O QUE VOCÊ DEIXOU DE SER? Quem pergunta é o “Jony” Castanhari Jr.

O QUE VOCÊ DEIXOU DE SER?

Sem título-1Houve um tempo em que se você perguntasse a uma criança o que ela gostaria de ser quando crescer, o menino responderia “astronauta” e a menina “bailarina”. Mas tinha os que respondiam “jogador de futebol”, “professora”, “médico”, e com o passar dos anos, os desejos acompanharam os modismos, cresceram junto com as ambições, ainda pueris, apoiadas nos ideais que se perdem com o amadurecer. Passou a ter quem queria ser “cantor de rock”, “ator de novela”, “bombeiro”, “jogadora de vôlei” e agora, certamente alguma criança pode responder “cantor de rap”.
Se perguntassem para o Romeu ele certamente diria que gostaria de ser aquele que acorda todo dia ao lado de sua Julieta.
E depois que cresceu, o que você deixou de ser?
Jony estava se fazendo exatamente essa pergunta ao acordar e sentar na cama, com a mão esfregando a testa, antes de levantar. A pergunta o pegou desprevenido, ou foi o chão frio da queda de temperatura no outono. A verdade é que ele voltou rapidamente para debaixo do edredom e ficou olhando para o teto, pensando.
Seu sonho ainda estava presente em sua mente, a tia perguntando o que ele queria ser quando crescesse, e ele respondendo “médico”. Ele nunca estudou para medicina, aliás, não podia ver sangue. E a imagem dele menino respondendo para a tia continuava a cutucar seu pensamento.
“Médico? Como pude responder isso? O que eu fiz da minha vida, dos meus anseios, dos meus planos? ”
Um profundo balanço de sua linha do tempo teve início. Sua carreira de jornalista, as empresas onde trabalhou, sua rebeldia frente às modernidades tecnológicas, a idade restringindo sua permanência nas redações, o mercado de trabalho em queda, a necessidade de se sujeitar ao que era oferecido, a maratona de correr atrás do rabo, a obrigação de passar a apenas apagar incêndio (nunca quis ser bombeiro quando criança), a falta de perspectivas e a necessidade de se reinventar para não morrer.
“Eu errei? Onde? Eu queria ser médico? Fiz as escolhas certas? Fiz o que tinha que fazer, o que eu queria ou o que outros queriam? Sempre fui tão seguro, focado, dedicado e, no fim, estou colhendo o que plantei? ”
Quando criança, idealizamos “o ser” sem se importar com “o como”, apenas queremos. E enquanto crescemos, nos moldamos ao que se impõe e não ao que idealizamos. E muitos de nós acabam por ficar na dúvida se chegamos onde deveríamos chegar. Se escolhemos o melhor para escolher. Se deixamos de ser o que não podia ser deixado.
Mas afinal, o que você deixou de ser quando cresceu?
“Paciente, confiante, destemido, inocente, precavido, orgulhoso, magro? ”
Certamente, a gente deveria permanecer de mãos dadas com a nossa criança enquanto trilhamos esse caminho penoso de nos tornarmos adultos, cheio de cobranças, compromissos, obrigações, horários, responsabilidades. E assim, garantir o abrigo da esperança, liberdade, otimismo, de brincar com a vida quando a coisa aperta.
A gente pode deixar de ser muita coisa quando cresce, mas nunca de ser criança.

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