DIA INTERNACIONAL DA MULHER

CAMA, MESA, FORNO E FOGÃO

 

 

Abecedário prático ao alcance de todas,

Dia Internacional ds Mulher.

 

 

a – aspirador

Hoje em dia temos vários tipos de aspiradores; os dois principais são os de pô (peau=pele) e os de pó, todos eles funcionando com os mesmos fins, isto é: retirando, suprimindo, sugando.

Por enquanto o sexo feminino é o mais sugado por eles: um retira-lhe baldes de gordura como faziam os criadores de vacas antigamente no momento da ordenha manual, e outro, embora não lhe tire o pó da morte, recolhe as partículas em suspensão no ar que aterrissam nos tapetes e se incrustam nos corpos.

O lipoaspirador é uma engenhoca de dondoca; o aspirador de pó, de doméstica; lé com lé, cré com cré, um sapato em cada pé.

O problema é que as dondocas pedem para sofrer e por isso pagam caro, enquanto nós, as domésticas domesticadas, sofremos por pagar a pena espanadora de nossas vidas.

Assim, tive um pesadelo sui generis, freudiano sem dúvida, sofrido ao leito em companhia do meu aspirador; não leito de clínica como se poderia supor, mas leito conjugal; em vez de ter ao lado outro alguém, havia o aspirador, zoomórfico macho potente, provido de cauda e língua longuíssimas, cada qual saindo de uma de suas extremidades, absolutamente elétrico e eletrizante; macho dominador, tamanduístico e retrátil. Não posso ser mais explícitanem menos pornográfica!

Além de sonhos rebarbativos nos quais varro cada palmo, cada língua das avenidas parisienses, doravamente copulo com um aspirador indócil, cujo fio elétrico é alimentado por uma grande voltagem perversa, seja ligado à tomada numa espécie de “partouse à trois”, seja quando dela puxado, retraindo-se rapidamente no chicotear de seu próprio rastro.

Quanto ao seu enorme e flexível pênis angelicus, diretivo, suga-me todos os órgãos na ordem de presença do seu caminhodesesperado: útero e os dois ovários de adereço, as trompas de Falópio, e, por um milagre absolutamente desanatômico, resultado da mais sádica vingança, arranca-me os intestinos, estômago e toda a parafernália digestiva, respiratória, linfática, circulatória e nervosa, exatamente da maneira que ele me deixa quando acabo de aspirar a casa, uma espécie de lagosta sem a casca, uma cascavel pelada.

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B – Batedeira de bolos

Instrumento de tortura dotado de dois batedores girando em sentido contrário, horário e anti-horário, ante o qual as claras deveriam teoricamente transformar-se em neve e a gema com azeite em maionese, não fossem as mulheres utilizá-los em períodos menstruais, conhecidos pelo fato de “virar” todas as receitas à base de emulsão e por isso mesmo recomendado para meninas até os 12 anos e senhoras na menopausa e na pausa total.

Estando as mais jovens desse grupo geralmente ocupadas na sedução masculina, sobra às outras bater bolos para todas elas…

Com esse aparelho, conseguem-se resultados medíocres tanto na pastelaria e na culinária dos molhos comp, com a perda do tempo ali utilizado, indo-se embora uma boa oportunidade de encontrarmos um amante numa boa confeitaria.

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C – Congelador, animal doméstico

mais conhecido como freezer

O que é um congelador senão uma morgue?

Abre-se a porta com precaução e veem-se gavetas contendo tudo recompartimentado e embalado no plástico ou no celofane, tudo arrumado em microcaixões-tupperware, com etiqueta no dedo do pé de porco, no pé de vaca, no pé de cabra.

Um necrotério para animais e vegetais, tivessem sido eles em suas vidas passadas doces, amargos, ácidos, acres ou salgados.

