6. “A VOZ QUE FICA” NA EDUCAÇÃO PAULISTA; 6.1. DIMENSÕES PEDAGÓGICAS E POLÍTICAS DO JORNAL NOSSO ESFORÇO”.

6. “A VOZ QUE FICA” NA EDUCAÇÃO PAULISTA

6.1. DIMENSÕES PEDAGÓGICAS E POLÍTICAS DO JORNAL NOSSO ESFORÇO

O jornal já tem nome! E é um nome bem bonito, vocês não acham? Custou um pouco, mas agora já temos o prazer de apresentar o órgão do Curso Primário do Instituto de Educação, com um nome muito bem escolhido – ‘NOSSO ESFORÇO’.

O jornal representa mesmo um esforço feito pelas crianças estudiosas do Curso Primário da nossa escola, de modo que o nome não poderia ter sido melhor.(Carolina Ribeiro)

Queridos leitores:

Que pena que estejamos quase no final da leitura deste trabalho de Ana Regina Pinheiro.

Pouco a pouco ele nos leva à conscientização sobre a força do jornalzinho da escola; mesmo com suas orações ingênuas, seus artigos às vezes simples, suas  ilustrações infantis, poemas idém era o Nosso Esforço uma ode à liberdade de imprensa e ao que chamamos hoje de democracia participativa;  por trás de tudo isso, o que importava mais era a maneira como ele foi utilizado para as crianças, – como leitura recreativa e,  para as autoridades, para os intelectuais e para a imprensa, – como um tanque pronto para avançar.

Vocês lerão que o fim do Nosso Esforço deu-se 1967 com a aposentadoria de dona Iracema; no meu entender, naqueles anos havia um projeto real de aniquilamento da nossa escola, como instituição e do “nosso” esforço; não seria a construção da Estação República um bom  álibi para transferir a escola dali: na realidade a vontade do poder era de DESTRUIR uma maneira de pensar diferente daquela que se queria instaurar,tanto que as autoridades levaram para a Aclimação e para a Praça Roosevelt apenas os alunos; os professores não eram os mesmos, os currículos não eram os mesmos, a independência da escola era letra morta.

Quando houve a deslocalização da escola, levaram o cadáver já deteriorado do Instituto de Educação Caetano de Campos. Caetano de Campos não era mais; mais nada.

Abraços funestos,

wilma. 29/08/12.

Criado em 1936, período em que a escola primária permanecia anexa ao Instituto de Educação da Universidade de São Paulo (IE-USP), o Jornal Nosso Esforço é apresentado por educadores e em diversos documentos escolares, reportagens de jornais de grande circulação eregistros oficiais, como o “jornalzinho das crianças”, “feito inteiramente por alunos”.

Documentos mais específicos, como os relativos ao seu processo de produção, procuravam ressaltar tal faceta infantil.    (…)

Sua concepção é atribuída à diretora Carolina Ribeiro, que permaneceu no cargo de 1936 a 1948, período em que foi convidada pelo então diretor do Instituto, Fernando de Azevedo,  a dirigir a escola primária (tema abordado em capítulos anteriores). Todavia, apesar das evidências de sua marcante influência na produção do Nosso Esforço – observada até, pelo menos, a década de 1950 -, este periódico continuou a ser publicado após o seu afastamento da escola.

O centro do processo de produção do jornal era a Biblioteca da Escola Primária. Neste contexto, a supervisão exercida pela bibliotecária Iracema Marques da Silveira era uma constante na atividade do jornal escolar. Iracema pode, também, ser considerada sua grande incentivadora.

A interrupção da publicação do jornal em 1967, após seu desligamento da escola por motivo de aposentadoria, levou ao fim o projeto original iniciado em 1936.

Nas diversas cerimônias comemorativas que ocorriam na escola, sobretudo no ambiente da Biblioteca, eram raríssimas as oportunidades em que Iracema se pronunciava publicamente.

Há poucos registros de matérias de sua autoria, por este motivo, reproduzo, abaixo, sua manifestação por ocasião de uma cerimônia especial em homenagem à Carolina Ribeiro, que recebera o título de “servidor emérito como reconhecimento pelos valiosos serviços prestados à causa da educação, em São Paulo”, em outubro de 1955:

A Biblioteca Infantil ‘Caetano de Campos’ já existia na escola desde 1925. Mas com a feição com que agora é orientada conta 19 anos completos.

