iecc-memórias- CCXXXVIII-1914: Inquérito sobre a situação do ensino primário no Estado de São Paulo e as suas necessidades, segundo Oscar Thompson.

A instrução em São Paulo

 

Inquérito sobre a situação do ensino primário no Estado de São Paulo e as suas necessidades.

 

Respondentes:

 

27 e 28/02/1914(OESP)

OSCAR THOMPSON

Oscar Thompson)1910 Oscar(ArquvoC.C. CRE M Covas)

(Resumo)

Continuamos hoje a reproduzir o que nos disse o sr. dr. Oscar Thompson, em resposta às nossas perguntas. Depois de uma longa sessão em que sujeitamos à dura prova a sua paciência e amabilidade, obtendo de s.s. tudo quanto publicamos ontem, voltamos à sua presença para continuar, enumerando-lhe os pontos que faltavam.

 

(… )

 

 A SITUAÇÃO ECONÔMICA DO PROFESSOR

 

Resposta: Isto é a questão dos ordenados e sas recompensas.

 

( NOTA MINHA e, Oscar Thompson relê aos jornalistas o que foi publicado no seu anuário de ensino, pg 27)

 

“Estudamos à respeito, a organização escolar da França e dos Estados Unidos, chegamos à conclusão que os vencimentos devem variar, tendo em vista :

 

  1. A região onde deve estar situada a escola ;
  2. A categoria da escola ;
  3. A classe que o professor leciona ;
  4. O sexo do professor !(!-ponto meu)

 

As condições de vida variam entre nós de modo extraordinário. Santo Amaro, Atibaia, Juqueri, etc., nas proximidades da capital. Santos, mais distante um pouco, Ribeirão Preto, Sertãozinho, Apiaí, Itaberá, etc.. , em pontos extremos, e a chamada « zona norte » do estado, oferecem os mais variados e diferentes sistemas de vida, já pelo lado econômico, já pelo social, já pelo conforto. É preciso, pois, apesar todos os fatores, que possam influir nas diversas zonas, ao bem-estar do professor, e só então com equidade, determinar os vencimentos que lhe compensem as faltas e minore as agruras do meio onde tiver de exercer o cargo.

 

………………………………………………………………………………………………………………………………….

 

Nada justifica, no meio atual, a diferença de rendimentos, estabelecida em lei e entre os professores de escolas rurais e urbanas, pois que há as mesmas horas de trabalho, bem como o programa a ensinar e o número legal de alunos para professores da mesma categoria.

 

Se motivos há para determinar a melhoria de vencimentos, são elas de todo favoráveis ao professor de escola rural, pela falta de conforto que vive. Os professores de uma outra escola devem ter a mesma remuneração, embora os complementaristas só possam iniciar o exercício pelas escolas rurais.

 

Mesmo assim o tempo de serviço prestado em escola rural, deve ter valor igual ao da sede.

………………………………………………………………………………………………………………………………….

Os vencimentos em cada escola rural, em grupo escolar, em escola normal, devem variar de acordo com a categoria da escola.

Quanto mais elevada a categoria , tanto mais o trabalho dos professores para preparar as lições.

………………………………………………………………………………………………………………………………….

 

A classe que o professor leciona no grupo- de 1° ao 4° ano, pode acarretar-lhe mais, ou menos trabalho.

Os professores de 1° ano, estão livres, pode-se dizer, de ocupações escolares em casa e isentos de gráficos para corrigir. O mesmo não acontece do 2° ano para cima ; daí em diante cresce o trabalho do professor pelo preparo imediato de cada uma das lições, pela organização do material de ensino e pela sobrecarga que lhe impoem as correções dos trabalhos dos alunos.

 

É sabido que o professor tem mais responsabilidades civis que a professora. O professor é sempre chefe de família. (…) . A professora é, em regra, casada e com o esposo divide os encargos de família. (…) Não pretendemos com isso diminuir os honorários  das professoras, mas desejamos, que se houver algum aumento possível, seja em benefício dos professores.

 

A ORGANIZAÇÃO DO ENSINO

 

(…)

 

A nossa organização (do ensino, nota) é boa. Atendendo aos nossos meios, as nossas tradições no assunto e o lapso de tempo em que vem sendo postas em prática, é muito boa.

Há, em todos os ramos do ensino um desejo louvável e inacoroçoável  de melhorar sempre. Por toda a parte, um espírito novo domina tudo.

O professorado é trabalhador e inteligente, o aparelho escolar vai aos poucos se completando. As lacunas tem sido obejto de estudos por parte do governo.

