A Revista do Ensino; metodologia da ideologia da época?

Queridos leitores:
Trago-lhes um trabalho da professora Regina C. E. Gualtieri, do qual guardei o essencial para que vocês compreendessem o que foi a Revista do Ensino.
Dela fizeram parte alguns dos nossos professores da Escola Normal da Praça, como José Benevides e Carlos Gomes Cardim, o primeiro talvez muito influenciado pelas perigosas ideias do professor Nina Rodrigues.
Por isso, convido-os a refletir sobre os princípios do republicanismo que começam a tremer nas suas bases ,e na transmissão de uma ideologia perigosa a muitas gerações de alunos; tudo dentro das normas!
Abraços revistados,
wilma.
26/07/13.revista do ensino CRE. M. Covas

Um periódico para professores, por
Regina Cândida Ellero Gualtieri∗

Em abril de 1902 saía o primeiro número da Revista de Ensino (RE), editada pela Associação Beneficente do Professorado Público de São Paulo,instituição criada aproximadamente um ano antes, em janeiro de 1901, com o propósito de cuidar dos interesses da classe, prestar assistência financeira, realizando empréstimos em caso de necessidade, como também orientar os professores, os legisladores e o próprio governo, por meio de um Conselho Representativo do Professorado Público, constituído por membros associados e eleito pelo conjunto deles.
(…)
A publicação tinha finalidades pedagógicas, divulgando métodos de ensino, mas também finalidades corporativas, em defesa dos interesses do magistério. Assim, durante os dezesseis anos não perfeitamente consecutivos de sua existência, entre 1902 e 1918, foram impressos textos didáticos para serem utilizados em sala de aula, orientações sobre como ensinar determinados conhecimentos escolares, traduções de trabalhos estrangeiros, ou ainda, transcrições de discursos, conferências e comunicações realizadas por educadores brasileiros. Nas várias seções, a Revista publicou prescrições destinadas ao professor que atuava no ensino primário ou nas escolas normais, voltadas, por exemplo, ao ensino de aritmética, geometria, leitura, linguagem, música, trabalhos manuais. Publicou também textos, discutindo educação física, moral, civismo, história, geografia, religião, higiene, relação professor e aluno, especialmente o uso de medidas para manter a disciplina da classe, e tratou de problemas afetos à formação e ao exercício profissional.
De acordo com o estatuto da Associação, todos os sócios honorários, os contribuintes e os profissionais, quando assinantes, poderiam ser colaboradores da Revista. Entretanto, caberia ao redator-chefe selecionar o material a ser publicado e autorizar a publicação de outros trabalhos de autores diversos dos colaboradores.
(…)
Planejada para ser bimestral, manteve a periodicidade nos primeiros tempos – entre 1902 e 1904 – quando sua impressão foi patrocinada pelo Estado. Depois disso, em função de desavenças entre a Associação e a Secretaria do Interior, que cuidava da educação pública na época, passou um período, entre 1905 e 1910, tentando subsistir custeada pela entidade. As dificuldades, porém, foram grandes e crescentes, o que provocou um espaçamento maior do que o previsto entre um número e outro e, por fim, a publicação foi suspensa em 1910. Em 1911 voltou a ser patrocinada pela Diretoria da Instrução Pública do Estado, que a publicou até 1918, quando foi extinta.
(…) O fato de essa publicação ser feita por professores e para professores constitui uma fonte para se conhecer de que modo ou com que expectativas determinados assuntos circulavam no ambiente educacional do início do século .(…)
(…)
O tripé temático – raça, corpo e higiene – bem antes dos tempos da Revista, já sustentava discussões relacionadas à construção da identidade nacional. Entre o final do século 19 e início do século 20, ao se indagar “o que é uma nação” não era incomum a resposta de que uma verdadeira nação deveria contar com língua e cultura comuns e uma população homogênea .
Assim, desde o final do século 19, havia, no Brasil, uma verdadeira obsessão entre intelectuais e políticos para construir uma representação positiva do brasileiro, reinterpretando o significado da miscigenação de raças existente na nossa população e buscando impregnar o imaginário da sociedade brasileira com um perfil ideal de povo – saudável, exercitado, higienizado, a caminho do branqueamento – apropriado para transformar o país e inseri-lo na modernidade. (…)
Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem.
(…) Em junho de 1902, na seção Pedagogia Prática do número 2 da Revista, foi publicado um texto de autoria de José Estácio Corrêa de Sá e Benevides, intitulado Lições de História da Civilização sobre o qual o leitor fica sabendo, ao ler as páginas finais do periódico, no segmento Noticiário, que se trata do primeiro artigo da série que o professor de história da Escola Normal escreveria para o periódico.
De fato, outras cinco lições foram divulgadas (RE, n. 3, 4, 5, 1902). No entanto, no ano seguinte, a Revista deixou de publicá-las sob a justificativa de que o livro do professor com tal material já estava no prelo.
Posteriormente, as Lições de História da Civilização de Benevides foi publicada, aprovada e adotada em escolas de São Paulo.
Esse autor em carta redigida à Revista explica que suas lições resultaram da leitura e consulta de diversas obras e pretendiam apenas facilitar o trabalho daqueles que iniciam a sua carreira e não dispõem de tempo para consultar diferentes expositores e coordenar suas leituras.
(…)
