Ainda Guiomar Novaes, caetanista, sim senhor! A sua biógrafa, Hebe Costa, também.

Guiomar Novaes

1896 -1979

Afficher l'image d'origine(A mulher na Arte)Afficher l'image d'origine

A menina brasileira que encantou Paris.

Hebe C. Boa-Viagem A. Costa

  (pós-impressionismo)

O Brasil, no começo do século XX, surpreendeu a Europa com as talentosas mulheres que lá foram estudar. E não foram poucas! Entre elas, Guiomar Novaes.

Ela nasceu em São João da Boa Vista, então uma pequena cidade do interior paulista. Era a 17ª numa família com dezenove filhos. Desde os quatro anos, Guiomar revelou uma aptidão extraordinária para a música.

Estava com sete anos quando sua família mudou-se para São Paulo e ela começou a ter aulas com o famoso pianista italiano Luigi Chiafarelli que fora aluno de Busoni. Ele já havia preparado Antonieta Rudge, pianista brasileira com fama internacional e que era considerada pelo maestro Rubinstein como uma das mais talentosas concertistas da época.

A aliança de dois elementos de excepcional talento – professor e aluna – só poderia resultar num produto de primeiríssima qualidade. E foi o que aconteceu. Aos treze anos, Guiomar era conhecida em São Paulo como uma excelente pianista a ponto de chamar a atenção do governo brasileiro que lhe ofereceu uma bolsa para estudar na Europa durante quatro anos.

Aos catorze anos, a brasileira Guiomar se dispõe a disputar uma das duas vagas no famoso Conservatório de Paris. Eram 388 concorrentes de diversas partes do mundo que deveriam apresentar-se diante de um júri formado por Debussy, Faure e Moritz Moszkowski para serem selecionados. Ao ouvi-la tocando a Balada nº. 3 de Chopin, como uma verdadeira profissional, os examinadores ficaram tão encantados que lhe pediram que tocasse novamente. Guiomar surpreendeu Paris ao ser a primeira classificada! A respeito do seu desempenho Debussy escreveu para um amigo:

“Ela tem todas as qualidades de uma grande artista, olhos que são transportados para a música, e a força da completa concentração interior.”

No Conservatório estudou com Isidore Philipp e, ainda estudante, estreou como concertista no Salão Erard com a Chatelet Orchestre sob a regência de Gabriel Pierné. E foi um sucesso!

A seguir apresentou-se na Inglaterra, Itália, Suíça, Alemanha e ganhou o 1º Prêmio no Conservatório de Paris.

A I Guerra Mundial fez com que ela interrompesse sua carreira na Europa e voltasse para o Brasil. No dia 25 de junho de 1914 estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro tocando Bach, Chopin, Brahms e Liszt.

Em 1915 Guiomar recebeu um convite para tocar nos Estados Unidos onde, nessa época, diversos artistas clássicos brasileiros tinham lá ativa vida musical. Sua estréia deu-se no Aeolian Hall em Nova York e um crítico americano, na imprensa, escreveu:

“Se ela tivesse nascido alguns séculos atrás, certamente teria sido queimada viva como feiticeira. Ela é jovem, bonita e tocacomo o diabo.”

Daí por diante, todas as vezes que ela se apresentava, os americanos lotavam as casas de espetáculo. Sua fama correu o mundo.

Destacava-se pela sua atitude simples, elegante, mas que se transformava ao chegar perto do piano, tal o domínio que tinha da técnica aliada ao perfeito entendimento da linguagem musical. Suas interpretações eram únicas! Cada vez que executava uma peça, quer fosse de Chopin, Schumann ou Debussy, essa ganhava um novo colorido.

