Ben-Hur era bem assumido.

Astor, Boulevard, Esmeralda, Ipiranga, Jóia, Jussara, Magestic, Marrocos, Metro, Paissandu, Paramont, Regina, República; lembram-se ?

No mês de outubro de 1960 esses cinemas de São Paulo lançaram 14 fimes novos, fichinha quando aqui em Paris, atualmente, temos semanas com dezenas de lançamentos !

Era época em que, para uma senhora de classe-média ir ao cinema, aquilo significava arrumar os cabelos no cabeleireiro, colocar jóias, luvas, chapéu e bolsa combinando com sapatos de salto alto, – por favor!

Podia-se ir ao cinema de ônibus, táxi ou lotação, acompanhada de um cavalheiro trajando terno completo e, se chovesse, ele estaria vestido com a sua capa de gabardine.

Naquele  ano de 1960 eu frequentava o 3° ano primário no Instituto de Educação Caetano de Campos e descia do ônibus Turiaçú(também escrito com dois “ss”), na porta do cine Metro, na avenida São João, de onde ia a pé até a escola, acompanhada de meu pai.

Ali estreava « De repente, o último verão », filme proibido para crianças.

Antes de ter feito minha opção sexual, ver a imagem de Liz Taylor em decotes proibidos, pintada numa madeirinha fina e recortada a serrote em silhueta, a chamar público na porta do cinema, dava-me um grande prazer.

Não longe dali, no cine Regina, exclusivamente estreava Ben-Hur, de William Wyler, com Charlton Heston, Jack Hawkins e Stephen Boyd.

Ben-Hur, sim,  era o filme que toda a garotada gostaria de ter visto, com seus  milhares de figurantes e os enormes cenários parecendo terem sido feitos de papel maché, com aqueles americanos da produção e do elenco ganhando dinheiro a rodo graças aos estúdios romanos da Cinecità.

Embora proibido para menores de 14 anos,  os meninos da minha turma que conseguiram que seus pais o levassem ao cine Regina, se animavam com as corridas de bigas romanas e gregas ou com as cenas de batalha naval entre romanos e macedôneos. Aquela virilidade da antiguidade era um modelo a seguir.

Pelo fato do filme fazer referência a Jesus Cristo, contemporâneo de Ben-Hur que com ele regulava em idade, a película inteiramente restaurada foi apresentada no Canal ARTE, tanto na França como na Alemanha, como « brinde » deste Natal.

Que surpresa para mim!

Desde que a fita começa, somos levados a interpretar o nascimento de Jesus logo no primeiro plano, – um cartão-postal feito com céu de improváveis estrelas guiando os reis magos ao milagroso estábulo; ali a vida de Jerusalém nos é mostrada durante a ocupação romana onde  Ben-Hur, o judeu, cresceu harmoniosamente ao lado de Messala, o romano e  a trajetória de ambos nos é contada através da trajetória de Cristo.

Tudo isso para lhes dizer que nossos meninos vigorosos que gostavam de imitar os herois do filme no recreio da escola, pouco notaram na época, que o modelo que estavam a seguir era do mais puro estilo gay.

Ben-Hur, interpretado por Charlton Heston, com seu 1,93m, rosto esculpido em ângulos retos e corpo nos moldes greco-romanos, em muitas cenas provoca desejo claramente sexual em todos os personagens masculinos coadjuvantes, através de olhares libidinosos, gestos dúbios, diálogos sugestivos em ambientes claramente destinados à luxúria, ao banho, às massagens, às depilações e provavelmente a algo mais, se afinidade…

Na época, não havia entre o público mais advertido, um meio de descodificar essas intenções outrora subliminares e hoje em dia tão claras como a noite estrelada de Belém !

A aprendizagem da sexualidade não passava pela « casa » alternativa e a palavra gay nem sequer era pronunciada. O cinema exortava o sexo binário, mas a inteligência de certos diretores puderam antecipar de 55 anos o atual modelo de sexualidade; Ben-Hur, Messala, Quintus Arrius foram uma premonição messiânico-hollywoodiana  dos tempos modernos e papai nem sequer desconfiou...

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Ben-Hur (36)

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wilma,

25/12/14

(imagens: sophia factory; supernovo.net; the hollywood art)

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2 respostas para Ben-Hur era bem assumido.

  1. Naquele tempo, todos sabíamos dar um jeitinho de entrar no cinema antes de ter completado 14 anos pra assistir a filme proibido. Era uma técnica que se transmitia de colega a colega.

    Não era difícil. O documento que tínhamos era a caderneta escolar, aquele livretinho com foto, nome, data de nascimento, endereço, essas coisas. Tudo escrito à mão e à tinta, que ainda não se usavam documentos plastificados.

    Um chumaçozinho de algodão embebido em Cândida (ou Q-Boa ou qualquer outra água de lavadeira) aplicado, com jeito, sobre o último algarismo do ano de nascimento fazia que ele desaparecesse. Em seguida, era só esperar secar e escrever o número que nos envelheceria um ou dois anos.

    O papel ficava um pouco amarelecido, é verdade. Precisava ser muito condescendente pra não ver aquela data borrada. Mas, sacumé, porteiros de cinema sempre foram camaradas. De toda maneira, estavam cobertos.

  2. … e aos 16 anos eu coloquei aliança no anelar da mão esquerda para ver uma peça com a Fernanda Montenegro, proibida para menores de 18 anos…

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