Quando fui convidada por Dona Carolina, em agosto de 1936, para vir reorganizá-la e orientá-la, como já o fizera no Grupo Escolar ‘São Paulo” com a Biblioteca ‘Anchieta’, aceitei a incumbência.

De Dona Carolina recebi a orientação do que era preciso ser feito: secção infantil (leitura recreativa para as crianças), secção dos professores (leitura para cultura dos adjuntos), secção de livros didáticos (para estudo comparativo do ensino de leitura nas diversas épocas), secção de referência, discoteca, filmoteca e o ‘NOSSO ESFORÇO’, que já encontrei no seu terceiro número.

A minha tarefa consistia em dar continuidade ao trabalho, defendê-lo em épocas difíceis, dar a parte técnica, mas, sempre sob a orientação segura, discreta, animadora, dedicada, daquela que considero o protótipo da educadora – Dona Carolina Ribeiro (SILVEIRA, 1955)

Este depoimento sobre as circunstâncias que culminaram com sua intensa atuação à frente da Biblioteca Infantil sintetiza, modestamente, a principal tarefa para a qual foi incumbida pela diretora Carolina Ribeiro, a de ser uma boa técnica e uma espécie de guardiã do“jornalzinho das crianças”, zelando por sua continuidade. Por que essa atividade escolar mereceria tamanha deferência por parte das duas educadoras?

Se considerarmos que as bibliotecas infantis escolares se encontravam em expansão nas escolas públicas e ganhavam prestígio como lócus privilegiado para as novas experiências educacionais delineadas pelo movimento renovador, outros elementos tornam-se relevantes no projeto deste Jornal, tal como a possibilidade dos educadores adaptarem os modernos métodos de ensino às atividades didático-pedagógicas que desenvolviam. Isto se verifica, por exemplo, na associação que faziam desta atividade com o preceito da formação da criança, de maneira autônoma, livre de coações.

O Jornal Nosso Esforço, que ganhou contornos tão especiais no discurso de Iracema é um periódico de características singulares, que corroboram com a indagação anterior, a começar pela longevidade desta produção escolar que, com poucas interrupções, percorreu um período 31 anos(de 1936 a 1967). Excluindo-se a fase inicial, até 1939, poucas alterações foram verificadas na linha editorial, no conteúdo e na apresentação gráfica. Sua materialidade, isto é, a forma de apresentação das matérias, deve ser considerada para uma leitura atenta sobre a função pedagógica a ele atribuída, pelas educadoras e pelos alunos. Significa abordar, também, as intencionalidades e os diálogos presentes na confecção deste periódico e suas implicações sociais e políticas como produto da cultura escolar.(grifos w.s.l.)

As sugestões para a escolha do nome do jornal trazem outros elementos importantes para compreendermos como a cultura escolar pode se delinear no contexto social. Os dois primeiros números, em 1936, mobilizaram os alunos a votarem em um nome para o jornal. Os três nomes que concorreram foram: A.B.C. Paulista, Jornal Paulista Infantil e Jornal Nosso Esforço.

Percebe-se que são termos simples, diretos, porém, além de não parecerem infantis, possuíam em comum a recorrência sugestiva do termo “paulista”. Sugestivo pela simbologia que representava, por pretender remeter o leitor e o colaborador do jornal aos valores paulistas, que parece ter

deixado seus vestígios na cultura produzida pela escola vanguardeira dos anos 30. Reporto-me à epígrafe deste capítulo para exemplificar as diversas ramificações sociais que introduziram a epopéia bandeirante, abordada nos capítulos três e quatro, que permaneceu viva e enraizada nos discursos e nas práticas dos educadores desta escola. Assim, o título escolhido para o jornal é festejado pela escola por representar “um esforço feito pelas crianças estudiosas da nossa escola, de modo que o nome não poderia ter sido melhor.” Neste sentido, poderíamos perguntar sobre quais grupos sociais recairia a missão deste esforço conclamado? Neste capítulo, portanto, o processo de produção e a circulação do jornalzinho das crianças serão elementos fundamentais, pistas importantes para a compreensão das articulações dos educadores paulistas no interior da escola e de sua utilização na difusão e atualização da memória da educação paulista. Para tanto, a análise estará ancorada, em um primeiro momento, na descrição de sua materialidade e no auxílio de tabelas (PINHEIRO, 2000).