2001, Uma Odisséia na Cozinha: os paulistas vão ao supermercado, compram as melhores mercadorias frescas e, imitando os animais que enterram ossos no quintal ou avelãs nos interstícios dos troncos das árvores, congelam tudo para no dia seguinte retirar seus cadáveres da morgue e os descongelarem.

O mais engraçado foi o “molho de tomates ao telefone” que um velhinho amigo meu, já falecido, elaborou, embora sem que notasse seu gesto culinário: acometido da doença de Alzheimer, sua façanha ocorreu enquanto a esposa preparava outra receita.

Para ele era normal que o celular se integrasse aos ingredientes que iriam para a congelação na barquete de molho, espécie de cerimônia mimética daquilo que estava por ser.

Um mês e nada de telefone, nem sequer uma chamada do além saindo da frieza do freezer, até que a esposa resolveu fazer uma pizza e… Plim! (quero dizer, Drim!) acharam o aparelho no fúnebre tupperware exumado da gaveta.

Tudo acabou em pizza, mas o velhinho quase entrou numa fria!

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D – Dona de casa

Feliz é a mulher boliviana…

Domingo de março, quase meio-dia, cinza parisiense sob o que poderia ser um céu azulado.

O almoço está convenientemente preparado, com todas as deliciosas sobras dos pratos franceses dos dois últimos dias, incluindo uma salada de robalo desfiado ao molho de alcaparras e aceto balsâmico, que tem o poder de vir da palavra bálsamo…

Lembro-me da guatemalteca Rigoberta Menchù e da biógrafa que lhe havia escrito a biografia, quando uma vez, ela e eu sentadas no chão de um pequeno apartamento da rua do Cherche-Midi, me disse que feliz é a mulher boliviana.

Grande surpresa ouvir isso de uma venezuelana engajada, feminista de carteirinha que comeu poeira nas prisões sul-americanas e casou-se dentro de uma delas com um grande intelectual francês que ladeava o Che nos tempos de uma juventude romântica e todavia ativa.

Ouvi, dizia eu, que a mulher boliviana era mais feliz que a francesa…que a americana, que a sueca. Uma feminista dizendo-me aquilo…

Então, vendo a minha simplicidade, para não dizer simploriedade, minha interlocutora apenas fez uma demonstração de um simples teorema sociocultural. Isso ocorreu há 25 anos…

As palavras foram mais ou menos estas:

“A mulher boliviana cozinha para seu marido, serve-o na mesa da sala de jantar da casa da fazenda e, depois de retirar-lhe os pratos, segue para a cozinha, se agacha no canto do fogão de lenha e come sossegada o seu almoço.

Enquanto isso, a mulher francesa de bom extrato e boa formação trabalha no mínimo 8 horas por dia, num cargo cujo salário é inferior ao do colega masculino, passa no supermercado depois da labuta de executiva, e sem empregada, porque aqui se paga 12 euros por hora para que alguém não menos preparada que você a ajude nas lides domésticas, vai para casa, prepara o jantar que será oferecido ao colega do marido – este abre os vinhos – e, depois de fazer o serviço de mesa, conversa sobre o fim provável da União Soviética, sobre o que

François Mitterrand vai poder fazer sendo o primeiro presidente socialista da Quinta República do Hexágono, quantas Edith Cresson vão tornar-se ministras?”

Então, quando o marido termina de servir o digestivo, ela tira os últimos cálices, que, por serem de cristal, são lavados à mão, limpa toda a cozinha e vai dormir algumas horas antes de voltar ao batente!

“Neste momento, com a diferença de fusos horários, lá por Guaiaquil há uma senhora gorda e sadia agachada ao lado do tacho na cozinha, mergulhando um pedaço de pão amanhecido no chocolate quente; sozinha e sossegada.”

Eu bem que conheço essa história há muito tempo; não sei se a minha interlocutora ainda trabalha na Espanha ou se foi para a Bolívia; só sei que meu filho vai vir almoçar em casa hoje e está na hora de enfornar os pães de queijo que ele tanto aprecia.

