Finalmente uma coisa que vale a pena de ser lida na Net!

Queridos leitores:
O texto chegou sorrateiramente, misturado às inumeras mensagens que recebo a cada dia, pão nosso da cibernética.
O autor, mesmo no anonimato singelo da sua presença, merece a atenção dos meus leitores.
Agradeço ao meu amigo, o ator Paulo Hesse, pelo envio.
Deliciem-se, por favor!
Abraços explicados,
wilma.
30/05/14.

A palavra “coisa” é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia.

“Coisas” do português.

Gramaticalmente, “coisa” pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma “coisificar”. E no Nordeste há “coisar”: Ô, seu “coisinha”, você já “coisou” aquela coisa que eu mandei você “coisar”? Na Paraíba e em Pernambuco, “coisa” também é cigarro de maconha.

Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: Segura a “coisa” com muito cuidado / Que eu chego já.”

Já em Minas Gerais , todas as coisas são chamadas de trem. (menos o trem, que lá é chamado de “coisa”).
Exemplo:
A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: “Minha filha, pega os trem que lá vem a “coisa”!.

E, no Rio de Janeiro? Olha que “coisa” mais linda, mais cheia de graça…

A garota de Ipanema era “coisa de” fechar o trânsito! – mas se ela voltar, se ela voltar, que “coisa” linda, que “coisa” louca.
“Coisas de” Jobim e de Vinicius, que “sabiam das coisas”; “coisa” não tem sexo: pode ser masculino ou feminino.
“Coisa-ruim” é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. “Nunca vi coisa assim”!
“Coisa” também não tem tamanho; na boca dos exagerados, “coisa nenhuma” vira um monte de coisas…

Mas a “coisa” tem história mesmo é na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, “a coisa” estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré: Prepare seu coração pras “coisas” que eu vou contar…, e A Banda, de Chico Buarque: pra ver a banda passar, cantando “coisas” de amor…

Naquele ano do festival, no entanto, a “coisa tava preta” (ou melhor, verde-oliva).
E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as “coisas”:
“coisa” linda, “coisa” que eu adoro!
Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade afinal, são tantas “coisinhas” miúdas. E esse papo já tá qualquer “coisa”. Já qualquer “coisa” doida dentro mexe…
Essa “coisa doida” é um trecho da música “Qualquer Coisa“, de Caetano que também canta: alguma “coisa” está fora da ordem! e o famoso hino a São Paulo: “alguma coisa acontece no meu coração”!
Por essas e por outras(“…”), é preciso “colocar cada coisa no” devido lugar.
Uma “coisa de cada vez”, é claro, afinal, uma “coisa é uma coisa”; “outra coisa é outra coisa”. E “tal e coisa, e coisa e tal”.
Um cara “cheio de coisas” é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques; já uma cara “cheio das coisas”, vive dando risada; gente fina “é outra coisa”. Para o pobre, a “coisa está sempre feia”: o salário-mínimo não “dá pra coisa nenhuma”. “A coisa pública” não funciona no Brasil. Político, quando está na oposição, “é uma coisa”, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura.
Quando elege seu candidato de confiança, o eleitor pensa: Agora a “coisa” vai…
“Coisa nenhuma”! A “coisa” fica na mesma.
Uma “coisa” é falar; outra é fazer. “Coisa feia”!
O eleitor já está cheio dessas “coisas”!
Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as “coisas”, para serem usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas.
“Há coisas que o dinheiro não compra”: paz, saúde, alegria e outras cositas más; mas, deixemos de “coisa”, cuidemos da vida, senão chega a morte, ou “coisa” parecida… Por isso, faça a “coisa certa” e não esqueça o grande mandamento:
“AMARÁS A DEUS SOBRE TODAS AS “COISAS”.

Entendeu “o espírito da coisa”?

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