Diatribe – διατριβή: a paixão pelo discurso exacerbado!

Fico comovida e pessoalmente feliz ao ceder o nosso blog aos colegas que queiram se manifestar e nos ensinam a pensar um pouco melhor.

O blog tem feito as vezes de uma tribuna livre e espero que todos vocês tenham a liberdade de participar, como tem acontecido com o Breno, José e Joca.

Leiam o que recebi hoje, aos 27/04/11.

Abraços, wilma

Galilée - Dialogue sur les deux grands systèmes du monde

Illustration : Couverture originale de l’ouvrage de Galilée “Dialogue sur les deux grands systèmes du monde” publié en 1632.(Source : wikipedia)

Comentário:

 Prezado José Manzano;

Achei válidas todas suas colocações e bem procedentes.

Eu gostaria de esclarecer que a carta anterior, em sua abertura, mencionei os “momentos tristes” vividos na Caetano em complemento e continuidade às cartas anteriores (do Breno e Wilma) focando especìficamente as questões de “bullying” ocorridas na nossa época e que muito nos marcaram (inclusive você, com sua lembranças traumáticas da Eneida).

Quero deixar claro (ao contrário do que pareceu) que não guardo só lembranças tristes de nossa saudosa escola. Muito pelo contrário, como fiz questão de citar nominalmente em minha carta, guardo ótima lembrança da maioria dos professores e da qualidade de ensino deles recebida. Sinto muito orgulho ao declarar que a Caetano foi nosso lar e nossa família na fase mais fundamental de nossas vidas e como tal me sentir um caetanista.

Quando manifestei minha indignação ao colocar que a escola estava “parada no tempo e no espaço” foi porque os problemas reinantes naquela época eram inadmissíveis para uma escola concebida para ser “Escola Modelo” para todo o ensino público do Estado. A Caetano começava a se tornar vítima de um processo de obsolecência deliberado implementado de cima para baixo. A manutenção de professores que não tinham mais condição de dar aula era um problema de conhecimento de todos. O Prof. Cardim ficou a frente da escola por muitos anos e sua história na escola construiu sua reputação e prestígio inquestionáveis e digna de elogios. Porém, devido ao avançado de sua idade, era deprimente presenciar suas manifestações e os deboches dos alunos suscitados a partir delas. Suas atitudes eram balisadas nos conceitos antigos de ensino que não acompanhavam mais o que estava acontecendo no mundo.

A escola carecia de renovação na sua direção. Mas o Estado o manteve lá enquanto ele quis ficar. A questão vinha de cima por não tomar as providências para preservar e garantir a continuidade da gestão da Caetano como instrumento de educação focado no desenvolvimento e qualidade do ensino como “Escola Modelo”. Era uma questão de política de ensino público e que já começava a impactar na vida da escola.

Deixe-me exemplificar com o ocorrido com minha turma formada no ginásio em 1964: como você bem disse, você foi com muito orgulho integrante da 1ª turma que concluiu o colegial em nossa escola. Essa alegria já não foi permitida para nossa turma. E por que? O colegial foi implantado a partir de 1962.

O Prof. Cardim naqueles 2 anos se ausentara da diretoria da escola (estava na secretaria da Educação).

A escola entrara num processo de mudanças, evolução e crescimento, ao oferecer uma formação mais ampla e extensiva a seus alunos. Porém, em 1964, o Prof. Cardim voltou à diretoria e era de conhecimento de todos sua posição contrária ao colegial. Porém, não era mais possível querer dissolver o curso colegial.

O que aconteceu então?

No ano seguinte (1965) só foi oferecido o 1º ano do Curso Científico à noite. E ele ficou inflexível mesmo diante do veemente discurso do Prof. Biral na nossa solenidade de colação de grau.

Resultado, a debandada foi geral. Quem que cursando o diurno em 1964, continuaria na Caetano para cursar o noturno?

Esta atitude do Prof. Cardim foi andar para trás, levar a escola de volta ao passado e apagar as luzes de mudanças que começavam a crescer. Daí minha refência à escola “parada no tempo e no espaço”. Porém naquela altura, nos anos 60 ele queria manter a escola dentro modelo que ele entendia que não deveria mudar.

Renovação e mudanças era algo impensável. Se a escola tinha a missão de ser modelo de ensino de qualidade para todo o Estado, é lógico que se esperava dela uma escola cujo foco fosse buscar a evolução visando incorporar progresso e melhorias no processo educacional. Mas isto só se torna viável e real a partir de uma “vontade política” vinda de cima. E a escola já naquela época já estava sendo privada deste apoio oficial como que prenunciando o processo que estava a caminho de mediocrização generalizada do ensino público.

A manutenção do alto nível de qualidade de ensino da Caetano como ícone e paradigma para o ensino público no Estado só traria problemas para os governantes. E por que? Com a “democratização” do ensino feita a toque de caixa e de qualquer jeito para resolver o ensino na quantidade (“vagas para todos nas escolas”), a qualidade deixou de ser o foco da prioridade e foi deixada de lado. Então por que manter uma referência de ensino na Escola Modelo? Só para gerar cobranças públicas contra os governantes? Carência de recursos já estava batendo às portas da nossa escola.

