Dia do Escritor – wilma schiesari-legris.

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O Dia do Escritor

wilma schiesari-legris

Todo dia é dia de alguma coisa no Brasil, com comemorações mercantilistas que fazem evaporar o sentido de tudo o que se comemora.

Hoje, por exemplo, 25 de julho, é do “dia do escritor”; no entanto, numa terra em que predominam analfabetos totais ou funcionais, raros são os brasileiros que possuem uma biblioteca e, às vezes quando existe uma, geralmente não passa de um amontoado de best  sellers, principalmente  de auto-ajuda, que a mídia promove aos quatro ventos do modismo.

Pior ainda é ver em casa das gentes ricas a mesma pilha de livros ornamentais que cobre o tampo da mesa da sala de visitas de todas elas, exibidos como objetos com conotação decorativa, pura impressão que a lei Rouanet democratiza a cultura, trazendo por vezes obras com fotos raras ou belas, “amaziadas” aos textos de discutível forma e conteúdo raquítico; com o tempo tornam-se cadáveres de papel manchados de café, whisky ou coca-cola, estigmatizados por nódoas mais importantes que as impressões digitais engorduradas de salgadinhos e outras guloseimas indutriais deixadas por um esporádico leitor curioso…

O tomo virtual do e-book não vai destronar ou virar da mesa o livro de papel ; o papel do livro é o de ser o avant gôut da sobremesa, conotação de riqueza, denotação de cultura.

Antigamente ele reinava sobre a console da entrada, sob a forma da bíblia, sagrada; depois dela, tomaram-lhe o lugar os volumes das instituições financeiras e comerciais distribuídos com a cesta de Natal pelo empreendedor, bibliógrafo da auto-imagem.

Seguiu-se-lhe a moda realista do Terra, clicado com o aparelho analógico de Sebastião Salgado e chegou-se à conclusão de que ele não poderia combinar com o malte escocês envelhecido em tonel de carvalho por mais de vinte e cinco anos  que lhe era colocado em cima; o seu grande formato todo em branco e preto, deu lugar às fotos  da terra ideal “prometida” e vista do céu, pois as diferentes cores das imagens de  Yann Arthus-Bertrand combinam muito mais com o mobiliário empregado ou os tons do quadro principal!

Em termos de bom gosto preconiza-se o opus de grande formato, de preferência com muitas imagens e pouco texto, que infelizmente vem com escrita de qualidade duvidosa ou fraca, tudo muito explícito, sem nunca cair-se no desgosto de exibir um belo exemplar do Kamasutra, considerado impróprio ao público infantil e aos serviçais da casa, que por sinal vão sujá-lo com o guaraná,  detergente, ou sabe-se lá o quê?

Sempre agradam livros sobre artistas do cinema hollywoodiano dos anos 40, mas jamais uma obra sobre a II Guerra Mundial; não serve porque todo mundo logo perde o apetite.

Nem pensar num simples e útil Atlas… Ele vai lembrar da época em que as folhinhas publicitárias dos pastifícios ficavam penduradas na cozinha da casa simples das nossas  bisavós!

E o escritor nessa história toda?

Caso tenha um bom divulgador, o escritor terá o público leitor; mas se o público, tanto em geral como em particular não aprecia ler, de que adiante ser escritor, mesmo com divulgador? E para que um dia para ele?

O dia do escritor é uma quimera que serve para que o poeta ou o contador de histórias brasileiros  sonhem que o seu país eduque suas crianças para que elas cresçam exigindo livros de qualidade, frequentem bibliotecas ou criem as suas.

O grande desejo do escritor é apenas o de escrever e de ser lido, distribuir ideias e construir ideais, pensando e fazendo pensar.

 

Esse post foi publicado em Expressão livre: textos dos leitores, Quem sou eu?. Bookmark o link permanente.

15 respostas para Dia do Escritor – wilma schiesari-legris.

  1. Octaviano Galvão Neto disse:

    Minha querida amiga e escritora Wilma;
    Em primeiro lugar, parabéns para você e para todos os demais caetanistas escritores, não apenas pela qualidade de sua escrita, mas pela coragem de se lançarem nesta difícil e pouco recompensada arte.
    Em segundo lugar, creio que escrever é, antes de tudo, uma catarse. Quem escreve, seja uma simples crônica (adoro crônicas), seja uma obra literária mais densa, simplesmente necessita por para fora o que lhe vai pela alma, caso contrário adoece, ou explode, somatizando a impossibilidade de manifestar-se através da escrita. Falar não serve, é preciso escrever. E muitas vezes, creio eu, furiosamente.
    Enfim, escrever é também e antes de tudo um processo terapêutico. Estaria errado ???
    Um grande abraço a todos vocês, amigos distantes e até desconhecidos.

