Renato Castanhari Jr. pergunta: “O QUE SEU FILHO DEIXA DE FAZER?”

O QUE SEU FILHO DEIXA DE FAZER?

2016 Kids smUm mero giz branco ou uma bolinha de vidro. Podia ser também uma simples corda ou aquela bola de meia recheada com papel de jornal. Era o bastante para passar algumas horas brincando de passar o tempo, sem se preocupar com a bateria ou o sinal de internet. No fundo, o brinquedo não importava, valia estar em grupo, com os amigos ao vivo, tocando, correndo, fugindo, pulando, rindo, provocando, chorando, suando, vivendo.
A mensagem era dada pessoalmente, sem #hashtag nem carinhas com expressões de surpresa, alegria, tristeza, vergonha.
Pião, peteca, cobra cega, amarelinha ou videogame, whatsapp, TV, instagram?
Impossível bloquear a tecnologia e tudo mais que se entende por avanços, mas não dá para deixar de pensar no que as crianças de hoje deixam de fazer para viver.
Conviver com as mudanças, a evolução, é uma imposição que não permite debate, a coisa pega é na dose, como em tudo que anda desequilibrando nossas vidas ultimamente.
Não dá mais para nossos filhos, ou netos, passarem a manhã brincando de passa anel, assim como não dá para eles passarem o dia sem saber se está chovendo ou fazendo sol lá fora.
Não é porque é novo que é ruim, assim como não é porque é antigo que é bom.
Essa mesma fantástica tecnologia que nos permites acessos nunca antes tão fáceis e abundantes nos isola e nos agrupa virtualmente, sem contato pessoal, sem cheiro nem mãos dadas, sem abraços ou olhares. Uma cumplicidade distante e solitária, sem calor humano, com segurança sem graça.
A insegurança das ruas e praças, o vento e sol ou chuva pela frieza das telas em seus quartos. As calorias gastas nos pedais, bolas ou cordas pela obesidade generalizada e estática. Os contatos físicos que confrontam, equilibram, exercitam a emoção, a sociabilidade e conflitos pelas fobias, ansiedades, carências individuais e seguras. E assim, eles crescem à base de trocas.
O toque pelo mouse. O natural pela tela. O real pelo virtual. A liberdade pela agenda.
Ser criança é fazer coisa de criança. Sem intermediários, sem interfaces, “ao vivo e a cores”, como os grãos de areia escorrendo pelos dedos no castelo da praia, feito pelas digitais, sem digitar.
Aos pais e avós, que esfolaram o joelho no quintal, na calçada, que caíram da árvore, pularam sela, que saiam de casa sem a mãe saber para onde, resta ceder sem esquecer, permitir sem distanciar, orientar sem bloquear. Buscar pescar o melhor nesse mar de opções, resgatar a vida que ainda vale do ontem para permanecer valendo no amanhã da tecnologia cada vez mais inovadora. Ministrar a dose diária de toques e dígitos, de pulos e telas, mais saudável e necessária para um crescimento real e não virtual.
Para os seus filhos ou netos se integrarem no hoje sadios e humanos como no ontem.
Para os seus filhos ou netos não lamentarem, ao crescer, pelo o que deixaram de fazer, mesmo que lamentem o que deixaram de ser.

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2 respostas para Renato Castanhari Jr. pergunta: “O QUE SEU FILHO DEIXA DE FAZER?”

  1. Clarisa Serricchio Cozzolino disse:

    Sabemos do ontem como ninguém. Entendemos o hoje, mas como será o amanhã? Maravilhoso o seu texto, tantas boas recordações!

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