iecc-memórias – CCLXIV -Discurso de João Lourenço Rodrigues em memória de José E. Correa Sá e Benevides

13/09/1914(OESP)

Discurso de João Lourenço Rodrigues em memória de José E. Correa Sá e Benevides
(a primeira parte do discurso discorre da solidariedade e utiliza metaforicamente a imagem de uma árvore da clareira da floresta, que abatida por um raio, é capaz de regenerar-se e de receber orquídeas no seu tronco em decomposição.)

« Exmo. sr. Diretor- caros mestres e colegas – excelentíssimas senhoras- meus senhores:
« Para se poder apreciar a esmagadora moral de um homem e o papel que ele representou no cenário da vida social, necessário se torna estudarmos a fisionomia do seu ambiente, as tendências mais prementes da sua época, as circunstâncias favoráveis ou hostis através das quais sua ação se desenvolveu.
Tratando-se do dr. José E. C. de Sá e Benevides a uma época que se pode considerar decisiva para um tal julgamento : é o período que se seguiu após o advento da República.
Esta Escola, passou então por uma reforma radical e sob a direção esclarecidíssima de Caetano de Campos, sua vida interna ia tomando uma fase inteiramente nova, antes de se isolar numa » turres eburnea» (torre de marfim, nota minha) de uma superioridade intangível o diretor vinha confabular familiarmente com os estudantes e, especialmente com os professorandos que praticavam na Escola Modelo. Era a ação pessoal direta de homem a homem, a exemplo do que faziam Ficht, na Alemanha e Lavisse, na França, segundo refere Jules Payot em um livro notável.
Idolatrado pelos alunos que o admiravam o talento e a cultura, nada tinha ele a temer de tais contatos; com Caetano de Campos, novos lentes haviam entrado para o corpo docente: Cyridião Buarque, em toda vivacidade da mocidade e do talento, nome já consagrado nas lides do magistério ; João Vieira ex-professor do Colégio »Culto à Ciência », apontado por Júlio Ribeiro como um dos cultores mais competentes da língua vernácula ; e ainda outros cujos nomes são assaz conhecidos nesta Escola. Entre lentes e alunos se estabelecera uma forte corrente de simpatia e confiança e como frutos desse estado de cousas, funda-se a « Arcádia Normalista », promovem-se sessões cívicas, revelam-se aptidões oratórias, até aí desconhecidas, assinalam-se felizes ensaios de versificação.
Violento era o contraste entre esse regime de desafogo e espontaneidade e a disciplina de outrora toda feita de coersão e autoristarismo ; daí, inações um tanto precipitadas, segundo as quais, o Império não se teria esforçado propositalmente por combater o analfabetismo, vendo nele a melhor garantia da estabilidade do Trono ; daí a formação de toda uma lenda, atribuindo ao regime extinto, um desamor mal disfarçado pela obra da educação popular e, consequentemente pela classe do professorando público ; daí também, um largo frêmito de entusiasmo pela atitude do Governo Provisório de São Paulo empenhando-se com vero esforço para melhorar o aparelho escolar e elevar o nível intelectual das massas populares. Essa corrente de opiniões era alimentada em grande parte por aquilo que Bourget expressadamente denomina a poesia da revolução, estudo lírico do pensamene que não admite a possibilidade do progresso senão pela ruptura com a tradição. Tal poesia, contudo, era necessária naquele momento, por ventura ainda mais necessária que os temas educativos que havíamos importado com os novos moldes didáticos.
Ao seu contato é que se operou, na alma do professorado, essa vasta galvanização de vontades, cujos benefícios efeitos se fizeram sentir por tantos anos e sem a qual teriam, talvez fracassado as mais necessárias medidas administrativas. Deste ponto, ressalta claramente, meus senhores, o que havia de difícil na situação dos lentes notoriamente dedicados ao regime decaído.
Na Faculdade de Direito, o Conselheiro Justino de Andrade foi jubilado ex-oficio e nesta Escola, igual sorte ia ter, segundo todas as aparências, o dr. Benevides. Tradicionalista, pois era portador de um nome histórico, ele parecia, de certo modo, corporificar o regime malsinado ; fora educado no respeito ao princípio da autoridade , e passava aos olhos de muitos, por um aristocrata. Tinha ademais, um crime: professava o catolicismo, numa época em que teoria evolucionistas brilhantemente professadas pelo dr. Caetano de Campos na cadeira de Biologia exerciam enorme ascendente sobre o espírito dos moços normalistas. Com tais antecedentes ele achava-se , por assim dizer, fora do quadro : era um elemento retrógrado, e como tal não se podia ajustar dentro da nova ordem das cousas, sobretudo na sua posição de professor de História.
No dia da reabertura das aulas, ninguém o viu e houve quem perguntasse :

