Carlos Monarcha apresenta o livro do professor LOURENÇO FILHO M.B. Introducção ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Cia. Melhoramentos, 1930 (Bibliotheca da Educação, v. XI).

O estudo de Carlos Monarcha sobre LOURENÇO FILHO M.B. Introducção ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Cia. Melhoramentos, 1930 (Bibliotheca da Educação, v. XI). é relativamente longo para um suporte como o nosso blog.

Caso você seja um leitor apressado, siga as frases em verde e vai obter um resumo honesto.

Boa Leitura,

abraços monárquicos,

wilma.

25/05/2016.

                                      Introduçao à escola nova

Revista Brasileira de Educação

Print version ISSN 1413-2478

Rev. Bras. Educ.  no.14 Rio de Janeiro May/Aug. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782000000200014

RESENHAS

Carlos Monarcha

Professor na FFC-UNESP/Marília

 

 

LOURENÇO FILHO M.B. Introducção ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Cia. Melhoramentos, 1930 (Bibliotheca da Educação, v. XI).

A gênese do livro

Desde meados da década de 1920, Lourenço Filho vinha expondo e sistematizando suas idéias e seus princípios sobre a inovação escolar, então em curso, no opúsculo intitulado A Escola Nova (resposta a uma inquérito)1 e na conferência proferida no Rio de Janeiro e também intitulada “A Escola Nova”.

“Realizou-se, hontem, no Instituto Nacional de Música, perante um público numeroso e selecto, a annunciada conferencia do Professor Lourenço Filho sobre a ‘ Escola Nova’.

O orador começou fazendo notar que nenhuma expressão é mais equivoca que a de ‘ Escola Nova’. Num sentido amplo, cada época tem apresentado a sua ‘ Escola Nova’, pois a cada época tem correspondido idéas diversas e technicas diferentes. Declarava, pois que não era nesse sentido que ia tratar do assumpto, mais exclusivamente da escola nova de nosso tempo, que é, aliás, o que interessaria á reforma do Districto Federal.

[…]

Nessa variedade de sistemas em que hoje se agitam os educadores, ora variam os fins e, por isso mesmo, correspondentemente, os principios da actividade em que empenham: ora variam, os principios mesmos, dados fins identicos, porque uns, mais capazes se approximam de techinica mais imprecisa a que a sciencia já fornece bases de applicação; outros empiristas ensaiam o que é possivel fazer com os recursos de sua propria experiencia.

Não nos illudamos, pois, e tenhamos sempre presente o quê desejamos fazer, para só depois esclarecer os meios de fazer. Não é isso o methodo, de que já nos falaram os gregos – ‘ o caminho para um fim?’

O Prof. Lourenço Filho termina, então, por analysar quaes os ‘ fins’ da escola moderna e em que principios ella se assenta.

A escola-nova, diz, é uma escola essencialmente socializadora, para o que emprega systemas de trabalho em communidade. É ainda uma escola vitalista, contraposta á escola intellectualista de outros tempos.

Esses fins e principios é a sua opinião, figuram na reforma do Districto Federal, desde – diz terminando – se deve esperar o typo da ‘ escola nova brasileira'”. 2

Posteriormente, em 1929, o autor ministrou nove lições sob o título geral “A Escola Nova – Curso pelo Dr. Lourenço Filho”, no Instituto de Educação (ou Instituto Pedagógico) na cidade de São Paulo, abordando um temário concernente à renovação educacional. Ao final de cada plano de aula, constava o tópico “Leituras recommendadas”, indicando-se autores e obras que começavam a figurar sistematicamente nos livros de inúmeros intelectuais envolvidos com pedagogia no seu sentido mais amplo: pedagogia social, onde o tema “escola nova” assumiu um significado programático, sugestivo e mobilizador.

 

O livro

“Até que enfim, o prof. Lourenço Filho nos dá, em materia educativa, o seu livro, já ha tanto esperado. Director da excellente bibliotheca, traductor de muitas de suas obras, já tardava um livro em que se transfundisse a sua robusta cultura pedagogica e a experiencia de longa carreira, longa pelos serviços innumeros prestados, se bem que curta pelos annos e que vem desde o exercicio de escola primaria até o magisterio da Escola Normal de São Paulo, conquistando o generalato da profissão, como autoridade das maiores no paiz, em plena mocidade.

