Full metal jacket versus A bela adormecida!

Full Metal Jacket
full-metal-jacketCaros

colegas ex- Caetanistas,

Volto a escrever, no meu estilo prolixo, para tocar no assunto “bullying”, pois nos últimos meses em que temos participado do blog que Wilma nos presenteou e que tão bem administra, tenho refletido como eram aqueles tempos da Caetano.

Tive uma longa conversa a respeito com o Joca em um dos nossos almoços mensais. Pois, ponderei e aguardei para um momento em que a melhor reflexão me faria escolher as palavras e evitar polemizar aqui dentro de nosso forum de conversas tecladas.

O que quero dizer é que hoje revejo os anos no Primário e no Ginasial da Caetano como uma época em que, nós meninos/adolescentes de então, éramos formalmente educados num sistema pós-guerra e pré-Beatles em que primava o autoritarismo na sala de aulas, o prazer de vários professores e professoras em caçoar, fazer chacotas, ridicularizar, menosprezar em tons sádicos aqueles que menos se sobressaíam academicamente, os de comportamento intranquilo na sala de aulas e também aqueles de personalidade mais tímida. Assim, desde o segundo ano do primário e até o fim do ginásio, ouvi professoras e professores referirem-se a colegas em sala de aulas com frases como “você é burro!”, “você vai puxar carroça na rua”, ou uma professora que entrava em classe e dizia “todos os imbecis em pé e prestem atenção à aula”.

Eu me lembro do episódio que o Maeda infelizmente teve que passar com a Eneida, que conhecia o primo dele Jorge, e posso recordar sua expressão, então tímida, sofrendo em resignação, enquanto ela se deliciava em um de seus orgasmos mentais por colocar um aluno frágil em situação de ridículo perante seus pares. Ou, outro famoso professor, conhecido pela rígida maneira com que tratava a todos os alunos, e que chegou a reprovar sua única filha, que mandou um de nossos colegas, então com apenas 11 anos, que escrevesse com o dedo no exame oral. O aluno disse, “Professor, como é oral, eu não trouxe lápis nem caneta”. Resultado, reprovado!

A própria Eneida apelidou um outro colega nosso de “Mamãe” por quase todo um ano, porque outro havia colado dele os exercício de casa e quando em dúvidas para explicar o que fizera certo no caderno, disse que sua Mãe o ajudara.

 Era um constrangimento atrás do outro.

 Bem, hoje, para mim, todo aquele processo de “bullying” a que fomos submetidos — não sei se as meninas passavam pelas provações, também — era a base do método didático do IECC.

Como meu amigo e ex-colega e ótimo aluno Nelson Maeda testemunhou, tínhamos de prometer a nós mesmos que não iríamos passar por um vexame em classe, então rachávamos de estudar. Alguns mais do que outros. Eu descobri que se me esforçasse ao final dos anos, eu passaria, então aproveitei aqueles anos para ser atleta esportivo no clube em que era sócio, para ir buscar a então namorada à tarde na saída das aulas, para ir às aulas de dança, para curtir um pouco a vida no comedimento daqueles tempos.

Não fui aluno brilhante no Ginásio, depois de ter sido o único de minha classe do Primário a passar no exame de admissão. Eu não era CDF, então, e tornei-me um mais tarde, a partir do Colegial. Hoje compreendo que em minha adolescência na Caetano eu reagia inconscientemente ao “bullying” dos professores. Aquilo era autoritarismo, mas com uma ponta de sadismo, de tortura mental nazista.

A lição que tudo aquilo me deu, e que me serviu para a vida, foi ser mais paciente com os outros, com os menos instruídos, com os mais jovens, com os mais tímidos e os menos extrovertidos. Que a paciência é uma virtude que a própria Bíblia diz assim. Que devemos ser tolerantes com os outros e não é necessário ridicularizar os que ainda não aprenderam e que sabem menos. Que, para ensinar, seja aos alunos, aos subalternos no trabalho ou aos filhos, devemos nos colocar no lugar deles e dar-lhes um estímulo, uma palavra de inspiração, um alento motivacional.

Fui professor universitário desde 1974. Dei aulas no Brasil e no exterior, nos mais de vinte anos em que vivi fora. E nunca tive de ser bully com meus alunos. Porque eu tive a lição do quanto o “bullying” faz mal. Aquele período me ensinou que o método “giz e lousa” da Caetano só me foi simpático pelos agradáveis colegas com quem tive o prazer de conviver dos 4 aos quase 17 anos.

