Renato Castanhari Jr. X Myrthes Suplcy

O IMORAL DA HISTÓRIA

2016 Coringa smGotham Country vivia dias difíceis após a morte de Batman, pelo menos era o que se imaginava, que aquele corpo cremado vestindo o uniforme do Cavaleiro das Trevas era o de Bruce Wayne. Esse fato provocou um aumento desenfreado na criminalidade, a ponto de os meliantes assumirem postos chaves no governo.
Pinguim já havia ocupado o posto de presidente por dois mandatos e havia feito de Hera Venenosa sua sucessora. E após um primeiro mandato onde ela deu prosseguimento às diretrizes do governo de seu mentor Pinguim, o segundo mandato sofria de crises sucessivas, externas e internas.
Escândalos de corrupção e roubos aos cofres públicos foram sendo descobertos ainda no final do mandato de Pinguim, que habilmente conseguiu contornar como pôde. Mas a situação chegou a um ponto que não havia mais como segurar as ações da Liga da Justiça. Grampos telefônicos, investigações várias e delações de criminosos pegos com a mão na botija levaram o governo de Hera ao caos total. Sua base de aliados foi se esfacelando, diversos líderes do governo agora estavam cumprindo pena na cadeia, a devassa atingia também líderes de outros partidos, parecia estar chegando o momento de um lava jato na política de Gotham Country.
O Comissário Gordon em dupla com o promotor público realizava prisões várias, e conduzia personagens de destaque em conduções coercitivas aumentando o cerco aos infratores. Era questão de tempo.
Até que o que parecia distante e improvável aconteceu, o movimento pró impeachment de Hera Venenosa tornou realidade a provável queda do governo. Coringa, agora presidente da Câmara, conduziu o processo mesmo tendo acusações de ter conta no exterior e de ter mentido no Parlamento.
Coringa acolheu o pedido e criou uma comissão especial para analisa-lo e submetê-lo ao plenário da Câmara que decidiu dar continuidade ao processo levando agora o caso ao Senado, que por maioria simples deve referendar ou não a decisão do plenário da Câmara.
O presidente do Senado, Charada, tem agora a função de presidir a comissão especial da casa composta de 21 parlamentares que irá analisar o caso. Se essa comissão referendar, Hera será afastada por 180 dias e o vice-presidente, Duas Caras, assume interinamente. Neste momento, o processo segue para o Senado onde, por maioria simples, é decidido o impedimento da presidente em prosseguir no cargo.
Enquanto a presidente e aliados chamam este processo de golpe, a oposição ao governo lembra o impeachment de um outro presidente, que seguiu dentro do que dita a Constituição e que teve o apoio deste mesmo grupo que se encontra no poder. Inclusive, este presidente deposto foi chamado para compor e apoiar o governo de Pinguim e Hera.
Ou seja, a história é cíclica e contínua, os que faziam oposição ao governo e assumem o posto com promessas de mudanças e soluções, acabam por sucumbir ao “puder” e acabam por pisar na bola, muitas vezes, em maior escala.
O que vivemos hoje é apenas o primeiro episódio da nova temporada.
Com o Batman morto, resta a nós, simples pagadores da conta, a tarefa de torcer pelos Coringas, Charadas da vida eliminar as Heras e Pinguins, e apoiar a Liga da Justiça a continuar e terminar a limpeza, fazendo justiça de verdade, para nós.

*Renato Castanhari Jr. é escritor (e caetanista)

19/04/2016

Renascendo das cinzas

(in BrasilDeLonge)

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Quando se espreme um abcesso, é inevitável que uma torrente de pus seja lançada para todos os lados. Por mais constrangedor e nauseante que possa parecer o processo, é a única medida recomendada pelos especialistas médicos para aliviar a dor, o inchaço e a inflamação. Uma vez eliminada toda a carga de pus – e um pouco de sangue, que costuma vir junto – basta fazer a assepsia do local para restaurar as condições ideais que deem início ao processo de cicatrização.

                           Mona Lisa, original et générique(News)

Assistimos domingo, estupefatos, ao estouro de mais um abcesso político que insistia em combalir e fazer padecer o organismo da sociedade civil. O volume de toxinas lançado foi tal e tamanho que muitos preferiram não ver o término do processo.

Hoje de manhã, um pouco mais aliviados com a descompressão experimentada, nos percebemos ávidos pela decretação urgente de assepsia profunda no corpo político brasileiro. Ainda enojada, a maioria da população se dá conta de que o tecido parlamentar abriga múltiplos outros abcessos. Mais grave, que as mãos dos próprios médicos responsáveis pela assepsia estão contaminadas. Agora, inquietas, as pessoas buscam-se umas às outras para debater como foi que nos permitimos chegar a esse grau de degradação.

Um belo momento para reflexão e mea culpa coletivo. Fomos nós mesmos, não há como negar, os responsáveis pela entrada de tantas bactérias e germes em nossa circulação sanguínea. Não percebemos a tempo que nossa epiderme cidadã ainda estava em processo de regeneração das fissuras causadas por décadas de exceção. Sabíamos que havíamos queimado etapas, mas achávamos que era preciso esconjurar os tempos sombrios que passamos vivendo em meio ao lixo da história. Apostamos na esperança de adoção de hábitos políticos mais higiênicos e em nossa capacidade de construir uma sociedade mais afastada da promiscuidade ideológica. Quando os ventos dos tempos de bonança sopraram, soltamos um pouco mais o nó da gravata, nos acomodamos confortavelmente no sofá, abrimos uma cerveja e ligamos a televisão para afastar ao menos temporariamente a dura realidade.

O preço da liberdade é a eterna vigilância, já disse alguém. Embora soubéssemos disso, confiávamos que acordaríamos de nossa merecida soneca com mais garra para vigiar os passos de nossos novos conselheiros. A musculatura relaxada, todavia, não nos permitiu manter a vigília. Aos poucos, fomo-nos tornando mais complacentes com velhos hábitos insalubres e voltando a frequentar ambientes poluídos. Não instalamos os filtros recomendados para purificar o ar da alfabetização política. A reinfestação foi inevitável.

Culpa de nossa ingenuidade, de nossa imprevisão? Talvez, mas ainda prefiro acreditar que tudo o que é humano é provisório, imperfeito, limitado. Já aconteceu antes e vai acontecer de novo, com certeza. Não temos a sabedoria dos deuses nem a paciência dos santos. Hora de lamber as feridas, lavá-las com água oxigenada, fortalecer nosso sistema imunológico com doses diárias de conversação e tolerância.

Aliás, o consenso que começa a nascer ‒ de que é imprescindível superar divisões, juntar razão e emoção para enfrentar o difícil trabalho de desintoxicação ‒ é a mais reconfortante e comovente notícia do dia.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora; e caetanista.

 

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