PRISCILA FERRAZ

Pura heroína e heroína pura.

Malévola  

Maleficent_live_actionAinda na fase contos de fadas contemporâneos e aproveitando a estreia do filme “Maleficent” estrelado por Angelina Jolie — que, pelas fotos, está maravilhosa —, vou contar uma nova versão da “Bela Adormecida”.

Aquela mulher era realmente espetacular, mas não era o que o rapaz precisava para constituir família. Se casaria com a moça da alta-sociedade, filha de amigos de seus pais de longos anos. Vivinha, garota bonita, formada em letras pela PUC, já tinha cruzado os mares várias vezes com seus pais e conhecia o mundo inteiro. Foi numa dessas viagens que se conheceram, ainda adolescentes, e depois perderam contato; quando se reencontraram, já adultos, tinham aproveitado de tudo na juventude — ele muito mais do que ela, conhecendo o lado negro da metrópole onde conheceu Magali, nome de guerra “Maga”, meio para abreviar o nome, meio por identificar a moça com seu lado um pouco gótico.

Tiveram por uns tempos um romance tórrido, mas sem futuro, na visão do rapaz. Juliano sempre soube que aquela história não teria prosseguimento, mas iludia a moça, que estudava filosofia na USP — uma cabeça e modo de vida alternativos, mas sonhava viver com seu príncipe para sempre.

Juliano esteve com ela até a véspera de seu casamento suntuoso, e Maga soube somente pela mídia, numa rede de relacionamentos, que ele havia se casado e partido em lua-de-mel.

Maga foi até o mais profundo desespero. Não se conformava com a deslealdade do homem que ainda amava. Acompanhava a trajetória financeira de sucesso do ex-namorado com desdém, ciúmes do rapaz e ódio da esposa que voltara grávida de sua viagem de núpcias.

A festa de batizado de Aurora foi um acontecimento social de grande repercussão. Os pais da linda menina estavam encantados com o bebê, e não mediram esforços nem dinheiro para o evento. Na noite em que o exame tinha confirmado que teriam uma menina, o jovem casal havia comemorado noite adentro, e, finalmente, quando a madrugada cedia lugar ao alvorecer, com os raios de sol se espremendo por detrás das nuvens acinzentadas, resolvido que o nome da menina seria Aurora.

Os convidados brindavam à saúde da garotinha quando uma figura destoante surgiu, e, levantando uma taça, surpreendeu a todos lançando uma maldição, com toda a fúria que seu coração carregara por tanto tempo. Antes de ser levada pelo forte esquema de segurança, seus brados repetiram:

“Aos 16 anos tomará uma picada e adormecerá, não conhecendo a alegria de viver até o fim de seus dias.”

A madrinha da menina correu e tomou o bebê nos braços, na esperança de protegê-lo. Vivinha soluçava sem parar, sem compreender o motivo de agressão tão gratuita.

Os anos se passaram e tudo foi esquecido. Mandaram editar o filme do batizado para que nunca mais vissem a cena tão constrangedora, e assim Aurora nunca teve conhecimento do ocorrido.

O aniversário de sweet sixteen seria comemorado pela primeira vez numa boate com os amigos. O DJ caprichava, e a cacofonia irritante afastou os pais, que logo voltaram para casa deixando sua única filha se divertindo aos cuidados de Lili, a organizadora. Mas Maga estava ali, irreconhecível. Era a organizadora da festa, e não poderia ser mais convencional: em seu tailleur bege, cabelos lisos e loiros, era quase invisível. Permitiu que a garota bebesse muito mais do que deveria, e foi ela também que ofereceu um comprimido para sua tontura. Aurora, às vezes, tinha uns flashes de lucidez, e tomou consciência de que estava tomando uma injeção na veia feita por Lili.

Adormeceu… Por muitos anos, permaneceu dentro de um estado de letargia, vivendo da maneira mais sórdida possível. De nada adiantaram os tratamentos, internações e cuidados, dos pais e de sua madrinha que não a largava. As drogas tomaram sua vida, e a profecia se realizou: nunca mais foi feliz, até que um dia…

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