Nossos colegas LERA: Zerroberto, Ana Maria e Regina.

Como dizia o velho Chico, tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu…

Tirando esse  verso do contexto em que foi escrito, ontem foi assim para mim : os Lera nos deixaram  órfãos…

Primeiro conheci a Ana Maria ; foi em  1962, entrando para o curso ginasial do Instituto de Educação Caetano de Campos; era uma das garotas mais altas da classe, talvez pelo fato de ser mais velha que muitas de nós, que vínhamos diretamente do Primário, tendo saltado o 5° ano.

Ana Maria era diferente porque tinha um tipo de beleza  que apenas foi valorizado depois daqueles anos : magérrima, alta, nariz voluntarioso sem ser bergeracquiano*, algumas sardas quase apagadas e cabelos ondulados  mais para crespos ; hoje seria o que chamamos uma bela mulher.

Também por  outras marcantes características ela se destacava da gente : podia ser respondona se a ocasião aparecesse e com toda aquela altura sentava-se na primeira carteira da fila à direita da classe, talvez para que os momentos que ela dedicasse à desatenção fossem invalidados pela presença de uma parede e sem colegas para conversar à frente e à sua direita.

Ana não podia mais contar com seu pai, que falecera quando os irmãos e ela eram pequerruchos, deixando a mãe viúva,  única no encargo da educação do Zé Roberto, da Regina e dela, a filha do meio.

Para se esquecer da tristeza, dona Mercedes trabalhava no Parquinho da Praça, talvez por graça de Mário de Andrade, fumando muitos maços de Continental  – sem filtro, que lhe ajudavam a viver na fumaça dos sonhos e engrossavam cada vez mais suas pernas azuis.

Meu irmão frequentava o Parquinho e pouco a pouco me aproximei dela e do resto da « fratrie », pois o lugar de trabalho da  mãe era o ponto de convergência dos filhos, antes ou depois da ida à nossa escola que ficava ali em frente.

José Roberto era chamado de Zérroberto e a Regina Márcia, de Regina; entre uma baforada e outra, dona Mercedes dava aos três aquele calor necessário para fazer deles, gente.

Zérroberto entrou na Faculdade de Economia, diretamente do 3° ano de Científico, sem ter feito  cursinho algum, porque exatamente até ali, a nossa escola ainda era de excelência ; não foi o único da sua turma,  mas por si  só era um exemplo de esforço  e de vitória.

Não somente ele se formou economista, como trabalhou durante os estudos e migrou com a família da modesta casa do Bexiga, para um apartamento simpático da rua General Jardim, na ocasião  uma das melhores ruas do bairro.

Ana Maria seguiu seu caminho, ora tropeçandp no Francês, ora no Português, mas formou-se  Assistente Social e casou-se com um colega do irmão, que lhe deu muito amor.

Regina entrou na USP um ano logo depois  das nossas  chegadas ao campus e formou-se em Biologia.

Os anos passaram,  a existência resolveu dar uma peneirada na vida dos nossos amigos : aos 33 anos, o Zérroberto sucumbiu a um problema do coração,  talvez por culpa dos gens predominantes que ele herdou de seus pais. Não se tinha casado, mas tinha um grande amor, que ficou só.

Imagino que pelas mesmas causas, mais a perda do filho,  dona Mercedes também preferisse partir, e foi-se logo depois.

Aninha perdia, então, dois entes queridos ,  embora seu marido, seus três filhos  e a família da irmã lhe preenchessem a vida  até 2008.

Regina teve  quatro crianças, e felizmente, pois daquele clã outrora tão simples, porém feliz, ela teve que  receber  sozinha o adeus dramático da irmã.

Foi assim que me chegou esse funesto noticiário, de uma hora para outra, sem que eu o esperasse.

Daquela bateia que se substituiu à peneira fina,  por sua vez   trocada por crivos de diâmetros cada vez mais sutis, continuamos no elenco  desta ópera buffa, até que pelas leis da probabilidade todos os grãos por ali sigam, deixando por último o mais desgraçado  nós, porque a vida apenas vale à pena quando temos os nossos amigos conosco.

Minha companheira de queimadas e vôlei, tão ágil de suas longas pernas, criou asas e voou.

Abraços solitários,

wilma.

28/06/13.

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8 respostas para Nossos colegas LERA: Zerroberto, Ana Maria e Regina.

  1. Octaviano Galvão Neto disse:

    Tive dois momentos no IECC. Um no período da manhã e outro, mais curto, no período noturno.
    Em ambos fiz alguns bons e inseparáveis amigos, dos quais apenas o Marcio Tadeu Silva – do período noturno – inicialmente casado com Leonor Santamaria, continua bem perto (neste ano, muito menos, infelizmente).
    Do período da manhã – que foram muitos naqueles bons tempos – José Roberto Lera, o Zeroberto, Lera ou simplesmente o Beto Cebola (só para os muito íntimos, se não ele ficava bravo) era um dos mais próximos. Fomos companheiros de classe, de futebol, de voleyball e de handball (haja saúde e vitalidade) e matamos muitas aulas juntos !
    meus primeiros cigarros foram ‘serrado’ dele, o mesmo Continental sem filtro de Dna. Mercedes que eu conheci menino no Parque da Praça da República, do qual ela era Zeladora.
    Sabia que ele havia morrido, mas não tão jovem. Uma pena ! Coisas da vida. . .
    Agora, surpresa mesmo, pelo prognóstico, foi ele ter se tornado Engenheiro pela FEI.
    Se me perguntassem eu apostaria em tudo, menos nisto. Assim como se ele soubesse que me tornei profissional da Informática (atualmente, porque antigamente era somente Analista de Sistemas de Processamento de Dados), ele também se surpreenderia. Muito!
    Coisas da vida. . .

    • …se no me falha a memria, foi na FEI, sim! Otaviano: essa vida comea a ficar chata quando perdemos amigos. beijos, wilma

      • Octaviano Galvão Neto disse:

        Oi Wilma,

        O que eu tentei dizer foi: a julgar pelo desempenho escolar e pela personalidade dele, tudo, menos Médico, Engenheiro, ou qualquer outra coisa que necessitasse de muito estudo e empenho.
        De resto, nós temos que nos acostumar com as perdas, pois o nosso momento de vida é este. E temos que enfrentá-las, desde que não sejam antinaturais, como a perda de um filho, de uma neta, etc…

        • Claro que compreendi; alias, acabo de ver que cometi dois erros: um – ele fez economia; dois – teve uma complicao cardiaca por causa de uma nefrite. Recebi e-mail da Regina e o marido dela, o Celso, tb foi caetanista e entrou na Economia com o Zrroberto e na Poli, mas preferiu fazer apenas a primeira! bjs, wilma

  2. Vera Lucia Rosito Pivotto disse:

    Também fiquei triste com a notícia sobre os Lera..Dona Mercedes foi muito importante em minha vida entre os meus 4 a 7 anos.Ela me pegava na saída do Jardim na Caetano de Campos, me levava para o parquinho da Praça da República, trocava o meu uniforme e esquentava a marmita que minha mãe lá deixava quando ia para o trabalho.Descanse em paz, Dona Mercedes, juntamente com seus filhos.

  3. Ceres de Almeida Gomes disse:

    quando se foi a querida Ana Lera? aquele jeitão dela, engraçado… que saudade! e que bela escrita a sua, Wilma, recuperei um tanto da história…. obrigada e um tantin triste!

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