidade para nos fecharmos em nós mesmos; as máquinas que nos trazem a abundância   deixam-nos a insatisfação; o nosso conhecimento tornou-nos cínicos. Através da força da inteligência tornamo-nos desumanos, sem sentirmos  suficientemente, mas pensando muito. Somos deveras mecanizados e falta-nos humanidade.

Somos muito cultos mas carentes de ternura e de gentileza. Sem estas qualidades humanas a vida é apenas violência e tudo fica perdido.

Aviões e rádio nos aproximaram mutuamente e essas invenções encontrarão seu verdadeiro sentido apenas na bondade do ser humano, assim como na fraternidade, na amizade e na união de todos os homens.

Neste instante em que vos falo, minha voz atinge a milhões de pessoas no mundo, milhões de homens, de mulheres e de crianças desesperados, vítimas de um sistema que tortura os fracos e aprisona os inocentes.

Digo-vos a todos que me ouvem: não se desesperais! A desgraça que paira sobre nós é o produto da efêmera habilidade, daqueles amargurados pelo progresso que  a Humanidade realiza; mas o ódio acabará por desaparecer, os ditadores morrerão e o poder que tiraram dos povos, a eles retornará. E enquanto os homens por ele morrerão, a liberdade não poderá perecer. Soldados! não vos entregais a esses brutos, uma minoria que vos despreza fazendo-vos escravos, arregimenta toda a vossa vida e vos dizendo o que deveis fazer e o que pensar, vos dirigindo, vos manobrando, servindo-se do vosso corpo como bala de canhão e  tratando-vos como animais.

Não entregueis a sua vida a esses seres desumanos, esses homens-máquinas, com uma máquina no lugar a cabeça e outra dentro do coração.

Vós não sois máquinas.

Vós não sois escravos.

Vós sois homens e com todo amor do mundo no coração.

Vós não odias, salvo na falta de humanismo e naquilo onde não haja amor.

Soldados! Não vos matais pela escravidão, mas pela liberdade.

No Evangélio segundo Lucas está escrito que ” o Reino de Deus encontra-se no coração do homem”, não num único homem ou num grupo de homens, mas em vós, povo, que tem o poder de criar as máquinas e a felicidade. Vós, o povo tem o poder de tornar a vida bela e livre, o poder de fazer desta vida uma aventura maravilhosa.

Então em nome da Democracia utilizemos esse poder. Unâmo-nos todos, batamo-nos todos por um mundo novo, humano que dará a cada qual a ocasião de trabalhar, trazendo porvir à juventude e segurança à velhice.

Tudo que esse brutos vos prometram foi para que lhes dessem o poder. Eles mentiram! Não honraram suas maravilhosas promessas: não o farão nunca. Os ditadores  libertam-se ao pegarem o poder do povo e fazendo do povo, escravo.

Então teremos que nos bater para conseguirmos obter a realização daquelas vãs promessas. Temos que lutar para libertar o mundo, para derrubar fronteiras e as barreiras raciais acabando com a avidez, o ódio e a intolerância. Batamo-nos para construir um mundo de razão, um mundo no qual a Ciência conduzirá o homem à felicidade. Soldados! Em nome da Democracia unâmo-nos!

(…)

Hannah, você esta me ouvindo ? Onde quer que você esteja, olhe para cima! Levante os olhos Hannah ! As nuvens se dissipam! O sol aparece! Nos saimos das trevas em busca de luz ! Penetramos um mundo novo, um mundo melhor, onde os homens dominarão a cupidez, o odio e a brutalidade. Erga os olhos, Hannah ! A alma humana recebeu asas e o homem começa a alçar voo. Ela voa para o arco-iris, para a luz e a esperança. Erga os olhos, Hannah! Erga os olhos! “

Com amor, wilma

30/03/11.

http://www.youtube.com/watch?v=WMAT1-3xuyw&feature=player_detailpage#t=1s

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Uma resposta para ETHEL KOIRANSKY nos deixou há dez anos.

  1. Patricia Golombek disse:

    D.Ethel foi minha professora em 1972, quando passei para a segunda série do Caetano. Ela era alegre, nos fazia gostar de ir pra escola. Eu era a menorzinha e sempre a primeira da fila. Estava sempre de mãos dadas com ela e a ajudava a carregar os diários de classe para a sala dos professores no segundo andar, assim a acompanhava naquele trajeto subindo de elevador o que causava certa inveja aos meus colegas. Eu era a única judia da classe, o que me fazia cumplice com a D. Ethel, dividíamos essa condição juntas . Ela era um ser humano fenomenal, excelente professora,nunca vou esquece-la.

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