Preso “almofadinha” que tentava seduzir as alunas da Escola Normal da Praça.

Quando o Zito era pequeno só viu mesmo desgraça : primeiro com o pai boêmio que encaixava o violão debaixo do sovaco e saía todas as noites para o cortiço rua acima, indo cantar às mulatas que tanto mel lhe davam,e por cima aumentavam-lhe o número de filhos, que já chegavam à dezena apenas com a esposa, no cortiço de baixo.
Depois Zito viu o Gaetaninho morrer debaixo dos trilhos do bonde e por não poder ter tido flores na igreja no dia da sua comunhão, contentou-se em olhar os lírios brancos e os copos-de-leite no chaixãozinho barato do primo morto.
Entre enterros, comunhões e missas dominicais, acabou por virar coroinha da igreja do bairro, onde o padre Bento distribuía delicada colação aos ajudantes pelo fim das cerimônias, para que eles continuassem em pé ao pé do altar, nem que fosse até o meio-dia do domingo.
Escola mesmo, foi apenas até o 4° ano, numa salinha acanhada da paróquia, com meninos iguais a ele.
Assim o Zito foi crescendo, raquítico, mas bonitinho e quando « adolesceu » parecia já um verdadeiro galã mediterrâneo, um pouco à la um Rodolfo Valentino, que na ocasião ainda nem sequer era conhecido.
Foi quando a mãe o empregou como ajudante do Pepe, vizinho de quarto, que tinha um lambe-lambe na Praça da República; lá o Pepe fotografava os alunos da Escola Normal e demais alunos das escolas do prédio, os namorados e os sonhadores, revelando as placas no porão do casarão do Bexiga, o mesmo das muitas dezenas de oriundi que biscateavam pela cidade.
O Pepe não ficou só nisso: em pouco tempo instalou um pequeno estúdio de fotografia no cortiço, para fotografar os italianos de todo Bexiga se assim possível fosse.
O Zito ficou encarregado de ir buscar no brechó do Ariel algumas roupas que serviriam para os clientes durante as sessões de foto, e foi assim que o o rapazito viu muita bella ragazza com ares de paulistana tradicional sorrindo para a câmera do patrão.
Depois que o Pepe batia as fotos, era o Zito quem fazia o caixa enquanto o patrão descia ao porão para a revelação. Zito também limpava tudo, varria e polia, deixando tudo um brinco.
Durante à semana carregavam o lambe-lambe para a praça e aos sábados e domingos mudavam de clientela.
Uma tarde na saída dos alunos da Escola Normal, mademoiselle Dupont, a preceptora francesa de uma jovem normalista, foi com a moça ao lugar onde o tripé estava montado, bem sobre a pontezinha que atravessava o lago, onde os chorões deitavam seus ramos; os patos e pavões ali circulavam em busca das migalhas atiradas pelas crianças, tudo muito verde e bem tratado, lugar frequentado por boas famílias e suas babás francesas saudosas dos jardins parisienses, que por ali passeavam, às vezes encontrando as costureirinhas que chegavam da rua das Palmeiras.
O Zito quando viu Senhorinha ao lado da mademoiselle, sentiu um não sei o quê muito esquisito; aquele sentimento coincidiu com o brilhar os olhos da mocinha, que refletiam a imagem do ajudante, no momento em que o Pepe, debaixo da coberta negra, apertou a pêra.
Foi assim, vestido com um belo traje do brechó do Ariel, polainas e guarda-chuva de adereço, chapéu e gravata borboleta, que o Zito começou a rodear diariamente a escolar da Praça, já alguns minutos antes do toque do sino de bronze, anunciando o final das aulas.
Não foi uma, mas muitas Senhorinhas que o Zito pôde ver saindo daquele lindo edifício, as loiras, as morenas, até ruivas, todas elas muito belas, sendo esperadas pela preceptora, pela mãe que de dentro do landau não tirava os olhos da porta da escola, ou pelo pai, que ocasionalmente ia ali voltando da fazenda de café e dali iria com a filha até a Brasserie Paulista no Largo do Rosário.
Ah! Se não fosse o sotaque, talvez o Zito tivesse tido a sua chance; mas no meio das abelhas era apenas mero zangão e identificado pelo agente da polícia que patrulhava a região, acabou sendo levado, de braço dado com dois soldados, que tinham os mesmos vícios que um tal de Manoel Iglesia, sargento outrora despedido da corporação, por roubar suas vítimas.
O jornal O Estado de São Paulo notificou na edição do dia seguinte:

26/07/1903
Foi preso por ordem do sr. dr. Pinheiro e Prado, o fanfarrão “Zito” Mario Cocenzi, jovem oriundi do Bexiga,fantasiado de almofadinha, que importunava moças de boa família na saída da Escola Normal.

2.2_Passeios_3
Na nota do jornal não aparece escrito que as roupas que o Mário usava lhe foram confiscadas!

Ficção inspirada no artigo do jornal OESP de 26/07/1903, para os 110 anos do evento!
por wilma schiesari-legris.
Abraços fictivos,
wilma.
25/07/13.

foto: OESP

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