O volume que apparece agora é o conjuncto de lições professadas no Instituto Pedagogico, fundado em S. Paulo, por iniciativa particular, a que a sua acção pessoal prestou valiosa contribuição. É uma impressão panoramica da educação no nosso tempo. Como que uma onda syntonizada para diversos paizes do mundo foi captada aqui e ali, gerando iniciativas diversas de renovação educativa. As gerações que se vão, no reconhecimento de faltas e insufficiencias, apellam para a creança que representa sempre a eterna esperança do futuro”.3

Com essas palavras, Francisco Venâncio Filho saudou a recepção de Introducção ao estudo da Escola Nova, de Manoel Bergström Lourenço Filho, formato in-16 (14cm x 19,5cm), 345 páginas, publicado em junho de 1930 na coleção Bibliotheca de Educação, organizada e dirigida pelo próprio Lourenço para a Companhia Melhoramentos de São Paulo. Para os padrões da época, o livro foi publicado com uma tiragem surpreendente: 12 mil exemplares.

Dedicado “a A. de Sampaio Doria, mestre e amigo”, a folha de rosto do livro indicava brevemente a autoridade do autor:

LOURENÇO FILHO

Professor de psychologia e pedagogia na Escola
Normal de S.Paulo;

Director da Escola Activa Rio Branco;

Ex-Director da Instrucção Publica no Estado do Ceará

Poucos meses após a publicação do livro e já no contexto imediato da Revolução de 30, Lourenço Filho foi nomeado Director Geral da Instrucção Pública do Estado de São Paulo, permanecendo no cargo no período de 27-10-1930 a 23-11-1931 e concretizando transformações significativas no âmbito administrativo e pedagógico da instrução pública paulista, as quais eram publicizadas através da revista Escola Nova. Tais transformações estavam em estreita correspondência com o clima de efervescência cultural característico do imediato pós-30, quando intelectuais de diferentes orientações ideológicas perfilaram-se na construção do “Brasil novo”, mediante soluções programáticas para múltiplos problemas postos insistentemente pela realidade contemporânea.

No Prefácio constante na 1ª edição, o autor formulou a seguinte explicação sobre a gênese do livro:

“Duas palavras, agora, a respeito de sua genese. As lições aqui compediadas foram desenvolvidas pelo autor, num modesto curso, que realisou, no Instituto de Educação, e saem publicadas immediatamente, a instancias dos companheiros dessa aggremiação. Sem tempo material para uma redacção mais cuidada, reproduzimos muitos trechos, pelas nota tachygraphicas, sem grandes alterações. Isso explica, também, porque ha digressões, já para esclarecimento de expressões technicas, já para fixação de certos pontos de vista philosophicos, que julgamos de utilidade não omitir.4

E mais adiante, nesse mesmo Prefácio, o autor declinou os objetivos do livro:

“Este modesto livrinho, simples introducção ao assumpto, como o título indica, ao mesmo tempo que pretende ser como que um plano de topographia geral, em escala reduzida, situando apenas os accidentes capitaes, procura apresentar-se, como estudo isento objectivo, em que as coisas se descrevem e se comparam, mais do que se julgam.

[…]

Justifica-se, assim, este livrinho, como os demais, desta Bibliotheca, que vimos organizando. É uma pedrinha insignificante nessa obra immensa. Aos mestres primários especialmente, demonstrará o muito que temos a caminhar, o muito que temos a realisar. Do ponto de vista technico, em particular, poderá concorrer para a coordenação de informações dispersas, para o estimulo ao estudo certos problemas de organisação e efficiencia do trabalho escolar.5

Segundo Francisco Venancio Filho, autor de uma das primeiras resenhas do livro Introducção ao estudo da Escola Nova:

“A feição de lições se conserva. A primeira trata do conceito de escola nova; a segunda, a terceira e a quarta dos systemas de educação renovada, os de experimentação e ensaio e os de applicação scientifica; a ultima, das questões geraes de applicação: programmas, horarios, disciplina e autoridade.