Meu marido vai abrir o vinho; é domingo.

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e – eletrodomésticos

Parafernália inventada pelos americanos no pós-guerra, quando a indústria americana diminuiu a fabricação de armas pesadas; seguida por todo o mundo ocidental, gerenciada por cartéis que calculam milimetricamente a diminuição do prazo de durabilidade de cada produto, assegurando assim o enriquecimento de grandes grupos industriais e de distribuidores em geral; permite ao público consumidor aventurar-se frequentemente nas lojas especializadas para que tenha orgasmos sucessivos diante de cada vitrine e em frente do caixa.

Normalmente esses produtos teriam sido inventados com o intuito de liberar a mulher, visto que os manetas dos homens não podem apertar botões nem sequer colocar as tomadas nos respectivos buracos. Freud explica!

Movidos a eletricidade e deixando as manipuladoras eletrizadas, a maior parte deles se restringe à categoria das inutilidades domésticas.

Aqui em casa não entram!

f – ferro de passar roupa.

Primeiramente ele foi alimentado a brasa infernal e, para quebrarnos a resistência, a resistência; depois passou a ser elétrico, a vapor, e agora pode conter um programa de computador inteiro no seu bojo.

O ferro é infernal: alisa, engoma, queima, estropia e mata, mas não passa de um objeto que passa.

Pina Bausch já inseriu um ferro que servia para fritar ovos numa coreografia feminista pensada em mão dupla; Gigi Caciuleano também se preocupou com o assunto e pôs no palco o mesmo instrumento de tortura na coreografia de outra dança.

Não seria fora de imaginação, mas uma hipótese absolutamente plausível vermos uma homérica pilha de ferros ou ferros matematicamente separados em múltiplas prateleiras ordenados por Armani numa galeria de arte.

Os homens fazem arte com ferro e as mulheres se ferram.

As mulheres são as testas-de-ferro da sua própria liberação, passando o tempo sem tempo para passar o tempo, passando a roupa da sua sinhá ou do seu sinhô.

O rabo do ferro elétrico se acaba em tomada, uma cópula cujo macho tem dois chifres diabólicos que entram numa tomada fêmea.

To-ma-da: palavra que, como particípio passado adjetivado, significa outrossim ”possessa, possuída”! Mas com gente é diferente?

As marcas do meu corpo e da minha alma são as mesmas do gado que se ferra, engorda e mata. Vou ficar na moita…

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G – Grelha de pão – também conhecida por torradeira

Aparelho de mesa, faz parte do café da manhã do homem ocidental civilizado, sentado à mesa e esperando que a sua esposa lhe sirva.

Geralmente trata-se de uma caixa metálica ou de plástico provida de duas fendas verticais e alimentada por energia elétrica; basta pôr uma ou duas fatias de pão de fôrma contendo colorantes, adoçantes e sabores artificiais, conservadores e glúten destinado a matar os alérgicos e depois de alguns segundos o seu pão TORRA, ficando levemente carbonizado e absolutamente impróprio a qualquer tipo de consumo; não dá nem para enrolar num papelzinho de seda e fumá-lo.

Excelente artigo para fazer progredir as usinas panificadoras,para as quais torramos o nosso dinheiro.

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H – Hospício

Lugar aprazível geralmente situado no meio de bosques e dotado de médicos loucos e enfermeiras assassinas onde a dona de casa pode passar alguns dias de férias por ano.

Único lugar onde ela é servida, medicada com amor e liberada do supermercado, da entrega, do armazenamento dos produtos domésticos, da sua preparação e serviço de garçonete, além de marido, claro!

i – informações de uso

Papelzinho que vem junto ao eletrodoméstico adquirido no comércio varejista e da grande distribuição; depois de assentada a mundialização, normalmente apresenta-se em vários idiomas para facilitar o primeiro contato do comprador com o objeto comprado, mas esse contato nunca acontece porque os chineses fazem a tradução por computador e tudo fica mais confuso do que se tivesse sido feito por um membro da Academia de Letras.

