O presidente que mudou o Brasil

O presidente que mudou o Brasil

José Horta Manzano(caetanista e autor do BrasilDeLonge)

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 março 2016

As coisas são como são e nem sempre como a gente gostaria que fossem. Escapulindo soberbamente ao contrôle do homem, o sol, a chuva, o vento, a seca, o frio e o calor sobrechegam como e onde se lhes dá na telha. Quando o destino decide tomar as rédeas, não há prece, novena ou reza braba capaz de afrontá-lo.

Todos gostaríamos de deixar para a posteridade um rastro marcante, simpático, admirado. Entre o querer e o poder, no entanto, o vão é difícil de atravessar. Nem todos conseguiremos ser lembrados com a alta estima que costumamos dedicar a nós mesmos.

Retrato 1Para o cidadão comum, ser lembrado com carinho pelos netos já está de bom tamanho. De toda maneira, estudiosos afirmam que, além da terceira geração, a memória dos que já se foram vai esmaecendo. Essa premissa não se aplica, naturalmente, a figuras públicas nem a grandes personagens que a história registrou. A memória desse seleto grupo de privilegiados será perpetuada em museus, estátuas, livros, nome de ruas e outras marcas de distinção.

Guilherme Tell e o filhoGuilherme Tell e o filho

Há casos de gente que entrou nesse clube por obra do acaso. A Guilherme Tell, personagem cuja existência não foi comprovada até hoje, bastou um golpe certeiro de alabarda para perenizar-se como herói nacional, nome de rua, efígie de moeda e até protagonista de ópera. Outra figura nebulosa cultuada há séculos é Joana d’Arc. A escassez de provas documentais dá margem a muita especulação sobre os atos e gestos que a jovem teria perpetrado nos tempos remotos da Guerra de Cem Anos. A despeito disso, é reverenciada na França como se mãe da nação fosse.

Há os que entraram nos livros de história de caso pensado, por esforço próprio. Um deles foi Gavrilo Princip, aquele jovem tresloucado que, ao tirar a vida do arquiduque Francisco Ferdinando, acabou acendendo o estopim da Primeira Guerra. Só que o criminoso entrou na galeria da fama andando de costas. Longe de ser glorificado, seu nome é amaldiçoado até hoje.

Charles de GaulleCharles de Gaulle

Em matéria de entrar na história com o pé direito, alguns campeões sobressaem. O general de Gaulle é caso exemplar. Inconformado com a rendição que seu país concedera ao inimigo em 1940, rebelou-se. Contra tudo e contra todos, persistiu na busca do que lhe parecia ser o melhor caminho para seus conterrâneos. Suas boas intenções e sua obstinação foram bem-sucedidas. Até hoje, é alvo de reconhecimento e de reverência dos concidadãos.

Casos há de personagens que deixaram marca controvertida. Mikhail Gorbachev é figura significativa. Divergindo da política dos antecessores, o dirigente fez o que pôde, de boa-fé, para aperfeiçoar o regime e as instituições. A roda do destino, no entanto, escapou-lhe das mãos. Seus atos precipitaram o desmonte do sistema comunista, resultado que não constava em seus planos. Boa parte dos conterrâneos guardam dele uma lembrança mitigada. Passado um quarto de século, veem nele o responsável pelo empanamento do antigo esplendor e pelo esfacelamento do império soviético.

Mikhail GorbachevMikhail Gorbachev

Em 2003, ao assumir a presidência do Brasil, Luiz Inácio da Silva era depositário da confiança da maioria dos brasileiros. Seus primeiros tempos no exercício do poder pareciam avalizar as promessas de campanha. Num primeiro momento, não só os que lhe haviam dado o voto, mas também numerosos outros brasileiros passaram a botar fé no presidente e a enxergá-lo como aquele que imprimiria rota de ascensão a nossa República. Parecia evidente que nova era se estava iniciando e que o gigante enfim despertaria da dormência e se levantaria do berço esplêndido.

No entanto… o caminho mostrou não ser tão suave. Pedras foram surgindo que sacolejaram a carruagem. Por razões que o futuro se encarregará de esclarecer, a nova era iniciada por Lula e prorrogada por sua sucessora desandou. Hoje, atravancado por corrupção, roubalheira, compadrio, incompetência e degradação moral, o sonho virou pesadelo.

Lula discursoComo nunca antes neste país, a história se desenrola diante de nossos olhos, só não vê quem não quer. Mas os ciclos são inexoráveis ‒ daqui a um par de anos, passado este período de desvario, o Brasil há de se reerguer. É inimaginável que a podridão ora revelada continue a nos corroer as entranhas.

Assim, ninguém discorda: o ex-metalúrgico mudou o país e tem lugar reservado no panteão. Lula entrará nos futuros manuais escolares como um divisor de águas. Contudo, sua efígie ‒ a malgrado dele ‒ não será pintada com as tintas que ele havia sonhado. C’est la vie. As coisas são como são e nem sempre como a gente gostaria que fossem.

Nota do blog: infelizmente não tivemos em todos os governos precedentes uma justiça independente; e uma imprensa livre que colocasse a boca no trombone.

Perguntinha safada: quem, hoje em dia, teria condições morais de governar o Brasil, apresentando sua ficha limpa?

 

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3 respostas para O presidente que mudou o Brasil

  1. leopoldorizzo disse:

    Belo texto. De fato o Lula teve poder político para fazer as reformas que o país precisa – política, previdência e fiscal – mas perdeu a oportunidade. Acabou deixando para a posteridade uma história de fracassos, rendeu-se à corrupção. Quanto à última pergunta, no âmbito dos políticos Brasileiros não vejo ninguém com moral e capacidade administrativa para tirar o país do desastre atual . Quem sabe o Obama possa aceitar esse emprego. Afinal, ele em breve vai perder o emprego, mas teve sucesso em tirar o seu país da crise de 2008. Quem sabe ?!

  2. Octaviano Galvão Neto disse:

    Caro Manzano;
    A sua pergunta, de fato, é safada e dificulta a resposta, pois, infelizmente, esta é parte da verdadeira herança maldita que recebemos da ditadura: um país sem verdadeiros líderes comprometidos apenas com a soberania da nação e com o povo brasileiro, uma rede de corrupção instalada em TODOS os segmentos da administração pública, seja qual for a instância e os governantes de plantão e uma legião de “indignados” seletivos que reclamam muito, mas que não perdem uma oportunidade para dar “um jeitinho” a seu favor quando tem necessidade e oportunidade.

  3. Prezados colegas,

    Agradeço pelas palavras gentis. Tenho a esclarecer que os dois últimos parágrafos do texto não são de minha pluma. O que está escrito partir da menção «Nota do blog» foi acrescentado pela colega Wilma, dona deste espaço.

    Reclamações com a redação, por favor.

    Forte abraço,

    José Horta Manzano

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