MARIA ROSA SOUZA PINHEIRO, personalidade caetanista.

Maria Rosa Sousa Pinheiro

1908 – 2002

 

Personalidade marcante

 

Maria Rosa Sousa Pinheiro

1908 – 2002

 

Personalidade marcante

 

 por Vitoria Secaf e Hebe C. Boa-Viagem A. Costa

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Um livro, comemorando o 80º aniversário de Maria Rosa Sousa Pinheiro, reuniu um número significativo de depoimentos de pessoas que com ela conviveram ao longo de sua vida. Diante da riqueza de dados a organizadora deles(Hebe Costa; nota minha) deu-lhe o seguinte  título: Personalidade marcante. Nada mais apropriado! Eis a história de Maria Rosa:

Nasceu em Araraquara (SP) em 14 de dezembro de 1908. Depois dela nasceram seus irmãos:  uma menina e quatro meninos. Ainda pequena, passou a morar com avó, em São Paulo. Morávamos  na rua Conselheiro Furtado. Naquela casa espaçosa  éramos três mulheres com o mesmo nome Maria Rosa: vovó, uma empregada e eu. Nesse ambiente, sem a companhia dos irmãos, desenvolveu o hábito de leitura. Era um modo de compensar a solidão e, em contrapartida, tomou conhecimento da literatura portuguesa, francesa e inglesa.

Cursou a Escola Normal da Praça da República (SP) e o Instituto de Higiene onde, em1930, concluiu o curso de Educadores Sanitários. Ao terminar seus estudos na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP – Línguas Neo-Latinas (1937) – dispunha-se a lecionar Português e Francês. Era, nessa ocasião, Educadora – Chefe  do Instituto de Higiene (SP).

Ao lado do recém criado Hospital das Clinicas, a Fundação Rockefeller e o Governo Estado visavam criar uma Escola de Enfermagem e, para tanto, precisavam de um grupo de enfermeiras capacitadas. O Dr. Geraldo Horacio Paula Souza, diretor do Instituto de Higiene, convidou Maria Rosa e Zilda Carvalho para fazerem o curso superior de Enfermagem no exterior e, simultaneamente, pediu a elas que indicassem outras jovens para as bolsas de estudos que a Fundação Rockefeller estava oferecendo. Das candidatas, além da formação pedagógica e atuação na área da saúde, os requisitos exigidos eram: inteligência e “ linha”.

De início ela resistiu alegando que seu  inglês não era  fluente para estudar fora do país e, também, não desejar deixar o cargo que ocupava. Mas seu chefe insistiu e ela acabou aceitando. Mais tarde fez o seguinte comentário: Paula Souza era o melhor amigo do mundo e o pior inimigo também, com as pessoas de que gostava.

Em setembro de 1940 ela e Zilda foram fazer o curso de Enfermagem Geral e Enfermagem de Saúde Pública I e II na Universidade de Toronto, Canadá e lá permaneceram até 1943. As dificuldades antes existentes, gradativamente, desapareceram e bons resultados foram acontecendo. Essa vivência no exterior lhe abriu as portas para um mundo novo: o gosto por viajar, adquirir e divulgar conhecimentos.

Ao longo de sua trajetória  fez muitos cursos no exterior. Em 1947/48  uma nova bolsa lhe foi oferecida  pelo Instituto de Assuntos Interamericanos, na Universidade de Columbia, para fazer   pós –graduação, onde obteve o grau de Mestre. Em 1960 voltou aos Estados Unidos e Canadá, com bolsa de estudos da Fundação Kellogg, para observar escolas de enfermagem e hospitais de universidades americanas e canadenses. Outras vezes viajou para participar de reuniões da OMS – Comissão de Peritos em Enfermagem em Genebra (1951), em Londres (1954) e em Genebra (1968). Atuou também como Consultora de Enfermagem em diversas ocasiões: para orientar a criação de uma Escola de Pós-Graduação em Lisboa, Portugal; na Organização Pan Americana  de Saúde  sobre cursos de pós graduação em Enfermagem na América Latina,Washington,1973.

Com toda essa bagagem de conhecimentos participou de muitas comissões, indicada pelo Ministério de Educação e Saúde e também pelo Governo do Estado de São Paulo, para estudo dos problemas de Enfermagem no Brasil.

Ao retornar  da sua primeira viagem de estudos no Canadá, Maria Rosa foi designada vice-diretora da Escola de Enfermagem da USP; de 1951 à 1955 exerceu o cargo de diretora do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) no Rio de Janeiro e, depois, de 1956 à 1978, foi Diretora da EEUSP.