Das etapas iniciais de elaboração – levantamento de temas, recepção das matérias, correção final dos textos e das provas – até a distribuição do Nosso Esforço, a atividade deste jornal escolar contava com o esforço de alunos recrutados para serem redatores e dos professores que fariam à correção dos artigos, sobretudo, da bibliotecária, responsável pela coordenação e acompanhamento de todo o processo de produção do jornal. O Regulamento da Biblioteca Infantil “Caetano de Campos”, aprovado pela Diretoria do Instituto de Educação, em 1938, e composto por 37 artigos, informa sobre o funcionamento geral da Biblioteca e das instituições anexas e dedica os seguintes artigos ao Jornal:

Capítulo I ; Art. 2 – Anexos à Biblioteca e dela fazendo parte constam – Museu ’Caetano de Campos’ – secção do Patrono e Museu Pedagógico e o jornal ‘Nosso Esforço.’

Capítulo IX ; Art. 28 – O jornal infantil, denominado ‘Nosso Esforço’ faz parte integrante da Biblioteca Infantil, como órgão de expressão dos alunos do Curso Primário.

§ 1º – Como atividade extra-curricular, dos alunos, o jornal deve oferecer-lhes inteira possibilidade de tomarem iniciativa com responsabilidade real.

§ 2º – Para isso, o jornal será dirigido, organizado e publicado pelos alunos do Curso Primário que forem escolhidos para tais funções.

§ 3º – Cabe à bibliotecária orientar os alunos na prática dessas atividades.

§ 4º – Os professores devem cooperar com a direção do jornal de modo que nenhuma colaboração seja encaminhada à direção do jornal sem a sua assinatura.

Art. 29 – O ‘Nosso Esforço’ abrange as seguintes secções, que poderão, contudo, ser aumentadas a juízo dos dirigentes:

a) secção informativa

b) secção educativa

c) secção recreativa.

Art. 30 – Os redatores do ‘Nosso Esforço’ serão anualmente escolhidos entre os alunos das várias classes.

Art. 31 – Cabe aos redatores colherem, em sua classe, o material para publicações, selecionando na reunião conjunta com a diretoria do jornal os trabalhos que julgarem melhores para publicação.

Art. 32 – A revisão das provas, a paginação e a distribuição dos jornais cabem aos redatores (BIBLIOTECA, 1938)40.

O regulamento definia o papel que cada um exerceria nesta tarefa e orientava desde as etapas iniciais de elaboração até a distribuição do Nosso Esforço aos leitores, internos e externos à escola. Aos alunos-redatores eram confiadas as tarefas de coleta e classificação dos textos escritos pelos demais alunos. As decisões relativas ao formato, à distribuição das matérias, à escolha das fotografias – denominados clichês – temas, números especiais e encomenda de artigos para escritores – eventualmente convidados para dissertar sobre determinado assunto -, ficavam a cargo da bibliotecária. As Correspondências deste período são indicativos disto, bem como as formas específicas de comunicação interna – bilhetes, mensagens, rascunhos – principalmente entre Iracema e Carolina.

Os alunos são entendidos como protagonistas do complexo processo de produção do jornal. Na prática, conforme se observa nos documentos, ficavam encarregados das entrevistas.

Nos contatos que faziam, solicitavam informações sobre determinados temas e aprendiam, também, a redigir as cartas-convite e de agradecimento para colaboradores externos e escritores de livros infantis e, por vezes, as assinavam. Transcrevo, abaixo, a carta na qual o aluno José Edmar Tredebon oferta um número do Nosso Esforço a Monteiro Lobato, em 20 de outubro de 1943, e expressa sua reverência ao famoso escritor:

Quando me veio a idéia de remeter-lhe o jornalzinho, pensei logo em escrever-lhe uma carta cheia de coisas bonitas e complicadas pois estava dirigindo-me a um escritor afamado e portanto requeria etiquetas.

Porém, pensando bem, quando o senhor fala aos repórteres e quando escreve livros não usa nada disso pois, já tive a oportunidade de ler muitas entrevistas suas e seus livros.

A nossa bibliotecária, outro dia, achou um artigo com referência ao senhor, e tão interessante que até o fichou. Hoje tive o ensejo de o ler. É na verdade mui original: refere-se ele a uma justíssima homenagem que lhe está sendo prestada em Taubaté. É uma biblioteca de nome “Sítio do Picapau Amarelo”.

Deverá ser uma coisa interessante, pois todas as suas dependências procuram imitar o sítio que o senhor descreve em suas histórias.

Junto a essa, vai como já disse um número do jornalzinho da Escola “Caetano de Campos” que apesar de ser modesto, espero que seja apreciado.

