Você assinou seu diploma com a caneta de ouro, cravejada de brilhantes, que pertenceu a Caetano de Campos?

5.2. A POTENCIALIDADE DAS CARTAS NA ATUAÇÃO DOS EDUCADORES

Queridos leitores:

Para não cansá-los com longos trechos da tese de doutoramento de Ana Regina Pinheiro, aqui  publicada – aliás nada cansativos, – convido vocês à leitura da parte referente às correspondências de dona Iracema.

Gostaria que notassem que nas entrelinhas das cartas podemos descobrir muitas coisas interessantes que nos escapam da lembrança: probidade moral e intelectual entre alguns correspondentes, doações importantes ao acervo da escola que hoje estão dispersas ou desaparecidas…

Por falar nisso, se você foi o primeiro da sua turma durante a sua escolaridade, teve a honra de ter o diploma assinado com uma caneta de ouro, cravejada de brilhantes, que fora de Caetano de Campos.

Onde estaria tal objeto tão rico em simbologia?

Abraços misteriosos,

wilma.

25/08/12.

5.2. A POTENCIALIDADE DAS CARTAS NA ATUAÇÃO DOS EDUCADORES

5.2. 1- Correspondência de dona Iracema(subtítulo meu, w.s.l.)

Convergindo com autores – Pollak (1992), Burke (1992a) e Gomes (1996), os quais consideram que as subjetividades e a memória, embora furtivas e guiadas pelo caudaloso rio dos sentidos e das emoções, possam servir de objeto de análise, serão introduzidas a contextualização e a leitura das correspondências dos educadores paulistas Carolina Ribeiro, Iracema Marques da Silveira e João Lourenço Rodrigues, como portadoras de sentidos sociais.

No geral, as correspondências estão arquivadas em separado dos dossiês temáticos. As cartas enviadas e suas respectivas respostas compunham um único dossiê que pretendia registrar, na íntegra, os processos que demonstravam o esforço demandado para a resolução de problemas com o poder público, os quais nem sempre chegavam a um desfecho favorável à escola. A documentação relativa às cerimônias cívicas e religiosas e às festas comemorativas – cinqüentenário do edifício e aniversário da morte de Caetano de Campos, dentre outras – bem como toda a dinâmica do processo que gerava a cerimônia eram, também, preservadas em dossiês específicos. Essa prática de arquivo fazia parte de um ritual escolar cotidiano que marcou a gestão da diretora e da bibliotecária nesta escola. Não podemos minimizar o costume, muito significativo, por exemplo, de guardar os envelopes e preservar suas marcas, como veremos mais adiante. Os critérios para tal seleção não estão explícitos, o que torna a leitura deste ato mais instigante. Principalmente, se considerarmos que outras correspondências, cujo teor e motivação fosse o atendimento a normas burocráticas e administrativas, eram encaminhadas para as pastas de correspondência comum.

Freqüentemente, Carolina associava o presente ao passado glorioso, expresso em folhetos e revistas comemorativas e álbuns de fotografia, como uma espécie de resistência sutil e simbólica da tradição às mudanças que se avizinhavam. Como exemplo da inquestionável autoridade de que gozava e do vasto e variado material produzido nos eventos comemorativos que organizava e nas visitas à escola que recepcionava, o cartão “da festa comemorativa do cinqüentenário da inauguração do prédio da escola…”, em 1944 apresenta, a título de LEMBRANÇA, fotografia em preto e branco do edifício e uma inscrição em cada lado (…)