__Qual será a atitude do dr. Benevides?
Os fatos iam responder: o lente de História solicitou uma licença e pediu um substituto.

Pelos fatos não voltaria. A previsão falhou : por uma dessas ironias frequentes do acaso, voltou quando a cadeira no desenvolvimento do programa devia tartar da Revolução Pernambucana de 1817. Era um acontecimento em que as opiniões correntes tinham que colidir forçosamente com as convicções pessoais do lente… O momento não podia deixar de ter influência no seu destino. Quando ele entrou em classe, todas as fisionomias deixavam transparecer algo de expectativa ansiosa ; a preleção começou no meio de um silêncio que tinha algo de sepulcral ; o lente, contudo, aparentava inteira serenidade ; entrou em matéria em preâbulos, expôs os fatos com rigorosa imparcialidade e , por fim, fez ver que o motim militar guindado pela lenda às proporções do movimento revolucionário, longe estava de ter a importância que se lhe queria atribuir ; aos olhos do historiador desapaixonado, não passava de uma explosão de ciúme, de rivalidade entre militares, entre oficiais brasileiros e português ; à lição não faltou, sequer, o sal de uma leve ironia quando o lente se referiu ao fato da abertura das prisões onde à falta de presos políticos, havia criminosos vulgares que dali a pouco se entregaram a atos de depredação.

Esta aula – forçoso foi confessar, enfim, causou impressão ; nada houve nela que de longe soasse como um ato de contrição ou um processo de adesão à revolução vitoriosa. O lente não se dignou descer ao terreno perigoso das explicações ; seu critério e sua respeitabilidade se afirmaram nessa conjuntura de um modo irrecusável, e por um desses reviramentos da opinião que Gustave Lebon explica na « Psicologia das Multidões », quando ele se retirava, finda a aula , se achava plenamente reintegrado na estima e na consideração de seus alunos.
A crise fora conjunturada e essa vitória dava uma medida do seu valor pessoal ; podia-se estar em desacordo com suas opiniões, mas era difícil negar tributo de respeito a quem lhe fazia jus pela firmeza de seu caráter ; passava-se isto, como disse, em 1890.
Quando voleti para a Escola Normal, cinco anos mais tarde, para cursar o 4° ano que fora criado posteriormente à minha formatura, frequentei novamente as aulas do dr. Benevides , desta vez como aluno de História Universal ; tinha eu, já então, alguns anos de tirocínio como professor e estava em condições de poder melhor apreciar a sua orientação didática e os seus predicados como educador. Em suas preleções, o dr. Benevides não tinha desses arroubos de entusiasmo que põem em vibração toda uma classe ; essas preleções tinham, um cunho acentuadamente didático.
Lente experimentado, o dr. Benevides sabia ser sóbrios sem ser incomplete; não sobrecarregava a memória do aluno com pormenores de importância mínima. Ordenava a exposição de modo a fazer ressaltar o perfil essencial dos acontecimentos e deixava tudo o mais ao trabalho pessoal às locubrações dos estudiosos ; em muitos casos limitava-se a orientar indicando as fontes que poderiam ser consultadas para o proveito do preparo da lição.
Jamais fez de sua cátedra, um instrumento de proselitismo ; jamais pejou o surto das convicções do aluno ; ao contrário, deixou sempre margem à afirmação de sua originalidade favorecendo por essa forma, a formação do seu discernimento e a educação do seu senso critico.
O acatamento de que viveu sempre cercado, constitui uma prova inconcussa do seu acendente pessoal conquistado pelo seu modo de ser, pela correção irrepreensível de seus atos, talvez ainda mais que pelo seu ensino propriamente oral. E aquilo que ele foi, explica aquilo que ele fez. Entrou para esta Escola em 1880 e aqui professorou por espaço de 34 anos consagrando o melhor da sua vida à formação de sucessivas gerações de normalistas que souberam honrá-lo na vida prática. ; é um fato incontestável, meus senhores, que a Escola Normal de São Paulo é uma escola tradicionalmente operosa , ordeira, disciplinada.