E, sem mais, receba um cordial abraço deste seu minúsculo, mas grande

admirador (TREDEBON, 1943)

Nota-se que a carta é iniciada com a pretensão de “remeter o ‘jornalzinho’” ao famoso escritor. Havia uma clara tentativa, demonstrada em várias outras oportunidades, de tornar esse periódico escolar acessível a institutos e profissionais, reconhecidos formadores de opinião. Essa iniciativa da escola está fortemente atrelada ao sentido atribuído ao Nosso Esforço, de ser o jornal das crianças.

Conforme as concepções de Iracema sobre o trabalho dos alunos:

Acresce a essas circunstâncias, a de que, na escola primária, é-se obrigado a lidar com grupos de criança, as – assim chamadas – classes, e não com a criança individualmente considerada. Se desejamos oferecer à criança, oportunidade de viver real em que ela se sinta um ser distinto das demais perante o educador e em que tenha liberdade de agir para aprender responsabilidade (isto é, a considerar-se a causa daquilo que faz e, portanto, a predispor-se a arcar com os efeitos da própria atividade) é preciso fornecer-lhe, na escola primária situações para a aprendizagem da:

a) liberdade de tomar iniciativas e de decidir;

b) responsabilidade: “Fui eu quem o fez livremente. Sou eu, portanto, quem

deve arcar com os efeitos do que fiz sem imposição dos outros” (SILVEIRA, 1942)42.

Iracema também descreve a trabalhosa organização da atividade do Jornal Nosso Esforço, que demandou coordenação, metodologia e recursos pedagógicos apropriados, tais como: trabalho em equipe, espaço físico e material didático adequado; envolvimento dos professores no processo de escolha dos alunos-redatores, dos temas a serem publicados e na correção e revisão dos textos. Na descrição abaixo, Iracema ressalta a participação dos alunos-redatores:

Cada classe possui redatores do jornal que informam a escola e que provê os artigos que interessem seus companheiros de classe. Esses redatores censuram e selecionam os artigos apresentados por sua classe. Coordenador final existe um corpo de redação que centraliza o material, o critica, o seleciona e prepara o jornal, publicado mensalmente (gravura, revisão, provas).

Enviado para as oficinas, o material, a revisão é trabalho infantil, também como é a distribuição dos exemplares impressos (SILVEIRA, 1942).

De acordo com a imagem do processo de produção, que cultivava, tudo deveria ser o mais semelhante possível ao processo de trabalho de uma redação de jornal; proposta reforçada pelas freqüentes visitas a jornais de grande circulação, como o Diário Popular, nos anos iniciais da publicação do jornal (1936 e 1937). Instituição com a qual a escola manteve estreitas relações e que se tornou constante aliada em seus projetos, em anos posteriores, auxiliando na campanhas infantis – atividades extracurriculares do Curso Primário da ‘Escola Caetano de Campos’- o pordoação de documentos e objetos para o Museu “Caetano de Campos”, em 1940, por exemplo;

fornecendo fotografias de eventos públicos para publicação no jornal da escola e publicando amplas matérias que divulgavam a escola primária e o Nosso Esforço.

A descrição do complexo processo de produção como tarefa das crianças, enfoca o valor pedagógico desta atividade e delineia, também, as articulações políticas mediadas pelo Nosso Esforço. Contudo, para alcançá-las de maneira mais aprofundada é preciso adentrar nos diálogos e nas distintas relações estabelecidas no processo de produção deste periódico, cotejar documentos que, por sua vez, evidenciam que sua projeção contribuía no sentido de relativizar alguns dos efeitos das ações legalistas na dinâmica escolar e atendia às articulações de Carolina Ribeiro, Iracema Marques da Silveira e João Lourenço Rodrigues.

O Jornal Nosso Esforço se tornava uma espécie de mensageiro da memória tradicional paulista e da propalada disseminação da paulistanidade ao mobilizar idéias e práticas dos educadores paulistas, haja vista, as vinculações que podemos fazer acerca do próprio nome escolhido para o jornal. Favorecia a disseminação de idéias que contribuíam para a identificação de concepções de escola e aluno, a época. Por outro lado, instaurava no ambiente escolar, práticas próprias ao mundo do trabalho, como a divisão e a hierarquização das tarefas coerentes, de certa forma, com a “missão” da educação escolar.