Verifica-se nas cerimônias e na condução das atividades escolares, uma apropriação damemória do ensino paulista, segundo a qual esse grupo seria o seu legítimo representante. Esses indícios demonstram que Carolina encontrava-se no auge de sua carreira, na década de 1940, momento em que seus projetos ganharam viés e visibilidade política. Nessa época, atuou mais intensamente como uma militante, ao lado do educador João Lourenço Rodrigues, ao ressignificar o movimento em defesa da hegemonia do ensino paulista. Este educador, que já

havia se afastado do exercício profissional, manteve-se presente, todavia, intervindo no debate e na atividade educacional da Escola “Caetano de Campos”; convertendo-se em fiel companheiro de Iracema e Carolina – desde a época em que, juntamente com Carolina dirigiu a Revista Anchieta, em 1934. Como vimos João Lourenço tornou-se um colaborador assíduo da escola e, por ter sido aluno de Caetano de Campos, em 1890, na ainda Escola Normal Modelo, foi uma espécie de continuador e biógrafo autorizado do grande mestre. Baseadas nesse legado educacional, as vigilantes educadoras dele extraíam as qualidades necessárias ao profissional do ensino, valores ameaçados pela Revolução de 1930. Mais uma vez, remeto-me à reverência com que João Lourenço dirigia-se a Caetano de Campos, definindo-o como um profissional dedicado que, com sua iniciativa, havia mudado a história do ensino paulista:

Até então, como nota Raphael de Lima, as gerações normalistas tinham tido uma apagadíssima existência vegetativa, sem as iniciativas próprias de moços, sem gestos que pudessem ser tomados como vislumbres de virilidade moral.

O Dr. Caetano de Campos de prompto apanhou-lhes a psychologia. Educador authentico, comprehendendo quão delicada tarefa é formar a alma de um educador, elle não se deteve no diagnostico da moléstia. Seu primeiro esforço se encaminhou a tonificar o organismo collectivo: era preciso erguer-lhe o animo, despertar-lhe a adormecida hombridade, estimular-lhe as iniciativas (RODRIGUES, 1930, p. 206).

Em sua obra memorialística, João Lourenço refere-se a Caetano de Campos como uma fonte a partir da qual renovava a sua crença na educação, enaltecendo seu esforço em estimular o ânimo e o interesse das gerações de normalistas. João Lourenço era constantemente convidado por Carolina Ribeiro e Iracema a fazer parte das comemorações que a escola promovia; sobretudo, as que necessitavam de sua mediação e seu prestígio para esclarecer dúvidas relativas a determinados temas associados à história da educação paulista.

“D. Iracema” era rigorosa quando se tratava do registro de suas atividades e da confirmação de dados, oficiais, para alguma publicação. Por vezes, as correspondências eram emitidas com esta finalidade, como por exemplo, em maio de 1938, ocasião em que pretendia produzir uma matéria para o Jornal Nosso Esforço sobre o histórico da Biblioteca Infantil da escola. Na ocasião, escreveu uma carta para vários interlocutores pedindo esclarecimentos sobre a fundação de uma “biblioteca destinada a perpetuar o nome de Caetano de Campos”; dentre eles, a seu amigo João Lourenço Rodrigues que, em carta-resposta, coligiu informações sobre os dados biográficos solicitados e, desde então, passou a enviar regularmente dados históricos muito singulares.

Iracema consultou, também, a reconhecida bibliotecária Lenira Fraccarolli, que havia dirigido a Biblioteca Infantil por um curto período, em 1933, e alcançado notoriedade por seu trabalho na implantação de bibliotecas infantis escolares, não somente no Brasil, como, também, em outros países da América Latina. Em função deste trabalho, foi convidada a organizar a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, primeira do gênero na cidade de São Paulo.

Outro episódio que merece ser analisado é sua correspondência com o escritor Escragnólle Dória, ocorrida em dois momentos distintos, em 1939 e 1944, mas que se referiam ao mesmo assunto. Essas correspondências compõem o mesmo dossiê.