A cada capítulo se segue um excellente resumo, parada necessaria à revisão do caminho percorrido, e um quadro em se eschematiza a materia vista.”6

O livro foi configurado da seguinte maneira: Prefácio; Lição I – “Que se deve entender por escola nova?”; Lição II – “Os systemas da educação renovada” i) Systemas de experimentação e ensaio; III – “Os systemas da educação renovada” ii) Systemas de applicação scientifica; IV – “Os systemas da educação renovada” ii) Systemas de applicação scientifica (cont.); Lição V – “Questões geraes de applicação”; “Bibliographia”.

Explicitando uma preocupação didática por parte do autor, os capítulos foram subdivididos em inúmeros temas e tópicos, inúmeras notas bibliográficas e explicativas e foram formulados segundo a técnica de “revisão do assumpto”, evidenciando novos hábitos intelectuais.

A Lição I destina-se a precisar o significado da expressão “escola nova”:

“Por escola nova se deve entender, hoje, um conjunto de doutrinas principios tendentes a revêr, de um lado, os fundamentos da finalidade da educação, e de outro, as bases de applicação sciencia á technica educativa”. (p. 77)

A Lição II aborda em perspectiva cronológica:

“os systemas de ensaio e experimentação, a que podemos chamar de empiricos. Só depois viria a theoria corrigir os excessos dessas primeiras tentativas, ou preencher-lhes as lacunas”. (p. 117)

A Lição III expõe os postulados dos chamados sistemas científicos:

“Como systemas applicados, dignos de estudo, indicamos os de Montessori, Decroly e Dewey… Ambos [sistemas de Montessori e Decroly] nasceram da observação de creanças anormaes, ambos foram elaborados e ensaiados por educadores médicos. Em ambos, a concepção educativa é accentuadamente vitalista: o que importa é permitir a expansão vital de cada sêr, leval-a ao mais alto gráu de desenvolvimento. Como consequência, o principio da liberdade do educando, que implica o da actividade auto-educadora, e o respeito pela indiviudalidade da creança”. (p. 165)

A Lição IV está dedicada à exposição da filosofia da educação de John Dewey:

“chamado hoje, por muitos, — o pae da educação renovada. De facto, a influência de suas idéas é hoje universal. Partidario da educação como socialisação da creança, Dewey assim a define: a educação é a somma total dos processos por meio dos quaes a sociedade inculca, nas novas gerações, seus poderes, capacidades e ideaes, com o fim de assegurar a sua propria existencia e e evolução. Toda educação é, assim, social, mas no estado actual de nossa civilisação não deve ser sujeição social”. (p. 189)

A Lição V – “A ultima das lições é a mais pessoal, aquella em que a personalidade do autor apparece plenamente”, segundo Venancio Filho – dedica-se às “questões geraes de applicação” e, nessa lição, o leitor depara com as razões e os pressupostos do autor em defesa da renovação educacional:

“Os programmas propostos, sem excepção, manifestam tendencia para se basearem na evolução affectiva da creança, ao envez de obedecerem como outrora, a um plano logico e abstracto, da sciencia organisada do adulto. São programmas geneticos, que procuram seguir a evolução dos interesses naturaes da creança. Por isso mesmo, globalisam as materias, sob a forma de problemas de desenvolvimento, centros de interesse, ou projectos. Dessa concepção, resulta completa transformação do andamento do trabalho escolar, ou seja do horario. Em logar de horarios mosaicos, com discrimnação de lições, por minutos, surgem planos flexíveis, para o ensino diario ou semanal, em que os impulsos naturaes das creanças possam ser aproveitados com efficacia, no sentido do trabalho creador. Programmas e horarios não separam, na escola nova, a materia, do methodo, o conteúdo, da funcção do aprendizado. Em consequencia, o problema da disciplina não existe também em separado […] O ideal da pedagogia moderna é a liberdade interior, a formação de dentro para fóra. O ideal da velha pedagogia era a autoridade externa, a imposição de normas e a transmissão de conhecimentos de fóra para dentro. Era a escola da autoridade. Autoridade do mestre, a cujo espirito o discipulo deveria amoldar-se, autoridade do texto e maxima autoridade, quando este fosse único […] Antes, a pedagogia era a conducção por mão estranha. Agora, toda educação significa, em ultima analyse, auto-educação”. (p.223-224)

Na seção “Bibliographia” – simultaneamente atestado de erudição e sugestão bibliográfica – o autor arrola 123 títulos de livros e artigos em francês, inglês, italiano, espanhol e português organizados por assunto: função social da educação, filosofia do conhecimento, novas tendências da psicologia, pedagogia experimental, psicologia da aprendizagem e sistemas da escola nova.