Edifícios escolares, material didático, formação de classes, escolas diurnas e noturnas, profissionais, direção, inspeção, tudo enfim que se refere à organização, tem sido constantemente melhorado.

………………………………………………………………………………………………………………………………….

 

(Questão)“Falta porém ao nosso ensino, uma organização sólida e melhorada”.(…)

Sim, os elos estão perfeitamente unidos. Temos um único Jardim de Infância, escolas isoladas e grupos escolares. Mas entre esses estabelecimentos de ensino e as escolas normais e o ginásios, não há união.

 

O governo, para difundir melhor o curso primário, já o reduziu a quartro anos, e tão cedo, por deficiência orçamentária, não poderá acrescê-lo de um ou mais dois anos de estudos e criar entre eles a escola intermediária. Temo-nos descurado da organização do ensino secundário e começamos agora, a organizar o ensino superior e profissional.

(…)

 

ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA

 

Tem sido benéfica. A prova está na visível preferência que todas as classes do povo tem dado à escolas públicas.

Não há escola diurna ou noturna, primária ou secundária que não esteja repleta de alunos. Os mestres ensinam, os alunos aprendem e os pais mostram-se satisfeitos com o resultado.

Os nossos métodos de ensino são os melhores e, adaptados dos métodos norte-americanos. A psicologia experimental, a « higiene escolar » e a pedagogia científica, nos tem norteado em todas as questões de ensino.

 

ENSINO DA AGRICULTURA

(NAS ESCOLAS PÚBLICAS)

 

(e Oscar Thompson pede licença para ler o mesmo relatório – nota minha)

 

«  É conhecido entre nós o êxodo da população rural para as cidades(…) e ainda a preferência na escola primária que os educandos manisfestam pelas carreiras liberais.

Em nosso país onde cuja a maior necesidade econômica está na produção de nossas terras e onde a agricultura é remuneradora, estas duas inclinações, não deviam se manifestar tão intensamente como vão acontecendo, porém, não o tem feito. ”

 

« Nossas escolas podem concorrer para diminuir a manifestação dessas tendências. O cultivo literário tem sido a preocupação dominante de nosso aparelho escolar. Julgamos, por isso, que a feição das escolas públicas paulistas (…) deve ser essencialmete agrícola. (…)

 

E preciso que do lado intuitivo do ensino da botânica, da zoologia e das noções de ciências físicas e naturais, seja feia, diariamente nas escolas, a descrição da vida  do campo, tanto pelo lado “higiênico” , como pela face econômica e pela beleza natural, como um meio de propaganda sugestivo aos trabalhos agrícolas.

 

Os livros de leitura, as lições orais dos mestres, os exercícios escritos, o desenho, os quadros que ornamentam as salas de aula devem buscar, de preferência , os seus motivos, nos fatos e cenas da vida agrícola.(…)

………………………………………………………………………………………………………………………………….

O país está cheio de brasileiros e estrangeiros ilustres, que muito se distinguiram nas ocupações manuais, na agricultura e na indústria.(…)

 

Essa orientação tem sido mais ou menos a de todos os países, com excessão de algumas escolas onde os alunos cultivam um jardim e fazem pequenas experiência agrícolas em canteiros. (…)

 

Na América do Norte, o ensino da agricultura na escola primária cifra-se no « nature study » ; na Argentina estuda-se o problema.

 

E, resumindo o que falou: « aqui, a agricultura experimental deve ser feita entre nós. »

 

A DIREÇÃO DO ENSINO :  DUAS CABEÇAS, OU UMA DEMAIS

 

(…)

Com dois chefes(o titular da pasta da pasta Ministério do Interior   X   o diretor do estabelecimento de ensino – nota minha), me parece demais ; constitui um defeito grave.

Resumindo, o primeiro deve se preocupar com os aspectos políticos e, o segundo, com os aspectos pedagógicos.

 

NECESSIDADE DE UM SECRETARIADO DA INSTRUÇÃO

 

exclusivamente destinado ao ensino em todos os seus graus, extinguindo-se a Diretoria Geral(…) que só tem tempo para tratar da inspeção pedagógica.

 

Resumindo : devido à extensão do Estado, não pode dar conta do recado, por falta de pessoal disponível.

 

A ESCOLHA DOS LIVROS DIDĀTICOS

 

Os atuais processos de adoção dos livros escolares parecem também pouco satisfatórios.

 

A escolha dos livros deveria ser feita de tres em tres anos, abrindo o governo concorrência pública, para a qual estabeleceria condições, declarando com grande antecedência de que livros necessita.

