A crônica do nosso colega Renato Castanhari.

O CASAL
by Renato Castanhari Jr.

2016 Piriquito

– Boa noite, amor.
– Boa noite querida.
– Como foi o seu dia?
– Bom. Normal.
– Só normal? Não aconteceu nada diferente, interessante? O seu chefe não pegou no seu pé? Aquela secretária piriguete não fez novos ataques? Saiu para almoçar com o Carlos? Foram naquele restaurante na Paulista? Seu assistente já voltou de férias?
– Não. Normal.
– Só não? Um não para todas perguntas??? Luiz Felipe, para de ficar brincando com o controle da TV e olha pra mim quando eu estou falando com você!!!
– Desculpe, amor, tava vendo o que está passando.
– Tá desculpado. Então… olha pra mim, Luiz Felipe!!!!!
– Tô olhando!!
– Então, um não pra todas as perguntas?
– É, pode ser, não aconteceu nada diferente, não fui almoçar com o Carlos, o Sylvio não voltou ainda… nada…
– Sei. E…. o que você quer para o jantar?
– Nada não, tô sem fome.
– Nossa, amor, que paradeira, tudo não, não, não…
– Hum, hum…
– Ahhh, não!!! Não começa com hum, hum! E olha pra mim!
– Humm? Opa, desculpa. Fala, meu bem, o que você quer saber?
– Eu quero conversar, essa coisa de ficar sem emprego, o dia todo em casa, só no computador, Face, minhas amigas todas viajando, de férias, postando fotos, caipirinhas, praia, e eu aqui, presa, só curtindo e respondendo, “linda”, “fofa”, não aguento mais, Luiz Felipe, você tem que fazer alguma coisa!!!
– Eu?? Mas quem perdeu o emprego foi você!
– Eu sei, mas fala alguma coisa, conta alguma coisa, propõe alguma coisa. Vamos para a praia no final de semana, fazer alguma coisa, curtir um sol.
– Não sei, tá chovendo e talvez precise ir no escritório no sábado.
– No sábado??? Ahhhh, não, pode parar, Luiz Felipe, eu não vou ficar sozinha no sábado. Nem pensar!!! E para de ficar olhando pro celular!!!!
– Ai, amor, respondendo um zap zap… hoje você está implicante!
– Eu implicante? Perdi o emprego, você chega e não conversa, fica no controle remoto e no celular, não fala se a piriguete deu em cima, não pensa que eu esqueci não, meu filho. Minha memória é ótima, não perde nada.
– Só perde o emprego.
– Ahhh, vai tripudiar, quer desviar da pergunta sobre aquela zinha??!!
– Que zinha, a Salete é uma boa funcionária, dedicada.
– É, eu sei no que ela se dedica. Luiz Felipe, deu.
– Mas já? Que horas são?
– Já são oito e dez, até passei um pouco do meu horário.
– Agora que estava esquentando. Mas foi bom, o lance da zinha foi na mosca, igualzinha à Carmem. Você vem na segunda?
– Não sei se vai dar, meu marido talvez não viaje, mas eu te aviso.
– Toma aqui, cinquenta reais.
– Na próxima tem que ser um pouquinho mais, tá tudo aumentando.
– Ok, é justo. Aliás, isso dá um bom tema pra próxima, aumento nos gastos das despesas da casa, dá um briguinha boa.
– rsss… beijo.

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