1968-Roda Viva, peça de Chico Buarque de Hollanda, uma fábula política na sala de aula do I.E. Caetano de Campos.

Roda Viva, peça de Chico Buarque de Hollanda, uma fábula política na sala de aula do I.E. Caetano de Campos.

(wilma s. legris)

 

Ano de 1968; a professora era Sylvia; a disciplina, Sociologia e um dos conteúdos da matéria, a peça Roda Viva, de Chico Buarque de Hollanda, em cartaz no Galpão do Teatro Ruth Escobar, com a direção de José Celso Martinez Correia.

Três meninas da minha classe preferiram assistir à peça do que ler o livro de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo; eu era uma delas e, apesar de ser criançola, em vias de optar pelo teatro como meio de expressão.

Naquele ano havia visto as montagens de O Rei da Vela pelo Zé Celso no Teatro Oficina e no ano anterior, Galileu Galilei no mesmo teatro.

Eram montagens que permitiam a saída dos esquema de teatro realista-stanilawiskiquiano, partindo para a quebra da ilusão e o afastamento brechtiniano, com propostas orgíacas, tropicalistas e até carnavalescas(no sentido de Bakhtine).

Naqueles anos o nosso teatro foi o mais rico em forma e conteúdo: além das peças citadas, via-se em São Paulo Cemitério de Automóveis(Arrabal, direção de Victor Garcia, no Teatro 13 de Maio), O Balcão(Genet, no Teatro Ruth Escobar, escavado num palco especificamente para receber essa peça), Missa leiga(primeiramente no T. R. Escobar e depois na Igreja da Consolação), Os monstros(Denoy de Oliveira, direção de Jérôme Savary), Lysistrata(Aristófanes, T. R. Escobar), etc., todas aquelas montagens encenadas “carnavalescamente”.

Era uma enxurrada de peças estrangeiras, com diretores estrangeiros, levadas aos palcos oito vezes por semana, com casa lotada.

Os artistas daquela época eram os jovens: Pereio, Marilia Pera, José Wilker, etc..

Como o texto-roteiro do Chico – Roda Viva – é uma fábula, ficava apetitoso ao diretor de largar as amarras como já havia feito com outros textos.

Lembro-me que a côr dos costumes de cena era entre o marrom e o laranja. Por que?

A peça começava com um côro que tinha várias funções, ora de representar o povo brasileiro, envolto em farrapos de sacos de estopa tingidos de marrom para depois se transformar num público de macacas de auditório a sugar o astro em ascensão da música iê-iê, Ben Silver, digo: Benedito da Silva.

Contemos a história:

Benedito Silva, marido da Juliana canta um repertório iê-iê-iê, mas com seu verdadeiro nome não pode enfrentar o novo esquema de shows televisivos, que tinham deixado de ser emissões ao vivo com temática nacional, regional e até universal, para ingressar na era do lixo audiovisual, de preferência com conotação americana, gerando muito lucro aos interessados.

Não somente o Benedito passa por uma metamorfose puxada e forçada para vender um produto, como se tornando ele mesmo uma mercadoria, perde a alma, a mulher e os amigos.

Prato cheio para um ponto de Sociologia; por isso mesmo indicado pela dona Sylvia! – mesmo com algumas alunas ingênuas e despolitizadas na época(falo por mim!).

 

A platéia do teatro que estava cheia de mocinhas de boa família – não esquecer que o preço do teatro era bem caro, inclusive para mim que ia quase sempre de graça, – e se não tivessem lido as criticas do Mishalski, Jardanowiski, Décio de Almeida Prado, Bárbara Heliodora ou Sábato Magaldi, certamente sairiam dali completamente violadas intelectualmente!

Muitos momentos me ficaram na mente, sobretudo a cena em que o personagem bêbado do Pereio, numa cena de antropofagia tipicamente modernista-bem oswaldiana- « come » o fígado do rei do iê-iê-iê, servindo-se de uma verdadeira peça de açougue, a respingar sangue pela platéia e entre outros vorazes comensais.

Nada a ver com a doçura da Banda, com a moça triste da janela…

Ali se fazia uma cerimônia primitiva que nocauteava a censura e liberava a opinião, esclarecendo o público ao som do apelo comercial, subjacente:

« Compre,compre, compre, compre… »

Não deu outra: alguns meses depois, quando a peça já dava o que falar, um grupo fascista de nome CCC(Comando de Caça aos Comunistas), vindo do antro mais direitista da rua Maria Antônia(leia-se Mackenzie) excursionou até a Bela Vista e esperou que o espetáculo findasse e literalmente « quebrou a cara » do elenco, aproveitando para destruir o material de cena.

Ninguém foi preso, mas a lição prática de Sociologia aplicada ao teatro tinha cumprido sua missão: educar o público e educar três aluninhas do IECC.

Compreendi-a muito tempo depois; antes tarde que nunca!

Abraços teatrais,

wilma

28/06/12.

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