Geralmente provocam chiliques nas leitoras, levando-as ao hospício (ver acima a definição de hospício).

No lar é indispensável passar essas informações diretamente aos membros masculinos que ali porventura residam e aguardar que eles o façam funcionar, sabendo-se de antemão que não consertarão nada caso o eletrodoméstico pife.

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J – Janela da cozinha

Lugar onde me coloco para fumar às escondidas.

Posso abrir janelas; posso fechar janelas; incansavelmente poderia limpar os vidros da janela, esfregando-os com Vitrex, com bombril, jornal ou flanela; espanando-os maquinalmente ou atacando de mangueira se não morasse no sexto andar.

Ninguém veria isso porque aqui nesta cidade nenhuma alma viva vai janelar; comprovadamente ninguém sai na sacada, a não ser para suicidar-se.

Carpentier já dizia que Paris é a cidade com mais sacadas no mundo (com grades de ferro forjado, cada uma diferente da outra, haussmannianas; deve ser um horror ter de tirar-lhes o pó), onde não se vê nenhum morador do lado de lá admirando as belas ruas e avenidas.

Igualmente poderia fechar as venezianas e pensar em Veneza, fazer correr os vidros e puxar a cortina que precisa ser lavada ou a persiana xiita que me lembra as grades da prisão; mas não! Fecho a porta da cozinha, deixo a janela escancarada, o vento frio entrando junto do céu cinzento, venezianas espremidas e a cortina poeirenta me servindo de véu e fumo meu cigarrinho; às escondidas, sossegada e reprimida.

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K – Kimono

Sedutora peça de roupa de origem oriental, destinada às gueixas, outrora usadas nas cerimônias de preparação do chá, da música e da dança – e do amor – e adaptada pela confecção mundial para ser usada principalmente pelas mulheres quando saem do banho(leia-se ducha rápida, dada a sobrecarga dos afazeres domésticos), após um dia estafante de limpeza geral, incluindo a do banheiro, da lavagem das pias e vasos sanitários, aspiração do pó da casa, lavagem e passagem de outros kimonos da família inteira, preparação das refeições etc.

Teoricamente sedutor, o kimono deveria ser usado antes e durante as preliminares, deslizando eroticamente pelo corpo como vemos nas publicidades para os produtos de beleza destinados ao banho e à maquiagem.

Infelizmente, no tempo atual é usado pelas mulheres práticas que o escolhem em algodão penteado porque não têm tempo de se secar com a toalha de banho ao sair da ducha, e precede o uso do pijama, porque ela vai dormir, pelo menos desta vez, oito horas seguidas.

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l – liquidificador

Um grande copo, um vaso, uma fôrma metálica tendo ao centro a rosa dos ventos; tudo trona sobre a elevação de um bloco frio com seu elétrico cordão umbilical.

Estamos na era da velocidade estúpida e da rosa inválida e invalidante.

Sobre a escultura, um selo de boca fechada; retiro o selo e olho para o abismo profundo porque gosto de pleonasmo; procuro o botão, o sensor, ou algum relevo sobre a parede do bloco branco com cara de robô.

Viro o botão para a direita e a rosa sem rosa, a cem por hora gira-rodamundo sem que eu possa ver as suas pétalas.

Introduzo o meu indicador, que desaparece no rodamoinho do vaso puxando pela mão, pelo pulso, antebraço e braço; encontro-me em dificuldade para poder encaixar o ombro direito, o esquerdo e o resto do corpo até o último artelho.

Não posso distinguir mesmo de olhos bem abertos o que são vísceras, veias ou artérias, vozes e ossos, ruídos trincados e sonoros acompanhando o rotor ciclônico da rosa dos ventos.

Transbordo numa multitude de tons carmins, o vermelho das rosas da paixão.