Entre novembro de dezembro de 1939, Iracema se correspondeu com o escritor elogiando seus artigos, publicados no Rio de Janeiro, na “Revista da Semana” e apresenta-se como sua grande leitora. Ao comentar um artigo específico, supostamente publicado em 18 de novembro de 1939, sobre o “Barão de Tautphoeus – o grande educador”, demonstrou a altivez e a autoridade paulista e fidelidade a missão que defendia, assim se remetendo ao seu interlecutor:

Verifiquei que, entre os nomes dos alunos daquele professor, não figurou o de Caetano de Campos, pioneiro da reforma do ensino no Estado de São Paulo. A Caetano de Campos, patrono da nossa biblioteca, deve o povo paulista o início da grande reforma, que está sendo levada a efeito há 48 anos, e que serviu de paradigma para a dos outros Estados, e, até hoje constitui modelo digno de admiração. Também como médico, teve ele grande destaque em São Paulo, na debelação de moléstias então epidêmicas em nossa Capital(SILVEIRA, 1939).

Por fim, Iracema avisa que enviou “uma modesta publicação desta Biblioteca, “[…] feita em comemoração ao 48º aniversário da morte desse grande pedagogo”, – provavelmente, o Jornal Nosso Esforço.

Em resposta, o autor agradece a Iracema e pede mil desculpas pela omissão, afirmando que errar é humano. Agradece, também, o recebimento (há uma semana) de uma publicação comemorativa do 48. Aniversário do falecimento de Caetano de Campos.

Entre abril e agosto de 1944 voltam a se corresponder. Desta vez, Iracema escreve em tom de cobrança pela dívida deixada há cinco anos atrás, assim se reportando ao escritor:

Agora, chegou a opportunidade: passar-se-á em 17 de maio o centenário de nascimento de Caetano de Campos. Quererá o senhor dizer aos brasileiros, pela sua competente e tão autorizada palavra, algo sobre o grande homem que ele foi e a bela obra que realizou? Para isso lhe enviarei documentação fotográfica e impressa. A maior escola pública do Estado de São Paulo tem o seu nome. Ergueu-se uma herma para perpetuar-lhe a memória, em frente a essa escola. A biblioteca que dirijo também recebeu a denominação ‘Caetano de Campos’. Dentre tais homenagens, será das maiores a página que o senhor dedicar a quem tanto serviu o Brasil (SILVEIRA, 1944).

Neste segundo contato o escritor recebeu um convite formal da diretora da escola, Carolina Ribeiro, para a cerimônia comemorativa do centenário de nascimento de Caetano de Campos, a qual Iracema havia feito referência, além do último número do Jornal Nosso Esforço, que essas educadoras não perdiam a oportunidade de divulgar. Este episódio mostra que o jornalzinho não tinha a função, apenas, de divulgar atividades curriculares ou algum acontecimento da escola, mas sim, de difundir princípios incorporados na figura de grandes homens, que doaram suas vidas, seus talentos para a construção da educação paulista. Ao ler esta correspondência, nota-se que Iracema não tinha a menor intimidade com “Dr. Escragnolle”, ainda assim, envia o Nosso Esforço para a redação da “Revista da Semana”. O autor, por sua vez, refere-se à sua interlocutora como uma leitora de seus textos, a quem faz questão de responder.

Para quem mal conhecia seu interlocutor, é no mínimo intrigante o tom da carta, ou seja, para Iracema parecia absurdo o desconhecimento que o escritor expressou sobre a história de Caetano de Campos. Assim, a guarda destes documentos por parte dos educadores da Escola Caetano de Campos, sinaliza intencionalidades e circunstâncias inusitadas que induziram à hábitos e costumes escolares. Propiciaram a circulação de idéias sobre o ideal de escola, de aluno e de professor e favoreceram a criação de canais, como a produção do jornal escolar, que mediaram os interesses destes educadores com a sociedade e o Estado.

No intuito de preservar a memória da educação paulista, João Lourenço logo se converteu, em 1938, em uma fonte de informações históricas para as duas educadoras. Por tratar-se de testemunhos acerca de um período remoto (os primeiros anos da República),relatava assuntos de teor pitoresco, por vezes, sobre os tempos áureos do ensino; e até mesmo ofertava doações não menos pitorescas ao Museu da escola. Em correspondência a Carolina Ribeiro, datada de 27 de dezembro de 1941, na qual informava não poder participar da cerimônia comemorativa pela passagem de 50 anos do falecimento de Campos, por estar doente, enviou apostilas que pertenceram ao educador.

