DIA INTERNACIONAL DA MULHER – II

Carro velho, mesmo outrora tendo meu zeloso proprietário mandado desamassar algumas partes da carroceria, sei que sou uma arcaica carroça feita de peças vetustas de reposição e que o meu final, em breve, vai ser no ferro-velho.

O motor, por hora cansado, continua rodando aos solavancos pelos trancos e barrancos da vida, sem possibilidade de aceitar mudanças de marcha; o baixo nível de óleo metaliza o som da minha voz; os pedais gastos provocam escorregos sob pés impacientes; os pneus carecas por inúmeras vezes  buscaram o acidente previsto; canos de escapamento sujos poluem o ambiente e o parabrisas lendo a paisagem através do vidro fôsco de poeirentos ventos , desmatiza os caminhos da vida.
O estofamento, desestofado pelo tempo, parece carcomido e deixa aparecer as molas enferrujadas;  – pior! – Encontro-me fora do catálogo, completamente fora de moda e, consequentemente, sem valor no mercado…
Os colecionadores não se interessam mais pelo modelo e não adianta levantar as antenas nem me descapotar… Tempo perdido…
Fora tudo isso, ora rodo com as lanternas apagadas, ora elas de tão acesas, perturbam os olhos do condutor que vem no sentido contrário.
Sigo em alta velocidade durante o verão e carrego minha carroceria quase parando nos meses de inverno. Grito: o claxon me relaxa e eu estou pouco me lixando.
Às vezes sou empurrada pela trazeira quando emperro, emburro e páro; outras chocando-me com tudo o que estiver na dianteira provoco contratempos memoráveis.
Destra, ainda não matei pedestre algum, embora tenha levado socos e potapés de desafetos; lembro-me deles, não às vezes, mas de modo obsessivo, humilhada por me ter deixado levar na lataria, cujas tintas esmaecidas e ternas pelo tempo, não impressionam mais ninguém.
Já ouvi comentários maldosos – quando meu condutor olhava fixamente para o espelho retrovisor para endireitar a gravata borboleta – sabendo-me custar mais caro na garagem que andando pelo mundo afora, embora prefira largamente permanecer na estacionada em casa.
Dizem que tenho um ego superdimensionado, quando na verdade, neguinho, se trata de um egozinho minúsculo… que brilha em dias de sol como aquela angélica representação de bailarina dançando no capô da Rolles…

Tchau!

(wilma schiesari-legris)

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Uma resposta para DIA INTERNACIONAL DA MULHER – II

  1. WILMA
    Feliz Dia das Mulheres.
    Amei, linda sua comparação.
    Beijos mulherengos.

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