Você deve lembrar quando em 1961, a tabela de basquete desabou por estar podre. Os equipamentos esportivos estavam sucateados. E ficamos um longo tempo privados da prática esportiva e nossas aulas de Educação Física restritas ao que era possível fazer. Como conseguimos ter a nossa “praça de esportes” de volta?

O Prof. Casagrande organizou uma vaquinha entre os alunos e professores para a aquisição dos equipamentos novos: traves para o gol, rede de volley e tabela de basquete. Foi a maior alegria e festa, com a sensação de um “Renascimento” dentro da escola e mais ainda com a satisfação do “caráter participativo geral” que culminou nesta realização. A exemplo da iniciativa do Prof. Casagrande, os bons professores de nossa escola lutaram bravamente (contra a “roda-viva que carregou a roseira prá lá”), nos anos subsequentes contra esse processo de degradação do ensino e aviltamento profissional e “seguraram a peteca” enquanto deu, preservando o bom nível da escola e mantendo o bom nome da Caetano como uma escola diferenciada e isto conseguiram por mais alguns anos.

É esse inconformismo que eu reitero aqui, ao ver aquele ícone e símbolo que tantos nos orgulhou, que foi a Caetano, relegado à simples lembrança gloriosa de um tempo distante no passado e apenas relatado nos livros de História, processo que também retrata o que aconteceu com nosso ensino público.

Um abraço a todos.

João Carlos Venegas Falsetti – JOCA

Comentário:
Olá José

Como me fez bem, ler o seu depoimento.
 Com a facilidade de falar e escrever que tem, disse tudo aquilo que eu quiz dizer, que estava sentindo, mas só consegui expressar, com minha linguagem mais simples de professora.

Realmente, não podemos analisar com os olhos de hoje, o que aconteceu há quase 60  anos, é como se quisessemos comparar a educação que tivemos com a que nossos avós tivaram, no final do século 19, quando a República, mal tinha sido instalada no Brasil.
Cada época teve seus grandes acontecimento, suas descobertas, seu tipo de educação, seus tabus,  sua maneira de viver, a sua sociedade.
Seus momentos bons, seus momentos maus, seus bons professores e seus maus professores. Seus bons profissionais e seus maus profissionais, em qualquer área.

 Por quê, vamo-nos lembrar só do que foi ruim? Quando são as coisas boas e as boas lembranças do passado que amenizam nossos dias de hoje e nos dão forças para acreditar no bem e no bom e continuar percorrendo nosso caminho!

Se formos nos lembrar só das lágrimas derramadas, viveremos num mar de sofrimento, sendo que o que nos acalanta, quanto chegamos a esta altura da vida, são sim, os bons momentos, os grandes amores, as alegrias, as recompensas; são a educação e o respeito que nossos pais nos deixaram, mesmo que a geração de hoje, ache tudo isso, desnecessário e sem valor algum.
 O que me consola, é que num futuro próximo, verão como nós estávamos certos, da mesma forma que um dia, não muito distante, julgamos nossos pais e avós.

Nunca me esqueço, que  numa tarde de sol, recém formada professora, passando pela Av. Ipiranga, junto com minha mãe, olhei para o prédio do IECC e lhe disse:” se soubesse que ia passar tão rápido e como era tão bom, teria feito cada ano em dois”.

Que ninguém ouse falar perto de mim, mal de minha escola, que na época, era sim, uma ESCOLA MODELO, da qual guardo as melhores lembranças e os melhores momentos de minha vida de estudante, minha infância, adolescência e juventude; e de meus professores, que me transmitiram depois e minha família, os conhecimentos, educação, respeito, dignidade que pude passar para meus alunos.

Posso não ter a cultura, que já percebi que muitos de vocês têm, nem viajei pelo mundo, mas de educação, métodos de ensino, comportamento pedagógico-educacional, entendo um pouco, como já disse, estive no meio deles por 40 anos, passando por várias gerações, métodos de ensino, tendências às mudanças dos costumes, dos métodos pedagógicos, que as escolas ditas modernas, inventam para tirar mais dinheiro dos pais.
Na minha opinião tudo “papo furado”, pois b+a, 2+2 serão eternamente, ba e 4.

Presenciei, durante esse período, o nível de professores, decair a cada ano e espero, infelizmente, pelo dia, que eles não mais existirão, tal é o desestímulo, o desinteresse que há por parte de uma sociedade semi- analfabeta.

Como disse anteriormente, professor hoje, não passa de um empregado dentro de uma sala e não mais “o Mestre”, que seguíamos depois de nossos pais.

Desculpem-me os que guardam más lembranças de uma época da vida, que só deveria deixar boas memória, lembranças alegres e sorrisos.

Amo os 18 anos que andei pelo corredores, do meu querido IECC, com lágrimas nos olhos, pelas notas baixas e as broncas dos professores, e com sorrisos pela felicidade de frequentar tão almejada escola, pelas festas, pelas boas notas; por tudo de me deu fazendo de mim, uma mulher de carater, uma ótima profissional e uma senhora jovem e repleta de boas recordações.

A todos vocês, o carinho desta cartanista com muito orgulho.

Lu Camargo

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