Crônica de outro caetanista: Renato Castanhari Jr.

O APLICADOR DE INJEÇÃO

by Renato Castanhari Jr.

Década de 60, anos das transformações, das mudanças sociais, dos confrontos políticos, das manifestações jovens, do sexo, drogas e rock’n’roll.
Mas o interior mantinha o lirismo e a ingenuidade ainda não contaminada pelas modernidades vindas da capital. Outros tempos, outras pessoas.
Como o Naldinho, um garoto esperto de 14 anos, que ajudava o avô, depois da escola, na farmácia. Entregava encomendas, com sua bicicleta, e com a orientação e treinamento feito pelo nono, era o aplicador de injeções oficial à domicílio. Mas só no músculo, “na veia é perigoso”, melhor ir na farmácia.
E Naldinho começou a gostar e esperar ansiosamente os chamados telefônicos na parte da tarde. Ele morava nos fundos da farmácia que ficava no bairro da grã-finagem, a alta sociedade daquela cidade do interior.
A sexualidade ainda era um pecado aos olhos da igreja e a rebeldia das letras de rock ainda não era colocada totalmente em prática por aqueles jovens de cabelos compridos, ansiosos por se livrarem das amarras impostas pelos pais.
Por outro lado, a recatada alta sociedade, que não perdia a missa da manhã de domingo, experimentava os prazeres secretos praticados em grupo, entre quatro paredes, e que acabavam por se propagar como lenda urbana pela cidade. Levada feito fumaça dos cigarros que escapava pelas janelas dos quartos, condimentada pelos desejos dos corpos e a imaginação ardente de quem as ouvia.
Naldinho, na sua função de aplicador de injeção à domicílio, fervendo de luxúria dos 14 anos, se camuflava de transparência ouvindo as conversas dos adultos e projetando a próxima visita às casas. Claro, das socialites que preferiam tomar a aplicação nas nádegas, como se dizia naquela época.

 : (fr.pinterest)

As histórias que ele mais gostava eram as que tinham como tema o Clube da Chave. Um clube secreto e libidinoso. Não confundir com o Clube da Chave do Posto Seis de Copacabana, com número limitado de sócios, que nesta mesma época reunia artistas e intelectuais da mais alta estirpe como Humberto Teixeira, Fernando Lobo, Johnny Alf, Vinicius de Morais, Dick Farney, Dolores Duran, Antonio Maria, Luiz Gonzaga, entre outros. Cada um tinha a sua chave do clube, e se reuniam para beber, papear, cantar. Foi lá que um garoto, talentoso pianista, Antonio Carlos Jobim, viu pela primeira vez aquele que viria se tornar seu principal parceiro de composições, o poetinha Vinicius.
Não, este Clube da Chave do interior, e a lenda diz que várias cidades tinham o seu, reunia casais que ao chegarem ao jantar na casa de um dos associados, colocavam suas chaves do carro em um pote de vidro, tipo aquário redondo. Ao final do encontro, as mulheres iam para os seus carros, e os homens pegavam sem olhar uma chave do pote. Estava feito o casal que iria desfrutar da fantasia libertina daquela madrugada.

Afficher l'image d'origine(france.pitoresque.com)

 
Naldinho ouvia e viajava. Os nomes de algumas das participantes do Clube da Chave eram ventilados de forma cifrada, mas ele conseguia decifrar. Mais, já tinha ido aplicar injeções em duas ou três, e eram mesmo as mais danadinhas. Invariavelmente, quando ele chegava para dar a picada, elas estavam sem calcinha, apenas levantavam os vestidos. Pura provocação. Um êxtase!!
Mas havia uma no clube que Naldinho sonhava, dia e noite, para precisar de cuidados: Sandra. A mais gostosa, a mais exuberante e a mais saudável : ( .
Até que este dia chegou. Seu avô atendeu o telefone, anotou o endereço e passou para Naldinho. Quando ele viu o papel e o número, quase caiu duro, era a casa dela.
Subiu na bicicleta com as pernas bambas, seu coração queria sair pela boca, finalmente ia ver a sua bunda.
Quando chegou na casa, a empregada o recebeu e o encaminhou para o quarto pedindo para ele aguardar. Era o quarto dela, dava para ver pelo porta-retratos.
Ele começou a preparar o material, pegou a seringa, começou a esfrega-la entre as mãos para esfriar um pouco. Foi quando entrou no quarto Sandra, exuberante, de vestido branco e bolinhas vermelhas, com um cinto na cintura. E sua avó, de 95 anos, de bengala e amparada por Sandra.
“Elas pararam na minha frente, a avó virou de costas e Sandra levantou o vestido dela, estava sem calcinha. Ainda vi o sorriso de Sandra antes de desmaiar”.

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(france.pitoresque.com)
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