Durante quase sessenta anos Guiomar se apresentou nas principais cidades americanas e sempre com muito sucesso. Muitas vezes se apresentou no Brasil, inclusive na Semana de Arte Moderna em São Paulo, em 1922. Nessa ocasião, ficou irritada com a maneira como os promotores desse evento, na abertura, se referiram a Chopin. No segundo dia, Guiomar constava da programação e se apresentou publicando, antes, no Correio Paulistano, a

“Em virtude do caráter bastante exclusivista e intolerante que assumiu a primeira festa de arte moderna, realizada na noite do dia 13 do corrente, no Teatro Municipal, em relação às demais escolas de música, das quais sou intérprete e admiradora, não posso deixar de aqui declarar o meu desacordo com esse modo de pensar.

Sinto-me sinceramente contristada com a pública exibição depeças satíricas, alusivas à música de Chopin.

Admiro e respeito todas as grandes manifestações de arte, independentes das escolas a que elas se filiem, e é de acordo com esse meu modo de pensar que acedendo ao convite que me foi feito tomarei parte num dos festivais de Semana de Arte Moderna – com toda a consideração.”

“São Paulo, fevereiro de 1922”

Nessa noite, os escritores que se apresentavam recebiam ruidosamente vaias e também apoio, mas quando Guiomar entrou no palco o público silenciou e, só no final da apresentação, um vigoroso aplauso encheu o Guiomar se casou com o arquiteto e também músico, Octavio Pinto. O casal teve dois filhos: Ana Maria e Luiz Otávio. Seu marido compôs a suíte “Cenas Infantis” (Memories of Childhood) publicado por G. Schirmer, gravado por Guiomar e muitas vezes tocado nos seus recitais.

Seu repertório era imenso e fez muitas gravações pelos selos da RCA Victor, Columbia, Decca, Vanguard, Vox e, atualmente, muitos desses registros estão sendo passados em CDs. Há interpretações que, ainda hoje, a crítica internacional considera de referência. Nos seus recitais costumava incluir peças de compositores brasileiros, entre outros Mignone, C. Guarnieri, O. Pinto, Villa Lobos, Sousa Lima, Gottschaulk, Nobre, Ribeiro Pinto.

Na sua longa carreira Guiomar conviveu com as personalidades mais significativas do seu tempo. Em 1967, foi convidada pela Rainha Elizabeth II para tocar no Queen Elizabeth Hall, em Londres. No programa ela incluiu peças de Mozart, Beethoven, Chopin e Debussy e ainda Villa Lobos, Purcell e

Em 1969 foi gravado ao vivo o recital realizado na Sala Cecília Meirelles, no Rio de Janeiro e que viria a ser apresentado no vol. 2 – Guiomar Novaes – 2000 da coleção “Grandes pianistas brasileiros”.

A França, que assistiu ao início de sua admirável carreira, lhe concedeu, por meio do seu governo, a “Légion d’Honneur” e o Brasil , em 1956, a condecorou com a “Ordem do Cruzeiro do Sul”.

Em 1979, depois de uma vida inteira dedicada à música, Guiomar Novaes faleceu e foi sepultada ao som da “Marcha Fúnebre” de Beethoven, executada pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

A sua sucessora na Academia Brasileira de Música, Nancy Simões Dias Olmo, assim se expressou:

“A sonoridade é um dos maiores objetivos da técnica e de importância essencial na execução instrumental. A sonoridade procura fazer o piano emitir, por meio de mão de veludo que deve acariciar as teclas afundando-as com peso, de modo a fazer vibrar a corda e a melodia em toda a sua plenitude canora. Isto jamais será conseguido com o emprego de força. Guiomar Novaes possuía um “toucher” especial, suave, sonoro, sempre doce mas absolutamente capaz de veemente volume quando necessário. Sob esse especial “toucher” cantam notas com a voz que não é o som puro do metal mas a sonoridade de um corpo físico transmitido pelo milagre do fenômeno artístico. Assim sempre o conseguiu Guiomar Novaes.”

Obs. – Na metade da década de quarenta, ainda estudante, tive o privilégio de ouvi-la tocando no Teatro Municipal de Campinas. Esse acontecimento tornou-se uma das boas lembranças de minha juventude.

 COSTA, Hebe Boa-Viagem – Elas, as pioneiras do Brasil – A memorável

saga dessas mulheres – Editora Scortecci, SP-2005

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