Não existe nenhum sinal de dor, meus nervos contêm mais aço que o meu robô multifunções; a cozinha é um happening, uma performance, um acontecimento efêmero no campo das artes.

Sinto um nó na garganta e uma lágrima escorre do canal lacrimal até o queixo como se a cabeça de Salomé estivesse no lugar da cabeça de Batista sobre a bandeja.

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m – micro-ondas

 

Ouvi uma história muito trágica, mas nem por isso menos hilariante, de uma senhora belga que lavou seu pequinês com excelente xampu e depois colocou o bichinho no micro-ondas para que o pêlo secasse mais rapidamente.

O cãozinho, é evidente, virou cachorro-quente.

Botando de lado o QI da senhorinha e o fato de os belgas aqui na França serem os personagens que se dão mal em todas as piadas locais, o micro-ondas é agora um elemento das cozinhas em geral que aboliu as diferenças de classe e aumentou o lucro dos fabricantes.

Durante anos não tivemos isso aqui em casa, inclusive porque gostamos de pratos cozinhados lenta e calmamente, sabemos como ferver água numa panela e acreditamos que fritar um ovo não demora muito tempo.

O micro-ondas no meu lar foi um argumento para que eu partisse sem culpas por seis meses para Portugal a fim de fazer uma tese.

Abandonei a tese, mas não deixei de frequentar a Universidade de Faro, comer um bacalhau fresco no restaurante universitário em companhia de gente saborosa em termos de amizade e aproveitei a minha relativa independência para ir comer em todos os restaurantes da cidade e da praia, pois assim safava-me de ter que comer requentada a sobra do dia anterior.

Minha tese apoia-se na vacuidade intelectual que os fornos de micro-ondas provocam nos belgas; fora da minha cozinha adoro aquele forninho!

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n – nabos, cenouras, alhoporó e outros

legumes que pomos nas panelas

 

Conjunto de produtos indispensáveis para a elaboração daquela sopa simples e nutritiva que todos os membros da família vão achar semelhante à sopa argentina que a Mafalda detesta.

Geralmente descascam-se todos os legumes imediatamente na volta da feira, que depois de lavados são colocados em recipientes apropriados para ir ao fogo e que antigamente serviam às bruxas para a preparação de unguentos necessários contra o mau humor familiar.

A receita dispensa o arsênico, mas de vez em quando algumas doses ministradas homeopaticamente e com regularidade podem surtir um efeito surpreendente, liberando a mulher dos afazeres domésticos que a impedem de seguir uma carreira de escritora, médica ou artista do rebolado.

No Brasil dizemos “tenho um pepino para resolver” ou “um abacaxi para descascar”; “entrei pelo cano: é batata”; “estou sem uma abobrinha”.

Aqui na França o nabo (navet) significa algo muito sem gosto e a evitar, e a cenoura é muito bom para o coelho porque nunca secoelhos de óculos ou, a piorzinha, “manier la carotte et le bâton”*, que os homens aplicam sempre na relação de dominação com o segundo sexo.

Explicando melhor: para começar, imagine um asno (Quem?–uma recompensa para aquela que responder em primeiro lugar!) que não queira avançar; então basta munir-se de uma cenoura inantigível que se apresenta ao animal da mão esquerda e, com a direita munida de um vigoroso bastão, o espertalhão dirige a pobrezinha, digo: o asno, na direção que melhor lhe convir.

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O – Orduras1

Tudo o que sobra, inclusive o pouco de paciência que resta no fundo dos pratos, das panelas e dos nervos.

Confundem-se com a própria vida insípida de quem as produz, reproduzindo um ato histórico introduzido pela civilização judaico- cristã no mundo ocidental.

Em progresso contínuo, agora temos pelo menos três latas de lixo em cada cozinha e devemos reciclar todas as orduras para que o planeta não se degenere com o acúmulo de porcarias.