Dos professores e professoras, uma figura como Da. Edith foi uma das raras que me deixaram algo positivo na memória. Outro foi João Carlos Caldeira, que além de Canto Orfeônico, nos transmitia aulas sobre a vida, a ética, a moral. Pessoas assim, realmente podiam ser chamados de professores. O IECC era risonho e franco por causa de nós, alunos, e um ou outra figura do corpo letivo.

Grande abraço a todas e todos!

BRENO

Queridos leitores:

 Quando entrei para o Jardim de Infância, as recomendações caseiras em relação às atitudes com os adultos da escola – mestres e seviçais- centralizavam-se na absoluta submissão:

“Nunca responda atravessado à sua professora”; “Não converse na sala de aula”; não peça para ir ao banheiro antes do sinal”, etc..

Durante aquele ano escolar não tivemos problemas, mas no primeiro ano primário, pude sentir que alguns colegas eram humilhados pela professorinha substituta:

“Olhe como essa menina está sentada: não sabe sentar-se!”; “Ponham as mãos sobre a carteira para que saibamos quais são as crianças que vem com unhas compridas ou esmaltadas”;”Chiclete é proibido até no pátio porque somente as pessoas vulgares o mascam”; “Menino: tire a mão do bolso!”; “FULANO: Vá chamar a dona Ester porque a Silvia fez xixi no banco da carteira”(e no entanto ela havia erguido o braço para pedir a licença de ir ao banheiro); “Você não foi à missa domingo, então irá para o inferno!”.

O segundo ano do Primário não deixou nenhuma sequela moral na classe; a professora era feita para professar e foi muito meiga com todos.

Já no terceiro ano, fui humilhada indiretamente: meu pai foi insistentemente citado como descortês e eu aproveitei o episódio para inseri-lo no meu livro de memórias, apenas trocando os nomes: Guilhermina é a Wilma(William/ Wilma; Wilhelm/Wilhelma);

No quarto ano alguns colegas foram humilhados: Hélo Batini levava reguadas na cabeça; Fernado Quaglia era amarrado na carteira.

Quando passamos ao Ginasial e ao Normal tivemos uma separação sexual de classes e as meninas ficaram no período da tarde para não serem confrontadas à testosterona que havia no ar durante o período da manhã!

Sylvia Galvão, professora de inglês, transgredia: passava os discos dos Beatles e um dia aprendi com outro grupo musical americano que havia possibilidades inusitadas de vergonha e escândalo nos lares: “Your daddy ain’t your daddy, but your daddy don’t know“, dizia a letra.

Inclusive dizem que ela foi convidada a sair da escola porque preferiu ir à uma passeata, saindo da sala onde se encontrava dando aula de inglês e largando todo o seu material sobre a mesa!

Não se falava sobre “certos assuntos” e pessoalmente fui orientada em casa para não frequentar meninas que namorassem ou falassem palavrões!

Quando as turminhas começaram a ser formadas na 3a e 4a série, minhas melhores amigas faziam parte da comissão de formatura e por essa razão começaram a frequentar os rapazes; pois não é que minha mãe me dizia para voltar para a casa quando os meninos chegassem à casa delas?

Pior: eu obedecia!

Com a chegada da ditadura, ouvi muito em casa que

“estudante deve estudar” e “ai! de você se eu souber que participou disto ou daquilo…”

Apanhei até os 18 anos e era comparada (por diminuição) ao meu irmão!

Se na Caetano de Campos certos professores tratavam os rapazes como o fazia o sargento Hartman  tão bem interpretado no filme de Stanley Kubric- Full metal jacket, as meninas foram levadas ao mundo da alienação total: pelo menos no meu caso tive uma sargentona em casa!

 Foi preciso chegar ao 3° Normal para que a professora Vera Athayde Pereira, para nós um misto de Betty Friedan e Simone de Beauvoir nos abrisse os olhos sobre questões sexuais!

Igualmente importante foi aprendermos psicologia com Neide Solito(1° ano) e sociologia com Sylvia Aranha(3° ano).