  2. Concordo com tudo que disse, Wilma, e assino. Infelizmente, ser escritor é uma atividade monologante, pois tudo se passa como se escrevêssemos para nós mesmos ou para as gavetas. Quem se preocupa com a literatura, se há coisas mais rentáveis e imediatas para o consumo? Parabéns pelo texto!

    • Octaviano Galvão Neto disse:

      Olá maria Heloísa, boa tarde.
      Não sei onde você mora. Se for em SP – Capital, recomendo uma excursão ao “Shopping do Campo Limpo”, periferia portanto, e lá se permita uma experiência interessantíssima, pela qual eu, que sou de Moema, passei recentemente:
      – Vá num sábado à tarde e fique durante uma hora no entorno de uma Livraria que existe NO CORREDOR do andar superior. São dosis balcões, um para títlus para jovens e adultos e outro para títulos direcionados às crianças.
      Você vai se emocionar com o movimento que ela faz, com o perfil dos consumidores.
      HÁ UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL. CREIA !
      Dignidade e algum dinheiro no bolso fez mais do que financiar itens de consumo para a população menos favorecida, deu-lhes expectativa de futuro. E eles que não são bobos estão investindo e si mesmos e em seus filhos.
      Sensível para o que não pude deixar de ver, conversei com a Gerente e com as atendentes de ambos os balcões. Fiquei muito feliz com que ouvi.
      É ver para crer!

      • Maria Heloisa Martins Dias disse:

        Boa tarde, Octaviano!! Agradeço muito sua sugestão, vou viver essa experiência e, quem sabe, me torno mais otimista. Ainda bem que ainda existem pessoas como as que você presenciou, confio nelas. Não confio é nos que dirigem as leis do mercado editorial e têm poder para decidir sobre as publicações. Aí é que meu sonho se esvanece… Mas, continuemos a escrever e a crer nos que têm sensibilidade. Obrigada por suas palavras. Um grande abraço. M. Heloísa

      • Maria Heloísa Martins Dias disse:

        Olá, Octaviano, não sei se recebeu minha mensagem anterior. De qualquer modo, agradeço pela sugestão da experiência, que farei com certeza. Valeram suas palavras!! Abraços da M. Heloísa

        • Octaviano Galvão Neto disse:

          Oi Maria Heloisa, bom dia.
          Recebi sim, mas ontem fiz meio expediente, pois estou com conjuntivite e com uma baita gripe.
          Hoje estou um pouco melhor.
          Enfim, não sou escritor (gostaria de dominar a arte), mas gosto de escrever. Faço o que posso para uma audiência privada que, de quando em vez, tem que me ouvir (rsrsrs). E assim entendo a necessidade de escrever que alguns têm.
          Por outro lado, andei pelo mercado de Editoras – tentando motivá-las para a revolução do Livro Digital – e, de fato, é um pessoal MUITO difícil, um mercado onde grana é coisa rara, e prejuízo é QUASE uma certeza. Daí que a vida de quem escreve é difícil.
          Aliás, tenho um primo irmão que, mesmo catedrático da USP e escritor de algum talento (chama-se José Teixeira Coelho), nunca conseguiu viver de literatura. Creio que atualmente ele nem escreve mais.
          Mas persevere, minha amiga, nem que seja para imprimir suas obras “sob demanda” e vendê-las em pequena quantidade.
          Um abraço.

          • Maria Heloisa Martins Dias disse:

            Olá, Octaviano, espero que esteja melhor da gripe. Conheço seu irmão, ele é ótimo. Penso que continua escrevendo, sim. Mas, é como v. constatou, a vida de quem escreve não é nada fácil. Por mim, faço o que me dá prazer, apesar das castrações externas… Perseverei sempre. Abraço Maria Heloísa

          • Octaviano Galvão Neto disse:

            Na verdade, M. Heloisa, o Zé é meu primo. Da parte intelectual da família (que se resume à ele, na verdade, rsrsrs !!!). Hoje ele é o curador do MAC, ou do MASP.
            Literatura não deu, como meio de vida.
            ABRAÇÃO

          • Maria Heloisa Martins Dias disse:

            Ok, desculpe a falha técnica… Seu primo, o Zé, fez bem em mudar de rumo, Octaviano. Abraço da M. Heloísa

  3. vou tentar fazer um texto semanalmente, nem que seja para dois ou três leitores!
    bj.

  4. Arnaldo Itamar R Menon disse:

    Visão geral da realidade. Muito bom.

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