(…)

 

AS REFORMAS URGENTES

 

(…)

A primeira delas é o secretariado da Instrução pública.

(…)

A segunda é a criação de um imposto escolar. O Estado de São Paulo gasta a quase a quarta parte da sua renda, gasta 15 mil contos de reis, anualmente para a instrução. Parece muito ? É pouco. Precisamos criar novos recursos, isto é, criar o imposto. Ruy Barbosa, em 1882, dizia (…) que «  o progresso da instrução pública é , em grande parte, uma questão de dinheiro. »(…) que virá para assegurar a estabilidade do orçamento educativo, que alimentado com recursos taxativamente peculiares, não ficará sujeito às restrições e cortes que ameaçam as verbas do orçamento geral.

(…)

 

NECESSIDADE DE UM IMPOSTO ESCOLAR

 

(ilegível)

(…) Para o equilíbrio do orçamento deo Estado, já chegamos a suprimir escolas e reduzir o ordenado dos professores.

Todavia, estamos nós convencidos, que o número de escolas deva ser aumentado, e muito, para a satisfatória drenagem da instrução, que ainda bem longe se considera da latitude a que deverá ter atingido, para atender as necessidades mais urgentes da nossa população escolar.

 

Aqui mesmo na capital, concorre à matrícula a criança analfabeta de dez anos ou mais idade, que assim estivera sem escola, não pela incúria dos pais, mas pela falta de vagas nos estabelecimentos de instrução pública.

(… ilegível)

 

É incrível, mas num Estado tão rico e generoso como este, o cidadão de amanhã recorre ao sorteio para obter entrada nas escolas. Crescerá analfabeto se nunca for sorteado.

 

(…) quanto a obrigatoriedade do ensino(em SP, “apresenta”) muitos contrastes em relação a outros países. Nestes, os governos sustentam legiões de funcionários incumbidos de por em execução a lei, da obrigatoriedade do ensino ; entre nós, tal lei nunca vigorou – as crianças enchem voluntariamente as escolas e a população reclama todos os anos o aumento das mesmas.

(…)

O probema da educação em São Paulo reside na deficiência de escolas públicas para comportar a população infantile em idade escolar.

(…)

………………………………………………………………………………………………………………………………….

 

(…) concluímos que o estudo é caro e que São Paulo precisa é de numerário para ampliar a sua sessão educativa, de modo a franquear o ingresso nas suas escolas à 212.293 analfabetos(grifo meu) que estão crescendo neste estado, sem instrução.

 

Resumindo: Oscar Thompson acaba por discorrer sobre a lei provincial de 1887 que estabeleceu o imposto escolar e recita as disposições legais contidas no Artigo 91, parágrafos 1, 2, 3 e 4 e de outros Artigos relativos ao imposto escolar.

 

NECESSIDADE DE UM CURSO NORMAL SUPERIOR

 

…(…) para preparar diretores de grupos escolares, inspetores e professores dos cursos secundários.

(…)

 

UM PARÊNTESES ; NEM TUDO SÃO FLORES NA ARGENTINA.

Resumindo, os argentinos não levam vantagem sobre nós nos quesitos construção dos prédios, material didático e pessoal docente e dicente no ensino.

 

As escolas normais de “maestros” são masculinas, femininas e mistas, mas indistintamente dirigidas por professores e professoras.

 

‘E, O. Thompson relata sobre as deficiências das Escolas argentinas: Normal de Palmajor, de San Justo e de la Banda, com documento escrito em espanhol e publicado no jornal.)

 

REFORMAS NECESSĀRIAS, POREM MENOS URGENTES

 

Além da reformas necessária citadas acima, O. Thompson crê nessecidade nas seguintes outras:

  • Aumento do curso primário, ou criação de escolas intermediárias entre os grupos e os ginásios e a escola normal.
  • A introdução de trabalhos manuais em todas as sessões masculinas.
  • O desenvolvimento da cultura física, em especial do esporte.
  • Escolas agrícolas elementares.
  • O auxílio moral a todos os estabelecimentos de ensino particular.
  • A vinda de professores estrangeiros e a ida dos nossos ao estrangeiro(para continuar a sua formação profissional- nota minha)
  • Estímulo de plano a um curso secundário adaptado ao nosso meio.
  • Maior número de atribuições aos diretores dos nossos estabelecimentos de ensino.
  • Escolas para os menores anormais.

 

 

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Esse post foi publicado em INQUÉRITO SOBRE A INSTRUÇÃO PÚBLICA NO JORNAL O ESTADO DE S.PAULO (1914). Bookmark o link permanente.

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