iecc – memórias / Primeiro aniversário do lançamento de Crônicas e contos cruéis: lembranças da visita de caetanistas e amigos.

iecc – memórias / Primeiro aniversário do lançamento de Crônicas e contos cruéis: lembranças da visita de caetanistas e amigos.

Queridos leitores:

Hoje é o primeiro aniversário do lançamento de Crônicas e contos cruéis.

Foi assim : no dia 03 de novembro de 2011 a Livraria da Vila, da Alameda Lorena, abriu suas portas para meus amigos que, numa noite chuvosa, tiveram a delicadeza de ir ao encontro.

Depois do vinho e da assinatura, nós lotamos o pequeno auditório do subsolo, onde Rosa Maaciel, caetanista 69 cuja voz é maravilhosa, fez um show aos colegas e amigos do IECC.

Este meu segundo livro, publicada pela Editora Luna, foi feito em tempo record pois eu tinha minha passagem de volta para Paris marcada para o dia 04 de novembro.

Jéthero Cardoso, nosso camarada de escola, caetanista 65 e 68 e antigo jornalista do Estadão, ficou encarregado da revisão; Heitor Paixão, meu editor de sempre, também acelerou a publicação e a Rosa veio com toda a sua doçura cantar para a gente.

Bianca tirou fotos.

Foi praticamente a última lembrança que tive de São Paulo, pois no dia seguinte apenas sobrou o tempo de fazer as malas, encaixotar os livros não vendidos e partir; nem sequer pude almoçar com o meu irmão, que sempre me apoiou nessa aventura literária, emprestado-me apartamento, telefone e sobretudo me recebendo diariamente no seu escritório.

Sobre o Crônicas e contos cruéis :

Trata-se de uma coletânia de contos e crônicas curtos e cínicos, porque reais.

Em 90% deles, presenciei cenas, ouvi  relatos, li na imprensa  e até na própria literatura, tudo o que serviu de cerne para cada texto ; depois, como ficcionista, intervim com exagêros e situações surrealistas, misturando-os à realidade já deformada do conteúdo inicial, para chegar ao absurdo.

Os textos escolhidos chegam de vários anos da minha vida, até mesmo da época em que entrava nos vinte anos . A razão foi de dar ao leitor um pouquinho de cada etapa das minhas observações.

Do gênero, sobram muitos outros textos na gaveta: dariam pelo menos mais  três ou quatro livros ; sem contar os três livros prontos de literatura infantil que nunca publiquei por ter partido do Brasil tão cedo e sem ter podido retornar ao país por questões financeiras.

Na volta ainda escrevi outros contos e crônicas que espero lhes oferecer em breve.

Para o futuro penso de criar um espaço de leitura gratuita, via Net, para vocês e publicar os trabalhos cujos direitos autorais estajam pagos para evitar surpresas desagradáveis de incorreção de oportunistas.

Comemorando a data, deixo-lhes dois contos, um do livro aniversariante e outro inédito.

Boa leitura;

wilma.

03/11/12.

Caetanistas na Livraria da Vila(03/11.11)

A outra Macabea

            Sei que a escritora que vai contar a minha história conheceu uma tal de Macabea num livro que ela leu e, como eu também me chamo assim e, assim me pareço pouco com a outra, tive que falar num microforno durante muitas horas para que a dona pudesse escrever tudinho nos tim-tins.

            Primeiro ela veio aqui na casa da minha patroa e pediu lincença para que eu parasse a aquela limpeza toda e instalou-se na sala; queria porque queria que eu fincasse ao lado dela no sofá, daquele jeito que fica a minha patroa com as amigas dela; encabulada, eu quis continuar de pé, mas depois que gravador foi ligado finquei com as pernas bambas porque enquanto eu contava a minha história, alguma coisa ia amolecendo o meu coração e ao mesmo tempo, as pernas.

            __”Bea, diga pra mim onde você nasceu e como foi a sua infância?”, perguntou a moça.

            Eu num mi lembrava de tudo e disse que era lá do Ceará, dum lugar chamado X, mas que num era chique como aqui em São Paulo: era tudo diferente, por exempro, de Fortaleza, onde morei depois.

Minha mãe, que Deus a tenha, contava quando estava viva, que saiu de X e foimbora para Fortaleza onde o meu pai trabalhava de pedreiro; ela e os seis filhos,mais o sétimo que estava na barriga, subiram na carroceria de um caminhão com uma trouxinha desse tamaíno.

Nóis foi pra favela do Pirambu; era em 1960.

Vivemos no Pirambu até miados dos anos oitenta, quando começaram a construir prédios altos como os daqui de São Paulo, mas não era para nóis, não, porque chegou um mundo de estrangeiro e comprou tudinho naquelas paragens de praias com coqueiros, jangadas e saveiros.

