Um pouquinho de “Crônicas e contos cruéis” para os meus leitores.

(wilma schiesari legris)

O Assalto II

Quando Carlos Drummond de Andrade escreveu O Assalto, morava no Rio de Janeiro numa época em que assalto era raro por lá.

            Apenas pelo vocabulário descrevendo o ônibus parado na rua transversal para “assuntar” durante um presumível hold-up mostra que aquilo se passou antes dos anos 1950, época em que todos andavam com aquele meio de transporte; e assuntavam!

            Agora imaginemos um ônibusem São Pauloem 2010, algumas pessoas sentadas, outras em pé.

Lado a lado, braços esquerdos erguidos no mesmo balaustre horizontal, minha prima recém-chegada do interior e uma doméstica com ar de inocente se defendem das freiadas bruscas.

            A prima tendo chegada escolada na capital, percebeu que lhe faltava o relógio que havia comprado de um camelô da Barão.

            Para não criar nenhum sentimento de pânico no corredor do coletivo, disse à meia voz para a senhora ao lado com cara inocente, quase sílaba por sílaba de modo que outrém nada ouvisse para que o anjinho de pau ôco lhe restituísse imediatamente o objeto roubado, inclusive isso fazendo passo a passo, regulando a situação de modo a não fazer nenhum escândalo que levasse as duas à delegacia.

            O anjo obedeceu: abriu a bolsa onde guardava o objeto do desejo, tirou de lá a sua jóia, até então embrulhada num lencinho de cambraia e discretamente pô-la na bolsa à tira-colo de abertura larga da vizinha de trajeto.

            Tremeu, suou e desceu no ponto seguinte que nem sequer era o de hábito e andou amedrontada durante muito tempo, pensando que cadeia não é o melhor lugar do mundo para se ficar de noite.

            Quando minha prima chegou em casa, radiante pelo flagrante delito abortado que executara com classe no autocarro, abriu a bolsa e tirou dela um lencinho perfumado com um verdadeiro Cartier.

            A doméstica não era doméstica e ladra foi a minha prima que percebeu que com o alargamento da pulseira do seu relógio, aquela falsificação tinha ido parar no cotovelo quando o seu braço se encontrava levantado segurando a barra do ônibus.

            Ela tinha roubado de verdade um Cartier; de verdade!

Gostaram?

Então por que não passar pela Livraria da Vila?

Abraços;

wilma.

22/01/12.

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