iecc-memórias – CCLXXIII – Concurso de taquigrafia na ENC

22/11/1914(OESP)
Realizou-se no dia 16 do corrente, na Escola Normal, um concurso de taquigrafia  entre as alunas dessas disciplinas.
Compareceram as doze concorrentes seguintes:
Donas:

1- Ercilia Rodrigues Dias(?)(11)
2- Elzira de Camargo(11)
3- Alice Americano(9)
4- Rosa Malta Alencar(10)
5- Brasilla Almeida e Silva(10)
6- Evangelina Pires Zadra(8)
7- Maria de Castro Ferraz(7)
8- Clorinda Dante de Jesus(5)
9- Alice de Barros(5)
10- Clementina Caldas(5)
11- Maria de Camargo (5)
(nota minha : entre parêntes, a nota obtida pelas candidatas, as quais apenas sete tiveram um aproveitamento correto; segundo o jornal, 12 delas compareceram, mas somente 11 foram listadas)
O concurso devia consistir na taquigrafia de um discurso, que seria dito por um dos professores. A convite das alunas, o orador foi o sr. Adalgiso Pereira.
O discurso foi taquigrafado em oito minutos, revelendo as senhoritas que tomaram parte no interessante torneio bastante aproveitamento e habilidade.
Ei-lo:
“Minhas colegas:
É esta a última prova a que vos submeteis em vosso tirocínio escolar. Dentro em pouco soará a hora em que devereis despedir-vos definitivamente desta casa. É possível que ainda a ela torneis – tornareis de certo ! – mas não nas condições em que até o momento em que vos falo o tendes feito.
Novos cuidados vos chamam, novas responsabilidades vos esperam alhures.
A vida, que lá fora tumultua, reclama vossa adesão às fileiras dos que por ela combatem.
Ides empenhar-vos numa luta que se desenrola em arena mais vasta que aquela em que até o presente buscastes adestrar-vos.
Deixais, por assim dizer, o porto, para vos aventurades ao mar alto.
O lance é decisivo.
E estareis eficazmente aparelhada para ele ?
Não vos escandaliseis com a pergunta – mesmo porque acredito que a resposta será tranquilisadora.
Efetivamente, nos quatro anos que aqui passastes, não estivestes inativas. Trabalhastes. Estudastes. Empregastes toda solicitude em adquirir uma visão mais nítida das coisas. Simultaneamente, procuraste dilatar os horizontes de vosso espírito: de sorte que, da matemática à psicologia, não houve domínio do saber humano que a vossa diligente curiosidade não visitasse.
Vossos mestres, em suma, vos ensinaram tudo o que lhes foi possível ensinar. E o que deles não pudestes aprender, porque em sua alçada não estava o ensinar-vos, por vossa própria conta o aprendestes.
Assim é que aprendestes a conhecer reciprocamente nesta convivência de todos os dias sob o mesmo teto. Com isto, habituastes-vos a ponderar os móveis de vossas ações e a penetrar os das alheias. Enfim, afizestes-vos a compará-las, a dicerni-las, a julgá-las – e , esta é, a meu ver, a melhor porção do patrimônio que daqui levais. Porção de tal modo considerável, que, se só dela devesse compor vossa bagagem, estou(certo) que ainda assim não haveríeis perdido vosso tempo no correr do quatriênio que ora de fecha.
Nestas condições, que surpresas podereis recear do futuro, se já tendes meia-vitória conquistada ?
E, uma vez que assim me exprimo, não vos deixarei partir sem recordar-vos o que de sua estreia no magistério refere Ernesto Levisse.
Conta-nos ele que, designado para reger a cadeira de História no liceu de Nancy, na véspera de assumir o seu posto fora informado de que o programa do curso abrangeria a história inteira de França, a começar da Gália e dos gaulezes. Era este, pois, o tema sobre o qual lhe competia dissertar na aula inaugural do dia seguinte, perante alunos que orçavam pela sua idade. Sucedia, porém, que Lavisse conhecendo admiravelmente as origens da histórias grega e da romana ignorava não menos os primórdios da história do seu país… Nesta conjuntura, como o tempo urgisse, tratou o jovem professor de enfronhar-se no assunto cercando-se dos livros necessários e empregando a sua noite em preencher conscienciosamente as lacunas que acusavam os seus conhecimentos históricos. Feito isto – ei-lo em classe. Apenas, porém começa a falar, observa um certo espanto na fisionomia dos ouvintes, que entram, em seguida a cochichar ; suspeitando alguma troça em projeto, reveste-se de coragem e interroga um dos discípulos :
–Que é lá, senhor Thézard ?
— É que o programa é outro, senhor professor :  começa em 1661 – responde-lhe o interpelado, um latagão barbudo, estendendo-lhe o novo programa.
Felizmente—diz Lavisse — esse capítulo eu conhecia, de sorte que , sem hesitar imediatamente passsei dos mistérios das florestas druídicas para a alcova de Mazarino moribundo.
E acrescenta :
« Não me aborreceu esse incidente que, aliás, viera a redundar em beneficio e honra minha. Confesso mesmo que me lisongeou o amor-próprio. Mas como eu me prometia refletir sobre tudo o que me sucedesse afim de me prover de regras para o futuro, pus-me a refletir durante o almoço. Ao café, cheguei a esta conclusão : « Meu amigo, na carreira em que acabas de entrar não conte senão contigo ».

(in: taquigrafia em foco)

Como vedes, minhas caras colegas, o episódio  é fecundo em ensinamentos. Tratai de aproveitá-los. E, enquanto vos agradeço a distinção com que quiseste honrar-me, associando-me ao vosso derradeiro trabalho escolar, consenti que insista na exortação do Mestre. Nunca sera demasiado repeti-la. Assim—na carreira que ides encetar, confiai somente em vosso esforço. Nisto, como no mais, sede felizes, sede felizes.”

CURIOSIDADE

A primeira taquígrafa da Câmara dos Deputados.
(Matéria extraída da Revista Tachygraphica.)

“A Snha. Zulma Leite de Castro foi a primeira profissional brasileira que ingressou no quadro dos tachygraphos da Camara dos Deputados. Nomeada, em 1926, após concurso, para a Secretaria do Senado, ahi prestou serviços até 1930, quando o Congresso Nacional foi dissolvido. Passou então a actuar no Tribunal de Sancções, e, mais tarde, no gabinete do Ministro Antunes Maciel, onde teve opportunidade de mais uma vez evidenciar apreciavel capacidade de trabalho.
Dotada de solida cultura, não se lhe tornou difficil ensaiar suas aptidões na tachygraphia, e, ao organizar-se a Secretaria da Assembléa Nacional Constituinte, da qual fizeram parte funccionarios da antiga Camara e Senado, a Snha. Zulma Leite de Castro, designada para a Secção de Tachygraphia, dedicou-se effectivamente á pratica da arte.
Ha tres annos exerce, em virtude de nomeação da Commissão Executiva, o cargo de 2º Tachygrapho, de que se vem desincumbindo com zelo e dedicação.
Registrando a actuação da Snha. Zulma Leite de Castro na Tachygraphia da Camara dos Deputados, como profissional e como collega que desfructa, merecidamente, o apreço geral, REVISTA TACHYGRAPHICA rende-lhe as homenagens de sua sympathia.”

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