Brincando de brincar…

                                               Brincadeira Passa Anel (sempre top)

 

wilma schiesari-legris

Quem entre  a gente não comprou uma horrorosa maria-mole de armazém, apenas para recuperar o anelzinho do doce?

Eu tinha um anelzinho de rubi de verdade montado em aro de ouro baixo, mas preferia os aneis de metal ordinário e resina, que acompanhavam os doces, ainda piores,  comprados na venda do seu Manoel…

Aquela “jóia” infantil servia na brincadeira de passa-anel; talvez com os tempos que correm, se sobrarem resquícios daquele folguedo, seria, porventura “passa o anel”!

Naquela época, se não tivesse vizinhos para brincar comigo na rua, sentava-me no degrau da porta de entrada da casa e ficava contando os poucos carros que passavam, exceto aqueles que rodavam lentamente em procissão fúnebre, para não saber com quantos anos iria morrer.

Por falar em procissão, adorava aquelas que passavam diante da nossa porta que os membros da igreja católica faziam em dias santos e, sonhava de quebra, em ser anjo de asa quebrada; eu, apenas uma santinha do pau-ôco…

A vantagem é que ouvia duas matracas: a da procissão e a do vendedor de biju, muito melhor que a maria-mole da venda do seu Manoel.

Nos sábados de Aleluia havia a malhação do Judas, destinada aos bonecos amarrados nos postes, onde os moleques do cortiço vizinho iam linchar um espantalho feito de pano e forrado de palha ou de paina, deixando ali as suas penas, mortas à paulada.

Esconde-esconde, barra-manteiga, estátua, amarelinha, corda de pular, elástico entre as pernas para saltar, bambolê, bafo, bolinha de gude, futebol de botão, tudo na porta de casa; e com esses jogos, os sonhos de um dia poder pegar carona num carrinho de rolemã daquele vizinho pobre, mas feliz, precoce e livre, que alternava a decida da rua fazendo um barulhão enorme com seu veículo de tábua e sua cara-de-pau, porque no cortiço não havia quintal e, depois, subia nas árvores alheias e mirando o tico-tico ou o pardal, dava-lhes uma botocada com o estilingue de sua lavra.

Aqueles moleques também soltavam balão e rojão, enquanto os riquinhos cow-boys da minha rua, atiravam em adoráveis bandidos  durante os seus duelos imortais com seus revólveres munidos de espoletas.

O fogo, o vento e a terra eram privilégio dos meninos pobres que também podiam ir correr livremente nos terrenos cheios de manilhas onde o córregos seriam enterrados para sempre; para os outros sobrava a água dos esguichos, tinas, bacias, chuveiros e piscinas, o ar das bolhas de sabão e os jogos de sociedade permitidos apenas dentro de casa.

Os cinco saquinhos de arroz, outrora ossinhos de frango, era um clássico para duplas solitárias, destras e rápidas, reflexas.

Os meninos do cortiço passavam com ar de desprezo, uma bituca acesa no canto da boca diante do filho do médico montado na sua Monark; aquilo sim,  que era luta de classes!

 

(Folha de São Paulo -mapa da brincadeira)

 

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2 respostas para Brincando de brincar…

  1. Uma crônica do cotidiano bem descritiva, ressaltando a alegria do menino pobre criativo e feliz em oposição ao menino rico que recebia tudo pronto, futuro adulto deprimido possivelmente drogado para mudar de visão de mundo menos enfadonha e mais alucinante. Parabéns à autora por seus lances criativos e inusitados quando opina como foco narrativo personagem. MPerez – em 28/07/14 – Rio das Ostras – RJ – Brasil

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