Quem me dera agora eu tivesse…

FELIZ 1967?

by Renato Castanhari Jr.

Festival 1967 Marilia smFoi em um domingo que 1967 veio ao mundo e dezoito dias depois o Congresso Nacional rejeitava a emenda que estabeleceria eleições diretas para presidente e vice. Não parecia ser um feliz novo ano, ainda mais quando no mês seguinte o presidente Castelo Branco, que morreria no meio do ano, sanciona a Lei de Imprensa, oficializando a censura prévia nas redações de imprensa, emissoras de rádio e televisão.
Eram anos sombrios, marcados pelas perseguições da ditadura militar, mudança de moeda para cruzeiro novo e nova Constituição brasileira.
A busca pela conquista do espaço fazia três vítimas com os astronautas da Apolo I morrendo sufocados, ainda em terra, durante a preparação para o voo.
Por outro lado, a cultura fervia. Os hippies saíam às ruas protestando contra a guerra no Vietnã, os faroestes spaghetti de Giuliano Gemma vinham da Itália junto com Rita Pavone e ganhavam os cinemas e rádios do mundo. Os Beatles lançavam, talvez, o maior disco de rock de todos os tempos, Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band.
A Jovem Guarda começava a declinar com Roberto cantando a namoradinha de um amigo dele, e os Tropicalistas chegavam para confundir e arrebatar.
Enquanto Moshe Dayan virava herói numa guerra de apenas seis dias que provocou mudanças com efeitos colaterais que estimulam conflitos até hoje, e Che Guevara era assassinado pelo exército boliviano, Gabriel Garcia Marques lançava seus Cem anos de solidão. A novela Redenção da TV Excelsior era a campeã de audiência, e o Brasil parava para assistir à final antológica do III Festival da Record, canal 7.
Um sábado, 21 de outubro de 1967.
Um garoto de 12 anos, que não tinha a menor noção do valor, da grandeza, da relevância histórica do que estava assistindo pela TV e que acontecia a poucas quadras de sua casa, no Teatro Paramount, na rua Brigadeiro Luiz Antônio.
No palco, se apresentando para defender suas canções, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, MPB-4, Os Mutantes, Nana Caymmi, Beat Boys, Nara Leão, Jair Rodrigues. E um jovem, Eduardo Lobo, que junto com Marilia Medalha, levantaram a plateia, no teatro, em casa, numa noite mágica, vencendo o Festival com Ponteio.
Uma noite em que Gil teve crise de pânico, que na época era apenas medo, pavor de enfrentar uma plateia e um palco daquele porte. E precisou ser buscado no hotel e levado para debaixo do chuveiro pelo diretor da TV Record, Paulinho Machado de Carvalho, para se recompor, cantar e conquistar o segundo lugar com Domingo no Parque.
Uma noite em que Sergio Ricardo foi ao limite da irritação com as vaias, parou de cantar, quebrou o violão e jogou sobre a plateia.
Uma época em que o Brasil sofria a nefasta sombra do totalitarismo, com governantes despreparados para liderarem uma nação. Que sempre amargou os dissabores de políticos corruptos e voltados para seus próprios interesses, mas que caminhava contra o vento, sem lenço sem documento. Com qualidade nos palcos, nos campos, como nunca mais teve.
“Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda peão”, e a gente junto, rodando, girando nessa engrenagem viciada em interesses e injustiças, malandragens e corrupção, encarando um novo ano que começa hoje, tão sombrio quanto o de 1967.
“Quem me dera agora, eu tivesse uma viola pra cantar”.

 
Renato Castanhari Jr. | 15/02/2016 às 5:14 am | Categorias: CRÔNICAS/CONTOS |
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