As apostilas estão acompanhadas dos seguintes artigos oferecidas por mim ao Museu Caetano de Campos: 1) uma fotografia do Dr. Prudente de Moraes; 2) Uma carta do mesmo ao signatário desta; 3) Uma carta de Miss Browne, idem. Estes são dois autógrafos preciosos, tratando-se do reformador desta Escola, em 1890, e da primeira diretora da Escola Normal Modelo (RODRIGUES, 1941).

Nota-se que não se trata de uma simples doação, mas de documentos preciosos que guardara por quase cinqüenta anos e que, provavelmente, estaria, agora, em boas mãos paulistas e continuadoras do legado de Caetano de Campos.

Em outra correspondência, anos mais tarde, em 1944, agradece o convite que recebera para a solenidade comemorativa do cinqüentenário da inauguração do edifício da escola.

Alegando estar com a saúde debilitada, lamenta não poder atender ao pedido da redatora-chefe do Jornal Nosso Esforço para escrever um artigo, destinado ao “número especial que vai sair”, mas deixa sua contribuição, registrando uma destas histórias que relatava com freqüência sobre o edifício. Fala de Gabriel Prestes, de quem dizia ter sido um excelente amigo:

Foi ele o primeiro normalista elevado a esse cargo na única Escola Normal que então possuía o Estado, e o bacharelismo que até então açambarcava tudo, não recebeu com agrado a usurpação. Gabriel Prestes foi admirável de dedicação nesse período, e foi graças à sua intervenção que o Dr. Ramos de Azevedo consentiu em alterar muita coisa que estava na planta, mas atendia mais às exigências arquitetônicas do que às conveniências do ensino.

Esta carta, que pretende ordenar a memória da educação paulista, aponta a existência de dois conflitos, à época: 1) o cobiçado cargo de diretor da escola normal se tornou foco de disputa entre os bacharéis que representavam a tradição e os recém-formados normalistas que intensificaram suas reivindicações para ocuparem esta função e, 2) entre a concepção de Caetano de Campos (médico, higienista) e a de Gabriel Prestes (educador, normalista – o primeiro a assumir a Direção da Escola Normal) sobre a planta para a construção do edifício da escola.

Gabriel Prestes alterou o projeto original de Ramos de Azevedo divergindo, de certa forma, do médico e do arquiteto pelo olhar do educador. João Lourenço prestou homenagem a Gabriel Prestes por ter sido o primeiro normalista a dirigir a Escola Normal rompendo as barreiras impostas pela tradição. Esse mote, esteve sempre presente na sua seletiva memória, os heróicos normalistas que estiveram a serviço do ensino normal e dos interesses paulistas.

Incansável colaborador, também respondia animadamente às solicitações de Iracema sobre a história e a personalidade de Caetano de Campos. Foi um importante elo com a família deste eminente educador, com a qual trocou várias correspondências, buscando informações familiares e doações de objetos pessoais para compor o museu da escola.

No período de 1938 a 1944, ou seja, até os seus 76 anos de idade, manteria vivos e

presentes, a partir de sua memória, fatos e casos que remetiam seus contemporâneos à história da educação republicana que deveria ser lembrada. João Lourenço também mediou, neste período, a doação de uma caneta de ouro cravejada de brilhantes que pertencera ao mestre e fora doada por sua esposa, Julia Olympia de Campos e Andrada. Esta caneta foi logo investida de um caráter simbólico, por este grupo, e passou a ser utilizada, anualmente, até o ano de 1948, por ocasião da formatura dos normalistas, momento em que era retirada do museu da escola para que o primeiro aluno assinasse seu diploma na solenidade.

Esse post foi publicado em escola vanguardeira TESE de A.R. Pinheiro.. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s