Ernestina Hipólito ajudou-me na tradução do discurso de Charlie Chaplin!

Ontem senti uma grande emoção ao traduzir o discurso visto e ouvido no primeiro filme falado de Charlie Chaplin(1939), não apenas pelo seu conteúdo ideológico, como também pela maravilhosa interpretação do genial cineasta, roteirista e ator.

Segurar um “bife”(longo monólogo) por mais de 5′ em plano-sequência não é para qualquer um: além do trabalho de ator, a direção de Chaplin criou um momento antológico na História do Cinema e na própria História em geral; seu filme prenunciou não somente a deflagração da Segunda Grande Guerra, como serviu de afronta ao causador daquela catástrofe e de formação da opinião pública.

E o que vem fazer Ernestina Hipólito neste assunto?

Para quem foi aluno das professoras Iracema e Maria Júlia que levaram a fama de serem excelentes mestras do idioma francês, Ernestina era apenas sua colega ensinando a mesma disciplina.

Para mim, mais que uma docente, a professora Ernestina, talvez por rimar com obstina, realmente ensimou-me o francês.

Era uma velhinha como uma estatueta de marfim que enfeitava a sala da casa de uma colega, entre a cândida vovó e a maléfica bruxa.

Dona Ernestina chegou na nossa classe de terceira série, depois que aquela reforma simplismente pulverizou de dois anos o ensino do francês e aboliu o estudo do latim no ginasial e, carregando todos aqueles anos matusalênicos nas costas, somente nos falou em português o seguinte: copiem!

O quadro era pequena para integrar a Marselhesa de cabo a rabo, incluindo estrofes que os franceses desconhecem, um verdadeiro bloody mary, servido sem gelo para as meninas, presenciando o aspecto sanguinário que reinou por aqui nos idos da Revolução Francesa.

Como a duração das aulas era de 40′, os utilizamos a todos unicamente para copiar aquela crônica da barbárie francesa; era para aprender tudo aquilo de cor e devíamos cantar o hino no início de cada aula e antes mesmo da chamada.

Punhos cansados, cabeças ferventes e na segunda aula, chegou a professora com um sugestivo “copiez”: era a seguinte fábula:

“La Cigale et la Fourmi

Jean de La Fontaine Imprimer

La Cigale, ayant chanté
Tout l’été,
Se trouva fort dépourvue
Quand la bise fut venue :
Pas un seul petit morceau
De mouche ou de vermisseau.
Elle alla crier famine
Chez la Fourmi sa voisine,
La priant de lui prêter
Quelque grain pour subsister
Jusqu’à la saison nouvelle.
“Je vous paierai, lui dit-elle,
Avant l’Oût, foi d’animal,
Intérêt et principal. “
La Fourmi n’est pas prêteuse :
C’est là son moindre défaut.
Que faisiez-vous au temps chaud ?
Dit-elle à cette emprunteuse.
– Nuit et jour à tout venant
Je chantais, ne vous déplaise.
– Vous chantiez ? j’en suis fort aise.”

Eh, bien: dansez maintenant!

Não satisfeita com a penosa tarefa, ainda exigiu-nos que a decorasse para o dia seguinte!

Para apaziguar a meninada, depois de uma chamada oral para que o aprendizado de cor pudesse ser avaliado, Dona Ernestina, orgulhosa do método, colocou na lousa não somente a Ave-Maria como também O Pai Nosso, tudo em francês:

_ “Copiez et pour demain il faut les savoir par coeur”.

Como podem constatar, de copiar ela passou para “copiez”(sem SVP) e de “copiez” já aumentou a carga de trabalho para penitência obrigatória.

Para não dizer que ela nos provocava o ódio ao idioma, ela começou por dificultar a aproximação entre nós e a língua de Molière e Chateaubriand.

Passada aquela dificuldade inicial, abrimos o livro de Robin et Bergeaud,  Le français par la méthode directe  e…que prazer ao possuir, folhear e devorar aquele livro.

Cada lição era uma viagem à França!

Nunca havia visto um livro pedógico tão bonito: capa dura, cor dos melhores vinhos franceses de Bordeaux, ilustrações atraentes.

Fascinada mais pelo livro que pelo método, comecei a adorar a minha segunda língua; mesmo com a vampiresca pedagogia de atribuir-nos notas abaixo de zero, o que criava um certo frio na barriga de cada uma e um clima insuportável durante as chamadas orais, aprendemos o francês; e bem!

Cada vez que revejo a estatueta em marfim lembro-me da Ernestina, que por todo o mal , amém, fez-me mudar para a França e ajudou-me a preparar este artigo para o nosso blog.

Abraços, wilma

31/03/11.

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2 respostas para Ernestina Hipólito ajudou-me na tradução do discurso de Charlie Chaplin!

  1. E que foi feito da nobre e excelente mestra???

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