Samba da Benção

José Horta Manzano*

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 maio 2016 e no blog BrasilDeLonge.

Ninguém nasceu sabendo. Geração espontânea, só em ficção científica. Ao nascer, trazemos apenas as sementes do que poderá ser. A germinação depende de muitos fatores. O ser humano é produto dos que o antecederam e contribuíram para gerá-lo. O mesmo vale para coisas e fatos. Toda situação descende de uma fieira de acontecimentos que a precederam e que acabaram por provocá-la.

A ingratidão é defeito muito sério. Convém reconhecer e guardar apreço por tudo e por todos os que contribuíram para uma chegada a bom porto. O distinto leitor há de ter na memória o Samba da Bênção, fruto de feliz parceria. Nasceu em 1963, num lampejo genial de Vinícius de Morais e Baden Powell. O primeiro escreveu, o segundo musicou.

Baden e ViniciusO miolo da composição encerra longa declamação, popularizada na voz do poeta diplomata, que saúda e pede a bênção a predecessores e mestres antigos, sem os quais a obra nunca teria existido. É excelente exemplo de gratidão e de reconhecimento.

Nosso país vive um momento grave, desses que não advêm mais que uma ou duas vezes a cada século. Por obra da evolução tecnológica, a tevê já não se resume a exibir novelas pra contentar o bom povo. Tampouco o telefone se limita a bate-papos. Ambos desenvolveram capacidades nunca dantes sonhadas. Informam e formam uma população cada dia mais politizada. O caminho é sem volta.

A nova mídia, impiedosa e voraz, transpassa barreiras antes intransponíveis e respinga até em grotões. Em poucos minutos, redes sociais atingem um contingente de brasileiros que nem mil dos antigos comícios conseguiriam alcançar. Hoje, todos sabem de tudo e já começam a se inteirar dos comos e dos porquês da coisa pública. As descobertas nem sempre são agradáveis. De vez em quando, alguma coisa boa até que aparece. Mas, convenhamos, em matéria de gestão do Estado, a aspereza das notícias espanta. A cada vez, a gente acha que bateu no fundo do poço, mas o dia seguinte se encarrega de adiar o sonho: o fundo é sempre mais fundo.

Nem tudo é miséria, no entanto. Vamos olhar para o lado bom das coisas. Vamos fazer como Baden e Vinícius. Saudemos os arautos dos novos tempos.

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Primeiro, vamos saudar a evolução da mídia, sem a qual ainda estaríamos imersos nas trevas. Pedimos a bênção também à inflação devorante que nos martirizou até vinte anos atrás. Sem ela, não saberíamos dar valor à estabilidade que nos acariciou até um passado assaz recente.

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E que dizer, então, do incomparável «coup de théâtre» de Roberto Jefferson, raio em céu sereno, gesto sem o qual a tevê teria continuado, modorrenta, a transmitir novelas e amenidades? Sua bênção, companheiro!

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Também hão de nos conceder bênção os guerreiros do povo brasileiro! Não fosse a ação ousada e altruísta daquela gente visivelmente desapegada de bens materiais, a pátria estaria ainda à espera de uma hipotética passionária.

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Homens destemidos, punho levantado diante da adversidade, que imagem mais linda! Aprendemos muito com eles. Terão nossa eterna gratidão.

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E como ficam os grandes empreiteiros? O trabalho beneditino, discreto e continuado desses visionários foi componente pra lá de importante pra nos conduzir aonde chegamos. Hão de deixar rastro indelével. Sua bênção, companheiros!

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Graças especiais temos de render a nossa presidente hoje afastada, mulher de pulso, que, contra ventos e marés, levou ao paroxismo a doutrina recebida de seu patrono. Não fosse por seu encarniçamento, o Brasil nunca teria chegado aonde chegou. Sua bênção, mãe e madrinha!

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Deixei para o fim o mais importante, o guia maior, ironicamente base e topo da mesma pirâmide. Em trinta anos de ascensão, transformou-se em catalisador. Agregou gente fina, outros nem tanto. Em sua órbita gravitaram muitos: este em busca de fama, aquele à cata de fortuna, uns querendo um trampolim, outros certos de que o poder do chefe lhes garantiria proteção eficaz e eterna. Por um tempo, cada um imaginou ter encontrado o caminho das pedras. Saravá!

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A todos os que mencionei ‒ e aos milhares que a exiguidade do espaço me impede de nomear ‒, peço a bênção. Podem todos eles orgulhar-se de nos ter ensinado o que fazer. E, principalmente, o que não fazer.

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Vaticinam as profecias que, antes que a Grande Transformação venha conjurar a mediocridade, há que surgir monstros. Está aí o sinal dos novos tempos: um festival de monstros e de monstruosidades ‒ só não vê quem não quer. Que os cidadãos de bem retenham a lição, antes que este Samba da Bênção se converta em Samba do Cruz-credo.

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*escritor e caetanista, braço direita desta que o publica.

(quadros de Francisco Goya, retirados na Net)
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