As orduras domésticas ficam a cargo das senhoras, e a ordura de equipamentos eletrônicos a cargo dos homens, que depois de consumirem vários computadores, impressoras, iPod, ePod e tudo o que podem mandam todo esse material para a África ou para a Ásia para não entupir sua próprias latas de lixo.

Para dizer a verdade, é uma encheção de saco!

1. Ordure, em francês, significa lixo.

*Manier la carotte et le bâton: incitação à recompensa ou à punição em forma de ameaça.

p – panela de pressão e outras panelas

 

a) Toda cabeça humana é uma panela de pressão onde rapidamente fervemos os miolos; um dia explode!

Diz-se que a galinha do vizinho é mais gostosa, mas a panela de pressão que a cozinha encontra-se na bateria da esposa dele, que vive a cozinhar todo mundo em banho-maria. Ave!

Rochedo, Clock e Panex são algumas antiquadas designações conotativas evocando força, relógio e panela dinossaura desse monstro geiseriano, desse vulcão enfurecido, dessa locomotiva doméstica, invenção americana para liberar o segundo sexo.

E a frigideira? Não é o utensílio feito para fritar quem frita?

Caçarola, do francês casserole, é usada na França menos para ir ao fogo que em expressões pejorativas tais como “passer à la casserole” ou “se faire sauter”, que traduzidas ao pé da letra significam fazer-se saltar, que os brasileiros adaptariam alegremente para fazer-se trepar!

Bonitinha e ordinária, a panela diminuta ainda é sinônimo de grupo de privilegiados – fazer parte da panelinha e ai! O Aurélio me diz que também significa nádegas, traseiro!

Não ponha as mãos no fogo e vá confirmar este rico vocábulo:

Novo Aurélio, página 1.025 da primeira edição (Nova Fronteira, 1975).

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b) prato, copos etc...

Recipiente raso ou fundo para servir o conjunto de alimentos quentes ou frios também chamados pratos.

Pode ser usado nos restaurantes gregos, nas cerimônias de casamento e nas brigas domésticas sem contraindicação: mais fortemente eles são lançados e mais aliviado fica o lançador.

Os homens preferem lançar discos (dishs) e martelos e as mulheres preferem atirar longe a porcelana herdada da sogra.

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c) produtos de limpeza e panos de chão

Se alguns membros da família não se empenhassem em sujar

tudo deliberada ou inconscientemente, esses produtos e objetos industriais seriam adquiridos em menor quantidade; hoje em dia,

com a liberação da mulher, encontramos uma gama numerosa de produtos de limpeza, incluindo sabões com potássio, detergentes químicos repletos de paraben1, toalhinhas descartáveis que limpam móveis, chão, pias, vidros, sapatos, consideradas como orgânicas e absolutamente convenientes para a preservação do meio ambiente(é necessário ler a composição de todos os produtos para se ver que não é nada disso!) e uma multitude de outras inutilidades domésticas.

Normalmente são as mulheres desavisadas que as compram e as utilizam, transformando-se elas mesmas no pano de chão que se arrasta por toda a casa; a vantagem desses produtos provavelmente cancerígenos é que eles desinfetam inclusive a consumidora.

2. Parabens são uma classe de produtos químicos amplamente utilizados como conservantes em cosméticos e na indústria farmacêutica.

Q – Quilo

Unidade de peso utilizada pela pessoa e para o que a pessoa compra para fazer o rancho.

Frequentemente quem sempre pesa mais, ou simplesmentenão pesa, é a mulher: ela pesa X quilos e não está gorda: ela é gorda! Ela pesa na vida do casal; as compras que ela faz para si pesam no orçamento doméstico; jamais vale quanto pesa e não vale apostar seu peso em ouro, somente se for com ela; aliás, ela não pesa os atos e as palavras e para seus companheiros suas ideias são sem nenhum peso.

Na hora de ir às compras, quando o feirante pesa ela paga os pecados e sai correndo porque tem um quilo de coisas para fazer em casa, um quilo de preocupações e nem um grama de paz.