Outras atividades foram por ela desenvolvidas. O seu interesse pela ABEn , pois a considerava importante instrumento para o desenvolvimento da profissão, foi significativo. Desde o início de sua vida profissional colaborou efetivamente com a associação. Em 1947 ajudou a organizar o  I Congresso Brasileiro de Enfermagem  e, em 1953, contribuiu na organização do X Congresso Quadrienal do Conselho Internacional  de Enfermagem, realizado no Rio de Janeiro.  Maria Rosa foi presidente da ABEn por dois mandatos.  A  Revista Brasileira de Enfermagem também pode contar com seu total apoio ressaltando a importância na divulgação  das conquistas e das dificuldades da enfermagem no Brasil e, ainda, que era um instrumento que permitiria unir a classe.

O Levantamento de Recursos e Necessidades de Enfermagem no Brasil  (1956-1958), estudo presidido  por Maria Rosa com a participação de Haydee Guanais Dourado*, Zilda Carvalho Hughes e as irmãs Verderese*, foi marco da  geração Pioneira de pesquisadoras enfermeiras  e, também, básico  à formação da comunidade científica de enfermagem. Anísio Teixeira, então Ministro da Educação, reconhecendo o valor desse trabalho, congratulou-se com a ABEn e disse para Maria Rosa:  eu só lamento a educação não ter um grupo como este de enfermeiras.

Esse estudo abrangeu cinco áreas: enfermeiros em atividade e inativos; enfermagem hospitalar; enfermagem de saúde pública, escolas de enfermagem e escolas de auxiliar de enfermagem.

O relatório preliminar  da pesquisa  foi apresentado, em 1958, no Seminário Didático Internacional sobre o Levantamentos de Enfermagem, em  Salvador, Bahia . Durante o XI Congresso Brasileiro de Enfermagem, realizado em Recife (1958), foram apresentados  os dados principais desse estudo com 46 recomendações dirigidas ao Ministério da Educação, ao Ministério da Saúde, às universidades e legisladores, aos serviços de enfermagem em unidades sanitárias hospitalares, à Confederação dos Religiosos do Brasil, à instituições que  mantinham escolas de enfermagem, as próprias escolas de enfermagem e de auxiliares de enfermagem e à ABEn. A repercussão desse trabalho foi significativa não só no Brasil como também em outros países.

Maria Rosa distinguiu-se como membro do Conselho Federal de Enfermagem (1971//1978) e por ter exercido a presidência desse órgão  (1975/1977).

Toda essa atividade, adquirindo novos conhecimentos e os divulgando, não a impediu de viajar, visitar novos lugares. Suas viagens foram tantas que, somadas, corresponderiam a duas voltas ao mundo. A África também fez parte do seu roteiro: Moçambique, Quênia, Etiópia, África do Sul,  Egito e Marrocos.

Aposentou-se em1978 depois de exercer, durante 23 anos,  a direção da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.Entretanto continuou  a colaborar com aEscola em diversas situações. Contribuiu ativamente no Conselho Editorial da Revista  da EEUSP:  lia e fazia  a correção final dos artigos publicados por docentes enfermeiros, que ganhavam  linguagem correta,  concisão  e clareza.

Ninguém  melhor para descrever   essa Personalidade marcante  do que o depoimento das pessoas que com ela conviveram. Eis alguns deles:

Yolanda Lindenberg Lima que junto com Miss Mary Elisabeth Tennant entrevistaram as candidatas a bolsa de estudos, a primeira que Maria Rosa concorreu;

Conheci Maria Rosa atuando no Centro de Saúde de São Paulo, numa primeira etapa, depois ouvindo e gravando a análise  das suas qualificações como candidata a bolsa de estudos. Reunia ela ( …)  excelente conjunto de quesitos. Além de ser formada em letras pela Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras, apresentava uma educação global completa: escolaridade, conhecimento e habilidade em línguas, artes, etc. Sua personalidade foi apreciada sob ética da perita e exigente assessora, bem como de seus inequívocos traços de caráter. E socialmente, como era Maria Rosa? Fácil relacionamento, sensível, inteligente, observadora,  feminina, discreta, cujos princípios e valores fazem-na uma pessoa diferenciada.

Anos mais tarde, um novo encontro e depois outros confirmaram essa primeira impressão.

… mais uma oportunidade de nos conhecermos e de sentirmos a pessoa de  convívio agradável que era ela. Partilhávamos  os comentários  sobre os lugares visitados com outros casos, anedotas, acabando sempre com boas risadas. (…) Nas reuniões festivas, saibam todos: abria-se ampla roda para ver Maria Rosa e seu par, dançando o tango como ninguém: graça e leveza, sem quebrar o ritmo!

Entre tantos, mais um depoimento sobre Maria Rosa. Haydee Guanais Dourado* que a conheceu em Toronto onde estudavam quatro brasileiras: Maria Rosa, Glete de Alcântara*, Zilda Carvalho e Lucia Jardim:

A bondade e a sensatez da primeira muito nos ajudou no crescimento como pessoas que todas lograram ser. (…) Ela reúne um conjunto de qualidades que a tornaram a pessoa de quem o País necessitava, no importante movimento, que se iniciou em 1923, para ter uma enfermagem moderna.

