Bananas…

Primarismo intelectual e moral

Myrthes Suplicy Vieira (*)-(Publicado no BrasildeLonge, do José Manzano)

A teoria darwiniana de evolução das espécies veio a público há mais de 150 anos, ou mais especificamente há 155 anos, se considerada a data da primeira edição do livro A Origem das Espécies (1859).

Desde os primeiros dias da divulgação de suas ideias, Charles Darwin enfrentou forte polêmica, uma vez que seu conceito de que o homem descende diretamente dos macacos contrariava a versão religiosa de criação divina vigente na época.

Macaco 1Por décadas e até séculos, muitas pessoas se engalfinharam na tentativa de comprovar o predomínio de uma dessas visões. A briga, no entanto, não estava amparada apenas no confronto entre ciência e fé. Deve ter sido um duro golpe no ego de muita gente saber-se descendente de um animal “inferior” – isto é, que ainda anda em quatro patas, vive em árvores e se alimenta de frutos, faz ruídos estranhos que se assemelham a uma risada, movimenta-se de forma trôpega quando de pé, agitando os membros superiores como se estivesse se coçando.

Na tentativa de se livrar dessas imagens mentais que desabonam nossos ancestrais, pouca gente deve ter-se perguntado o porquê da preferência da espécie por bananas. Terá sido por sua forma, por seu interior macio, por ser um fruto fácil de descascar ou por seu sabor? Pouco importa, o mais provável é que por todas essas razões em conjunto, além de uma provável maior disponibilidade das bananas na região em que os primatas habitavam. Que região era essa? O continente africano.

Daí começam a surgir outras ilações. Além de sermos forçados a engolir a ideia de que somos macacos “pelados”, ainda temos de suportar a hipótese de sermos oriundos de um ambiente de negros? Melhor voltarmos para o conceito de descendência divina.

Mas uma pergunta se impõe: qual é a referência usada para dizermos que somos descendentes de um deus? O deus muçulmano? O católico? O judeu? Trata-se de um deus único ou, na verdade, há muitos deuses e deusas, como se acreditava na Grécia e na Roma antiga? Haverá uma hierarquia de deuses ou, se muitos há, conviverão eles em harmonia?

Penso no Olimpo, com Zeus no topo da pirâmide e uma miríade de outros deuses e deusas abaixo dele, cada um especializado em uma função: agricultura, o lar, a caça, etc. Depois meu pensamento vagueia pelas religiões como as conhecemos nos dias de hoje. Levo um susto ao constatar que a esmagadora maioria dessas religiões é monoteísta. Mais um susto ao me dar conta de que as únicas politeístas que sobrevivem são, em sua esmagadora maioria, de origem africana. Lá vêm os pretos de novo, faça-me o favor! Pior, os deuses africanos – os orixás – têm características demasiado humanas. São temperamentais, manipuladores, sedutores, comprazem-se na luxúria, gostam de se comunicar através das danças, dos cantos, das bebidas e das comidas, não lidam com os conceitos de pecado e culpa. Em suma, são primitivos mesmo.

Einstein 1Meu pensamento volta-se agora para Fernando Pessoa: “Sem a loucura, que é o homem mais que a besta sadia, cadáver adiado que procria?”. Concluo em definitivo: moldados em barro ou crias diversificadas de macacos, nada nos retira o título de “bestas”.

Chamo por Einstein em minha defesa: “Só há duas coisas que não têm limites: a estupidez humana e o infinito. Mas ainda não tenho certeza quanto ao último”.

Desanimo, hesito, descreio de mim mesma. Desculpem-me divagar tanto. É que hoje de manhã li uma notícia acachapante no site do UOL: “Estudo mostra que macacos aprendem matemática”. Já eu…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Yes, nós temos bananas!

Carmen MIranda in THE GANG'S ALL HERE (1943), directed by Busby Berkeley.Mais uma vez a demonstração de incivilidade é confundida com preconceito. Aqueles que não têm capacidade para se igualar a outro ser humano tendem a perder a fleuma, atacar e destruir o objeto de sua inveja.

Esta semana foi amplamente divulgado um vídeo onde se via um jogador de futebol brasileiro, mulato, pegar uma banana que havia sido atirada em sua direção, descascá-la, dar uma dentada e sair jogando seu magnífico futebol. Eu, que não sou vidrada em futebol e nem conhecia muito o jogador, fiquei sua fã. A segurança do rapaz mostra que ele sabe o que é, e não se envergonha disso, pelo contrário, não se deixa abater por gesto tão insignificante, pois os cães ladram e a caravana passa.

Me abespinha sobremaneira ver que ainda neste século XXI pessoas tão bem informadas sobre genética ainda achem que são diferentes entre si. Ora, conheço macacos que são loiros, e mesmo assim são símios, aliás, somos todos verdadeiros descendentes dos macacos.

Por esse motivo mesmo, fico extremamente irritada quando se distribuem cotas para negros nas universidades. Essas pessoas têm tanta capacidade quanto quaisquer outras para competir de igual para igual nos estudos. Aqueles que não conseguem por seus próprios méritos atingir a nota mínima para cursar a faculdade, têm, simplesmente, que procurar sua melhor habilidade; acho que seria ridículo tentar distribuir cotas para anões ou brancos em times de basquete. Eu, por exemplo, não tenho nenhum pendor culinário, e acho que não deveria ser admitida em uma cozinha de restaurante só porque é necessário espaço para avós sem emprego. Sei que tenho outros predicados, e a eles me dedico. Eu me sentiria desconfortável de ser atendida por um médico que tenha sido admitido na escola simplesmente por ser negro.

Temos dificuldades de lidar com o diferente, é verdade, mas no Brasil é até engraçado dizer que somos preconceituosos, com a quantidade avassaladora de mulatos, ou seja, pessoas filhas de pais e mães de cores diferentes. Antes do advento do protetor solar em função do câncer de pele, ficávamos horas ao sol, somente para adquirir aquela cor de caramelo deliciosa.

Nos relacionamentos amorosos, temos que convir que preferências existem. Tem quem goste de alto, magro, cheinho, gordão, baixote, negro, japonês, endinheirados não importando o tipo físico etc. Noto que os próprios negros, quando ficam ricos, sempre procuram e acham uma loira para se relacionar, natural, de preferência. Questão de escolha. Eu mesma sempre digo, quando me perguntam se eu gostaria que minha filha, que é branca, se casasse com um negro: “Depende, ele é uma boa pessoa?”

Estudei em escola pública, e lá tinha gente de todo tipo. Brincávamos juntos, sem notar suas peculiaridades, e acho que vem daí minha estupefação quando vejo gestos como o do torcedor invejoso. Mas, se pensarmos bem, há gente muito pior do que ele. Portanto, nada de passeatas contra o racismo, e muito menos “dia da consciência negra”, a não ser que se crie também o dia da branca e da amarela e de quantas cores mais houver.

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