iecc-memórias -CCCLXIII- Final de ano na ENC(1919); igualmente da PARTE I da nossa pesquisa!

wilma-schiesari-legris

Queridos leitores;

Ao chegar ao fim da primeira parte do meu trabalho de pesquisa, que engloba praticamente todos os fatos relatados no jornal O Estado de São Paulo(363 posts desde a “republicanização do ensino e instalação da Escola Normal e Anexas da Capital – na Praça da República, 53 – até dezembro de 1919),chego a uma trsite conclusão: aquela escola dita de formação da elite paulistana e paulista teve um começo promissor embora fosse servidora dos filhos de cafeicultores e ricos paulistanos. Os pais das crianças que ali entravam falando francês e português(algumas outras, alemão e inglês) e cujos preceptores e professores particulares de música que iam acompanhá-las até a Praça ficavam felizes sabendo que poderiam respirar por quatro horas diárias, também se felicitaram pela criação da nova ENC;  os seus pimpolhos estavam em ótimas mãos, com professores e lentes buscados no estrangeiro ou arrebanhados no seio das famílias mais importantes de São Paulo, as mesmas que punham ali seus filhos e tinham parentes diretos alçados aos melhores postos do governo.

Sabendo-se que em São Paulo, no final do século XIX, além dos palácios oficiais e dos palacetes pessoais não haviam muitos locais a serem visitados às pessoas de grande valor que passavam pela capital e sabendo-se que a ENC(Escola Normal da Capital) havia reproduzido o modelo europeu e norte-americano do melhor ensino público e privado, num belo e aristocrático edifício criado por Ramos de Azevedo, com material de “primeira” para aquele fim, não é de se espantar que a escola passasse a ser um cartão de visita de primeira ordem àqueles nobres forasteiros.

Os professores, alunos e diretores tinham um pé no Poder; receber um rei, um príncipe, um presidente da república nacional ou de fora, militares, artistas e intelectuais de fama mundial, tanto fazia se o fosse no Palácio do Governo, no palacete particular do governador e/ou de seus secretários ou na Escola Normal da Capital e suas Anexas(Primária “Caetano de Campos” ou Jardim de Infância).

Eram clãs quatrocentões inteiros com cargos na nossa escola, com postos passando  dos pais para os filhos, primos e cunhados; evidentemente gente de saber pelos estudos feitos na Europa mas também entrados na escola por indicação.

Os exames de entrada do pessoal docente começaram bem, enquanto que depois de meados dos anos 1900, inclusive indicavamvam “marmeladas”, como são relatadas e comentadas em alguns dos posts do blog.

Desde a primeira década do século XX os exames de admissão dos alunos também levavam sua dose de “marmelada”, como vocês poderão ler na última nota publicada abaixo; sem contar que o sorteio de vagas à entrada do Jardim de Infância  provavelmente levaria às irregularidades que constatamos nos anos 50 e 60: alguns lugares sorteados e,  muitos atribuídos através das frequentações políticas que cada família poderia ter.

Não deixa de ser verdade que crianças menos ricas ou de lares menos influentes também frequentaram o Curso Primário até 1919; as fotografias o mostram; mas para ali entrar, os pais, além de bem alfabetizados deviam estar com as antenas em pé, porque todos os editais da escola eram publicados no jornal O Estado de São Paulo e era preciso os  saber ler.

Verdade é que a elite de São Paulo, – mesmo tendo passado do “Café” à “Indústria” e ao “Comércio” e às “Atividades liberais” – sempre procurou que seus filhos estudassem nas escolas anexas da Escola Normal, na própria ENP ou Secundária; era futuro garantido, que outras gentes de outros meios sociais, descendentes de imigrantes europeus a ele começaram também a se interessar; mas nada de miserabilismo pelo momento, caro leitor!

Gabriel Prestes, que era deputado, largou o posto; achou mais graça e proveito ao dirigir a ENC, onde provavelmnte ganhava bem mais e recebia visitantes de prestígio, vivenciando o mesmo grau de importância que o governador da Província!

Oscar Thompson, outro grande diretor da ENC que ali ficou em alternância como diretor e em outros cargos por mais de dez anos, era  cafeicultor dos maiores e casou-se com a filha de um banqueiro, ambos aparentados de ministros da esfera federal; mas foi a ENC que lhe proporcionou brilhar.

Agora vejam as notas de aproveitamento com que aquela juventude, mesmo com “marmelada” entrava na Escola Normal, levando de casa seus dons, como bilinguismo ou virtuosidade musical!

Todo aquele mundo era da mesma família, a Família Republicana, sempre com seus  banquetes regados à vinho francês, em ambiente francês e com convidados finos e de  modos franceses. Além de grandes oligarcas, aqueles republicanos também fazim parte do Partido do “Café”, assim alcunhado em oposição aos mineiros, do “Leite”, que se alternaram no poder da presidência do Brasil durante a “República Café com Leite”.