A começar pela categorização do jornal escolar no âmbito dos estudos sobre a imprensa periódica educacional que, inicialmente, se restringia às revistas, boletins e periódicos destinados a orientar o trabalho pedagógico e a organizar a categoria docente (CATANI, 1996), o Nosso Esforço representou um desafio analítico que exigiu a reconstrução histórica do conceito. Além disso, mobilizou a pesquisa para a criação de instrumentos próprios de análise que permitissem identificar formas “inventadas” pelos educadores, a fim de dar amplitude aos projetos desta escola e negociar conflitos pedagógicos e políticos e, principalmente, auxiliar a interpretação de temas, enunciados e discursos. Elementos próprios à cultura escolar (VIÑAO FRAGO, 2003), que este jornal expressava.

Este percurso de pesquisa corrobora com o que destaca Vieira (1989, p. 44):

O historiador que busca compreender e recuperar o movimento, a contradição, e que entende que esta compreensão é dada pela mútua determinação do sujeito que investiga e do objeto investigado, só pode entender por método o diálogo entre teoria e evidências. Isto implica que os procedimentos não sejam definidos a priori, ou externamente, mas sim no decorrer da pesquisa, fruto do próprio diálogo.

Entendendo que o historiador é capaz de pensar a teoria, de elaborar conceitos na explicação histórica e que as evidências participam (de) e contém essa explicação, torna-se impossível aceitar conceitos acabados, elaborados fora desse diálogo.

Vemos que a pesquisa documental permite o contato com as evidências e, quando cotejadas à teoria, geram hipóteses sucessivas e a re-elaboração de questões. Ancorada por estes pressupostos, esta pesquisa é orientada pela possibilidade da produção do conhecimento histórico expressar escolha de abordagem e métodos de leitura da realidade passada, sem se confundir com ela.

Motivada pelas indagações provenientes da análise documental, a caracterização do Jornal Nosso Esforço está baseada no debate pioneiro entre Pierre Caspard e Antonio Nòvoa, retomado, no Brasil, por Catani (1996), que culminou na ampliação e redefinição do conceito: a “imprensa periódica educacional”, adotada para abordar teoricamente o jornal escolar infantil Nosso Esforço e suas características peculiares.

Neste sentido, Nóvoa (1997, p. 16) afirma que: “alargar o corpus da imprensa pedagógica para imprensa de educação e ensino”:

[…] em sintonia com as orientações recentes da investigação em educação. Assim, para além do ensino formal, foi possível abrir a pesquisa à educação não-formal, nomeadamente no contexto da educação de adultos, da educação familiar, da educação da mulher, dos movimentos da juventude, dos jornais e revistas infantis, da educação física e desportos, da higiene e saúde escolar e da assistência e proteção a menores.

Possibilitou, portanto, o estudo da imprensa periódica educacional em outros contextos (formais e não formais) de educação e, também, a produção de alunos como parte da imprensa periódica educacional, baseado no entendimento de que:

A feitura de um periódico apela sempre a debates e discussões, a polêmicas e conflitos; mesmo quando é fruto de uma vontade individual, a controvérsia não deixa de estar presente, no diálogo com os leitores, nas reivindicações junto aos poderes públicos ou nos editoriais de abertura(NÓVOA, 1997, p. 13).

Parafraseando Nóvoa, pode-se acrescentar: “mesmo quando se trata de um jornal elaborado por alunos”. A vasta documentação relativa à produção do Nosso Esforço sinaliza inúmeras possibilidades de pesquisa acerca da cultura escolar e das tramas políticas, desenhadas por alunos, diretora, professores e reformadores. Observam-se contradições e conflitos políticos; defesas de concepções de escola e de educação; parâmetros para as práticas de higiene, para o que eram considerados bom aluno, boa pedagogia e boa leitura. Isto é, as orientações para o que se entende por “bom comportamento” não são meras repetições cotidianas, nem concepções neutras da relação humana, mas conformadoras das práticas pedagógicas e sociais, ações políticasque refletem experiência humana, repleta de pensamento (THOMPSON, 1981). O Jornal Nosso Esforço se mostra, enfim, um espaço de re-escrita da memória da educação paulista, em suas práticas educativas.