As meninas do Clássico, verdadeiros Chapéuzinhos Vermelhos strictu et lato sensu, diziam que as normalistas -as Bela Adormecidas- estavam à espera de marido deflorador. Enquanto elas tinham uma abertura de espirito mais adequada à época, as normalistas ainda esperavam anestesiadas por cem anos a chegada de um príncipe encantado, que para muitas não passou de um sapo de difícil deglutição. 

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3 respostas para Full metal jacket versus A bela adormecida!

  1. João Carlos Venegas Falsetti - Joca disse:

    Caros amigos caetanistas

    É penoso para todos nós mexermos com as “lembranças tristes” de maus momentos vividos na Caetano. Sintetizo tudo numa simples visão: a Caetano foi nosso lar que abrigou-nos pelo período mais importante e sensível de nossas vidas, onde professores e alunos compunham a família caetanista. Como todo lar e família, teve suas virtudes e defeitos.
    Por lá passamos na virada dos anos 50 para 60, exatamente numa fase das mais significativas mudanças no mundo, das revoluções em todos os níveis: social, artístico-cultural, político, familiar, os movimentos pelos direitos sociais se fazendo cada vez mais intensos, os direitos da mulher, a pílula anticoncepcional, “Paz e Amor”, etc…
    Em meio a toda esta revolução mundial acontendo, a Caetano estava estagnada, presa e entrincheirada nas “gloriosas tradições da Escola Modelo” ainda cultuadas e alimentadas pelos remanecentes da aristocracia do tempo da Velha Republica (que deixara de existir trinta anos antes).
    Eu olho para o passado e vejo estarrecido como é que certos professores que por nós passaram e aposentaram podiam ainda estar dando aula em meio à quase senilidade, onde viravam alvo de chacotas e ridicularização por parte dos alunos. Um diretor velho, autoritário, ranzinza e rabujento (que era alvo de chacota dos próprios netos), de quem não lembro de nenhuma palavra de estímulo e motivação voltada para os alunos. Como é que uma figura como aquela podia estar à testa de uma das principais instituições de Ensino? A Escola não se renovava.
    Tivemos momentos mais arejados com a breve passagem do Prof. Raul Schwinden pela diretoria da escola, que pareceu iluminar a escola com um clima de mais liberdade e mudanças.
    Mas a festa durou pouco, e velhinho rabujento voltou e restaurou o “velho regime”. E os alunos voltaram a ser tidos e tratados como uma “raça inferior”.
    Ao sair da Caetano, e entrar no Colégio de Aplicação para cursar o Científico em 1965, conheci um outro mundo, em mudança e evolução e mesmo revolução. O ginásio daquela escola fora concebido como um laboratório para aplicação (daí o nome) de novas técnicas pedagógicas e processos educacionais. Muito nos surpreendeu e até chocou, quando ao chegarmos lá, depararmos com aqueles “pirralhinhos com 12 ou 13 anos” do ginásio, ainda “tão novos” mas tão ousados e contestadores e mais que tudo, “capazes de pensar” e enfrentar os mais velhos, inclusive adultos. Eram uns “monstros”…..
    Era o sinal de um novo mundo tentando chegar. Infelizmente esta experiência educacional acabou sendo abortada alguns anos depois, devido à tanta pressão contrária feita pela classe política e pela midia caindo de pau contra “o caos reinante naquela escola” com tanta mudança e liberdade. Minha irmã fez o ginásio lá e posso dizer que, apesar do “impacto chocante de sua formação revolucionária-contestadora no seio de nosso lar conservador” (experiência esta saudável para arejar “corações e mentes” caseiros), ela e todos seus colegas nos anos subsequentes, cursaram as melhores faculdades e se tornaram figuras diferenciadas no meio profissional e empresarial onde passaram a atuar.
    Em suma, vejo que a Caetano era uma escola parada no tempo e no espaço desde a República Velha, com a reputação mantida pela culto à tradiçao social aristocrática. Tudo o que nos queixamos de ensino repressivo e retrógrado que vivemos naquela época era a herança de uma grande História que fez a Caetano (onde a escola não era bem risonha e franca).
    A Escola não estava acompanhando o que estava acontecendo no mundo. Bem num momento mundial das grandes mudanças e revoluções. Infelizmente, a escola que era “Modelo” para as outras “foi sendo deixada morrer” pelo Estado que, sob a pretensa democratização do ensino público com implantação de milhares de ginásios, nivelou tudo por baixo, abrindo espaço para um exécito de professores despreparados e desqualificados atuarem como professores o que desvalorizou de vez a profissão e o ensino e resultou no caos atual.
    A Caetano acabou sendo vítima de tudo este processo de mediocrização e abandono. Tudo de bom que passou pela escola, em seu alto nível de ensino dos tempos mais antigos ficou num passado distante e é guardado hoje apenas como História e “peça de museu”.
    Lá vivemos os últimos tempos de apogeu e prestígio, onde apesar de algumas exceções de “falsos mitos falidos” (indicativos da decadência que estava a caminho), ainda se conseguia praticar um ensino de qualidade. E disto fica em mim, apesar dos meus ressentimentos quanto à formação quadrada censuradora e coercitiva, uma lembrança de gratidão pelo convívio com grandes amizades lá cultivadas e de bons professores que souberam colocar de lado os métodos repressivos estimulados pela escola e conquistaram os corações dos alunos ao tratá-los com respeito, amizade carinho e dignidade especialmente os Prof. Caldeira (já mencionado), prof. Ercílio de Ciências, prof.Fausto e o prof. Julião, diretor do ginásio masculino que (apesar de nos aterrorizar na 1ª série chamando-nos de marginais) se transformou num grande amigo de todos nós e gostava de conversar com os todos. E achou o caminho para estabelecer um bom relacionamento baseado em respeito e dignidade e amizade.
    Outros professores que eram bastante dedicados e deixaram lembrança bastante positiva foram Maria Luiza (Geografia), Paiva (Ingles), Albertina (Portugues) e Leocádia e Edith (História).
    Outra professora que nos deu aula por um ano, não lembro de seu nome, foi em trabalhos manuais, que bastante viajada pelo mundo, nos ensinou muitas “artes” na cartolina, artes trazidas do extremo oriente, do Japão e China e que tanto motivaram e encantaram a classe. Apesar da matéria não ter avaliação por nota, o interesse e participação era maciço.
    Em suma, a Caetano foi nosso lar com todas suas virtudes e erros e dentro daquilo de errado que passei e vivi, ficou o aprendizado para passar algo melhor para minhas filhas e aplicar na minha vida. Mas gosotoso mesmo é usufruir e curtir as sólidas amizades lá cultivadas.
    Um abraço a todos com votos de Boa Páscoa

