Carlota Pereira de Queiroz: Escola-Modelo Caetano de Campos – 1909, primeira mulher eleita deputada em São Paulo, estudada nas aulas de Vera Athayde Pereira.

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Carlota Pereira de Queiroz, diplomada pela Escola-Modelo Caetano de Campos em 1909, foi a primeira mulher eleita deputada em São Paulo.

(wilma s. legris)

 Queridos leitores:

Com intuito de continuar o nosso blog com assuntos interessantes, visto que o material fotográfico se encontra mais que explorado e inclusive repetido em outros sites, resolvi falar daquelas pessoas que passaram pela nossa escola e deixaram uma marca qualquer, inclusive das menores. 

Pois bem: eu já lhes havia escrito algumas linhas sobre Carlota Pereira de Queiroz, a primeira mulher a ocupar uma cadeira de deputada federal por São Paulo.

Foi numa das aulas em 1968 da professora Vera de Athayde Pereira, provavelmente membro da sua familia, que pela primeira vez ouvi falar de Carlota Pereira de Queiroz.

Detalhe pitoresco: naquele dia em que dona Vera nos falou de Carlota, estava uniformizada de “bandeirante”, pois como a minha biografada, ela também tinha uma vocação patriótica.

Pesquisando aqui em Paris, descobri um trabalho da brasileira , Mônica Raisa Schpun, doutora em História, dedicado à Carlota Pereira de Queiroz,  que foi publicado no Brasil em 1997.*

 São 33 páginas memoráveis onde Mônica Raisa Schpun descreve a obra de Carlota Pereira de Queiroz através da sua vida daquela ilustre personagem.

Para entendermos a sua evolução, coloco aqui algumas informações que os leitores provavelmente conheçam mas que talvez se tenham esquecido.

O sobrenome Pereira de Queiroz se estende de Jundiaí e chega pelo menos até Piracicaba, onde nomeia a Faculdade de Agronomia.

Carlota nasceu numa casa onde o berço era de ouro e a cultura fazia parte da herança;  naquele lar o Partido Republicano Paulista era a materialização de uma ideologia de oposição aos governos desde a Proclamação da República, que durou até a chegada da era Vargas.

Composto por liberais de engajamento maçônico, grandes plantadores de café e abolicionistas ardentes defensores da imigração européia para substituir a mão-de-obra escrava, o PRP aliou-se ao PRM(Partido Republicano Mineiro) para defender seus privilégios, formando ambos o chamado Partido Café com Leite ou República Oligárquica, que em troca de certos favores ao Governo federal (que garantia aos Estados completa autonomia administrativa desde que não se metessem nos interesses de classe dos seus membros), permitia, outrossim, o revezamento garantido na Presidência da República entre paulistas e mineiros.

Sofrendo o PRP muitas dissidências, dele nasceu o Partido Democrático em 1926.

Em 1932 o PD  apoiou a Revolução Constitucionalista, não getulista e contra a dissolução feita a todos os partidos de então.(notas minhas)

Para dona Carlota Pereira de Queiroz, tudo começou assim: filha de famílias materna e paterna muito ricas e influentes(polícos membros do PRP e PD, fazendeiros, comerciantes), nasceu em São Paulo aos 13 de fevereiro de 1892.

Criança, depois de ter passado pela escola republicana, o I. E. Prudente de Moraes, transferiu-se para a Escola-Modelo Caetano de Campos onde, normalista, formou-se professora em 1909.

Após a formatura, dizia ela que teria de trabalhar porque sua familia passava por dificuldades financeiras e, à convite do diretor da Escola-Modelo, foi inspetora escolar e depois professora de música e de artes.

Fora aquele álibi, Carlota deveria haver uma sede de independência financeira, que é a chave das demais independências.

A partir de 1912 e até 1922 Carlota Pereira de Queiroz segue no mesmo cargo na Escola-Modelo.

Em 1922, ano da Semana de Arte Moderna em São Paulo, Carlota participa do III Congresso Americano da Criança e do I Congresso Brasileiro de Proteção à Infância com um trabalho denominado O problema da educação elementar – os sistemas Froebel e Montessori.

Naquele momento haviam sido criadas novas escolas na cidade de São Paulo e a mulher paulista, até então à margem da sociedade atuante, encontra um vão onde se colocar.

Carlota desuludida com sua atuação profissional outorgada pela autoridade masculina da escola, abre as asas para voo mais alto: antes mesmo que houvesse o congresso acima citado, apoiada ao seu CV com dez anos de experiência no setor da  Educação, Carlota se inscreve na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e em 1926, formada, começa a exercer sua carreira de médica.

Ter um lugar ao sol naquele meio masculino não seria possivel sem muita perseverança: entre 1927 e 1929, especializa-se em cancerologia na França e na Alemanha.

