A crônica semanal da Priscila Ferraz.

Queridos leitores:

Quando eu escrevo um conto ou uma crônica, pego uma frase que escutei aqui, coloco-a nas palavras de um personagem parecido com alguém que conheço, às vezes três ou quatro “alguens” junto, ali, invento um texto de preferência cruel, com outro relato que ouvi num ônibus, na rua ou no café com uma amiga, misturo todas essas colagens e obtenho um produto de ficção. Eis a receita!

Sinceramente espero que a nossa Priscila trabalhe da mesma maneira e gostaria que a crônica que vocês vão ler seja apenas o produto cerebral de uma escritora.

Abraços a todos e bom carnaval;

wilma.

18/02/12.

Atrás da porta.

Hoje, um dia tão especial para mim, quando tenho a alegria incrustada em meu coração — afinal consegui atingir meu sonho depois de tanta luta —, tenho a todo momento aqueles lampejos de memória sobre uma data remota em que pensei que o mundo tinha acabado. Bem, o meu, literalmente, tinha.

Do que mais me recordo é do calcanhar atrás da porta. O sapato era surrado e eu o conhecia muito bem. Vê-lo tremeluzindo daquela maneira era inédito, talvez por isso a lembrança tão forte. O sapato pertencia a um pé esquerdo, mas que importância teria isso diante daquela tragédia? Enfim, vá entender esses nossos pensamentos tão insensatos.

Somente o ódio me impedira até aquele instante de ter me derretido em lágrimas, mas quando apenas o pé tinha restado diante de meus olhos, a represa arrebentou, justamente na hora em que ouvi a porta batendo. Meu peito estava apertado. Meu corpo formigava, o estômago estava enjoado e doendo, as mãos geladas estavam molhadas e minha respiração curta não era suficiente para me encher os pulmões, daí, de quando em quando, eu inalava grande quantidade de ar e o soltava num som gutural. Quanta raiva!

Aquela sola de sapato brilhando oscilante detrás da cortina de lágrimas quentes se manteve em meus pensamentos a cada nova conquista. E hoje, no dia em que finalmente consegui comprar minha casa, não poderia deixar de estar presente.

Eu tinha amado aquele homem como somente a força da juventude permite: um amor puro e arrebatado, alimentado por todos os conselhos antagônicos que tinha recebido de todos os que me amavam, e que só faziam aumentá-lo.

Pensar que eu tinha sido abandonada por causa de uma mulher que só pensava em luxo e riqueza. Infeliz. Queria muito vê-la agora, com seus sonhos tendo sido levados pela realidade de uma vida de inércia e vagabundagem. Tudo o que ela via, queria. Não sabia o que era consciência.

Eu tinha muitas vezes passado fome ao lado daquele ingrato, trabalhando dia e noite para amealhar o que pensava que seria destinado a um viver melhor. Quando o via contrariado, sorria e o estimulava com palavras doces, até que o mel que havia em meus lábios o fizessem esquecer suas ansiedades, tantos os beijos. Sei que ele se recorda e tem saudades de mim.

Naquele dia, eu tinha perdido tudo. O homem que eu amava, pois, mesmo assim, com ódio de mim mesma, eu o amava. Tinha perdido minhas ilusões, tinha perdido minhas economias que serviram para alimentar os luxos daquela tal. Não tinha para onde ir. Estava castigada pela humilhação. Naquela última noite, me esvaí chorando, e o dia me encontrou de pé diante da porta onde na noite anterior se haviam fechado para mim as ilusões. Simplesmente saí andando, com meu segredo bem guardado dentro de mim.

Foi um tempo em que parecia que eu estava entre o dormir e o acordar, aquele momento de quase inconsciência que o cansaço traz, pouco tempo para descansar, muito para fazer. Para dar forças, somente o sorriso de meu segredinho. Tempos difíceis. Tempos duros.

Enfrentei tudo, e venci. Minha filha foi a oradora de sua turma e, ao terminar o curso na universidade mais importante do país, pediu licença para agradecer à sua mãe com as seguintes palavras:

— Dedico este meu diploma à minha mãe, Dona Amélia, uma mulher de verdade.

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