  2. Maria Lúcia de França Camargo disse:

    Olá, Caetanista,
    Olá Wilma

    Acabei de ler os depoimentos, do Breno, do João Carlos e mais um que fiquei sem saber quem o escreveu, pois não encontrei nenhum nome, mas foi escrito por um mulher.
    Fiquei chocada com os depoimentos feitos, pois não presenciei nada do que foi citado.
    Talvez minha época tenha sido outra, de 51 a 59 ( primáro e ginásio) , de 60 a 63 ( normal e expecialização), além dos 5 anos que trabalhei como professora na pré-escola. Quem acompanha o Blog da Wilma, sabe que já me pronunciei, outras vezes, por isso, volto a falar quase a mesma coisa.

    Só para esclarecer, sempre pertenci, ao que era chamado de classe média, meu pai era Cirurgião Dentista autônomo e minha mãe, dona de casa, não tínhamos empregada, era a filha do meio, nunca fui mimada nem muito estudiosa, era média 6, às vezes 7, colei em todas as provas que pude, quando não da colega do lado ou da frente, levava minha própria cola escrita em minúsculos papéis, sempre passei raspando e na terceira série, fiquei de segunda época de Francês. Escrevo isso, só para não pensarem que era uma CDF, mas apenas uma aluna normal, tímida, de pouca fala e tentando ser ignorada pelos professores, daquelas que nem levantam a mão para tirar dúvidas.