Nessa bibliografia, são arrolados títulos de obras de autores expressivos, como, por exemplo: Dewey, Durkheim, Good, Kilpatrick, Nartop, Bréhier, Ferrière, Lombardo-Radice, Messer, Bechtrew, Blondel, Janet, Kofka, Piéron, Watson, Pavlov, Thordinke, Claparède, Decroly, Buyse, Stern, Amor, Demolins, Hamaide, Kerschensteiner.

 

                                                                                                                                                                                             (Dewey in:stephenhicks.org )
dewey-john-young-100x100             Afficher l'image d'origine       Afficher l'image d'origine                                                                                                                                     (Kilpatrick in: ufrgs.br )
Afficher l'image d'origine(Claparède in: Escola Nova)Afficher l'image d'origine
                                                                                                              (Decroly in: Wikipédia)

Representativa do pensamento educacional, sintonizada com os requisitos intelectuais da época e explicitadora de um autor com formação cosmopolita, ainda nessa bibliografia são citados apenas cinco títulos de autores brasileiros: A reforma do ensino no Districto Federal, de Fernando de Azevedo; O ensino na Capital do Brasil, de Antonio Carneiro Leão; A Escola Nova (resposta a um inquerito), de Lourenço Filho; Aspectos americanos de educação e Por que escola nova?, de Anísio S. Teixeira.

A seção “Bibliographia” completa-se com o tópico “Revistas e Jornaes”, indicando-se 28 títulos de periódicos: 26 referências estrangeiras e duas nacionais – A Escola Nova e Boletim de Educação Pública, ambas do Rio de Janeiro.

 

A recepção do livro

Pode-se dizer que a recepção significativa de Introducção ao estudo da Escola Nova, de Lourenço Filho, é tributária de vários fatores que se completam: originalidade na abordagem do tema, destacando-se a sua pertinência científica, relevância social e condensação metódica de um conjunto significativo de questões teóricas e procedimentos práticos de organização. Apoiando a sua argumentação nas ciências então consideradas modernas – biologia, psicologia e sociologia -, produziu uma reflexão singular, contribuindo decisivamente para a afirmação de um padrão de estudos especializados sobre educação, articuladamente às questões sociais contemporâneas, esclarecendo os nexos intricados presentes na correspondência entre educação e vida social, mediante utilização de uma chave explicativa: o tema da “escola nova”.

De imediato, a publicação do livro repercutiu mais intensamente no ciclo de intelectuais que partilhavam desejos e expectativas assemelhados. Anísio Teixeira, por exemplo, em carta de 22 de agosto de 1930, manifestou-se da seguinte maneira:

“Meu caro Lourenço

O seu livro, lido e relido. Magnífico. Fiquei espantado com o seu poder de synthese e de clareza. Escrevi na A Tarde a notícia que lhe mando, em separado. Sinceramente, achei o seu livro a melhor cousa que se publicou, ultimamente, em materia de educação, no Brazil.

Como você meu pediu critica, fi-la muito mais para obedecer-lhe, do que para qualquer cousa. Primeiro, os meus estudos são parciaes em vista dos seus. Estou com literatura quasi que exclusivamente americana. Segundo, não tenho o amadurecimento que lhe vêm dando a longa experiência e o longo tirocinio em cousas de educação Esses dois pontos, retiram-me qualquer auctoridade para criticar o seu livro. O que ahi vae, pois, nessas folhas datylopgraphadas é opinião pessoal e observações pessoaes. Fil-a, a principio, pensando em publicar, Dahi o estylo meio têzo. Depois vi, que não aproveitavam a ninguem. Mando-as a você, por amizade.

[…]

As minhas alunnas do 4º ano normal – Phil. da Educ. – tiveram, no seu livro, o primeiro texto, em português, para o meu curso. A D.G. Instr. Prometteu-me mandar comprar algumas dezenas de exemplares para distribuição.