Não falta quem, desconhecendo o seu passado e deixando-se deslumbrar pelos nossos progressos recentes em matéria de ensino, queira atribuir as conquistas alcançadas às exclusivas virtudes das normas didáticas que após o advento da República se introduziram em nosso mei escolar.
Há nisto um erro de apreciação e uma injustiça ; a velha Escola Normal dos tempos monárquicos não estava, sem dúvida, armada com os grandes recursos da didática moderna.
Ela contava, entretanto, na sua corporação docente, homens da estatura de Godofredo Furtado, Manoel Vicente da Silva, Júlio Ribeiro, Sá e Benevides – enfim, para não citar senão os mortos, – homens de prestígio pelo seu saber, pela sua grande autoridade moral e exercendo sobre a alma da mocidade, poderosa influência inspiradora. A melhor prova desta influência, está nesta numerosa plêiade de normalistas que daí saíram desde 82 ou 83 e a cujos méritos servem de expoente os nomes de Olympio Catão Thomaz Galhardo e Gabriel Prestes.
Esta tendêcia operosa e ordeira que nos enche de desvanecimento ; esta seridade que é um traço distintivo dos nossos estudantes, têm sua raízes nesse passado ; é uma tendência muito consolidada para que possamos ver nela o resultado de « fiat » sumário operado pelo prestígio mirífico das reformas oficiais.
O dr. Benevides pertencia ao número desses lentes, desses educadores que podem ser considerados como os lídimos fundadores deste Instituto ; relíquia venerável de um passado esquecido, mas fecundo, ele foi, sem hyperbole, um dos patriarcas da Escola Normal de São Paulo e um dos beneméritos do ensino popular em nossa terra. Trinta e quarto anos de serviço, pondera-se bem: foi lente, foi diretor, foi secretário, bibliotecário.

