Minha gente.

(wilma schiesari legris)

Queridos leitores:

Abri agorinha a crônica da Priscila Ferraz, que como sabem, foi nossa colega no I. E. Caetano de Campos e hoje trabalha no Clube Pinheiros.

Até aí, tudo O.K.; porém lembro-me ter-lhes  explicado na semana passada que escrever é inventar, criar, usando características, frases, situações,  ambientes e datas diferentes e como numa receita onde todas as combinações são possíveis, virar o mundo de cabeça para baixo e pela desconstrução, construir.

Nessa crônica Priscila deixa escapar uma personagem, a professora do I. E. Caetano de Campos(fictiva mesmo?) supostamente chamada Maria de Lurdes(em francês lourde significa pesada) – que pode ser interpretada como um pastiche-invertido de Nossa Senhora de Lourdes, diabolicamente instalada no altar da classe e sadicamente vexando seus aluninhos,  vinda à tona da memória como a alegoria de uma bruxa cuja maldade ainda se faz presente.

E em apenas um período gramatical sentimos um certo mal-estar de uma situação que prenunciou uma época ingrata; acreditem ou não, a escrita leva no seu âmago a presença de um mecanismo  inconsciente!

Felizmente que o resto da crônica presta homenagem à gente que sempre a gente esquece ou finge esquecer: à gente humilde.

Que vontade de chorar…

GENTE QUE FAZ

(Priscila FERRAZ)

 

Estava filosofando com meu marido no outro dia e ele comentou sobre o quanto devemos para as pessoas que nos cercaram durante nossas vidas, a todas e a cada uma delas.

Quem não se lembra das empregadas que trabalharam em nossas casas quando éramos crianças? Quanta contribuição trouxeram para nós, sem que nos déssemos conta disso? Brincadeiras de esconde-esconde com a Benedita da Silva, por exemplo, vulgo Beth, que de dia era doce e carinhosa brincando com a gente e de noite se prostituía nas ruas do Bixiga. A Beth me ensinou muito sobre as mulheres chamadas “da vida”, que podem ser muito melhores do que muitas carolas que batem no peito, ditam regras de moral e têm o coração empedernido, como D. Maria de Lurdes, minha professora (?), que na quarta série — sempre vestindo preto e com a boca cheia de dentes, parecendo uma cremalheira — me atormentava demais, como se não bastassem os problemas que eu já tinha em casa, sempre me questionando e me chamando de burra na frente de toda a classe de mais de cinquenta alunos do Caetano de Campos. Me fez muito bem a malvada, esteve em meus pensamentos a cada nova conquista: quem era a burra?

Pessoas que trabalharam com a gente a vida inteira, como a Zefa, que foi minha companheira de fins de semana, pisando fundo nas máquinas de costura quando não podíamos atrasar com a mercadoria, minha grande amiga até hoje a quem rendo meus respeitos pela mulher corajosa que é; e outras que viram comigo o passar dos anos, como a Sirleine, secretária, quebra-galho e amiga do peito, daquelas como poucas que a gente conhece em uma vida.

Outros funcionários com quem perdemos contato, como a Marluce, baiana, boa cozinheira, que desapareceu assim como a Tiana, mineira que trabalhou em minha casa por uns dez anos e me ajudou quando os filhos eram pequenos. Me pergunto: o que terá sido dela? Sua vida, como será? Agora numa fase melhor da vida, gostaria de poder ajudá-la. Meus garotos, Geilson e Gedeilson — que vieram meninos e se tornaram homens em minha casa — estão em nossos corações, pela integridade e amizade sincera que nos dedicam e que é retribuída por nós com amor e carinho.

Professores maravilhosos, que nos orientaram e dirigiram no caminho do conhecimento e dos quais sempre nos lembramos, vez ou outra, por seus ensinamentos. O pessoal que trabalhou nas obras e que ficou em nossos pensamentos por sua competência e aguerrimento, e outros ainda que permaneceram pela simpatia e  nos acompanharam mesmo depois de as obras concluídas, prestando serviços de guarda, bicos etc., o Valmir entre eles: construiu minha casa e, mesmo muito doente, vinha todos os dias; por não ter mais forças, sentava-se num montinho de tijolos e ficava desamassando pregos. Não perdia o sorriso alegre nem mesmo no hospital em seus últimos dias. Ou o Zezinho, que veio trabalhar em São Paulo criança ainda e sem documentos, só trazia em sua carteira a foto do pai. Foi preso quando abriu a carteira para o policial, que lhe pediu os documentos e só viu a tal foto. Desacato!!!! Perdeu-se na bebida e sumiu no mundo. Os funcionários do clube que frequento todos os dias, e nos atendem sempre solícitos — Gaspar, Edinho, Walter, para exemplificar — sempre de olho nos meninos que os respeitavam e admiravam.

Sei que deixei de mencionar muitos e muitos outros, mas isso não se deve a pouco caso, mas, sim, à falta de memória neste momento, mas saibam que nos lembramos de todos de quando em quando. Obrigada, gente.

 
KBR | Fevereiro 24, 2012.
   

 


 

 
 
 
 
priscila ferraz priscilatenista@hotmail.com
20:33 (Il y a 15 heures)

 
à priscila
 
 
 
 
 
 
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