Hoje, o seu livro é um manual que deve estar nas mãos de todos os mestres. Dou-lhe, do fundo d’ alma, parabens pelo seu trabalho.”7

De fato, Anísio Teixeira escreveu um texto – hoje quase esquecido e infelizmente sem data e assinatura -, intitulado “Commentarios sobre a Introducção ao Estudo da Escola Nova”, organizado em tópicos distribuídos em dez páginas datilografadas, expondo considerações elogiosas ao livro e críticas a determinadas formulações do autor.

“Em pouco mais de 70 páginas Lourenço Filho indica a concepção nova da escola, esclarece as causas sociaes dessa transformação, as causas scientificas – biológicas e psychologicas, as causas philosophicas e com a nova theoria do conhecimento, resume a evolução do ensino de Comenius aos nossos dias, aponta as tres tendencias da psychologia scientifica e define, então, a escola nova, com precisão e clareza, sem trahir, essencialmente, a substancia de nenhum dos avanços que a philosophia, a sociologia, a psychologia e a biologia fizeram nesses ultimos tempos e que fundamentam e apoiam a desejada reconstrucção escolar por que se batem os educadores modernos.

Tudo é alli traçado com singular brevidade, mas sem que o pensamento perca com isso a sua significação ou a sua profundidade. Si quizermos pespigar um ou outro ponto, que nos pareceram menos exactos não nos seria difficil. Mas, perguntamo-nos? Até que ponto essa critica de detalhe não sera filha tão somente, de differentes inclinações do espirito do auctor ou de differentes pontos de vista.”8

Mas também houve recepções exaltadas. Mais do que um simples manual didático, Introducção ao estudo da Escola Nova suscitou debates e enfrentamentos político-ideológicos. Partilhando de um outro projeto ideológico, o intelectual católico Tristão de Athayde, após ter elaborado uma resenha minuciosa do livro, explicitou o seu julgamento critico e severo.

“Eis, em traços muito pallidos, a summula desse livro, rico em pontos de vista, dotado de abundantes informações sobre o movimento pedagógico moderno, cheio de boa vontade, e que representa a mentalidade de todos os actuaes dominadores e reformadores de nossa organização escolar. O thema é extremamente complexo, tocando nos problemas mais variados de philosophia, de sciencia, de sociologia, de moral, de psychologia, de modo que uma critica rigorosa exigiria quasi o corpo docente de uma universidade… O superficialismo do pensamento moderno quando se occupa com problemas philosophicos e sociaes, contrasta com a extrema especialização em profundidade, quando se occupa com problemas de sciencia experimental. Não ouso repetir a aventura do autor que manobra displicentemente em todas essas aguas como se fosse piloto matriculado em todas ellas. Limito-me a tomar um bote para ir ver e annotar algumas impressões pessoaes, deixando a outros mais competentes a tarefa de destruir, como merece, todo esse castello de cartas, que se apresenta com a arrogancia de um castello roqueiro.

[…]

E o sr. Lourenço Filho, escudado na pedagogia burgueza de Dewey ou Kerschensteiner, a dar-se tanto trabalho para definir o que é “escola nova” ou “escola de trabalho”… Será exactamente aquilo que o pedagogo sovietico affirma com aquelle realismo sereno que tão bem o distingue dos nossos philosophos ou pedagogos burguezes, – se não souber repudiar, em tempo, a psychologia naturalista que o sr. Lourenço Filho e seus companheiros apregôam falsamente como sendo a psychologia moderna.”9

Na 3ª edição do livro, Lourenço Filho incorporou a resenha de Paul Fauconnet, professor de Pedagogia na Sorbonne, intitulada “Um livro brasileiro sobre a Escola Nova”, publicada originariamente em um jornal paulista.10

“Esta “Introducção” é um dos melhores livros que, seja em que lingua fôr, já se tem escripto acerca da Escola Nova. O sr. Lourenço Filho, como diz no prefacio, não se propoz escrever uma obra original, mas guiar o leitor brasileiro na selva confusa dos livros e artigos que, em todo mundo, se consagram ao movimento a que chamamos de “Escola Nova”. É a exposição, voluntariamente simplificada e muito bem ordenada, das mais recentes doutrinas pedagogicas e das tentativas empiricas de sua realização. Tudo quanto é essencial ao problema ahi está exposto, e admiravelmente exposto, com uma apreciação muito justa da importancia relativa dos pedagogos estudados. O sr. Lourenço Filho sabe escolher e julgar.”11

E, já na primeira edição, o livro podia ser encontrado nas livrarias envolto em uma tarja de papel, de aproximadamente 5cm, na qual constava o seguinte juízo de autoridade:

“Livro de mestre. Não há obra que o substitua, na literatura pedagógica. Lêde-o se quizerdes ter uma visão de conjuncto, larga e profunda, da escola nova. A clareza tirou nelle a sua desforra sobre a confusão. Fernando de Azevedo.”