Nenhuma posição lhe pareceu menos digna ou subalterna, mas fugiu sistematicamente às posições de destaque onde parecia pouco à vontade à sua real modéstia.
Nos dois anos que tive a honra de trabalhar ao seu lado, foi-me dado conhecê-lo bem de perto : retraído para o público, como aqueles que têm, na frase de Bontroux o pudor dos próprios pensamentos, seu convívio era o encanto para os poucos admitidos à sua intimidade ; sem ser propriamente um « causeur », seu discretear revelava por vezes, uma veia de sadio, inocente humorismo que ninguém teria suspeitado por baixo da sua circunspecção oficial. Pontualíssimo no cumprimento de seus deveres, trabalhou até as vésperas de sua morte, embora tivesse anos de serviços, isto é : quatro anos mais que seriam precisos para ser aposentado. Discreto, leal, tolerante, cavalheirosos no trato, foi um tipo modelar como colega e companheiro de trabalho.
E o que dizer dele como chefe de família ?
O garnde acompanhamento que teve o seu enterro, a qualificação das pessoas que foram levar-lhe à beira da campa sua derradeira homenagem, mostram quão longe se havia estendido sem embargo do seu retraimento, o círculo de suas relações, qual o conceito que era tido no seio da sociedade paulistana.
O corpo docente desta Escola acompanhou em peso a instância do enterno sono e pela voz de um de seus membros mais respeitados, dirigiu-lhe o supremo adeus de despedida em frases a que a emoção deu a verdadeira eloquência ; à beira do túmulo, preste a cerrar-se, muitos dos seus antigos discípulos se inclinaram tristemente na atitude de quem murmurava em seu íntimo : -Morreu o nosso Mestre ! Não, senhores ; esta consagração póstuma protesta contra tal proposição : não morrem aqueles que deixam após si, uma tradição tão venerável ; se os livros que o Dr Benevides escreveu encerram apenas pálidos reflexos amortecidos, ecos das excelentes lições que ele professou na cátedra de lente, as lições dos seus exemplos permanecem intactas e são permanentemente sugestivas.
Ele tinha a nobreza da linhagem, mas sua vida inteira consumiu-se no trabalho, como a demonstrar que os pergaminhos nobiliárquicos só tem valor quando ratificados pela benemerência de quem os possui.
Viveu com simplicidade sem ambições de fortuna, sem veleidades de predomínio, mas ensinou praticamente, por que meios se consegue resguardar a independência do próprio caráter, – o mais precioso de todos os tesouros.
Foi um homem de princípios e sua vida foi um desdobramento lógico de suas convicções ; foi um espírito cristão e mostrou por sua indefectível serenidade de quanto apoio nos seja, no meio de tantas flutuações e deliquecências, a posse de um ideal que nos impulsione para os cimos iluminados da espiritualidade.
Caríssimos alunos e alunas. Escolhido pela Congregação desta Escola para dirigir-lhes a palavra neste ato tão solene, não tive a pretensão de fazer um panagírico, mas fiz o possível para depor com sinceridade diante da História.
Filho espiritual desta Escola, meu dever está cumprido.
Vou, pois, concluir e, sejam para vós minhas últimas palavras .
Na carinhosa manifestação com que vos despedistes de mim, uma de vós, falando em nome da sua classe, assinalou os meus sentimentos de carinhoso afeto, de vívido reconhecimento para com os meus antigos mestres, nesta Escola. Sim,são esses na realidade os meus sentimentos e neles está a força que me tem sustentado nos trabalhos e lutas de mais de 20 anos de vida pública. Admirar, venerar é ter um ideal de ação, e ter um ideal, na opinião de Léon Bourgeois é ter uma razão para viver.
E uma vez que tivestes intuição para interpretar os meus sentimentos, oxalá que meu exemplo venha frutificar, oxalá possais compreender toda a força eficiente da veneração, especialmente quando ela se conduz pelo culto aos grandes mortos.
Nós não sabemos mais querer, exclama um psicólogo contemporâneo ; não sabemos mais agir, não sabemos mais vencer, porque simplismente não sabemos mais amar.
Pois bem ; a veneração é a forma mais impessoal, mais nobre, mais acrisolada do amor, não do amor puramente sentimental, tantas vezes estéril, mas do amor que opera, do amor que se sacrifica, que enfrenta o trabalho e a dor que é a mesma causa inspiradora dos atos heróicos.
Esta solenidade proclama que quereis cultuar a memória do homem nobre e magnânimo que foi o dr. Benevides.
O gesto é belo mas é precisos que não fiqueis apenas neste gesto, como aqueles que no dizer de Wagner, imaginaram ter feito tudo porque bem falaram.
Sim, é preciso que o mestre extinto reviva em cada um de vós, como a árvore ferida pelo raio revive e refloresce nas plantinhas que se lhe abraçam ao tronco ; é preciso que esta encantadora floração dos vossos desejos frutifique em ações que sejam como um prolongamento de sua própria ação ; é preciso que apoiados sobre a inestimável tradição que ele nos deixou, procureis capitalizar esse legado para o transmitir opulento às futuras gerações de estudanbtes que por aqui hão de transitar ainda.
Seja esta, carísssimos alunos, a vossa ambição porque só assim é que se poderá realizar aquela solidariedade de que fala o famoso poeta Longfellow :
Lives of great men all remind us
We can make our lives sublime,
And, departing, leave behind us
Footprints on the sands of time;

Footprints, that perhaps another,
Sailing o’er life’s solemn main,
A forlorn and shipwrecked brother,
Seeing, shall take heart again.”

JOÃO LOURENÇO RODRIGUES

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