Assim, a “experiência” desses sujeitos que atuavam no espaço escolar e o conflito existente entre eles, são parâmetros para a análise do Nosso Esforço. Entendido como um dosmediadores da tradição escolar paulista, este periódico apresenta evidências de que se constituiu em contraponto à política de centralização do período, baseada em amplas reformas. Tentativas de uniformizar o ensino eram introduzidas na organização pedagógica e administrativa das escolas por meio de medidas e prescrições, como a nomeação de sucessivos diretores de ensino, um dos principais alvos das críticas de Carolina Ribeiro. A política intervencionista estabelecia-se e ameaçava a autonomia de poderes locais atingindo a antiga ordenação política e administrativa e comprometendo os trabalhos que estariam em andamento.

As formas de divulgação do Nosso Esforço e os meios sociais por onde circulava, bem como, os comentários sobre assuntos cotidianos da escola, os pontos de vista sobre temas educacionais – que expressavam seus leitores e escritores – e, sobretudo, os temas privilegiados que se “faziam ouvir” em seus artigos, contam-nos sobre os conflitos pelos quais passou a escola, a partir da década de 1930. Buscando identificar os interlocutores, “as vozes que ficaram” bem como as que foram silenciadas no processo de escolarização paulista, a descrição da materialidade do Nosso Esforço se mostra fundamental.

(…)podemos considerar que o Jornal Nosso Esforço forma um conjunto documental escolar significativo do período de 1936 a 1967 (embora existam alguns números esparsos após este período). Período extenso, por tratar-se de um jornal produzido para circular no contexto escolar. (…)

Conforme destaquei em estudo (PINHEIRO, 2000) sobre o ciclo de vida do Nosso Esforço, este periódico pode ser dividido em pelo menos duas fases distintas, que nos permitem estabelecer variados ângulos de leitura sobre a educação. Possuía relativa regularidade, pois interrupções da publicação eram quase inexistentes e a apresentação gráfica – mudanças no formato, aumento da tiragem, distribuição das matérias e enfoque político e pedagógico dos textos publicados – teria mais relevância do que as mudanças de gestão ou de linha editorial.

Portanto, além das fases do jornal, há outra distinção relevante que pode ser feita a partirdestes dados: sua peculiaridade, se comparado a outros tipos de periódico. Os fatores relativos à especificidade da imprensa como fonte de pesquisa, apontados pela historiografia que estuda a imprensa periódica (GOMES, 1981; CATANI, 1996), devem ser considerados com reservas para a definição de uma metodologia de estudo acerca do jornal infantil e escolar.

Se apreciarmos o Jornal Nosso Esforço pelo ângulo da gestão, podemos considerar que Iracema dividiu a gestão do jornal com Carolina Ribeiro e, após a saída de Carolina da direção da escola, em 1948, manteve o jornal quase inalterado, estável, não fossem duas interrupções causadas por motivos externos à escola e um aumento significativo na tiragem do jornal a partir de 1948, ano da saída de Carolina. Por outro lado, encontrei várias evidências de que Carolina Ribeiro continuou a ser uma constante interlocutora no processo de produção do Nosso Esforço, mesmo após ter deixado a direção da escola.

Estes dados empíricos, bem como a longevidade desta atividade escolar apontam, em primeiro lugar, para uma relativa flexibilidade editorial; e, em segundo, talvez a outra face da mesma moeda, que sua produção não estava condicionada às mudanças pretendidas pelas reformas políticas e educacionais, ao longo deste período, apesar de dialogar constantemente com elas, mas sim, à dinâmica da escola.

Adentrando na dinâmica interna do Nosso Esforço, na primeira fase (de 1936 a 1939), as seções permanentes43 eram praticamente inexistentes, havia variação constante no número de páginas, de colunas e na periodicidade dos exemplares. Sua composição irregular traduzia-se na precária organização editorial, na dispersão temática de seus artigos e em uma forma específica de seleção dos trabalhos que seriam publicados e que pareciam não obedecer a critérios predefinidos (…).

A grande variação do número de páginas, de exemplares e de ilustrações não encontra correspondência com o número médio de matérias (com exceção do número 1), fator que demonstra ter havido uma reorganização editorial a partir de 1940, com a predominância e o aprofundamento de determinados temas. (…)

A citada flexibilidade editorial e o formato de apresentação das matérias imprimiam ao Jornal Nosso Esforço as características de um descomprometido trabalho infantil, aparentemente desorganizado. Primava por colunas livres e de entretenimento que deixavam fluir notícias sobre o dia-a-dia escolar, além de outros temas escolares(…)

