Caderno folheado na memória: Jardim do I.E. Caetano de Campos, 1957.

 Ovo frito na frigideira

Meu caderno do Jardim de Infância.

(wilma schiesari-legris)

Durante mais de 50 anos podia-se folhear o meu caderno do Jardim de Infância, que desde 1957 ficou numa gaveta da casa de minha mãe.

Enquanto ali vivi, na solidão da minha casa, não era raro que eu o folheasse para inventar sonhos e quando deixei o Brasil, trouxe para cá um gosto amargo da minha infância, um caderno que apenas existia no meu pensamento.

Quando minha mãe faleceu, num derradeiro ato de posse, deve ter levado o meu caderno consigo pois nunca mais tive acesso a ele.

Era um caderno de desenho de grande dimensão para a escala sem adequação de uma menina de seis anos.

Contrariamente ao recomendado na época da escolarização pré-primária, meu caderno era com lombada em aspiral e nenhuma folha havia sido numerada.

A primeira continha o meu nome completo em escrita pedagógica, um estribilho da etiqueta delineada de azul, colada na capa envolta de papel azul-claro, tudo proveniente da Papelaria São Francisco, pilotada pela dona Lina, Chiquinho e Sérgio, seus belos filhos.

No interior do caderno, apenas usando as páginas de face, minha professora, a jovem e apetitosa Dulce, como seu próprio nome indica, havia colado todos os trabalhos que ali couberam.

A maior parte dos mesmos era para desenvolver habilidades manuais, à base de recorte e colagem.

Naquela linguagem, lembro-me de ter recortado em papel espelho preto, branco e amarelo, primeiramente o contorno de uma bela frigideira, que centralizada na brancura da página, levava ao seu âmago a forma de uma clara; esta recebia no seu interior o círculo amarelo de uma representação de gema que não traía sua circunferência atribuída pelo zigezaguear de umas tesourinhas sem pontas.

O interessante era o duplo espelho do trabalho: sua matéria e sua mensagem, pois os papéis servindo de fundo dos quais foram recortados os três elementos que compunham o ôvo estalado na frigideira estavam ao lado da imagem positiva entregando-lhe a força do quadro ao negativo!

Outro trabalho ali encontrado era composto de urdidura e trama, ambas de papel espelho, com o paciente trabalho de inserir no papel servindo de tela e com incisões cirúrgicas feitas verticalmente, as tiras de outra côr tecidas que não se se torciam, amassavam ou partiam.

Lindo o marcador de livro feito de feutro para o Dia dos Pais: no alto, sobre o longo retângulo de feutro verde, as pétalas achatadas e brancas de uma margarida infantil acolhiam o miolinho tenro e amarelo daquela estilização de flor.

Na página seguinte, um quadrinho de cartolina colorido à lápis-de-côr, recolhia um raminho de flores secas devidamente coladas em buquê e atadas com fitinha de cetim: presente de Dia das Mães!

Figuras geométricas recortadas e coladas davam sequência ao caderno, assim como trabalhos de recorte e colagem em branco e preto a formar um painel enxadrezado.

Bandeirinhas volpianas ilustravam o varal das festas juninas; teste de comparação mostrava sequências de imagens aplicadas ao carimbo, que uma delas não correspondia às outras três.

Outros carimbos, agora com figuras de animais, eram coloridos em função das noções de grandeza, fosse do tamanho, do peso, do habitat ou da classe do animal.

Encerrando o ano vinha a folha com a árvore de natal recortada no papel espelho verde sobre o qual as « bolas » de todas as cores deveriam ser coladas; trabalho usando novamente a noção do positivo e do seu negativo, talvez para que soubéssemos desde pequenos que nada nesta nossa vida deva ser visto de um único ângulo, que sempre à uma situação dada há de se pressupor vários elementos de configuração, que à nossa frente existiria uma possibilidade de opção e que nem todo vazio carrega em si, o nada.

Abraços,espelhados;

wilma.

30/05/12.

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