    Desconheço essa Caetano de que vc falam e esses professores!
    Sempre tive professoras no primário, muito atenciosas e carinhosas, que me ensinaram a ser professora e das quais guardo boas lembranças.
    Dos professores do ginásio, as lembranças são as mesmas, não me recordo de nenhum professor faltar com respeito com as alunas, nem de professores caquéticos que já deveriam estar aposentados, o mais velho deles, era o prof. Orestes Rosolia, um ótimo prof. de história do Brasil e Geral, não tão jovem, pois sua filha, foi nossa prof. de história, na quarta série.
    Quanto a prof. Eneida, por sorte, não fui aluna dela, pois dividiam as classes, então a “A” e “C” pertenciam a ela e a “B” e”D” eram da D. Vitalina, esposa do prof. Fausto, de Geografia, eu era da classe “B”. Sei do medo que as alunas tinham dela, pois era muito exigente e brava, mas a prof. Vitalina, além de excelente prof. de matemática, era calma e terna.
    Quando entrei para o ginásio, tinha pavor dos famosos “Teoremas”, pois minha irmã que estava 2 anos na minha frente e estudava no Colégio Osvaldo Cruz, falava das dificuldade que tinha e o quanto “odiava a Matemática”, por causa deles. Quando terminei a quarta série, percebi que havia aprendido os teoremas, sem saber que os havia estudado, tal era a forma que a prof. Vitalina ensinava.

    Lembro que estava no quarto ano primário, e foram separados os meninos das meninas, fomos para uma sala, onde foram passados “slides”, conversado e explicado sobre a menstruação e as mudanças ocorridas naquela faixa de idade, ainda nos deram para levar para casa, um absorvente e um livreto, que na época era distribuído, explicando como deveria ser usado e que , ao chegar em casa, deveríamos conversar com nossas mães, isso, em 1954.

    É certo que na década de 50, as moças faziam Normal, que era conhecido como o” curso de espera marido”, a maioria de minhas colegas, se casaram logo após a formatura, poucas foram para a faculdade e outras foram trabalhar, como eu, que só fui fazer faculdade de Pedagogia, em 1971, porque senti aos 28 anos, que não ia poder continuar dando aula na pré-escola, por muito mais tempo, e que estava na hora de almejar um cargo superior, o que exatamente aconteceu, passando à coordenar o setor pedagógico e depois administrativo da escola.

    Foi no ginásio, com a prof. Nair que aprendi trabalhos manuais, de pregar um botão até organizar o orçamento de uma casa. Trabalhos manuais estes, como tricô, vagonite, cânhamo, macrame, que sei ate´hoje e até já me deram um dinheirinho, com as malhas tricotadas e as toalhas bordadas. Durante estes anos, já convivi com professoras, que não sabiam sequer pregar um botão ou fazer uma bainha na saia.
    Foi a mesma prof. Nair, enquanto fazíamos os trabalhos do dia , num ambiente bem informal, onde trocávamos ideias e mostrávamos nossos trabalhos, que ela passando pelos grupos, se aproximou de uma aluna, que na época usava as unhas muito compridas e coloridas, mas uma delas estava quebrada, destoando das demais, ela, afetuosamente sentou-se junto com a aluna e conversando lhe explicou que não precisava cortar todas as unhas, mas que devia aparar todas, um pouco, para ficarem mais iguais, o que aconteceu, pois no dia seguinte a aluna havia seguido o conselho da prof. Lição que guardo até hoje, pois como roí unha até quase 16 anos, adoro ter as unhas bem feitas e compridas e quando uma delas se quebra, lembro-me do que prof. Nair falou, há mais de 40 anos, e aparo as demais.

    Por quê os sexos eram separados no ginásio? Porque eram os tabus da época, o receio que os pais tinham ou os cuidados com suas filhas, tudo era muito escondido, pouco era falado e mostrado. Lembro-me que no final da década de 50, ” baixaram uma norma”, que rapazes e moças não podiam ser encontrados conversando, no quarteirão da escola, não queriam saber se era irmão, primo, parente ou o que fosse, tal era a rigidez, não da escola, mas da sociedade. Tudo era feio, tudo era pecado, eles (os adultos) viam maldade e malícia em tudo.

    Nunca escondi e sempre contei a quem quisesse ouvir, que meus conhecimentos gerais, meu português, quase correto, a facilidade com a matemática devo aos professores do ginásio, no Normal recebi o ensinamento pedagógico para lecionar e na Faculdade, nada que me acrescentasse, além do diploma.

    Quanto ao prof. Cardim tenho boas recordações como diretor superintendente, sempre presente, conversando com os alunos quando os encontrava pelos corredores e os atendendo, quando era necessário.