 

Os vários fôlegos do livro

Carreira profissional do autor em ascensão, multiplicação dos Institutos de Educação e Faculdades de Filosofia e Ciências, institucionalização crescente das ciências humanas e sobretudo apoio editorial e tradução do livro para outros idiomas 12 – fatores externos ao texto – contribuíram para a trajetória exitosa de Introducção ao estudo da Escola Nova, de Lourenço Filho, o qual reunia autoridade intelectual e capacidade didática.

O índice mais visível dessa trajetória diz respeito às inúmeras edições brasileiras com tiragens expressivas. De fato, entre 1930 e 1978, concretizaram-se 12 edições no Brasil. Mais detalhadamente, entre 1930 e 1948 ocorreram seis edições com tiragens entre 2 mil e 3 mil exemplares; as três primeiras mantiveram texto original; a 4ª e 5ª edições foram revisadas e aumentadas e a 6ª, refundida, sempre pelo autor.

Em todas essas edições, os prefácios redigidos pelo autor documentam discretamente a recepção do livro.

“Deste livro foram tiradas, em curto prazo, tres impressões dos originaes em lingua nacional. Imprimiram-se, também duas edições da versão castelhana, uma em 1933, outra no início deste annno. A somma de comentários e debates, directa ou indirectamente suscitados pela obra, e o elevado numero de citações e transcripções, já no paiz, já no estrangeiro, excederam, por outro lado, tudo a quanto pudesse aspirar o Autor. Dos trabalhos brasileiros, com referencias expressas á influencia deste livro sobre o pensamento pedagógico nacional, devem ser destacados Debates Pedagogicos, de Tristão de Atahyade; A Escola Nova, de Jonathas Serrano; Notas de Educação, de Venancio Filho; Novos rumos Educacionaes, de Paula Achilles; Philosophia. Pedagogia. Religião, de Lucio Jose dos Santos; e, mais recente, com flagrante actualidade, Escola Nova, Collectivismo e Individualismo, de Renato Jardim. Dos trabalhos estrangeiros, merece referencia toda especial a extensa obra Filosofia y nuevas orientaciones de la Educación, em que o professor A.M. Aguayo, da Universidade de Havana, concede ao autor a honra de transcripções muito seguidas e commentario sobre quasi todos os pontos que aborda…. Das apreciações criticas de educadores estrangeiros, é grato ao Autor lembrar as de Ed. Claparède, Ad. Ferrière, Paul Fauconnet, Heni Piéron, Léon Walther, Pe. Chatelain, Antonio Sergio, Fidelino de Figueiredo, B. Evangelista, A. Figueirinhas e Belisário Fernández… Este ultimo… indica o livro como uma das doze obras necessárias á cultura fundamental dos professores primários da grande Nação irmã […]”.13

Posteriormente, no período de 1961 a 1978, ocorreram outras seis edições com tiragens entre 6 mil e 3 mil exemplares. A 7ª edição (1961), revisada pelo autor, trouxe à cena um texto substancialmente modificado. A partir de então, Introdução ao estudo da Escola Nova passou a ter um subtítulo: “bases, sistemas e diretrizes da pedagogia contemporânea”14 e o formato in-oitavo (16,5cm x 23cm), como volume 2 das “Obras Completas de Lourenço Filho.” Na página de rosto, constava o seguinte dado: “Professor Emérito da Universidade do Brasil.”

