Leandro Karnal e eu relatamos o mesmo assalto!

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Leandro Karnal e eu relatamos o mesmo assalto, ele para o Jô e, eu no meu livro de crônicas cruéis*…

Apesar da coincidência parar por aí, não foi sem vaidade que descobri o palimpsesto**!

Agora vou fazer um grande esforço para chegar  pelo menos a 1% da capacidade intelectual do mestre!(tanto que arrumei uma “gralha” ao recopiar o texto, além de melhorá-lo um pouco, seis anos depois de sua publicação.)

Confiram!

 

O assalto II

wilma schiesari-legris(pgs. 135/136-Crônicas e contos cruéis)

 

“Quando Carlos Drummond de Andrade escreveu “O Assalto”, morava no Rio de Janeiro numa época em que assalto era raro por lá.

Apenas pelas palavras que descrevem o ônibus parado na rua transversal para “assuntar”, durante um presumível hold-up, percebe-se que aquilo se passou antes dos anos 50, época na qual todos andavam com aquele meio de transporte; e assuntavam!

Agora imaginemos um ônibus em São Paulo em 2010, algumas pessoas sentadas, outras em pé.

Lado a lado, braços esquerdos erguidos no mesmo balaústre horizontal, minha prima recém-chegada do interior e uma doméstica com ar de inocente se defendem das freadas bruscas.

A prima, tendo chegado escolada na capital, percebeu que lhe faltava o relógio que havia comprado de um camelô na Barão.

Para não criar nenhum sentimento de pânico no corredor do coletivo, disse a meia-voz para a senhora ao lado com cara de inocente, para que o anjinho do pau-oco lhe restituísse imediatamente o objeto roubado, inclusive fazendo isso passo a passo, regulando a situação, de modo a não provocar nenhum escândalo que levasse as duas à delegacia.

O anjo obedeceu: abriu a bolsa onde guardava o objeto do desejo, tirou de lá a sua joia, até então embrulhada num lencinho de cambraia, e discretamente colocou tudo na bolsa a tiracolo de abertura larga da vizinha de trajeto.

Tremeu, suou; o anjo desceu no ponto seguinte, que nem sequer era o de hábito, e andou amedrontado por muito tempo, pensando que  cadeia não é o melhor lugar do mundo para se ficar de noite.

Quando minha prima chegou a casa, radiante pelo flagrante delito abortado que executara com classe no ônibus, abriu a bolsa e dela tirou um lencinho perfumado com um verdadeiro Cartier.

A doméstica não era doméstica, e a ladra foi minha prima; percebera que com o alargamento da pulseira do seu relógio, que aquela falsificação tinha ido parar no cotovelo quando o seu braço se encontrava levantado segurando a barra do ônibus.

Tinha roubado de verdade, um Cartier de verdade!”

https://youtu.be/Uq2ryf8Uwfk?t=637(clique no link; o relato em palimpsesto aparece aos 10’38”- in: Programa do Jô de março de 2016.)

 

 

*crnicas-e-contos-crueis-11010-MLB20037889837_012014-F

*Na Livraria Cortez

**Palimpsesto (do grego antigo παλίμψηστος, transl. “palímpsêstos”, “aquilo que se raspa para escrever de novo”: πάλιν, “de novo” e ψάω, “arranhar, raspar”) designa um pergaminho ou papiro cujo texto foi eliminado para permitir a reutilização.

 

 

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3 respostas para Leandro Karnal e eu relatamos o mesmo assalto!

  1. Vera Lúcia Lombard- Platet disse:

    Parabéns sempre, Wilma! Bjos.

  2. Jéthero de Faria Cardoso Junior disse:

    Muito bom!

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