    Não podemos condenar a nossa querida “Caetano” pelo o que acontecia na escola, pois tudo era um reflexo da educação e dos tabus familiares da época e da própria sociedade.
    Aprendíamos desde cedo, que quem mandava na sala de aula era o prof., não havia mais as famosas palmatória, da época de meus pais, mas eles estavam ali para nos ensinar e deveriam ser respeitados. Não adiantava chegar em casa e reclamar se o prof. havia nos repreendido, mandado escrever 100 vezes, uma determinada frase, mandado para a diretoria ou outras “broncas”, eles apenas diziam que se o prof. agira assim, é porque alguma, nós tínhamos “aprontado”: não ter feito a lição pedida, conversado em sala, respondido de alguma forma que não deveria ter feito.
    Completamente diferente do que acontece hoje em dia, parei de lecionar há apenas 5 anos, quando os professores´são chamados à diretoria, porque os pais telefonam reclamando que os filhos se queixam, que os professores passaram muita lição de casa, onde os próprios alunos dizem aos professores que são eles(alunos) que pagam seus salários, que riem de sua cara, porque não consegue a disciplina em sala, onde falam alto e junto com o professor, onde enfim, é extremamente desmotivante e vc se sente como um palhaço (não querendo ofender aos próprios) e se pergunta o que está fazendo ali, naquele lugar, naquele momento. Do que adianta, todos os anos de estudo, todos os cursos que fez para se aperfeiçoar, todos os conhecimentos que adiquiriu e acumulou durante tantos anos, quando vc não passa de um empregado, como o que eles têm em casa.
    Os professores, não têm o apoio da diretoria, porque tudo se reduz à dinheiro (principalmente nas escolas particulares), é mais fácil trocar um professor, do que conseguir um pai que pague a mensalidade. que sabemos claramente, não é nem um pouco, compatível com o salário do prof.
    Passei por uma situação semelhante, quando já aposentada, resolvi voltar a dar aula, uma tarde fui chamada à diretoria e o diretor me falou que havia recebido uma reclamação de um pai, porque eu havia dito na sala que andava nua na rua; parece um absurdo, não? pois foi o que pensei e disse ao diretor, como ele podia acreditar numa coisa dessa, eu com mais de 30 anos de magistério, falar isso, o que nos mostra que a direção dá mais atenção ao pai do que ao professor, em outros tempos, teria defendido o professor, dizendo ao pai, o quanto isso não podia ter acontecido.

    Sei o quanto o tempo andou e como as coisas se modificaram, não parei no tempo, sempre me mative atualizada, acompanhando a juventude, mas infelizmente o que realmente mudou, foi o respeito e a educação que deixaram de existir, os limites de cada um que não são respeitados.

    Estou com 68 anos, completados em 15/04, estive em contato diretos com a educação, por 40anos, começando como professorinha de pré-escola, passando por coordenação, direção e montando minha própria escola, pelos vários métodos de ensino que foram aparecendo durante estes anos, sou talvez de uma geração anterior a da maioria que participa deste blog, escrevi tudo isto, porque realmente, minha permanência na Caetano, foi muito diferente do que descrevem e que infelizmente, talvez alguns de vocês não tenham conhecido.

    Desculpem-me, por ter me prolongado, mas quando falam mal da Caetano que frequentei e dos professores que firmaram o chão onde cresci, perco a noção do tempo e do espaço.
    Meu carinho para todos vocês caetanistas, um abraço
    Lu Camargo

  3. vanda maria marques de castro disse:

    Após terminar a leitura fiquei abismada e incrédula com as diferentes coisas que li. Meu tempo foi mais próximo do da Lu e só tenho boas recordações dos tempos da Caetano e a bem da verdade, muito orgulho. Concordo com a Lu com tudo o que ela viu e viveu… assim também foi comigo. Lá me despertaram o amor aos livros, aos estudos, o respeito aos pais, professores e mais velhos. Chego à conclusão que os anos sessenta e setenta e sua “liberdade” desmedida desestruturaram a família e a sociedade. Hoje pode tudo, vale tudo e o poder do dinheiro e da “esperteza” sobrepuja todos os demais valores. Hoje tido é bulliyng e estresse. Estamos muito próximos de uma revolução geral e se faz necessária uma avaliação, hoje baseada em estatística, dos reais valores, necessários e importantes para a formação do ser humano. É preciso depurar e estabelecer as verdades indispensáveis à boa educação; deixar do jeito que está é que não pode.

    Abraço, Vanda

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