Da sua volta em 1929, até 1947, dirige o Laboratório de Hematologia da Clinica Pediátrica da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, mantendo até 1933 seu consultório particular.

.Em 1932, a Revolução Constitucionalista atraiu muitas paulistas, a começar pelas quatrocentonas oligarcas que se opõem à política de G. Vargas, prejudicial aos cafeicultores.

Também começou a existir nos lares tradicionais, uma busca à saída dos mesmos por motivos patrióticos.

Embora as mulheres não pudessem ir ao front, a cidade de São Paulo ofereceu espaços destinados ao apôio revolucionário às senhoras paulistanas que se deslumbram com o gosto de poder fazer algo de diferente e sobretudo fora do âmbito familiar.

Um primeiro organismo criado para servir aos soldados revolucionários foi o germe do futuro Departamento dos Serviços Auxiliados de Guerra, subordinado ao Departamento de Assistência à População Civil, tirando as ações beneméritas do setor caritativo e elevando-as ao serviço público.

Carlota Pereira de Queiroz dirigiu o DAF – Departamento de Assistência aos Feridos, oriundo deste

último.

O fato da filantropia evoluir e de ter se institucionalizado, ter sido exercida por mulheres, provocou um salto quantitativo e qualitativo na expressão e na atuação feminina da sociedade.

Servindo-se das suas experiências profissionais nada medíocres como professora, educadora e médica, da sua atuação meritante durante a revolução aliadas ao momento histórico de São Paulo de 1932 e, apoiada por outra mulheres(principalmente Pérola Byington e Olivia Guedes Penteado que publicaram um manisfesto de apôio à Carlota), assim que por meio de outras associações, Carlota Pereira de Queiroz pôde candidatar-se à deputação nas eleições de São Paulo.

Carlota Pereira de Queiroz elegeu-se, então, em 1933, deputada federal por São Paulo e apesar do lastro de sua formação e experiência ter sido elevado, foi o fato de ser uma mulher e uma mulher da oligarquia do café, que lhe permitiu aceder às funções que lhe foram dadas na Assembléia Legislativa.

Carlota Pereira de Queiroz não foi uma feminista, mas uma mulher que abriu as possibilidades de participação social às outras mulheres, inclusive através da União Feminina que teve seu fim em 1934 por ordem de G. Vargas.

Carlota Pereira de Queiroz honrou seu manadto até 1937 e a partir de então um novo espaço na sociedade se abriu à mulher brasileira.

Interessada em Medicina Social e tendo se aperfeiçoado em hematologia, de 1947 até 1952 ocupou o cargo de chefe de Serviço de Hematologia da Faculdade de Medicina da USP, sem contar que teve seu próprio laboratório à domicílio de 1938 até 1965 ; entrou, então, na seleta Seção de Medicina Social da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo.

Sempre valorizando a sua posição de mulher num âmbito tão masculino, Carlota Pereira de Queiroz é a primeira delas a integrar a Academia Brasileira de Medicina, exercendo o cargo de presidente da Associação Brasileira de Mulheres Médicas(ABMM) no qual atuou de 1961 a 1967.

Faleceu em São Paulo aos 14/04/1982, treze anos depois da professora Vera, aquela que em classe, tão bem dela nos falou.

Abraços republicanos,

wilma.

29/06/12.

 *  SCHPUN, Mônica Raisa; Carlota Pereira de Queiroz: uma mulher na politica; Revista Brasileira de  História; v.17; n° 33; 1997; p. 167-200; São Paulo.

Esse post foi publicado em material didático usado no iecc, outros documentos. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Carlota Pereira de Queiroz: Escola-Modelo Caetano de Campos – 1909, primeira mulher eleita deputada em São Paulo, estudada nas aulas de Vera Athayde Pereira.

  1. Pingback: O discurso de Carlota Pereira de Queiroz aos 13 de março de 1934. | Caetano de Campos

  2. Andréia Lima disse:

    Olá gostaria de encontrar algum parente da Família da Carlota de Queiroz, Aguardo retorno, bem URGENTE, obrigada

  3. Andréia Lima disse:

    Patrícia, não consigo te ligar o telefone não completa. o telefone da Beatriz não esta disponível
    Aguardo obrigada.

    • Andreia,
      tive um professor de Geografia na USP que era Pereira de Queiroz e habita na rua São Gualter, ou rua Natanael(…)se não me engano; fica perto da praça Panamericana – (vivo ha 40 anos em Paris e não me lembro bem os nomes de ruas); por favor consulte as Pags. Amarelas.
      Senão, em Piracicaba, a faculdade de Agronomia foi fundada pelos familiares desse professor e ali, certamente, você vai encontrar os herdeiros.
      Grande abraço,
      wilma.

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