Aulas de História do Brasil com dona Edith; Caetano de Campos 1962 e 1963.

Queridos leitores:

Vocês reconhecem na imagem acima a capa do nosso primeiro livro de História do Brasil?

Pelo menos ele foi adotado para as meninas que entraram no Ginásio da Caetano de Campos em 1962 e que tiveram por dois anos a professora Maria Edith Leme de Oliveira -dona Edith, que era irmã da temida Eneida, a mestra que ensinava matemática no periodo da manhã para os meninos.

Recopiarei aqui um trechinho do meu livro Caetano de Campos: memórias de uma aluna bem(e mal) comportada para aqueles que não o leram tenham uma idéia de como as aulas se passavam:

[…]  “dona Edith, a professora de história, (…) era a “feiticeira elétrica”: antes de começarmos qualquer assunto novo dona Edith vinha com um saquinho de plástico transparente do qual um dos 40 papeizinhos dobrados com o número de cada aluna era sorteado para que a aluna escolhida fizesse um speech sobre a aula anterior.

Como dona Edith fabricava eletricidade estática ao segurar o plástico, os papéis subiam até a boca do saco e o número escolhido era aquele que saía em primeiro lugar.

Aquilo nos fascinava e atribuímos a dona Edith um poder sobrenatural.

O que aquela professora tinha de doce, a irmã dela tinha de azedo: era dona Eneida, professora de matemática do período da manhã, que apesar do nome tão inspirador era uma fera com os meninos; espalhava notas abaixo de zero, segundo a temperatura de sua autoridade.”(pg 103)

Naquela época as aulas eram um bis daquilo que estava escrito no livro, mas mesmo assim fazíamos um rascunho no caderno de borrão, debitando ali o texto da explicação da professora, às vezes um pouco mais floreado que aquele do livro.

O ensino não era com a participação direta da classe pois as alunas se contentavam de aprender de cor aquilo que havia sido explicado.

Durante as duas primeiras séries, o  programa começava com a descoberta do Brasil, e seguia-se pelo ciclo do pau-brasil, capitanias hereditárias, ciclo da cana de açúcar, bandeirantes, ciclo do ouro, etc..

Não havia reflexão sobre o problema colonial e as consequências da colonização no Brasil; os conteúdos eram descritivos, com nomes e datas para serem guardados na cabeça.

Lembro-me de ter apreciado o capítulo sobre A vinda da família real ao Brasil , em 1808 por causa do Bloqueio Continental; apenas não sabíamos o que havia sido aquela invasão napoleônica e nem o porquê da mesma; assim, eu achava que Dom João apenas havia resolvido se mudar para o Rio porque a cidade era mais bela que Lisboa.

Nunca poderia ter imaginado as condições de transporte nas naus reais, com a sujeira total e os piolhos proliferando sob as nobres perucas.

Não podia imaginar que as melhores casas cariocas haviam sido requisitadas e, afastados, os seus proprietários; apenas gravava os fatos anedóticos, como a situação da Corte com dona Maria – a Louca, a implantação das grandes escolas e de tudo que fosse preciso para atender aos cortesãos.

Ninguém falou sobre a covardia real, o transporte de todo ouro de volta ao Brasil, que entulhava os cofres portugueses e a nova transferência daquele lastro quando o Vice-Rei voltou para Portugal ; nada foi falado sobre a principal questão da ida da Corte, o imperialismo britânico que levava Portugal pelo bico e o  expansionismo francês.

Crianças da nossa época ainda sonhavam; aos 12/13 anos,  eu idealizava as imagens de Debret que apareciam no miolo do livro de História e que tive a felicidade de ver no original aqui em Paris; aquelas, e muitas outras sobre o Brasil de Dom João VI, assim como as de Rugendas também.

Penso que a leitura tardia de Casa Grande/Senzala de Gilberto Freire, assim como os primeiros volumes da História da Civilização Brasileira, de Sérgio Buarque de Hollanda poderia ter sido feita desde aqueles tenros anos; tanto uma como outra, são muito mais interessantes e atraentes que os livros didáticos em geral, com ilustrações muito mais chamativas; o português é claro e intelígivel para os jovens. Lê-se muito mais facilmente que certos romances que nos foram obrigatórios para as aulas de português!

Ainda que Joaquim Silva era razoavelmente bom, porque quando ensinei Estudos Socias, uma matéria para deshistoricizara História do Brasil, recebia das editoras certos livros que deveriam ir diretamente às latas-de-lixo!

Tudo isso para lhes dizer que até o final da segunda série seguimos com a mesma professora e o mesmo livro, sem sequer fazermos um trabalho de pesquisa naqueles dois clássicos da História do Brasil; e no final da segunda série deveríamos conhecer a Proclamação da República e os nomes dos presidentes brasileiros, até Vargas.

Esse conteúdo foi uma pedra no meu sapato: jamais com um teor  que explicasse a razão da proclamação da Independência, depois a da República e do Regime Republicano, nem como se desenvolviam os governos com as suas peculiaridades, as causas da Revolução Constitucionalista em São Paulo ou as guerras mundiais.

Afinal a familia e sangue da dona Edith escreveu com a mão direita a História de São Paulo e a outra, por aliança, governou o Estado e ainda estavamos em 1962/63!

Bem, agora vou formatar mais um pouco da tese de Ana Regina Pinheiro, que vai seguir para o blog daqui a pouco e constatar que nossas aulas de História não se enquadravam nas perspectivas inovadoras dos Manisfestos da Escola Nova e vanguardeira.

Abraços decorados,

wilma.

29/08/12.

 

 

 

 

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