Ao ler os outros depoimentos da coletânea  Maria Rosa, uma personalidade  marcante  sente-se, de imediato, que realmente estamos falando de uma líder inconteste. Felizes foram os que puderam com ela conviver!

Maria Rosa faleceu em São Paulo em 21 de junho de 2002

 

Homenagens:

 

  • Medalha com a efígie de Florence Nighthingale -1963

 

  • Cidadã Benemérita – título concedido pelo Município de Araraquara , SP, 1965;
  • Enfermeira do Ano de 1969 – prêmio concedido pela Johnson e Johnson  (fez doação integral à ABEn da quantia em dinheiro);
  • Award for Distinguished Achievement in Nursing Education – título concedido   pela Associação de Ex-Alunos ,Divisão de Enfermagem, Teachers College, Columbia University, New York, EUA, 1969;
  • Sócia Honorária – título concedido pela Associação Brasileira de Enfermagem, 1969;
  • Enfermeira Paulista – prêmio concedido pela Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo do Estado de São Paulo, 1970;
  • Diploma de Honra ao Mérito – concedido pela Associação Brasileira de Enfermagem, 1970;
  • Medalha de Honra ao Mérito – conferida pelo Conselho Federal de Enfermagem, 1983;
  • ABEn-SP – A Revista Paulista de Enfermagem, ao ser criada em 1981,  lhe rendeu homenagem  com uma entrevista e foto na capa;
  • Personalidade Marcante – Coletânea de depoimentos das pessoas que com ela conviveram, organizado por Victoria Secaf, em homenagem aos seus 80 anos – (livro não publicado, apenas mimeografado) 1988.

 

Algumas de suas Publicações:

  • PINHEIRO, M.R.S. Problemas de enfermagem no Brasil,do ponto de vista da enfermeira – Anais de Enfermagem, 4(4):278-298 out. 1951 e Rev.  Paul. Med. 39 (3): 278 -291,set. 1951;
  • ________________ – A inclusão da Pedagogia , supervisão  e administração no currículo das Escolas de Enfermagem – Anais de Enfermagem, 5(4):319-333, out. 1952;
  • _______________  – A Enfermagem  no Brasil e em São Paulo – Rev. Bras. Enf., 15 (5): 432-478, out., 1962;
  • ________________  – Histórico da Escola de Enfermagem  da USP – Rev. Esc. Enf. USP  1 (1): 3-34, set., 1967;
  • _______________ – Considerações sobre a carga horária do Curso de Graduação em Enfermagem – Rev. Esc. Enf. USP  2 (1): 9 – 17, mar,  1968;
  • _________________ – Currículo Experimental – Rev. Esc. Enf. USP 3(1): 21 -36 mar., 1969;
  • _________________ – Aplicação do novo currículo mínimo ao Curso de Graduação da Escola de Enfermagem da USP – Rev. Bras. Enf., 26(4) (5): 293-307, jul/set., 1973;
  • PINHEIRO, M.R.S – O Ministério da Saúde e a enfermagem /Editorial/- Rev. Esc. Enf. Da USP – v.12, n.2, p.75-6, 1978;
  • _______________ – Legislação do exercício de enfermagem/ Editorial/ –  Rev. Esc. Enf. Da USP – v.12, n.3, p. 145-6, 1978;

 

Bibliografia

  • BRANDÃO, E. M. – A Formação do Campo Científico  de Enfermagem no Brasil: Sociologia da Geração de Pesquisadoras Pioneiras – 1935 – 1958 – Rio de Janeiro, julho / 1999;
  • CARVALHO, Anayde Corrêa de. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENFERMAGEM  1926 – 1976 – Documentário . Rio de Janeiro, Folha Carioca Editora S.A. 1976;  
  • CARVALHO, Amália Corrêa – Escola de Enfermagem  da Universidade de São Paulo – Resumo Histórico – 1942 -1980 – São Paulo, 1980;
  • CASTRO, Marize – Levantamento de Recursos e Necessidades de Enfermagem no Brasil – Jornal da Associação Brasileira de Enfermagem  –   Brasília/DF, Ano 26, n.4, out.nov.dez, 1004;
  • CURRICULUM VITAE – Maria Rosa Sousa Pinheiro – maio – 1988
  • LUCRECIO Jr , Francisco  – Dona Maria Rosa –  Revista Paulista de Enfermagem, São Paulo, n.1,julho/agosto, 1981;
  • OGUISSO, T. – Tributo a grande líder Maria Rosa Sousa Pinheiro /Editorial/  Revista Paulista de Enfermagem, São Paulo, v.21,  n.2,113-4, 2002;
  • SECAF, V. – Maria Rosa- Personalidade marcante –  Rev. Esc. Enf. USP – São Paulo,22 (3) -255, dez. 1988;

 

  • SECAF, V – COSTA, Hebe Boa-Viagem  Enfermeiras do Brasil – História das Pioneiras – Martinari, São Paulo, 2007
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