Eu já trabalhava de empregada doméstica e minha irmã, aquela que estava no ventre da mãe quando fomos para Fortaleza, ficou uma bela morenaça e enquanto eu trabalhava limpando os apartamentos dos gringos, ela trabalhava de outras coisas e acabou ficando de barriga, mas uma vizinha nossa la do Parambu resolveu o probrema da Rita de Cássia e ela continuou naquele trabalho todo.

Minha mãe ficou preocupada com a saúde da Ritinha porque em seguida ela pegou uma infecção danada, foi ficando magrela, magrela e então morreu com uma doença que ninguém sabia o que era.

Depois do enterro da Ritinha eu parti para Recife e conheci o Narciso, mas o Narciso queria se juntar comigo porque eu também fiquei de barriga e aí nasceu o Roberto Carlos.

Como o Narciso era cunzinheiro, pegamos uma malinha e um pau de arara e viemos para São Paulo.

O Narciso arranjou um trabalho logo numa lanchonete daqui e eu finquei cuidadando do Robertinho.

Casar, não casei, não senhora – eu disse para a moça do gravador – mas juntamos os trapos e arranjamos um apartamento na Bela Vista pra morarmos os três.

Quando chegou a hora do Robertinho ir pra escola, o Narciso me deixou e eu fiquei na mão.

O apartamento era de quarto-e-sala lá na rua Paim, cum uns corredores compridos onde todo o dia e a noite toda o movimento era gande: rodinha de fumo, entra e sai de mulher da vida, conversa e briga de voz alta, gente gritando, a polícia fazendo batida a toda hora e o senhorio cobrando caro, pelas voltas de salário mínimo.

E eu, tinha salário?

Nenhunzinho! – se bem que o aluguel era o Narciso quem pagava porque o Robertinho era filho dele, com nome na certidão e tudo nos trinques.

Eu tive que me virar…

Quando eu disse para a moça do microforno isso daí, ela fez outra questão:

__Beia, por acaso você trabalhou na rua?

Não que eu me ofendesse, não, minha senhora…todo trabalho é santo! -respondi pra ela.

Fui ser doméstica e até hoje trabalho por dia em várias casas de família para poder aguentar o tranco, porque depois de uns anos o Narciso perdeu o emprego e foi morar com nóis outra vez, no quarto e sala da rua Paim.

__Então vocês se reconciliaram? – perguntou a dona do gravador.

__Reconciliar, assim de dormir na mesma cama, não!, respondi.

O Narciso de noite sai para ver os amigos e eu durmo no corredorzinho do apartamento. A única coisa que me incomoda é quando ele ou o Robertinho chegam de madrugada e eu tenho que recolher o colchonete do chão pra eles poderem passar.

Agora que o Robertinho é chamado de Robertão, sai com o Narciso pra beber umas cervejas enquanto a namorada o Robertinho, a Meire Alice que também mora lá em casa, dorme com a filhinha deles na nossa cama-de-casal e o Narciso fica dormindo na cama que era do Robertinho.

Nóis sempre dá um jeito e Deus ajuda quem cedo madruga!

Às 7h da manhã já estou de pé para dar comida a minha netinha, a Mara Kátia, que nóis chama de Maka, quase como o meu nome!

            O que a Maka prefere é coca-cola com batata de saquinho: todo dia de manhã é uma coca e um pacotinho de batatinhas fritas e na época da Páscoa é coca-cola com ovinho de chocolate, daqueles que vem dentro de um saquinho transparente.

            A dona do gravador abriu uns oião daqueles e perguntou se a Maka não era obesa e eu respondi pra ela que era a Maka uma menina bem gordinha, cheia de saúde, porque até pesava mais do que devia.

__Bea, o Roberto Carlos não trabalha?

Eu nem quero, e o pai dele também não!

Quando ele trabalhava, o ordenado todo ia pro tênis de marca e não sobrava um tostão; agora pelo menos ele tem a bolsa familia e não gasta os tênis para se cansar à toa.

__E quais são seus planos, Bea? Assim, para o futuro? –quis saber a dona.

Ainda bem que minha patroa tinha ido à ginástica, porque aquela perguntação toda já durava muito tempo e o serviço, lá, etava todo por fazer.

Quando a coitada da minha patroa chegasse suada de cansaço, provavelmente não ia gostar nadinha daquela confusão toda na casa.

Então eu fiquei mais um pouco com a nova dona da minha história e contei pra ela que meu futuro estava garantido ao lado de Deus pois agora desde aqueles tempos eu era uma pessoa de muito respeito e muito respeitada na minha igreija; era eu quem recolhia o dismo depois do ofício e entregava tudinho pro pastor.