Mudanças significativas podem ser verificadas nestes aspectos, a partir de 1940, o que permitiu, em estudo anterior, o estabelecimento da segunda fase do jornal. Esta nomenclatura foi criada a partir das dificuldades percebidas na classificação dos temas do Jornal Nosso Esforço, no decorrer da pesquisa do mestrado, e apresentados de maneira resumida, a seguir: manifestações acerca do cotidiano da escola, tais como, a mudança de professores e atividades pedagógicas foram classificadas nos noticiosos e livres. Outro item chamado coluna informativa foi importante por identificar os artigos que traziam matérias biográficas, exaltando figuras nacionais; matérias sobre datas comemorativas, que conclamavam a participação dos alunos em eventos cívicos e, sob o título, temas variados: que traziam símbolos nacionais, higiene e saúde e assuntos científicos. Na coluna entretenimento foram classificados os jogos infantis, como charadas, desenhos, cruzadas, com destaque para as poesias (recurso literário muito utilizado à época).  (…) podemos notar que o periódico passa por mudanças de ordem estética e temática, nesta fase. A impressão passa a ser feita por uma gráfica, ou seja, fora dos muros da escola. É uma grande mudança que contribuiu para a maior exposição social do Nosso Esforço e vem acompanhada de outras, como por exemplo, a escolha mais criteriosa dos temas que comporiam o jornal. Ao ser impresso por uma gráfica, o jornal ganhou outra dimensão.

Era comum a utilização de ilustrações como recurso gráfico, a maioria dos números continha ilustrações em preto e branco, sendo raras as coloridas. Na primeira fase, esses desenhos, feitos pelas crianças, ilustravam, em sua grande parte, as estorinhas encaminhadas pelos próprios alunos, cujo tema poderia abranger desde matérias relativas às estações do ano até composições sobre os passeios feitos durante as férias escolares. A partir de 1940, essas ilustrações passam a compor artigos sobre temática histórica, o jornal abriu espaço para ilustrações de grandes heróis nacionais e de eventos cívicos que eram apropriados pelas festas e rituais escolares. A comemoração de datas cívicas, como a Independência, a Proclamação da República, o dia do Pan-Americano, do Trabalhador, da Abolição, eram representadas em desenhos, com bandeiras e brasões dos estados e sempre acompanhados pela letra dos hinos ou dados sobre a história destes eventos.

O jornal manteve as mesmas características da década de 40 em relação aos números posteriores. Ou seja, houve uma relativa regularidade na forma de impressão do periódico […] (PINHEIRO, 2000, p. 36).

De outro lado, é possível registrar duas mudanças significativas que, embora exteriores ao processo de produção, ‘justificam a suspeita de que tenha ocorrido ampliação do público leitor, nesta nova fase: em primeiro lugar, o custo da impressão do jornal impresso, torna-se mais elevado para a escola se comparado ao mimeografado; contudo, também permite a impressão em série de um número maior de exemplares e com qualidade superior. Em segundo lugar, a impressão de jornais por empresas gráficas exigia o atendimento a regras comuns que conduziam, muitas vezes, à padronização e ao controle, tanto do tipo de impressão quanto da natureza e conteúdo das notícias que seriam veiculadas. Dado importante, especialmente no período do Estado Novo (de 1937 a 1945) que impôs uma série de exigências para a impressão e circulação de periódicos de qualquer natureza. A censura e as políticas implementadas pelo Estado Novo buscavam o estabelecimento de uma imprensa unilateral, oficial e homogênea e atingiram a todas as instituições atribuindo, inclusive ao Nosso Esforço, o status de um jornal profissional, levando-o, muitas vezes, a ser considerado como tal.

Como provável conseqüência desta opção estética (impressão em gráfica) percebe-se uma mudança significativa no número de páginas (de 7,25 para 16/ano, em média) sem, porém, haver variação no número de matérias publicadas, aspecto que permaneceu estável nos dois períodos.

Isso indica que os artigos estivessem sendo selecionados de maneira mais criteriosa e pautados em novas estratégias. Na segunda fase, apresentam-se mais elaborados, ilustrados com fotografias e repletos de dados históricos.

Seguindo esta tendência, portanto, a abordagem temática também sofre mudanças. Há uma dispersão das matérias de cunho infantil, nesta segunda fase, demonstrando, sobretudo, que havia uma organização hierárquica dos temas. As alterações de ordem material verificadas, especialmente nos artigos classificados nos itens temas variados, datas comemorativas e biográficos, indicam que havia a intenção, por parte dos professores, de produzir um efeito disciplinador na formação do aluno: “Um exemplo deste fato pode ser encontrado na disposição das colunas de entretenimento. Essas colunas acham-se dispersas de tal forma, que se tornava possível encontrar uma biografia ao lado de uma advinhação (julho/agosto/1941)” (PINHEIRO,2000, p.41 …).

