wilma legris; crônica. – “BREXIT”

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“Antes de tudo a União Européia é uma ideia, muito mais que um projeto comercial”;  disse hoje presidente da França, François Holande, em decorrência da saída Grã-Bretanha do clube dos 28.

Entre a ideia de “ideia” e “livre circulação de europeus e de mercadorias européias”, podemos dizer que bem ou mal avançamos nesses últimos anos.

Para o bem da verdade, é vísivel que a Comunidade Européia não permitiu a todos os seus membros uma qualidade de vida igualitária e um desenvolvimento harmonioso que elevassem as perspectivas de bem-estar do cotidiano, distribuindo nutrição, saúde, trabalho, educação de alto nível para todos; o salário mínimo é “mais mínimo” nas terras do leste europeu, porque aqui todos são iguais embora uns sejam mais iguais que outros!

Se assim não fôsse, os poloneses não precisariam sair do seu país natal para fazer um trabalho de recolta no Reino Unido com remuneração inferior àquela dos autóctones; nem viriam para a França para realizar obras na construção civil, ou  atividades artesanais mais ou menos como trabalhadores clandestinos; de mesmo, os romenos teriam ficado em casa em vez de irem trabalhar nos matadouros alemães, recebendo menos que o povo germânico dali ou, sendo médicos especializados aqui na França, recebendo salário cortado em dois em relação ao que é pago ao doutor francês com os mesmos anos de estudo e a mesma especialização.

As enfermeiras espanholas, quiçá preferissem o ambiente mais convivial e caloroso da Espanha se pudessem lá ter um pagamento decente, embora aqui valham 50% menos que suas colegas francesas… e ingleses ignorados pelo poder, parariam de fazer “bicos”, acumulando três ou quatros subempregos.

No sentido contrário, os grandes empresários rurais de países ricos, principalmente provenientes da Alemanha, não deixariam de aumentar suas propriedades agrárias indo buscar terras húngaras, polonesas e/ou romenas, se lá custassem elas, o que se paga do lado de cá!

Também um europeu rico, que ama arte barroca ou clássica, não iria adquirir belos castelos ou magníficas vivendas em outros países onde esses bens tenham menos valor em euros que no seu país; nem o europeu classe-média não pensaria de passar seus velhos dias em Portugal, desobrigado de pagar impostos por 10 anos, onde o preço do m2 permite trocar um pequeno apartamento de qualquer capital européia rica por uma mansão com piscina no Algarve, ou de dobrar ou de triplicar  a superfície do seu apartamento romano, francês ou alemão por outro, de Lisboa.

Igualmente ele não se disporia a pegar o avião para ir fazer implantes dentários na Bulgária, onde os custos de tratamento são tão mais baratos, caso não houvesse essa união, e deixaria de  passar férias na Itália, na Grécia, Espanha ou em Portugal.

E a livre circulação? Nada de fronteiras, nada de moedas diversas com taxas de câmbio que só atrapalham o turista, o estudante ou o trabalhador.

Mas mais que essas “molezas” para alguns e aquelas durezas para outros, a União Européia é uma maneira civilizada de evitar as guerras tão comumente outrora praticadas por aqui, embora “outrora” tenha sido há apenas 70 anos atrás.

A Grã-Bretanha, também chamada de Reino Unido, é certo, demorou para fazer parte do clube e, quando entrou, sequer  preteriu a sua moeda; também fechou bem as suas fronteiras aos pobres.

De hoje em diante, podemos considerá-la como Reino Desunido, visto que a Escócia e a Irlanda do Norte não desejam sair da União Européia.

Tornar-se-ão esses dois países independentes? Pelo menos seus governantes já se manifestaram para fazer um referendo nesse sentido e fala-se até na reunião das duas Irlandas.

Agora, aqui entre nós: na Inglaterra as portas estão fechadas para os imigrantes do Afeganistão, do Iraque, da Síria e de países africanos que, depois de viagens longas e perigosas, chegaram ao último torrão do continente europeu – a França – antes de atingir a ilha-do-faz-de-conta dos seus sonhos.

Os acordos entre o governo francês e inglês fizeram com que as autoridades do Hexágono desmontassem toda a estrutura de albergues construídos em Calais  para aqueles estrangeiros; os alojamentos eliminados, aqueles homens foram deixados  em vergonhosos e imundos “campos de detenção”, onde diariamente há perdas humanas daqueles que tentam atravessar o Canal da Mancha burlando a lei.

Felizmente, com a Grã-Bretanha partindo do Clube dos 28, deixaremos de nos envergonhar perante o mundo e libertaremos todos os candidatos ao exílio: não serão mais julgados no tribunal, nem presos ou multados, os franceses que convidarem um caronista a subir no automóvel para entrar no ferry que vai cruzar o Canal!

E se a Bolsa de Londres não nos convir mais, Frankfurt já se candidatou para abrir uma.

Chato mesmo vai ser visitar meu filho e minha nora, que por enquanto residem em Londres, na área de St Pancras, porque além de passaporte, vacina e outros inconvenientes  administrativos, não terei mais o direito de lhes levar alguns queijos e o vinho francês que eles tanto apreciam…

 

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wilma

24/06/2016.

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2 respostas para wilma legris; crônica. – “BREXIT”

  1. A ESCRITORA WILMA LEGRIS QUE NADA DEIXA A DEVER A UMA BEM INFORMADA JORNALISTA,prova mais uma vez seu estilo conciso,correto e atualizado, explanando de forma clara o ranço dos europeus, a exploração de mão de obra que impõem aos seus vizinhos com diferenças de salários e tratamento. Parabéns,escritora e mestra,continue se atualizando e deixando aos seus leitores sua contribuição inestimável. Marlene Vieira Perez – MPerez – em 30/06/16 – Rio de Janeiro – Brasil.

  2. Você exagerou; meu marido achou superficial o tratamento que dei e vou melhor o texto assim que estiver mais inspirada. Saudade, wilma.

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