Hoje em dia, de sexta para sábado, nóis fazemos pernitência a noite inteira e quando eu volto pra casa durmo na cama-de-casal, porque nos sábados o Roberto Carlos sai com pai ou com os amigos logo cedo e só volta pra casa no domingo.

A Mara passa o fim-de-semana com umas colegas do Supretivo e depois leva a Maka com ela para dançar no Garitão.

Meu único medo é a chagada do Pocalispe, e por isso leio a bibria todos os dias.

                                               * * *

A interlocutora da Macabea ficou outra vez de olhos arregalados e perguntou-lhe onde ela tinha aprendido a ler.

Macabea que havia ido apenas dois anos na escola de X respondeu-lhe que ler ela lia, mas não entendia muito bem aquela linguagem que a bíblia trazia, e que o importante era de ler e depois o pastor explicaria tudo a ela e a quem mais o pedisse.

Bea anda muito feliz: comprou uma TV de tela plana e um terreno no condomínio-fantasma que o pastor vendeu a ela por apenas 50 reais ao mes.

Quando o Narciso endireitar ela espera que ele encontre um outro trabalho e que no fim-de-semana construa um quartinho no terreno, para pouco a pouco fazer o primeiro puxadinho e colocar nele a lage esperando que um dia chegue um dinheirinho para fazer a construção total.

No papel que eu inventei para que ela o mostrasse a sua patroa está escrito com todas as letras, que Macabea dos Anjos é titular de um terreno de 8m X 5m no Loteamento Paraíso, no município de Pirambu do Leste, cidade que não existe em São Paulo.

(escrito a partir de uma história real e inspirado do conto A hora da estrela de Clarice Lispector)

Á flor da pele

Ele era açogueiro na juventude e partiu da loja de comércio artesanal onde retalhava e preparava as carnes, principalmente as nobre, servidas às madames: Alcatra, Bisteca, Contra Filé, Coxão mole, Filé mignon, Fraldinha, Lagarto, Maminha, Picanha.

Para o restolho, as partes menos nobres, que ele conhecia de cor por comer na sua casa: acém, costela, paleta, ponta de agulha, peito, rabo.

O açougue fechou com a chegada dos supermercados e Zé Mocotó foi trabalhar numa fabrica de conservas para gente e ração para cães, que no fundo são a mesma coisa, e ali cortou muita aba de costela, peito e pescoço, osso e vísceras de boi, cabeça, ossos, pé e rabo de porco.

Com a abertura dos mercados, a fábrica fechou as portas e o Zé Mocotó ficou para a rua, sem lenço e sem documento, sem casa e sem ajuda.

Viveu assim alguns anos e, doente, sem convênio de saúde e sem ter podido passar por um açougueiro diplomado morreu de sua morte precipitada, na calçada da cidade.

Mal seu corpo chegou à morgue, os abutres de plantão começaram a se interessar por ele: tendo morrido de frio e fome, não lhe poderiam tirar os órgãos; mas os ossos, podiam?

Estes, de pernas e braços ser-lhes-iam substituídos por tubos de PVC, coisa dele apresentar-se corretamente se tivesse visita no velório; das poucas carnes mais macias, a pele que ainda não envelhecera de todo, teria uma apreciação mercadológica interessante, para servir de matéria-prima à indústria de cosméticos, de colas cirúrgicas ou de pele estéril para as cirurgias de implante.

Zé Mocotó, que desde que perdeu o emprego derradeiro ouvira tanto falar que não valia nada, se morto pudesse escutar, ouviria que somente na morgue, valia dez mil; dez mil dolorosos dólares, partilhados entre os primeiros interessados.

Os segundos interessados, trabalhando por multinacionais de prestígio nas belas capitais do mundo civilizado, haveriam de abrir firmas em países viáveis, com via aberta para a chegada da matéria-prima dos pobres, onde uma label de qualidade seria ali conferido para que, enfim, os ossos moídos e conservados a frio do Zé Mocotó, com as peles semi-preparadas, pudessem entrar dignamente nas esteiras rolantes das fábricas, laboratórios e ateliês das nações mais avançadas do mundo.

Dali até o balcão da farmácia européia ou das salas de estoque dos hospitais americanos, os pedaços abatidos do Zé Mocotó apresentariam um grande mais valia, estariam a cem mil dólares, pelo menos!

Zé acabaria cotado nas bolsas e em Wall Streeat, Toquio, Paris ou Londres; se atinasse, embora morto, teria o orgulho de valer muito dinheiro, embora vivo vivesse à flor da pele.

(escrito depois da leitura sobre o assunto de uma reportagem recente de 2012 no jornal Le Monde).

Abraços à flor da pele;

wilma.

03/11/12.

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