A redução e dispersão de artigos voltados para o entretenimento, ocorreram simultaneamente à predominância de novos temas de caráter cívico e histórico-biográfico, que, nesta lógica, estariam em maior destaque. Esses dados nos permitem inferir que se tratava de uma nova estratégia editorial, na qual o jornal apresentava-se re-organizado, isto é, com uma nova forma de disposição de artigos, que hierarquizava os temas. Entrava em uma nova fase, mais rígida, tanto em relação ao que deveria ou não ser publicado, quanto ao espaço a ser destinado a determinados temas. É importante ressaltar outros dois aspectos que passaram a ser privilegiados no jornal:

b) A partir de 1941, há também uma maior exposição da forma organizacional da escola (administração), ressaltando a hierarquia (…)

c) Outro aspecto a ser destacado a partir desta data é a participação da escola em eventos políticos e sociais, inaugurando uma nova fase. Com a divulgação, de forma intensa, da participação da escola primária nestes eventos, as matérias publicadas estabelecem uma relação das práticas escolares com autoridades políticas, característica não presente na fase anterior (…) (PINHEIRO, 2000, p.43).

Assim, esta nova estratégia, implícita na mudança de enfoque temático nas matérias do jornal, notadamente no que se refere às datas e comemorações cívicas, projeta uma possível mudança não somente no discurso veiculado como também nas práticas ritualísticas a que correspondem esse discurso. A Escola “Caetano de Campos”, escola-modelo paulista, herdeira das grandes reformas educacionais do período inicial da república, no inicio dos anos 1940 intensificava sua participação em comemorações cívicas, em intercâmbios entre escolas brasileiras e latino-americanas e recebia a visita constante de autoridades nacionais e internacionais.

É importante ressaltar que essas práticas não representam uma novidade das décadas de 1930 e 1940, entretanto, evidenciam o prestígio e a autonomia relativa da escola paulista, neste período, legitimadora das ações políticas e pedagógicas de seus professores, alunos, ex-alunos e diretores. De acordo com Viñao Frago (2003, p. 64, tradução nossa), as pesquisas acerca da cultura escolar devem estar atentas não somente ao que permanece, mas, também, às mudanças.

O autor propõe uma análise histórica, enfim, que integre continuidades e persistências às descontinuidades e, tradição à inovação: “é impossível dissociar ambos os aspectos”.

Desta forma, a educação militante de outrora, que tinha na Escola “Caetano de Campos” o lugar da vanguarda educativa permaneceu, passados 40, 50 anos de sua re-fundação, no trabalho relativamente autônomo desenvolvido pela diretora, pela bibliotecária e pelos alunos (que escreviam a maior parte das matérias publicadas no Nosso Esforço).

A dimensão política deste periódico, no que tange ao conteúdo das matérias, começa a ser vislumbrada com mais tenacidade a partir de 1940. A nova disposição das matérias publicadas no Nosso Esforço passa a abrir espaço para notícias de atos oficiais do Governo Vargas e para artigos que contemplassem as temáticas histórica, cívica, com enfoque nas datas comemorativas e que abordassem a “boa” higiene, a “boa” pedagogia e o “bom” aluno. De certa forma, notícias do cotidiano da escola tornam-se escassas e, em contrapartida, os artigos são apresentados com uma linguagem extremamente cuidadosa, do ponto de vista moral e dos padrões da escrita, e vinham acompanhados de uma temática oficial.

Um exemplo que pode ser encontrado na recorrência de matérias em que personalidades políticas, antes ausentes, aparecem com freqüência ao lado de registros dos rituais comemorativos. A exaltação a Getúlio Vargas surge pela primeira vez, em novembro de 1940 em uma galeria dos governos republicanos e, em 1941(…) Mais uma vez, percebe-se claramente a evidência de mudanças de natureza temática (PINHEIRO, 2000,p.46).

Do ponto de vista desta pesquisa o interesse não reside, exclusivamente, no registro e descrição destas práticas; mas, também, no seu significado histórico, pedagógico e político para o processo de escolarização paulista e nacional.

Esse post foi publicado em escola vanguardeira TESE de A.R. Pinheiro.. Bookmark o link permanente.

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