Houveram escândalos, ocorridos esporadicamente na escola; eles foram abafados pela Justiça, em nome da integridade moral do povo paulistano.

No entanto algo de muito positivo que a Escola nos deu foi a entrada da mulher no mercado de trabalho e provavelmente a sua emancipação e, pouco a pouco, a disseminação do saber aprendido ali na Escola Normal,  pelas moças da capital que partiam de São Paulo, e das interioranas, que  ao voltarem às suas cidades, se aprovadas nos exames de admissão ao magistério, iam ensinar nas Escolas Normais que se multiplicaram progressivamente em algumas décadas.

Enfim, de 1894 até 1920 foi esse o mundo caetanista que encontrei de frente; vamos à segunda parte, com o advento da Escola Nova e outros intelectuais preocupados com a educação  na escola pública até a era do getulismo.

Mas lhes vou logo avisando: a maior massa de informação publicada pelo jornal OESP cabe aos primórdios da escola até os anos 20, sendo o resto das notícias, de 1920 até os anos 70, equivalente em quantidade ao que foi publicado nos primeiros 26 anos da Escola da Praça.

Também continuarei a ilustrar meus comentários com as fotos do meu arquivo, incluindo as maravilhosas imagens obtidas no AHESP. No primeiro tomo são quase 2.000 fotos publicadas, incluindo a compilação dos artigos do jornal OESP e nas outra categorias do blog.

Prometo-lhes continuar na mesma linha irônica e crítica, relatando os fatos de cada dia que, como o pão nosso, alimentam o meu espírito e evitam a precocidade de uma doença neurológica degenerativa!

Abraços caetanistas, wilma.

11/01/2016.

 

04/12/1919(OESP)
A senhorita Edith Monteiro recebeu da ENC o prêmio “Prudente de Moraes”, conquistado “com distinção”.

 

10/12/1919(OESP)
Escotismo
Segundo o jornal OESP, no dia seguinte(11/12/1919) haverá entrega da medalha de honra ao mérito aos escoteiros que trabalharam para a sociedade paulista durante a epidemia de gripe espanhola.
“Esta solenidade terá lugar às 14h no Pavilhão do Jardim de Infância da Praça da República, o qual foi gentilmente cedido pelo diretor Carlos Alberto Gomes Cardim”.
O “tijolinho” avisa que os familiares dos escoteiros serão benvindos.
Uma nota da A.B.E. (Associação Brasileira dos Escoteiros) vem acompanhando o aviso e a mesma relata que naquele ano o sr. Carlos de Macedo Soares resolveu tomar a iniciativa de realizar a festa de Natal das Crianças Pobres de São Paulo, cabendo aos escoteios a coleta de brinquedos entre as famílias abastadas e a distribuição dos mesmos às crianças necessitadas.

 

12/12/1919(OESP)

Relato da Festa dos Escoteiros realizada no Pavilhão do Jardim de Infância da ENC.

 

16/12/1919(OESP)
Concedida uma licença de três meses ao sr. Alcebíades de Oliveira, Auxiliar da Ditetoria da Escola Normal Primária, anexa da Secundária da Capital, para tratar de sua saúde.

 

17/12/1919 (OESP)
ESCOLA NORMAL DA CAPITAL
“O modo irregular porque foram feitos os exames para a matrícula naquela escola está a exigir do digno doutor Secretário do Interior, sua atenção para o Reg. que baixou com o decreto n° 2367 de 14 de abril de 1913, tenha perfeita aplicação e não sejam, como foram as suas disposições em benefício do AFILHADISMO, do PROTECIONISMO escandalosos, como revoltante injustiça para muitas que concorreram àquele exame.
O Regimento e regimento interno, já  põem cobro ao AFILHADISMO determinam que as provas escritas sejam feitas em papel carimbado e numerado , sem a assinatura das examinandas, devendo cada membro da banca dar a sua nota sobre o exame, sendo a respectiva média tirada na secretaria da escola e lançada em livro para esse fim destinado.
Mas a banca examinadora procedeu de modo contrário , ocultando as notas parceladas para so fazer a final.
Assim procedendo, a banca não tornou patente o seu fim, qual de CONHECER AS ALUNAS MAIS BEM RECOMENDADAS. Se outro era o fim, por que não cumpriu a banca o seu dever dando diariamente as notas de cada matéria dos exames? Se assim o fizesse cumpriria o Reg. , pouparia maior trabalho, garantiria legítimos direitos e evitaria a pecha de ter praticado FAVORITISMO.
A verdade, porém, é que se o digno dr. secretário mandasse rever as provas, se certificaria das injustiças praticadas na distribuição das médias.
Estamos certas de que tal diligência daria em resultado, a anulação de tais exames, ou então, como medida de justiça e equidade, a admissão das alunas sacrificadas.
ALGUMAS PREJUDICADAS. “

 

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Esse post foi publicado em Publicações do jornal 0ESP desde 1894 sobre o IE Caetano de Campos. Bookmark o link permanente.

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