wilma legris; crônica.

Crônica de uma noitada.

 

O menininho loiro, seu cão “Snoopy” e a mãe estrangeira…

Aquela senhora  além de ter menos de um metro não pode caminhar perfeitamente; o  casal, presumivelmente rico,  rouba a cadeira do rapaz que se levantou para pegar o programa; a jovem espinhenta  lê Sartre; o  rapaz de terno preto transita no meio de um calor mediterrâneo.

O velho chic usando um blaiser vermelho que acentua seu rosto bronzeado e os cabelos brancos; a garota que não pára de se chacoalhar; a família que come sanduíches orientais; o grupo reunido distribuindo folhas com letras impressas; os estudantes da Sorbonne que fumam cigarros artesanais; aquela moça linda que tem um foulard azul pôsto como bandô; aquela outra, muçulmana, toda de preto, que saiu da estação de metrô sem entender nada.

O garçom do Café ganhou muita gorjeta; o  patrão do restaurante  serviu batata frita em óleo saturado.

Jovens compositores que fazem um rapp social lúcido e desmoralizante; o  desempregado escuta com atenção porque “é com ele”.

Desastre! Algumas crianças com bombas spray para fazer (des)arte de rua. Um grupo de artistas que faz street art de verdade; o dono da galeria que sabe que vai vender os posters de Sheparde Fairey.

O deputado vaidoso  passa e sorri para quem o reconhece; as garotas suburbanas  atacam uma música pop, sonhando com o empresário que vai descobri-las; um doente mental completamente alucinado, dança; um outro completamente alucinado com cocaína,  desce a rua feliz da vida com a sua guitarra; a velhinha desgarrada e descarada  pede um cigarro à vizinha; a vizinha da vizinha, avizinhando 70 anos, molda seu esqueleto com uma roupa agarrada que revela seu púbis; o marido dela parece satisfeito.

Meu marido andando por todas as ruelas; gente batendo palmas conforme o ritmo; os restaurantes e bares lotados; o tempo é chove-não-chove, chove-não molha, não trepa e não sai de cima.

Todos os apartamentos andam vazios, com os moradores na rua; um cinquetão de paletó carmim, brinco na orelha, canta; o velhinho na cadeira de rodas imita o regente; o gerente do banco tira a gravata.

Um jovem casal francês com um bebê recém-nascido, dançando; o bebê preso ao peito da mãe com o xale, dorme profundamente, “não está nem aí” !

Um pai tocando teclado, a mãe distribuindo as letras e o povo cantando; um garoto de vinte anos que sabe todas as letras de cor; alguns estrangeiros boquiabertos; o gatuno simpático, preso com a boca na botija porque roubou um maço de cigarros; alguns bêbados tropeçam na calçada.

Quatro caixas de pizza empilhadas pelo chefe do bando, cobrem-lhe a cara; uma velha solitária, com cara de artista, fuma um cigarro eletrônico; outra idosa vestida como uma hippie dos anos 60, passa.

 Eric Orsenna  resolveu sair do bairro e não foi visto na rua.

O médico passando apressado com sua maletaobserva a menina que chacoalhava, dançando feito doida; o doido que dançava, sentou-se no banco sossegado; meu marido bate palmas; o marido da outra continua olhando para a garota de azul; eu também!

As luzes se acendendo pelas dez horas; vê-se menos crianças nas ruas; os músicos atacam uma “bóia” sem graça.

Ninguém fazendo xixi na rua; o homem  joga a bituca do cigarro no chão e logo a cata; acatar a lei é melhor que pagar multa!

O grupo jantado ataca um jazz; a moça do saxofone faz um solo. Não sei se cantam sexo ou saxe; milagrs: hoje ninguém falando ao telefone!

Caramba! Quanta cerveja!

Um casal sexagenário passa em patinete; o ônibus passa vazio; o vazio da semana continua cheio nesta terça-feira; Jack Lang dorme aurealodo porque foi ele quem inventou tudo isso.

O garçom não cobra a batata imunda que serviu à mesa ao lado; ele estará frito!

Ôba! Tem cheiro de maconha no ar.

Puxa! Não vi ninguém brigando.

Voltamos para casa lá pra meia-noite: ontem foi a festa da música!

 

La Boutte-aux Cailles, Paris 13, 22 de junho de 2016.

wilma.

(texto recém-corrigido por uma escritora apressada)

         

http://www.lucianopignataro.it/a/parigi-piccola-guida-della-butte-aux-cailles-13%C2%B0-arrondissement/10284/

 

(CristinaHomemdeMello 3 fotos)Afficher l'image d'origine

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2 respostas para wilma legris; crônica.

  1. msuplicy disse:

    Wilma, gostei muito do seu texto. Estranhamente ficou na minha cabeça a palavra “féerie” que é a que mais se associa com Paris, para mim.

  2. o ferry é a balsa que atravessa o Canal.
    Meu marido achou que o meu texto é superficial; assim que tiver inspiraçéao vou melhora-lo.
    bj!

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