Renato Castanhari Jr. com o pé fora da rede.

PÉ PRA FORA

by Renato Castanhari Jr.(autor, publicitário e caetanista – in Ladeira DaMemoria

Hoje me desenrosquei de um trabalho que me consumia há semanas e experimentei o prazer de não ter nada para fazer.

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E sem me dar conta, entrei na rede sem estar enroscado com nada, e percebi a razão de chamarem de rede esta sala virtual onde todos transitam. É uma rede mesmo, daquelas de arrastão, que se encontra de tudo, peixe grande, peixe pequeno, baiacu, lambari, tubarão, orcas. E tranqueiras, muitas, lata velha, garrafa vazia, erva daninha, alga, papagaio de pirata, contorcionistas, exibicionistas, tudo enroscado, junto e misturado.
Quando a gente põe o pé pra fora da correnteza, perde aquele empurrão mecânico de continuar na onda sem saber o porquê. O olhar de fora pode ser providencial. E chocante.

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A gente vive reclamando da falta de tempo. Quanto ele aparece, é hora de se desenroscar da rede e fugir para dentro da gente. Claro, você vai dar de cara com alguns fantasmas, mas é administrável quando a gente sabe que os têm. O que não dá é para permanecer enroscado, envolto em permanente transe dos dependentes de uma droga socialmente aceita e amplamente traficada.
Quando a gente se abriga em nosso interior, se livra da orquestra ruidosa das cobranças, dos olhos que monitoram o nosso andar, da necessidade de expormos nossas carências, ou os pratos que nos servem, ou de defendermos nosso time do coração no futebol, na política. Não precisamos mostrar que somos bons, o seu Eu sabe. Não precisamos demonstrar que já fizemos muito, sua memória basta. Não precisamos aparentar o que não somos, sua consciência te aceita.
E neste momento de descanso da maratona externa, nos alimentamos das verdades que fortalecem o nosso ser, que assim, vitaminado e recomposto, fica em condições de voltar para o campo de batalha. Sem o risco de se sentir um sem teto, sentado à beira do caminho, mendigando autoestima. Ao contrário, ficamos aptos a dar colo, distribuir sorrisos e afeto repletos de verdade e amor. Não para parecer bom, mas por se sentir bem.
Quando estamos plenos e bem alimentados pelo nosso Eu interior, este cenário holográfico que nos aprisiona deixa de existir, de fabricar importância, porque deixamos de morar lá, ficamos melhor aqui.
Assim, conseguimos circular lá fora sem enrosco, curtindo, interagindo, participando, sem o risco de sermos fisgados pelas iscas de plantão.
A verdade é que está cada vez mais difícil distinguir o que vale do que não vale. O que acrescenta do que te rouba, o que entretém daquilo que embota.
O virtual se transveste de real com a habilidade dos efeitos especiais de Holywood, sem que a gente perceba o veneno que a fantasia injeta.
Pôr o pé pra fora pode ser fatal para este mundo do faz de conta.

Renato Castanhari Jr. | 11/03/2016 às 8:53 am | Categorias: CRÔNICAS/CONTOS | URL:

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