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r – refrigerador

Predecessor do freezer, trata-se de um armário cada vez mais vulnerável ao tempo de uso, espécie de medidor do padrão socioeconômico de cada família, objeto considerado como móvel de cozinha, com frequência crescente no ritmo de abertura da porta.

Antigamente servia para conservar os alimentos, evitando assim o acúmulo de sal, pimenta e outras especiarias em casa e evitando o salgamento de animais despedaçados ou a fumagem dos mesmos.

Atualmente serve para fabricar gelo, rende diversas temperaturas frias à água natural que ninguém bebe em casa e pode apresentar-se em plástico, aço e aço escovado, indicando a posição familiar na escala social de classes.

Na França ainda não vi nenhum modelo fechado a chave no melhor estilo cofre-forte percebido em cozinhas brasileiras, porque a incidência de empregadas domésticas supostamente imaginadas como ladras em potencial é aqui muito baixa e os franceses, politicamente corretos e não menos avaros, não querem ser associados ao personagem Grandet de Balzac!

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S – Sala de visitas e de jantar

 

Local reservado para encontros sociais e refeições domésticas, amplamente difindido como reservado ao lazer da família e dos amigos, onde há tapetes para aspirar, livros e objetos para espanar, chão para limpar, vidros para brilhar, cortinas para lavar, comida para servir, migalhas para recolher, pratos para empilhar.

Felizmente os novos lofts não possuem as toaletes e os bidês na sala, e o refrigerador com o freezer, com o fogão, o micro-ondas e o liquidificador continuam estoicos na cozinha.

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t – talheres

 

Armas brancas necessárias em briga doméstica na qual o machão impera.

Nenhuma poesia “neptúnea”, mas implicação de conotação dantesca envolvendo os diabólicos garfos; nenhuma colher-de-chá em caso de agressão corporal e haraquiri prometido antes de a polícia chegar.

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u – utilidades domésticas

 

Desde quando uma faca elétrica é mais veloz que o vaivém de uma faca normal afiada?

Por que um abridor de latas elétrico demora mais tempo que o mecânico para abrir as conservas que hoje em dia têm a abertura facilitada?

Como servir-se de molheiras se o molho é abolido nas dietas?

Espremer laranjas no espremedor elétrico? Quem lava tudo depois?

Um robô para a cozinha com toda a filharada indo comer no McDonald’s?

Bandeja que mantém os alimentos quentes para se pôr a mão onde não deve e sair da mesa acidentado?

Churrasqueira elétrica para barbecue entre amigos num parque verdinho em folha?

Aparelho para fazer panquecas, crepes, derreter queijo e até bronzear?

Máquina para fazer café e chá de todos os jeitos e maneiras com cápsulas que sairão brevemente do mercado para serem substituídas por outras absolutamente incompatíveis?

Secadores de cabelo para calvos e escovas de dente elétricas para dentaduras móveis?

Chega de inutilidades domésticas!

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V – Vassouras, rodos, baldes e espanadores

Vassoura é o meio de transporte mais rápido que as bruxas encontraram.

Rodo é o instrumento que no cassino serve para te expropriar as fichas.

Balde, com prefixo DE, é um advérbio que prenuncia o nosso fim: em vão!

Espanador: espana a dor.

Quem me dera!…

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W – Wilma/WC

Esta sua criada, insistente limpadora dos vasos sanitários igualmente conhecidos como WC!

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X – (filmes)

Tipo de filme brega que os homens gostavam de ver enquanto as mulheres davam duro na casa.

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Y – Dualismo sexual

Consultar XY- de l’identité masculine, de Elisabeth Badinter;

se por acaso o livro ainda não foi traduzido em português, tentem.

SCHIESARI-LEGRIS, wilma; “Crônicas e Contos crueis”, Luna Editorial; São Paulo; São Paulo; 2011; Livraria Cortez)

 

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