O Arco do Triunfo de São Paulo, artigo de D. Nascimento enviado ao blog por Ervin Moretti.

(wilma cshiesari-legris)

Queridos leitores:

Há algum tempo nosso colega Ervin Moretti nos enviou o artigo sobre a visita de Epitácio Pessoa a São Paulo e que se encontra recopiado abaixo.

Como vocês poderão ver e deduzir, poderíamos criar um novo  epitáfio para  Epitácio e, outro para Washington Luiz, seu anfitrião:

                                     Aqui jaz a vaidade!

Entretando a encenação ocorreu no mes de setembro, já bem longe do carnaval; não é mesmo ridículo gastar tanto dinheiro e força humana para se criar uma ilusão parisiense de arco alegórico através das cabeças macrocefálicas daqueles nossos altos dignitários e suas cortes?

Posso até imaginar que uma delegação da Escola Normal da Praça tenha comparecido ao evento do 7 de Setembro de 1921 para aplaudir essa encenação grotesca de cenografia monumental.

Em todo caso, foi o começo do fim da política dos partidos “café-com-leite”, uma vez que o mais francês dos paraibanos, Pessoa tenha sido eleito presidente da república federativa do Brasil durante uma das suas estadias na cidade-luz…

 

 

 

O Arco do Triunfo de São Paulo

by Douglas Nascimento*

Como toda cidade do mundo, São Paulo tem lá seus mistérios. E um dos que mais deixa o paulistano curioso é sobre um pouco explicado arco do triunfo que existiu por aqui nas primeiras décadas do século 20. Já houve até quem escrevesse a respeito mas sempre de maneira vaga. Aqui vamos explicar tudo o que você sempre quis saber sobre este monumento mas não tinha para quem perguntar (ou onde ler).

Tudo começa em julho de 1921, quando a Prefeitura de São Paulo e a Presidência do Estado (aquela época o governo estadual chamado de presidência), são comunicados pelo cerimonial da Presidência da República que o Presidente Epitácio Pessoa desejava visitar São Paulo em caráter oficial.

(Presidente Epitácio Pessoa)(Wikipédia)

A viagem, na verdade, seria uma turnê para tornar a figura do presidente mais conhecida e popular. Epitácio Pessoa assumiu a presidência em subsituição a Rodrigues Alves, eleito em 1918, mas que faleceu antes de tomar posse como presidente da república em seu segundo mandato.

Saindo do Rio de Janeiro de trem, Epitácio Pessoa passaria por inúmeras cidades paulistas, como Taubaté, São José dos Campos, Mogi das Cruzes e Poá. Em algumas delas chegando a parar na cidade e em outras, como Tremembé, apenas passando vagarosamente pela estação e acenando para os cidadãos.

A sua chegada à capital paulista estava prevista para o dia 19 de agosto de 1921.

Manchete do jornal Correio Paulistano em 20/08/1921Manchete do jornal Correio Paulistano em 20/08/1921

Para entender a grandiosidade que foi a chegada do Presidente Epitácio Pessoa a São Paulo, é preciso voltar no tempo em uma época em que o respeito a figura presidencial estava muito acima das questões partidárias. Um respeito que o brasileiro perdeu no tempo, hoje acostumados a vaiar ou aplaudir presidentes, governadores e prefeitos como quem assiste a um jogo de futebol. Tanto que uma visita nas proporções de 1921, talvez fosse impossível nos dias de hoje.

Ao aproximar-se da região central de São Paulo, já na então Estação do Brás, o comboio presidencial foi obrigado a parar por longos minutos. Todos os operários das fábricas que margeavam a ferrovia naquela região foram até os trilhos para saudar o presidente. Só depois a delegação seguiu até a Estação da Luz onde as autoridades municipais e estaduais aguardavam. E é aqui que começaremos a falar do “arco do triunfo”.

Mas antes, uma vista parcial da região onde ele foi construído. Observe que a porção direita do Seminário Episcopal ainda não tinha sido demolida.

Vista parcial da região da Luz / Foto: Guilherme Gaensly (clique para ampliar).Vista parcial da região da Luz / Foto: Guilherme Gaensly (clique para ampliar).

Por pouco este marco quase não existiu. Sua construção foi decidida de última hora, já faltando poucas semanas para a chegada do presidente em São Paulo. Discutia-se no gabinete do então Prefeito Firmiano Pinto, além de toda a pompa e cerimônia que estavam preparando para Epitácio Pessoa, o que mais poderia ser feito para tornar sua visita inesquecível.