“Este livro do professor Lourenço Filho, que ‘ Edições Melhoramentos’ lançou em 1929, foi a primeira obra pedagógica a despertar em nosso país a atenção do grande público, bem como a primeira no gênero, de autor brasileiro, a ser divulgada no estrangeiro, em diferentes traduções. Entre nós suscitou debates e estudos críticos, alguns dos quais em tom veemente, quer favoráveis, quer em oposição a algumas das idéias que expunha. Deu ensejo à publicação de nada menos que quatro outros livros, firmados por grandes figuras do nosso mundo intelectual. Dêsse modo, Introdução ao Estudo da Escola Nova se tornou um livro famoso, e, como recentemente veio a afirmar Alceu Amoroso Lima, ‘ um dos livros-chaves da nossa cultura contemporânea'”.15

Essa edição foi objeto de várias apreciações críticas, dentre elas, destacam-se os textos elaborados em perspectiva histórica de autoria de Dante Moreira Leite e Tristão de Athayde.

Em resenha, Dante Moreira Leite formulou a seguinte apreciação crítica:

“Não é psicologia atual que encontramos nas teorias pedagogicas atuais, mas sim uma psicologia de trinta ou cinquenta anos atrás. De forma que Lourenço Filho, ao colocar a biologia, a psicologia e a sociologia como bases de um sistema pedagogico, fica numa posição curiosa: tais bases são historicamente posteriores aos sistemas que deveriam fundamentar. Assim as teorias da inteligencia e da motivação, apresentadas por Montessori e Decroly, não são as teorias que encontramos nos manuais contemporaneos de psicologia, mas sim concepções muitas vezes fragmentarias e incapazes de resistir a uma critica mais severa de trabalhos experimentais ou de observação.

[…]

A solução encontrada por Lourenço Filho foi estabelecer certas ligações muito gerais entre os fundamentos teoricos e os sistemas de pedagogia. Essa realização é significativa, sobretudo se pensarmos no grande numero de teorias divergentes que o autor precisou reorganizar e relacionar. Todavia, é inevitavel a diluição de questões basicas, assim como o afastamento de algumas divergencias indiscutiveis entre diferentes sistemas. É suficiente recordar, por exemplo, a oposição entre a teoria da aprendizagem, suposta nos diferentes sistemas comportamentais, e a teoria do pensamento produtivo, formulada por Wertheimer, para verificar a impossibilidade de reunir interpretações antagonicas. Além disso, ao tentar mostrar os pontos de convergencia e não as oposições, Lourenço Filho diminui o alcance das teorias realmente revolucionarias, tais como a psicanalise, na psicologia, ou o marxismo, na sociologia e na filosofia. Não se trata, evidentemente, de desejar que o autor aceitasse Freud ou Marx, mas que propusesse, integralmente, as questões supostas por tais teorias.”16

Tristão de Athayde, por sua vez, velho opositor do chamado “movimento da escola nova”, manifestou novamente, agora em outro registro, suas considerações a respeito de Introdução ao estudo da Escola Nova: bases, sistemas e diretrizes da pedagogia contemporânea, em dois artigos publicados na imprensa carioca: “A escola nova” e “O livro nôvo”.17

“Raros são aqueles que compreendem a veleidade de publicar muitos livros. Uma vez lançado o primeiro à publicidade, a môsca azul nos persegue… E, no entanto, felizes os autores de que se relê, ao menos um livro – o Candide, de Voltaire; o Werther, de Goethe; o Hamlet, de Shakespeare

[…]

Entre nós, temos na poesia moderna o belo exemplo de Manuel Bandeira, que tem apenas um livro de versos, aumentado sempre em cada nova edição. O caso de Lourenço Filho ainda é outro. E ainda mais raro. Aquêle de 1929, a que ontem nos referiamos, se converteu em obra clássica da pedagogia moderna no Brasil, e, no entanto, o seu autor, que poderia tê-lo deixado em sua estrutura original, lançando outros livros ao mercado – ao chegar à sétima edição do seu livro de estréia, nos apresenta o mesmo livro e, ao mesmo tempo, uma obra completamente renovada! Teve o cuidado beneditino de reescrever tôda a obra. De dar-lhe nôvo feitio, nova estrutura, nôvo estilo, conservando, entretanto seus fundamentos e suas vigas mestras. É um livro nôvo, continuando entretanto a ser o mesmo livro, que lhe dera renome nacional e internacional, e ficou sendo, mesmo em sua estrutura inicial, um dos livros chaves de nossa literatura moderna.”18

 