A primeira lição impressa na Revista é particularmente ilustrativa das concepções que Benevides partilhava sobre civilização e raça. Compilando e reproduzindo idéias de autores como o positivista Thomas Henry Buckle, o próprio A. Comte e o pensador católico Monseigneur Pèchenard, o professor da Escola Normal inicia sua exposição explicando que a história deve reunir e classificar metodicamente os fatos: é a história que nos apresenta os fatos que servem de fundamento às generalizações da sociologia. Em seguida, passa a discutir os elementos que modificam a história, apontando dois deles – o meio físico e a raça – mas, destacando o último como o mais importante modificador da história. A noção de raça apresentada é biológica, definida por um conjunto de características peculiares de um determinado grupo humano. (…)
Assim, o determinismo biológico é a referência para justificar a existência de três grandes tipos raciais caracteristicamente distintos – negros, amarelos e brancos. Os “fatos”, por sua vez, se incumbem de pôr em evidência a grandiosidade dos brancos e a inferioridade dos negros. A raça branca, nesse material didático, é apresentada como a raça histórica por excelência, aquela que forneceu os povos mais ativos, os mais ativos operários da civilização e o negro é tratado como imperfeito, aquele que não conseguiu ainda elevar-se acima dos primeiros graus da vida social sob o argumento de que em religião, estacionou no “fetichismo”; em moral, ficou reduzida aos grosseiros instintos da matéria; em política, só tem tido as formas mais brutais do despotismo .(…)
A lição de Benevides expressa uma visão comprometida com o ideário da superioridade da raça branca e cristã; os amarelos, embora comparáveis aos “ativos operários da civilização”, não são superiores por não serem cristãos. Essa percepção é reforçada pela leitura do próprio livro didático de Benevides que encerra as cerca de trezentas páginas escrevendo, no último parágrafo, que cristianismo e civilização são dois termos equivalentes(Benevides, s/d:307).
(…)
Nessa mesma edição, há um texto traduzido por Benevides, denominado História da geografia, em que o autor faz uma viagem imaginária pelos vários continentes. Depois de descrever as populações do continente africano como incapazes de autogovernarem e entregues a um fetichismo estúpido ou exploradas pelo islamismo corruptor e cruel, sugere que terão muito a lucrarda influência dos povos cristãos que, pelo menos, melhorarão sua sorte. (RE, n. 4, 1903: 394)
(…)
Corpo, higiene e a linguagem do medo
(…)
Assunto recorrente na Revista, o corpo humano é tratado como algo que deve ser cuidadosamente trabalhado pela ginástica escolar, considerada essencial para educar moral e intelectualmente e não apenas desenvolver ou fortalecer músculos e ossos.
As manifestações intelectuais e morais, escreve o professor e inspetor escolar, Carlos Gomes Cardim, são meramente fisiológicas e, portanto, conseqüências de um trabalho bem elaborado e de combinações extraordinárias de fenômenos inteiramente ligados. A partir desse entendimento, explica que o cérebro não pode ser desenvolvido sem o desenvolvimento do corpo e apenas um cérebro bem constituído sustentará os deveres cívicos e morais (RE,n. 3, 1902: 396 e 397). (…)
Com pontos semelhantes de abordagem, Augusto R. de Carvalho assina vários textos também sobre exercícios físicos(…)
Defensor incondicional de atividades físicas para todas as idades e para todos os sexos, em seu artigo Decadência física e moral; como podemos combatê-la, insiste na tecla do paralelismo entre a cultura do corpo e a da inteligência, lamentando que em nosso país nunca se cogitou da cultura física, embora, na sua opinião, fosse excessivo o zelo pela cultura intelectual. Diz, questionando: precisamos implantar o gosto, o hábito pelos exercícios físicos; se existe a Liga contra a tuberculose, por que não se fará uma – Liga nacional de educação física – contra a decadência física e cujos fins fosse propagar as bases da higiene ativa? (RE, n. 6, 1903: 1039)
Nesse trabalho, a decadência física e moral, anunciadas já no título, são compreendidas como decorrentes do processo civilizatório.
(…)
nível da instrução, mas diminuindo o número das horas letivas e empregando o tempo
assim ganho nos exercícios físicos.
Os Gregos das primeiras idades conheciam as tendências da natureza humana para a
degenerescência e não pouparam esforços em rebatê-las. Embora fossem bem
dotados fisicamente, entregavam-se os Helenos aos exercícios a fim de conservar a
robustez e a saúde e manter as belas qualidades da alma. (RE, n. 6, 1903: 1037e
1038)
Cinco anos depois, em 1908, em outro artigo, Augusto R. de Carvalho,
reproduzindo vários especialistas estrangeiros, escreve: a educação física
Para concluir :
No início do século 20, professores do sistema escolar paulista produziram textos pedagógicos para uso com seus alunos e os divulgavam na Revista de Ensino e em livros didáticos o que permitia que outros professores lessem esses materiais e os utilizassem em suas práticas. Nesse periódico também foram impressos trabalhos de autores estrangeiros selecionados pela equipe de redação. O teor de algumas dessas produções tinha um caráter doutrinário, de catequese realizada por meio de linguagem agressiva para discriminar, ou de linguagem do medo para intimidar ou convencer.
(…)

Fonte:
BENEVIDES, José E.C. de Sá e. História da Civilisação. Lições. N.Falcone & C.
imagem: CRE M. Covas.

Esse post foi publicado em material didático usado no iecc, outros documentos. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s