iecc-memórias CCXLVII – Theodore Roosevelt também visitou a ENC!

Theodore Roosevelt : Tradução da carta do presidente americano publicada no jornal OESP aos 05/03/1914.

São Paulo
Uma velha cidade que envereda por caminhos novos.

Viemos do Rio para São Paulo ; esta última é uma das cidades mais prósperas e de mais rápido progresso do Brasil ; revela bem o característico especial de muitas cidades sul-americanas : é uma cidade com velho passado que tomou nessas últimas décadas um desenvolvimento extraordinário. Nos Estados Unidos, estamos acostumados com o extraordinário desenvolvimento das cidades, – que são absolutamente novas, tais, por exemplo as cidades do Estado de Washington, mas não estamos acostumados a ver semelhante crescimento em cidades com certa idade, como Philadelphia, Baltimore ou Charleston.
São Paulo desempenhou um papel proeminente na História Colonial do Brasil. O seu povo era constituído de homens excepcionalmente aventureiros, meio espanhois( !- exclamação minha), meio índios, cujos bandos de pioneiros exploradores vagava através de vastas regiões do interior do Brasil, frequentada pelos índios, tais quais os laçadores das Montanhas Rochosas, no século passado, vagavam no nosso « Far West ».
A cidade, por esse motivo, adquiriu um caráter peculiar e exerceu um papel também peculiar. Passaram-se cerca de três séculos sem que ela sofresse qualquer mudança vital. Mas, a cultura do café em larga escala, pelos métodos modernos, a cidade e a província, viram-se de repente mergulhadas na torrente de um progresso industrial e civilizado.
Houve uma grande imigração.
Não só de milhares de bons trabalhadores, mas centenas de homens de negócio, capazes e enérgicos, e de engenheiros vieram também. A população nacional respondeu ao estímulo e o desenvolvimento industrial e material ficou na ordem do dia. A vida antiga foi arremessada para uma banda, mas não foi destruída, nem completamente absorvida. Houve um grande desenvolvimento de estradas de ferro no estado, um grande desenvolvimento de bondes nas cidades. Automóveis existem, em magna quantidade. O sistema escolar alastrou-se rapidamente. Mesmo em São Paulo funciona uma escola normal modelo.
São Paulo é uma cidade bem edificada e desusadamente atraente; as menores cidades seguem-lh os passos.
A vida de toda a província foi aprestada para melhor. Todavia, alguma coisa da vida antiga, ainda existe para lhe acrescentar, pelos vivos contrastes, colorido encanto e deleite. Nas largas estradas, ao lado de automóveis que passavam e repassavam, encontramos também grandes carros que eram usados no país há quatro séculos. Puxavam-nos, seis, oito, dez bois. As rodas enormes eram de sólida madeira, e seus eixos, secos, chiavam e estalavam a ponto de abafar os ruídos dos próprios automóveis. Dizem aqui que os bois param, se esse ruído cessa. Não vi carros assim, nem ouvi falar deles, senão há 33 anos atrás, quando encontrei um bando de « Rev Rider half-breeds », ao norte do Dakota, em caminho para uma caçada de búfalos.
Oa animais de caça ainda abundam nas ruas das cidades( !!!- exclamações minhas!) e, nos distritos suburbanos, cruzam-se com porqueiros a cavalo, dirigindo os porcos de olhar selvagem, guardados por enormes cães.( !!!-idém)
Tudo isso se vê ao lado de Institutos bacteorológicos, de fazendas com os mais novos melhoramentos, de instalações de luz e força, de métodos modernos de educação tanto para homens como para mulheres. Naturalmente a vida antiga há de vir gradualmente desaparecendo, mas espero que antes de desaparecer, ela viu primeiro na vida nova que lhe vai tomando o lugar, um cunho de individualidade.
Em São Paulo visitei o excelente museu e a notabilíssima instituição onde só se estudam as cobras perigosas e os meios práticos de se diminuir a mortalidade que elas causam. Visitei também algumas grandes empresas industriais.
Pronuncieu uma alocução na Escola Normal, onde me senti em minha casa, nos Estados Unidos, e onde ouvi um discurso em inglês, por uma rapariga das classes adiantadas.
Depois de se lerem os livros do Brasil de 60 ou 70 anos atrás, espanta ver a mudança por que ele passou ; em nada foi essa mudança maior ou mais benéfica, que na educação da mulher e mesmo em relação à posição geral da mulher.
As missionárias femininas da seção sul da igreja metodista americana, prestaram imensos serviços para esse fim.
Tive a imensa fortuna de visitar uma cidade típica dos distritos agrícolas, Pirajú, distante de São Paulo, cerca de doze horas de estrada de ferro. Está situada bem no centro de um distrito cafeeiro ; o café e os porcos são os principais gêneros da zona. Acha-se no limite da zona tropical e contém muitas palmeiras e bananeiras ; todavia, o espírito empreendedor que tendemos a associar às regiões mais frias, é, ali, tão evidente como no Maine e no Oregon. O desenvolvimento da cidade operou-se nesses últimos 25 anos. Existem ali serviços de luz elétrica e abastecimento de boa água ; uma linha de bondes está na véspera da inauguração. Há também uma escola modelo, cujas classes são regidas por professores diplomados pela Escola Normal de São Paulo.
Mas, ao lado dessas revelações de energia comercial, e de atividade prática que são familiares às nossas cidades, outras coisas ainda se encontram dignas de atenção, e que nós, do norte, quase sempre não ligams importância. É assim, por exemplo, que existe ali um lindo parquesinho; e lá, como em toda parte, fiquei impressionado com a cortesia dos habitantes.
Como de costume, as autoridades municipais nos deram de comer – desta vez um almoço- « lunch » é como chamariam aí na nossa terra – um dos pratos, uma espécie de sopa de arroz, chamado « canja », tão delicioso que espero vê-lo introduzido nos Estados Unidos. Se a sorte me favorecer, hei certamente de tentar fazê-lo em minha casa.
Depois disso partimos no caminho de ferro do sul com destino ao Uruguai. O trem era confortável, as estações limpas, atraentes e bem conservadas ; a região interessante. De espaço em espaço, víamos de um lado e de outro, com os novos melhoramentos industriais, as pitorecas construções e as estradas rústicas de outros tempos, e quase sempre essa mistura fornecia um quê, de cativante.

Th. Rooosevelt

CRI_236770(MOMAThe New York Times Collection)

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