Um livro fundador

Já a partir da primeira edição, Introducção ao estudo da Escola Nova passou a influenciar de forma duradoura a produção bibliográfica envolvida com a inovação pedagógica, tornando-se referência necessária nos debates educacionais: espécie de bússola de um movimento de idéias em ascensão, posteriormente denominado “movimento da Escola Nova”, protagonizado por intelectuais pertencentes a uma mesma geração que partilhavam entre si um conjunto de temas e teses educacionais concernentes à realidade vivida. Tais intelectuais – denominados ironicamente por Tristão de Athayde de “pedagogos modernos” – almejavam desprovincianizar a educação e a cultura brasileiras, e partilhar da experiência excitante colocada pelo momento histórico que procurava superar o “Brasil velho” e instaurar o “Brasil novo”.

Lourenço Filho, por sua vez, ao combinar análise educacional e análise social, produziu um livro que foi mais além das questões estritamente educacionais, contribuindo para a difusão de uma certa pedagogia social tão cara a uma determinada linhagem de intelectuais. Livro demiurgo e que fez história, em decorrência de sua longa permanência na cena cultural, é também um livro fundador da moderna tradição pedagógica brasileira.

 

Notas

1 Lourenço Filho, Manoel Bergström. A escola nova (resposta a um inquérito). São Paulo: Melhoramentos, 1927.         [ Links ]
2 Lourenço Filho, Manoel Bergström. A Escola Nova, Jornal do commercio, Rio de Janeiro, 6 maio 1928, p. 3.         [ Links ]
3 VENANCIO FILHO, Francisco. Introducção ao estudo da Escola Nova – Lourenço Filho – Bibliotheca de Educação, vol. XI – Companhia Melhoramentos de S. Paulo – 1930.
In: ___ Notas de educação. Rio de Janeiro: Calvino Filho, 1933, p. 13-14.
4 Lourenço Filho, Manoel Bergstrom. Prefácio. In:___. Introducção ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Melhoramentos, 1930, p. 9-10.
5 Lourenço Filho, Manoel Bergström, op. cit., p. 11.
6 Venancio Filho, Francisco, op. cit., p. 15.
7 Anísio Teixeira. Carta a Lourenço Filho (22-08-1930); Arquivo Lourenço Filho. Série Correspondência, LFc [30/31]05.15. FGV-CPDOC.
8 Teixeira, Anísio S. “Commentarios sobre a Introducção ao Estudo da Escola Nova”, Arquivo Anísio Teixeira, Série Produção Intelectual. CPDOD-FGV.
9 Athayde, Tristão de. Debates pedagógicos. Rio de Janeiro: Schmidt, Editor, 1931, p. 150 e ss.         [ Links ]
10 Fauconnet, Paul. Um livro brasileiro sobre a Escola Nova. O Estado de S.Paulo. São Paulo, 11 de nov. 1930.         [ Links ]
11 Fauconnet, Paul. Um livro brasileiro sobre a Escola Nova. In: Lourenço Filho, Manoel Bergström. Introducção ao estudo da Escola Nova. 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1933, p. IX.
12 Lourenço Filho, Manoel Bergström. La Escuela Nueva Trad. de Enrique de Leguina. Barcelona: Labor, 1933 235p; e Lourenço Filho, Manoel Bergström. Introducción al estudo de la Escuela Nueva. Buenos Aires: Kapeluz, 1964.         [ Links ]
13 Lourenço Filho, Manoel Bergström. Prefácio da 4ª ed. In: ___ Introducção ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Melhoramentos, 1937, p. VI-VII.
14 Lourenço Filho, Manoel Bergström. Introducção ao estudo da Escola Nova. São Paulo: bases, sistemas e diretrizes da pedagogia contemporânea. 7ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1961. 266 p. il.         [ Links ]
15 Edições Melhoramentos. In: Lourenço Filho, Manoel Bergström. Introducção ao estudo da Escola Nova. São Paulo: Melhoramentos, p. 11
16 Leite Dante Moreira. Resenha Bibliográfica”. O Estado de S.Paulo. São Paulo, 7 jul. 1962, p. 2.         [ Links ]
17 Athayde, Tristão de. A escola nova e O livro nôvo. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 17 e 18 ago. 1961.         [ Links ]
18 Athayde, Tristão de. O livro nôvo. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 18 ago. 1961.         [ Links ]

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