E foi ai que alguém por lá deu a idéia de fazer um arco do triunfo. Mas a inspiração inicial não veio da França, mas dos Estados Unidos da América, precisamente do arco do triunfo que fica na Washington Square Park, em Nova Iorque.

Em 1889, para celebrar o centenário da posse de George Washington como presidente dos Estados Unidos, um grande arco do triunfo foi construído nesta praça feito totalmente em gesso e madeira. Era uma construção do que chamamos de arquitetura efêmera(*). O arco tornou-se tão popular que em 1892 decidiram por erguer um novo e definitivo, feito de mármore. Era a primeira vez que um arco foi erigido nas Américas.

E isso influenciou muito a criação de um similar por aqui, em uma época que o café ainda era um produto lucrativo e dinheiro não era problema. Sendo assim, convocou-se um arquiteto paulistano para projetar o grandioso monumento. Quem ? Ramos de Azevedo.

O Arco do Triunfo paulistano em agosto de 1921 (clique para ampliar).O Arco do Triunfo paulistano em agosto de 1921.

E como o tempo urgia, a obra foi tocada rapidamente. Valendo-se do mesmo artifício que os americanos construiram o seu, com gesso e madeira, em incríveis três dias foi erguido o Arco do Triunfo de São Paulo. A firma F. Ramos de Azevedo e Cia colocou 200 operários e todos os seus serviços de oficina a cargo da construção do arco. Os turnos eram de 24 horas para que a obra ficasse pronta.

Projetado em estilo clássico e com traços similares aos arcos de Paris e Nova Iorque, o arco paulistano possuía 28 metros de altura por 27 de metros de largura, sendo que a abertura do arco era de 10 metros de largura por 14 de altura. Sobre o arco haviam quatro bandeiras nacionais, sendo três de um lado e uma do outro. Além disso, adornavam o monumento flores e guirlandas. Nas duas faces do arco existiam as homenagens: “Salve Epitácio Pessoa” e também a frase “A Cidade de São Paulo”.  À noite, além da iluminação do monumento, funcionava uma bandeira nacional feita com mil lâmpadas coloridas.

Recepção ao Presidente Epitácio Pessoa na Estação da Luz.

 

Recepção ao Presidente Epitácio Pessoa na Estação da Luz.

Ao chegar a Estação da Luz, Epitácio Pessoa foi recebido pelo então Presidente do Estado, Washington Luís, e pelo prefeito do município, Firmiano Pinto. Após a execução do hino nacional e das demais recepções de chegada, partiu a delegação rumo ao Palacete Prates. Abaixo o momento em que o landau presidencial acabava de passar sob o Arco do Triunfo.

Crédito: A Cigarra Edição 167

 

O cortejo passaria por diversas ruas paulistanas até chegar a seu destino, como as ruas Florêncio de Abreu, Mauá e José Paulino. Naquele mesmo dia 19, à noite, após jantar com Washington Luís, o Presidente Epitácio Pessoa seguiria para o Theatro Municipal para um espetáculo. Para a ocasião foi inaugurado um novo e moderno sistema de iluminação no teatro.

E quanto tempo durou o marco ?

Crédito: Correio Paulistano

 

Como foi feito de gesso e madeira, obviamente não foi projetado para durar muito. Como não houve após a passagem presidencial por aqui, nenhuma discussão para construir um arco definitivo, tal qual foi feito em Nova Iorque, o Arco do Triunfo paulistano foi demolido. Seu desmonte deu-se algumas semanas depois do 7 de setembro daquele ano, quando a independência do Brasil celebrou 99 anos.

E foi o fim da linha para este monumento paulistano pouco conhecido e que hoje desperta muitas curiosidades a seu respeito.

(*) Arquitetura efêmera é o nome que se dá para construções feitas com objetivos celebrativos ou expositivos apenas para durar por um breve período de tempo. Existem vários outros casos deste tipo de arquitetura no Brasil, como na ocasião do casamento do Imperador d.Pedro I com a Princesa Amélia ou mesmo na ocasião da vista do Imperador d.Pedro II a São Paulo, em 1846.

Bibliografia consultada:
Correio Paulistano – Edições 20881, 20882, 20883 e 20954
A Cigarra – Edição 167, Setembro de 1921

*Autor:

Jornalista, fotógrafo e pesquisador independente, edita o site São Paulo Antiga e é membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP). Também edita o blog Human Street View, focado em comparações fotográficas entre a atualidade e o passado.

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